terça-feira, 27 de outubro de 2026

Acaso?

 

Em “Discurso da Servidão Voluntária”, Étienne de La Boétie fala-nos de uma servidão consentida. E nos oferece três possibilidades para que ela possa se concretizar: as pessoas já nasceriam subjugadas; a dominação seria responsável por produzir a covardia; a dominação funciona porque o dominado está diretamente nela envolvido. Bem, o livro é datado do século XVI d.C. Então surgem algumas dúvidas: esta faceta sempre esteve presente na personalidade humana? Será que a educação doméstica, por si só, promoveria a subjugação, a covardia? Quais seriam as características da educação no despontar da humanidade?

Bem, Aristóteles, no século IV a.C., revela-nos de que a base de toda sociedade começa pela família. Um primeiro núcleo toma posse de determinado lugar; familiares se multiplicam e se expandem pelo entorno. Eis o início das comunidades, das cidadelas. E quando um número expressivo de pessoas partilham a convivência, fazem-se necessárias normas, leis. Salvo melhor juízo, parece-me não haver diferença no que tange a qualquer grupo de animais, pois regras de convivência podem ser observadas em todo e qualquer grupo. Será que copiamos comportamentos daqueles que classificamos de irracionais? Somos, de fato, racionais? François de La Rochefoucauld nos alerta de que a razão está a serviço das paixões e do amor próprio; razão é apenas recurso para que as paixões alcancem seus objetivos.

E se não for a razão, o que nos afasta da animalidade? Não, não comemos maçã alguma. A árvore do conhecimento do bem e do mal é uma metáfora para a busca pelo conhecimento. Ora, nessa busca deparamo-nos com o autoconhecimento. O ego então manifesta-se e vem culminar no egoísmo, na vaidade, arrogância, etc. E como se não bastasse passamos a nos valer da linguagem. A linguagem, porém, é apenas um subalterno, posto que, em face da razão estar à serviço da paixão, ela é simplesmente recurso empregado na manipulação.

Seria mero acaso a farta utilização da linguagem nos expedientes politiqueiros? Necessidades, carência e seguidas tribulações podem suscitar medo, covardia, subjugação, mas são os sofismas que promovem o bloqueio cognitivo, e, consequentemente, a total dominação. Sede bem vindos, portanto, à servidão voluntária!

segunda-feira, 19 de outubro de 2026

Dilema do chef

 

De tanto revirar-me no leito, despertei; estava calor, abafado. E ainda era primavera... Aproveito o ensejo para sugerir aos hermeneutas meteorológicos - meteorologia, uma ciência a posteriori - a criação de mais uma estação climática: o primão, isto é, a primavera aliada ao verão. Então, já que desperto, surge o apetite. A propósito, seres humanos, antes da alcunha da racionais, deveriam ser conhecidos por devoracionais. Sim, eles devoram; comem quando ansiosos, quando alegres, quando famosos, quando preocupados, quando tristes...

E aqui recordo-me que meus pais receberam certo presente de um neighbor (vizinho chique): uma galinha para o almoço. E lá estava mamãe de facão em punho para sacrificar a ave. Mas, pera aí; onde está a Sociedade Protetora dos Animais? Fica aqui subentendido, pelo menos para mim, que galináceos são aves nutricionais e, portanto, não abrangidos pela SPA. Opus-me, contudo, à imolação. Além do que a galinha tinha as penas pretas; vizinhos de diferente ideologia poderiam acusar-nos de racismo; e a ave sequer era afrodescendente. Outra preocupação minha: por que não um galo? Se fosse meu pai a pegar na faca, seria acusado de tentativa de feminicídio; sacrificar o galináceo poderiam chamá-lo misógino, afinal a misoginia fundamenta o feminicídio.

Então partimos para a votação (isso sim é democracia) e a ave foi poupada. Comemos salada e tomamos caldo Maggi. Perdoai-me, mas o mundo em que vivo não mais existe.

segunda-feira, 5 de outubro de 2026

O cavalo como metáfora

 

Estrutura imensa, feita de madeira, oca por dentro, de modo a abrigar inimigos; na verdade uma armadilha estratégica.

Fins de uma longa guerra: muito embora o fracasso na invasão da cidade, os gregos resolveram presentear os guardiães da inexpugnável Troia. E o cavalo, de fato, existiu? Não, somente uma lenda; mito literário. Quem sabe uma metáfora? Talvez a narrativa para convencer os irredutíveis troianos... E os troianos aceitaram o “presente”; por isso foram derrotados. Não, não falarei em corrupção ativa ou passiva. Mas que significado teria o cavalo? Simples: uma primeva diplomacia, um arcaico exercício politiqueiro. Se bem que eficiente. E olha que o fato teve lugar entre os séculos XIII a. C. e XII a. C.

É, parece-me que os gregos adoram fazer uso de metáforas, pois o Cavalo de Troia, ou seja, a falácia, a narrativa, o logro, o fabricado engano foi mais uma vez utilizado. Estamos agora no século VI a. C., quando alguém chamado Clístenes resolveu fazer “reformas políticas”. Eis a democracia: o “presente” dado ao povo para que ele tenha a ilusão (alucinação) de que está no controle. Curioso é que, não obstante o advento da democracia, os gregos de então diziam-se aristocratas. Por que? Ora, a desorganização e estagnação são resultados do conflito de ideias. E o pior, assistimos à rodo déspotas falarem em democracia.

Se quiserdes discordar acerca da metáfora, estai à vontade. Contudo, não há como negar o ardil e o encantamento dissimulado no discurso democrático.

quarta-feira, 16 de setembro de 2026

O manifesto do oposto

 

Em nome do devido processo legal, da ampla defesa e contraditório, do “discurso” dos direitos humanos, do respeito à Constituição e ao Estado Democrático de Direito, alguns operadores (não poucos, na verdade) facilitam a vida de traficantes, chefes de facções, assassinos, ladrões, corruptos, estupradores, pedófilos, etc. De início - e isso levou algum tempo - passei a repudiar os Códigos Processuais, pois a meu ver estes tornavam reféns os operadores do Direito. Contudo, data muitíssima vênia, percebi meu erro, pois a origem e o cerne da questão ali não residia. Na verdade, o Direito Processual tem por objetivo precípuo coibir arbitrariedades.

Todavia, parece-me que o arbitrário maquiou-se de discricionário; as decisões mais absurdas revestem-se de legalidade. Então já não mais se trata de um problema legal; já abandonamos a esfera das normas e adentramos a esfera dos valores. Não, não olvidemos os fatos, mas não permitais que interesses particulares venham interpretar fatos. Neste momento faz-se oportuna certa pergunta a toda uma classe advocatícia: quais são os critérios utilizados para se nomear um juiz, um magistrado, um ministro? Certo estou de que tendes a resposta.

quinta-feira, 27 de agosto de 2026

Ditirambo

 

O brevíssimo conto a seguir baseia-se em fatos reais. Se lançado em plataforma de streaming, cinema ou algo similar, sugiro que venha acompanhado do alerta de que o conteúdo seria impróprio para menores. E vós, mulheres ou homens (não necessariamente nessa ordem), por favor, evitai fazer isso em vossa casa!

Once upon a time e o jantar pronto. O homem cansado, haja vista o volume avassalador de trabalho. A esposa serve vinho e o alerta acerca de sua decisão. Sim, a mulher estava indo embora; queria a separação. O marido esfrega os olhos, busca saber o motivo; a esposa alega um convívio insustentável, pois que o marido vivia para o trabalho e ela sentia-se muito só. Ele assentiu com leve menear de cabeça, lamentou, mas disse acatar sua decisão. Na manhã seguinte a mulher se foi. Onde? Lugar desconhecido e distante.

Algum tempo depois o ex-marido viu-se vítima de acidente automobilístico. A mulher, através de amigos em comum, soube e resolveu visitá-lo. A tiracolo trouxe o novo amante. O homem agradece a visita e os recebe de bom grado. Todavia, quando sozinha com o ex-marido no aposento, ela pergunta se ele ficou com raiva. Ele sorri, balança a cabeça negativamente e diz que a compreende, afinal ela fora honesta e também já estavam separados há quase um ano. A mulher, então, reage aos berros. - “É assim? Tu não consegues guardar raiva? Eu estava certa; tu nunca me amaste”. A cena distanciava-se de um solilóquio; e ela prosseguia: - “Como alguém que diz amar não consegue ter raiva, mágoa ou ressentimentos?” E quase a implorar encerrou a conversa: - “Por favor, tenha raiva de mim!

Pois é, o inusitado, por vezes, se nos apresenta travestido de discernimento e elegância. Evitemo-lo, portanto!

segunda-feira, 17 de agosto de 2026

Mau presságio


Imagens, ainda que confusas, chegaram-me por sonho. As circunstâncias em questão teriam lugar em 2048. O processo de emburrecimento da população fora totalmente levado à efeito. Conhecimento banido, salas de leitura fechadas, o aprendizado expulso, marginalizado. O legado de Prometeu, isto é, o Pântano de Informações, mais conhecido por redes sociais, teriam desempenhado papel fundamental, ou seja, imagens criadas e a multiplicidade de informações contraditórias nada fundamentadas tornaram-se alicerces basilares de toda experiência. A mídia leniente em muito colaborara. Consequentemente, gerações e gerações assomadas por bloqueio cognitivo. Com o analfabetismo funcional em destaque, plataformas de internet, além de promoverem total monitoramento e o fim das liberdades individuais, passaram a discorrer sobre tudo: ciências exatas, sociais, economia, medicina, geopolítica, previsões climáticas, arte, etc.  A Inteligência Artificial, portanto, reivindicou e conquistou uma posição soberana. Todavia, o muito resumiu-se a nada; nada entender, nada reclamar, tudo aceitar. Enfim, uma subserviência implantada. E foi com esse espírito que o sistema de governança mundial assumiu o status de feudalismo digital.

                           


quarta-feira, 12 de agosto de 2026

Imprecisão

 


Parece-me que vivemos em época de forjadas ambiguidades, obscuridades e indefinições. Sim, os conceitos consolidam-se de modo equivocado, o que revela, antes de tudo, enorme irresponsabilidade. A imprecisão, salvo melhor juízo, serve de estímulo aos desvalores (ou não valores). Pedis exemplos? Pois bem, vamos a eles: ao conceito de pobreza vinculou-se a honestidade. Por que? Qual o propósito? Os discursos para acalentar simplesmente incitam o pobre à desonestidade. Quando em face de alguém confessadamente honesto, ouve-se a máxima: “Por isso que tu és pobre!” Outrossim, por que a pobreza está vinculada à ignorância? Ora, o fato de ser pobre nunca impediu ninguém de lançar-se ao aprendizado. Mas a falácia, valendo-se de uma espécie de palíndromo, ambiguamente, faz com que a ignorância seja justificada pela pobreza e a pobreza, por sua vez, seja explicada pela ignorância. Não vos enganeis, pois a imprecisão é recurso. O bom humor mascarou-se de vulgaridade; a caridade fantasiou-se de benefícios sociais. Confiais, porventura, em órgãos de opinião pública, em estatísticas e pesquisas governamentais? O conceito de confiabilidade sujeitou-se a discursos e informações oficiais. E o mais grave: a miséria foi romantizada.