O presente
texto é uma obra de ficção, portanto, qualquer semelhança com fatos, eventos e
pessoas vivas ou mortas seria mera coincidência.
E as manchetes, independentemente se
impressas, radio-televisivas ou em redes sociais estampavam o pavoroso crime: AUTOR
DE BEST SELLER ASSASSINADO POR POSSÍVEL RIVAL. Seguia-se, então, informações
adicionais: o famoso escritor invadira, de arma em punho, a casa do homem que
teria supostamente assediado sua esposa. Para defender-se, o pretenso assediador
reagira causando a morte do escritor. Preso em flagrante, o atirador fora
liberado e inocentado, haja vista a alegada legítima defesa. O curioso foi a
unanimidade com que os detalhes foram divulgados pela mídia. Nelson Rodrigues,
e até mesmo antes dele Aristóteles, já teria dito que “a unanimidade é burra”.
Mas, voltemo-nos aos fatos. O
inquérito fora concluído e a morte do escritor considerada legítima defesa. Contudo,
tendo em vista o grande número de questões não respondidas, certo detetive,
apelidado de Monk, deu início à sua própria investigação, a começar pelo autor
assassinado: ex militar, não adepto de redes sociais, tornara-se escritor por
conta de um único livro, livro este tornado best seller, haja vista a procura
do mesmo, que versava sobre o suposto golpe de 08 de janeiro. O livro abrangia
detalhes totalmente inusitados omitidos pela mídia e desconsiderados em quaisquer
inquéritos. Enfim, dir-se-ia um desmascaramento total, pois que nomeava os
veros responsáveis, inclusive pessoas do primeiro escalão do governo.
Porém, o que mais me deixou perplexo foi o fato de o autor ter conseguido reunir tantos leitores em um país de analfabetos, semi analfabetos, analfabetos funcionais. Afinal, vivenciamos o ápice de uma escravidão ideológica, pois não há espontaneidade alguma em permitir-se escravizar. A escravização ideológica começa com a ignorância. E este foi a mote a incentivar o investigador Monk. Uma primeira notícia que deveria reclamar atenção de todos, mas de certa forma abafada pela imprensa, foi o incêndio na editora responsável pelo divulgação do livro. A destruição fora total; nem sequer uma prensa fora resgatada do fogo. Não sei porque, mas algo me faz lembrar de Watergate. Quanta falta de originalidade!
E Monk foi à casa do falecido, homem
de 43 anos; a esposa concordou em dar informações. Ela disse ter alertado o
marido quanto ao conteúdo do livro. Não obstante a procura e o sucesso da
brochura, não faltavam ofensas advindas dos órgãos de imprensa. Mas o marido
não respondia, ele não tinha Instagram, Facebook, X ou algo parecido, não dava
entrevistas ou respondia a qualquer provocação. Então teve início o assédio à
esposa Ana por um jovem recém saído da Academia Militar. Ana compareceu à
delegacia da mulher e registrou boletim de ocorrência; nada foi feito, nenhuma
medida de restrição ao assediador; ele sequer foi indiciado.
Aquilo, de fato, incomodava muito a
harmonia do casal. Até que certo dia receberam um bilhete escrito pelo suposto
assediante; ele propunha uma conversa esclarecedora. Nosso escritor pensou
bastante antes de resolver-se... Decidiu-se e foi. O horário marcado para o
encontro na casa do importunador foi às 15 horas. O marido fora pontual: 03 da
tarde! Testemunhas passantes disseram que os 2 (dois) tiros foram ouvidos às 3 horas
da tarde. Então não houve tampo para diálogo. A esposa mostrou ao detetive a
arma do marido; ele a deixara em casa. Todavia, uma outra arma fora encontrada
na mão do escritor; esta tinha o número de série raspado. O primeiro disparo teria
sido feito pelo autor. Muito conveniente, não?
Dias depois nosso detetive tentou uma
entrevista com o assediador. Nada! Ele não respondia a telefonemas ou
tentativas de contato. Monk então, no uso de suas fontes informativas, buscou
saber mais sobre o jovem recém formado na academia militar. Nada, a não ser que
tinha parentesco com alguém dentro da esfera governamental. Inconformado, Monk contratou
um hacker. E o que foi descoberto? Simples: uma conta no exterior com milhares de
dólares; transferência do Banco Master.
Obs: as informações acima me foram
passadas diretamente pelo detetive. O título de presente texto “It’s jungle out
there” me foi sugerido pelo próprio investigador e é homônimo da canção que
serve como fundo musical ao seriado Monk. Então consigo perceber a ironia, pois,
em geral, inquéritos no Brasil são conduzidos com uma mesma comicidade
intrínseca.