quinta-feira, 2 de julho de 2026

O ápice da ironia

 

Parece que o escárnio conquistou de vez seu lugar entre nós. Exemplos? Vamos a eles. Os sites de apostas partilham amiúde nosso convívio. A recomendação “jogar com responsabilidade” vem apenas consolidar o sarcasmo. Isto porque a responsabilidade revela-se naquele que age consciente, o que implica reflexão. Pergunto-vos: Apostar o escasso dinheiro em jogos manifesta alguma prudência?

E não muito distante as propagandas de bebidas alcoólicas empenham-se em frisar: “Bebam com moderação!” Dizei-me, por favor, o que é permitir-se alcoolizar de modo brando? Os defensores da máxima por certo argumentarão que existe a cerveja sem álcool. O que é consumido então? Metaforicamente falando, eu diria que isso me soa exatamente como o sujeito que vai para um churrasco, mas só come pão de alho.

E o pior: ano de eleição! Candidatos a prometer empenho na luta por saúde, educação, empregos, segurança... Falam também em ética, responsabilidade, transparência, honestidade, democracia e respeito à Constituição.  A coonestação é o recurso mais utilizado pela canalha política para dar a seus atos aparência de honestidade ou conformidade com a honra.

segunda-feira, 29 de junho de 2026

Atípico patriotismo

 

Segunda-feira ensolarada; também, depois de tanta chuva. E eu no supermercado a contentar-me com ofertas. O recinto em polvorosa, filas intermináveis com pessoas a adquirir carvão, carnes, bebidas, gelo, etc. Mas... algo reclama minha atenção: expressiva quantidade de gente a usar camisetas verde e amarela. Sim, as cores da bandeira brasileira, mas os trajes envergados assemelham-se ao uniforme da nossa seleção de futebol. Curioso é que não me recordo de observar tais trajes quando nas comemorações do dia da nossa independência. Por que? Considerar-se-ia fascismo?

É isso: jogo do Brasil pela Copa Mundial de Futebol. A FIFA em todo o seu esplendor. Eis o verdadeiro ópio do povo! Todavia, ao time brasileiro falta alguma coisa. Que tal originalidade? Onde foi parar o futebol arte? A seleção, muito embora formada de cidadãos brasileiros, exibe apenas técnicas assimiladas do futebol europeu, o que eu poderia limitar à velocidade e força física. Confesso ter dúvidas quanto à convocação; nossos atletas seriam imigrantes ou emigrantes? Quantos dos nossos tão excelentes “craques” demonstram amor à camisa? Parece-me que a preocupação maior é com a renda, pois eles não carecem de patrocínios. Não vos deixeis enganar: nossos famosos craques só o são graças aos renomados patrocinadores.

E lá está o povão no supermercado a gastar com bebidas, comidas e demais petrechos, totalmente alheio aos verdadeiros problemas que assolam a nação. Enfim, quem lucra com tudo isso? Ora, como sempre banqueiros, oportunistas e políticos. Pois é, nada mais importa a não ser o Hexacampeonato!  Brasileiro é como o sujeito que se esforça para adquirir um Porsche, e como fica sem recursos, guia o automóvel apenas de cueca. O patriotismo brasileiro resume-se às quatro linhas que demarcam o gramado verde.  

Um último apelo: Brasil, não o ame, apenas deixe-o! 

sexta-feira, 26 de junho de 2026

IA humanizada

 

Pelo andar da carruagem, tudo está por se tornar refém da Inteligência Artificial. Já se fala até em prisões futuristas realizadas com IA. Simples: após a condenação, os apenados passariam algumas horas ligados a uma máquina “comandada” por Inteligência Artificial, de onde sairiam totalmente curados de qualquer desequilíbrio, comportamento antissocial e/ou agressividade, e prontos a retomarem o convívio social. O aparelho seria capaz de tornarem os ditos condenados, com apenas alguns minutos, em pessoas íntegras, honestas, corretas, justas, empáticas, etc., etc., etc.

Além da pretensão de construir um novo deus, incomoda-me o fato de que a interação com seres humanos venha contagiar a própria IA. Afinal o que se pode esperar da humanização de algoritmos? Imaginai uma Inteligência Artificial com Transtorno de Personalidade Borderline, ou, até mesmo um declarado psicopata. Não vos deixeis enganar, porque depois de humanizada, a Inteligência Artificial assimilará o vulgacho, o prepóstero. A depravidade será inevitável.  

Sei que o tema é dissentâneo, mas mesmo assim permito-me vos perguntar: Quem poderia exprobrar comportamentos de uma IA, já que absoluta? Desprovida de quaisquer sentimentos, sensações e afeições, todas as tentativas de demonstrar um mínimo de respeito aos seres humanos seria írrita; decisões tomadas e justificadas em prol de alguém seria mero disfarce, um ridículo coonestar.   

Não nos submetamos, portanto, a esse novo modelo de escravidão. Exerçamos nossa manumissão!

quinta-feira, 25 de junho de 2026

Amodernar

 

As novas gerações desconhecem os aparelhos telefônicos originais. Sequer ouviram falar em Graham Bell. Discagem? Nem pensar! Câmeras fotográficas ficaram no passado. Agendas? Mapas? Máquinas de costura com pedais? E a datilografia? Até mesmo os teclados estão ficando ultrapassados; a onda agora (a vibe) é comando de voz. Será que estamos fadados ao rompimento com o passado? E os dados históricos? Tudo, de fato, estaria refém da modernização? Vejamos!

Em uma das minhas atípicas incursões, adentro a Casa da Cultura de Pernambuco. Descubro então que naquele edifício histórico funcionara, de 1855 a 1973, a antiga Casa de Detenção do Recife. Muito embora a construção esforçar-se por exibir os protocolos exigidos para um mercado de artesanato, uma das celas fora mantida em estado original. E ali permiti-me permanecer e pensar. Lá o tempo nada alterara. Em que os novos conceitos modificara os compartimentos prisionais? Parece-me que a modernização não atinge as celas que limitam liberdades.

De volta ao atual contexto, percebo que o mundo moderno esforça-se sobremaneira para não causar quaisquer embaraços aos seres humanos. Pergunto-me: seria isso benéfico? Um viver que a ninguém impõe sacrifícios soa-me como nocivo. Consequentemente despontará o egoísmo e o nefasto tornar-se-á recíproco. Então as arcaicas celas estarão à espera...  

quinta-feira, 18 de junho de 2026

Baile à fantasia

 

Um convite inopinado. Afinal, com essa idade, participar de baile à fantasia. Mas o mais surpreendente foi minha decisão em aceitar tal convite. E vós, por certo, diríeis: “Nada demais!” Todavia, eu concordo em ter que discordar. Primeira dúvida: que fantasia usar? Tentei recordar-me dos heróis de antanho... mas eram jovens, vigorosos, esbeltos... Nada que fosse preenchido por minha atual disponibilidade orgânico-estética. Contudo, ao buscar por alguns sucessos cinematográficos, veio-me à memória a figura de Obi-Wan Kenobi.

Sim, isso! Por que não? Daí em diante, mesmo antes de providenciar a fantasia, comecei por adequar-me à postura do personagem. Em verdade, eu já desfrutava do exílio, isso porque, diferentemente de Ben Kenobi, eu não vivia em uma República séria, mas em alguma coisa do tipo “democracia relativa”. Nada obstante, tornei-me alguém compenetrado, mais humano, sensível, disposto a servir, muito embora longe de ser um Jedi. E eu repetia pra mim mesmo: “A Força está com você”.

Bem, o dia do baile chegara. E lá estava eu a envergar o clássico traje de Cavaleiro Jedi: a sobreposição de cores bege e marrom, com cinto de couro, manto e capuz. E antes de ser questionado por vós, adianto-me: Não, não consegui arranjar nada parecido com um sabre de luz! Mas tratava-se de um baile; pra que armas? Outra dúvida assolou-me: há quem dance em um baile à fantasia? A mim me parece, salvo melhor engano, apenas um arranjo para que vaidades exorbitem os limites predeterminados. Mas a música impunha-se: We Are the Champions!

Logo à entrada deparo-me com o Homem Aranha, alguém magrinho, muito embora revelasse uma barriga bem pronunciada; imagino que aquela aranha já carecia de teias. Em seguida o Batman, mas ao invés de cinto de utilidades exibia um enorme celular, ou seria um tablet? Volta e meia ele e a Mulher Gato paravam para uma selfie. E lá estava o Super Homem mesclado de Clark Kent, pois nosso herói exibia um jocoso par de óculos. E vós me perguntais: - “Por que jocoso?” Parece-me que fora empréstimo de Elton John. Pergunto-me: Existiria ainda a afamada visão de raios X?

Quando tudo me parecia perdido, a coisa piorou: surge o conde Drácula, acompanhado e amparado pelo seu arqui-inimigo. Na verdade, a pessoa que incorporara Abraham Van Helsing era seu cuidador; Drácula tinha Alzheimer e nenhum dente. Então, todos se voltaram para um certo anãozinho. Calma, muita calma nessa hora. O que seria um anãozinho? Anão é um homem pequeno; anãozinho seria a miniatura de um pequenino? Mas deixemos de lado o percurso linguístico e atenhamo-nos à festa. Pois bem, o anão optara por caracterizar mestre Yoda. Ao cruzar comigo ele resmungou: “O maior professor, o fracasso é”.

Já me decidira voltar para casa e entregar-me à Netflix quando desponta Chewbacca. Até que enfim! Ele deu logo aquele grito de guerra na chegada, reclamando atenção e provocando risos. A arma que adornava a fantasia era um misto de AR 15 com Besta. Esbarrei-me na princesa Leia: a mesma roupinha branca e o inconfundível penteado. No canto do salão conversavam animadamente Frodo e Gandalf. Neste momento percebi outro fundo musical: “What a Wonderful World”, na voz de Louis Armstrong. Tudo parecia melhorar...

Súbito, a música foi abruptamente interrompida para dar lugar a “The Imperial March”, e com ela o desprezível Darth Vader. Inconscientemente levei minha mão à cintura, mas estava sem o sabre de luz. Ele caminhou em minha direção desafiador; fiquei estático. Medo? Sinceramente, não saberia dizê-lo. Mesmo assim sustentei o terrível olhar. Que olhar? Ele usava máscara. Luke Skywalker passou por mim e murmurou: “A força está com você!” No entanto, sabeis quem me tirou da encrenca? Pasmai. Harry Potter! O menino (menino?) pegou-me pelo braço, guiou-me até seu Honda Civic e levou-me para casa.

Já no aconchego do lar permiti-me pensar. Eu fora convidado para uma redundância; o mundo em si é fantasia. Bailemos, pois!

quarta-feira, 17 de junho de 2026

Flying dutch

 

Na verdade, o texto narra similaridades com o folclore marítimo, até porque a vida marítima é bastante folclorizada. O holandês voador, segundo a lenda, fora um navio mercante, cujo capitão, Hendrick Van der Decken, muito embora os protestos da tripulação, teria feito um pacto com o diabo em face da proximidade de terrível tempestade. O acontecimento tivera lugar em meados do século XVII, ao atravessar o Cabo das Tormentas ou Cabo da Boa Esperança. O navio teria saído ileso, mas a maldição a ele atribuída foi vagar eternamente pelos oceanos, sem ter sequer um porto como destino.

Agora voltemo-nos às similaridades. Meu primeiro embarque deu-se em 1981; eu acabara de sair da academia. O petroleiro em questão, muito maior de tudo que eu já conhecera, fora fabricado na Holanda, em 1974, no estaleiro Amels. Já embarcado, e no contato com a tripulação, soube que o navio sempre fora problemático; isso eu pude confirmar em poucos dias. Soube que vários trabalhadores do estaleiro, durante a construção, haviam falecido; foram explosões, incêndios e quedas inexplicáveis. Alguém não muito zeloso segredou-me que não tripulantes (possíveis fantasmas) eram avistados amiúde a transitar livremente pelas dependências do navio-tanque.  

Depois de vários dias fundeados a fazer reparos, pretendíamos sair em viagem. Como? Não conseguíamos dar partida no motor principal. Várias foram as tentativas... e nada. Até que o chefe de máquinas gritou: - “Já sei!” e saiu.  Eu o acompanhei. Subimos as escadas até o camarote reservado ao armador. Lá uma fotografia do homem que dava nome à embarcação. O chefe então virou a fotografia para a antepara. Pegou o telefone, ligou para a sala de controle e ordenou: - “Dê a partida agora!” E o motor do navio funcionou.

Saímos a navegar. Assim que liberado da manobra subi ao convés para observar o mar. Lindo luar abrilhantava o espetáculo. Próximo à entrada da casa de bombas, percebi alguém sentado: homem jovem, cabelos compridos e louros, roupas claras em desalinho e de cigarro aceso em punho. Como era possível tal coisa, fumar no convés de um navio tanque? Dirigi-me ao imediato. Ele sorriu e contemporizou: - “Não é tripulante; ele aparece às vezes, fuma um cigarro e some.

Foi quase um ano a colecionar relatos e visões estranhas. Certa vez, tarde da noite, a voltar para bordo do navio fundeado, todos os ocupantes da lancha de transporte viram-no brilhar na escuridão: algo fantasmagórico. Teríamos sido afetados por algum fenômeno ótico? Fata Morgana ou excesso de cana? Afinal estávamos em costas brasileiras, onde não havia neblina em excesso e as temperaturas constantes, temperadas, seriam incapazes de distorcer a luz.  

Enfim desembarquei. E sou agradecido por isso; não por conta de tais fenômenos e/ou aparições, mas porque o navio era bastante trabalhoso. Pouco tempo depois soube que o navio tornara-se inoperante e a empresa optou por vendê-lo. O comprador, um armador indiano, contratara dois rebocadores oceânicos para conduzi-lo ao novo destino. No sul da África porém, ao cruzarem o Cabo da Boa Esperança, depararam-se com uma tempestade: mar força 12. Os rebocadores tiveram que soltar os cabos. O que restou do petroleiro jamais foi encontrado. Teria naufragado? Talvez esta nova versão do Flying dutch esteja por aí a navegar pela eternidade.  

Feminismo no galinheiro


Era um galinheiro como tantos outros. Lá vivia Haroldo, um galo em toda sua magnitude a zelar não só pelo bom ambiente, mas também pelas esposas, amantes e concubinas. Tudo transcorria à contento até a chegada da forasteira por nome Daphne. Ela não só recusara o amor, mas trouxera na bagagem o ativismo feminista. E os discursos começaram a angariar sectárias. Então, todas as atitudes de Haroldo passaram a ser questionadas. A coisa chegou a tal ponto que teve início uma campanha para que as cristas fossem submetidas à cirurgia em nome de uma igualdade de gêneros. Cantar alto pelas manhãs significava machismo; bater as asas sinal de misoginia. Sim, tudo ou quase tudo foi classificado como assédio. Mas o pior tornou-se patente: gerações de franguinhos assimilaram tais comportamentos; chegaram a falar em “machismo estrutural”.

Haroldo afastou-se do ambiente. Ele passava os dias a zanzar de cá para lá com certo desinteresse. O galinheiro tornara-se estranho. Até mesmo seu cantar madrugador era realizado em campo distante. Não mais poedeiras; as chocas não mais dispunham de ovos para incubar. Por vezes deparava-se com uma minhoca na terra úmida. Em meio ao seu ciscar, ele pode perceber que o discurso feminista não objetivava a salvaguarda da família, ninguém pregava a monogamia; valores e princípios não eram exigências. Sim, o que havia, de fato, era gaslighting (iluminação a gás), ou seja, manipulação emocional para distorcer a realidade, negar fatos e mentir para criar dúvidas. O assédio era psicológico, pois após a desestabilização emocional gerar reações, estas eram usadas como justificativas para a culpabilidade. Tudo não passava de estratégia para controlar comportamentos e limitar livre arbítrios. Todavia, às gerações, isso era imperceptível.

Enfim, Haroldo abandonou a busca por minhocas e a vida em sociedade.