De tanto revirar-me no leito, despertei; estava calor, abafado. E ainda era primavera... Aproveito o ensejo para sugerir aos hermeneutas meteorológicos - meteorologia, uma ciência a posteriori - a criação de mais uma estação climática: o primão, isto é, a primavera aliada ao verão. Então, já que desperto, surge o apetite. A propósito, seres humanos, antes da alcunha da racionais, deveriam ser conhecidos por devoracionais. Sim, eles devoram; comem quando ansiosos, quando alegres, quando famosos, quando preocupados, quando tristes...
E aqui recordo-me que meus pais receberam
certo presente de um neighbor (vizinho chique): uma galinha para o almoço. E lá
estava mamãe de facão em punho para sacrificar a ave. Mas, pera aí; onde está a
Sociedade Protetora dos Animais? Fica aqui subentendido, pelo menos para mim, que
galináceos são aves nutricionais e, portanto, não abrangidos pela SPA. Opus-me,
contudo, à imolação. Além do que a galinha tinha as penas pretas; vizinhos de
diferente ideologia poderiam acusar-nos de racismo; e a ave sequer era
afrodescendente. Outra preocupação minha: por que não um galo? Se fosse meu pai
a pegar na faca, seria acusado de tentativa de feminicídio; sacrificar o
galináceo poderiam chamá-lo misógino, afinal a misoginia fundamenta o feminicídio.
Então partimos para a votação (isso
sim é democracia) e a ave foi poupada. Comemos salada e tomamos caldo Maggi. Perdoai-me,
mas o mundo em que vivo não mais existe.