quinta-feira, 23 de abril de 2026

“It’s jungle out there”

 


 

O presente texto é uma obra de ficção, portanto, qualquer semelhança com fatos, eventos e pessoas vivas ou mortas seria mera coincidência.

 

E as manchetes, independentemente se impressas, radio-televisivas ou em redes sociais estampavam o pavoroso crime: AUTOR DE BEST SELLER ASSASSINADO POR POSSÍVEL RIVAL. Seguia-se, então, informações adicionais: o famoso escritor invadira, de arma em punho, a casa do homem que teria supostamente assediado sua esposa. Para defender-se, o pretenso assediador reagira causando a morte do escritor. Preso em flagrante, o atirador fora liberado e inocentado, haja vista a alegada legítima defesa. O curioso foi a unanimidade com que os detalhes foram divulgados pela mídia. Nelson Rodrigues, e até mesmo antes dele Aristóteles, já teria dito que “a unanimidade é burra”.

Mas, voltemo-nos aos fatos. O inquérito fora concluído e a morte do escritor considerada legítima defesa. Contudo, tendo em vista o grande número de questões não respondidas, certo detetive, apelidado de Monk, deu início à sua própria investigação, a começar pelo autor assassinado: ex militar, não adepto de redes sociais, tornara-se escritor por conta de um único livro, livro este tornado best seller, haja vista a procura do mesmo, que versava sobre o suposto golpe de 08 de janeiro. O livro abrangia detalhes totalmente inusitados omitidos pela mídia e desconsiderados em quaisquer inquéritos. Enfim, dir-se-ia um desmascaramento total, pois que nomeava os veros responsáveis, inclusive pessoas do primeiro escalão do governo.

Porém, o que mais me deixou perplexo foi o fato de o autor ter conseguido reunir tantos leitores em um país de analfabetos, semi analfabetos, analfabetos funcionais. Afinal, vivenciamos o ápice de uma escravidão ideológica, pois não há espontaneidade alguma em permitir-se escravizar. A escravização ideológica começa com a ignorância. E este foi a mote a incentivar o investigador Monk. Uma primeira notícia que deveria reclamar atenção de todos, mas de certa forma abafada pela imprensa, foi o incêndio na editora responsável pelo divulgação do livro. A destruição fora total; nem sequer uma prensa fora resgatada do fogo. Não sei porque, mas algo me faz lembrar de Watergate. Quanta falta de originalidade!

E Monk foi à casa do falecido, homem de 43 anos; a esposa concordou em dar informações. Ela disse ter alertado o marido quanto ao conteúdo do livro. Não obstante a procura e o sucesso da brochura, não faltavam ofensas advindas dos órgãos de imprensa. Mas o marido não respondia, ele não tinha Instagram, Facebook, X ou algo parecido, não dava entrevistas ou respondia a qualquer provocação. Então teve início o assédio à esposa Ana por um jovem recém saído da Academia Militar. Ana compareceu à delegacia da mulher e registrou boletim de ocorrência; nada foi feito, nenhuma medida de restrição ao assediador; ele sequer foi indiciado.

Aquilo, de fato, incomodava muito a harmonia do casal. Até que certo dia receberam um bilhete escrito pelo suposto assediante; ele propunha uma conversa esclarecedora. Nosso escritor pensou bastante antes de resolver-se... Decidiu-se e foi. O horário marcado para o encontro na casa do importunador foi às 15 horas. O marido fora pontual: 03 da tarde! Testemunhas passantes disseram que os 2 (dois) tiros foram ouvidos às 3 horas da tarde. Então não houve tampo para diálogo. A esposa mostrou ao detetive a arma do marido; ele a deixara em casa. Todavia, uma outra arma fora encontrada na mão do escritor; esta tinha o número de série raspado. O primeiro disparo teria sido feito pelo autor. Muito conveniente, não?

Dias depois nosso detetive tentou uma entrevista com o assediador. Nada! Ele não respondia a telefonemas ou tentativas de contato. Monk então, no uso de suas fontes informativas, buscou saber mais sobre o jovem recém formado na academia militar. Nada, a não ser que tinha parentesco com alguém dentro da esfera governamental. Inconformado, Monk contratou um hacker. E o que foi descoberto? Simples: uma conta no exterior com milhares de dólares; transferência do Banco Master.

Obs: as informações acima me foram passadas diretamente pelo detetive. O título de presente texto “It’s jungle out there” me foi sugerido pelo próprio investigador e é homônimo da canção que serve como fundo musical ao seriado Monk. Então consigo perceber a ironia, pois, em geral, inquéritos no Brasil são conduzidos com uma mesma comicidade intrínseca.