domingo, 26 de julho de 2026

Farmar Aura

 

Tudo soa-me como protocolar; sim, a coisa parece obedecer fielmente objetivos há muito traçados. Há como que um controle educacional, pois a doutrinação visa, salvo melhor juízo, eliminar a dúvida, o debate, a reflexão; a juventude, ou melhor, toda uma geração foi tornada dócil. As teorias e conceitos disseminados, muito embora mostrarem-se elevados e nobres, objetivam tão somente o enfraquecimento de valores tradicionais na ordem social. Há uma intensificação na demência, no bloqueio cognitivo. Pode piorar? Sim a IA, parte integrante do protocolo, vem relativizar a verdade! Será que me fiz entender? Vejamos!

Farmar aura. O que é isso? Acumular carisma, respeito e uma boa imagem. Em um primeiro momento percebo o fatídico desconhecimento conceitual. Carisma envolve dons sobrenaturais, quiçá espirituais, personalidade excepcional. Carisma não se adquire, não se compra, não se negocia; o carisma é inato. Respeito igualmente não se compra, não se conquista; o respeito é uma via de mão dupla, pois adquire-se respeito em se respeitando o outro. Farmar vem do inglês farm (fazenda), ou seja, cultivo. Carisma e respeito ter-se-iam tornado produtos do agronegócio?  

Aura, por sua vez, pode ser entendida como boa aceitação ou popularidade. Se bem que no atual contesto refere-se a uma pretendida imponência. Em suma: Vaidade de vaidades! E nada mais. Crianças paparicadas e que desconhecem limites, quando adultos, tornam-se, no mínimo, pessoas que só se interessam em repletar a si mesmos; nada querem saber acerca do trabalho e/ou responsabilidades. E hajam influencers! A educação pautada em “princípios” psicologistas foi responsável pela catástrofe. Haveria solução? Sinceramente... “Psicanalistas são doenças que se apresentam como curas”.

E já que falei em protocolos, impressiona-me sobremaneira a atuação dos intelectualóides de botequim (os que ostentam, indevidamente, títulos de mestres e doutores), dos filosofastros e seus filosofemas e dos jornalixos amarronzados, que a tudo dizem analisar de modo imparcial. Se o Apocalipse tivesse sido escrito atualmente, por certo diriam tratar-se de Teoria da Conspiração, Fake News ou algo similar. Atentai, cambada de ignóbeis chucros: O que se opõe às teorias das conspirações é o conhecimento. Mas o que há por trás de tudo isso? O tempo já está a revelar.

Procurei um bom conselho, encontrei-o e vou segui-lo. “Já não falarei muito convosco, porque se aproxima o príncipe desse mundo e nada tem em mim”. João 14:30.

quinta-feira, 23 de julho de 2026

Desencontro consonantal

 

Deveria ter uns onze anos, talvez mais, quando no colégio (tempos bons aqueles), curso ginasial mais exatamente, me foi apresentado o sistema solar. Não só o sistema solar, mas também nossa galáxia em todas as suas especificidades. Confesso: foi amor à primeira vista! Então, dediquei-me com afinco. Pedi a meu pai uma luneta como presente de aniversário. Passava os fins de semana no observatório atento a astros distantes, a planetas e respectivos satélites. Minha imaginação adolescente chegou a construir uma casinha no Mar da Tranquilidade. Sim, eu estava determinado: seria um astrônomo!

Todavia, a puberdade parece impor reestruturações, inclusive mudanças cognitivas. E veio o primeiro amor, justamente onde os sonhos mostram-se liquefativos. Constelações foram esquecidas. Nem mesmo Órion e seu cinturão (bem diferente daquele de couro que meu pai usava) era lembrado; a Ursa Maior em seu formato de caçarola e até mesmo a Acrux do Cruzeiro do Sul foram olvidadas. Enfim, amores se foram e tudo resumiu-se a desencontros.

Mas o pior desencontro foi o consonantal, pois ao invés de Astrônomo exerço a função de Gastrônomo. Não, por favor, nada de sorrisos nem desmereçais minha ocupação, pois faço um feijão de primeira e um rabada com agrião digna de aplausos; o meu Fettuccine já foi até premiado. Enfim, troquei astros por repastos.

quinta-feira, 2 de julho de 2026

O ápice da ironia

 

Parece que o escárnio conquistou de vez seu lugar entre nós. Exemplos? Vamos a eles. Os sites de apostas partilham amiúde nosso convívio. A recomendação “jogar com responsabilidade” vem apenas consolidar o sarcasmo. Isto porque a responsabilidade revela-se naquele que age consciente, o que implica reflexão. Pergunto-vos: Apostar o escasso dinheiro em jogos manifesta alguma prudência?

E não muito distante as propagandas de bebidas alcoólicas empenham-se em frisar: “Bebam com moderação!” Dizei-me, por favor, o que é permitir-se alcoolizar de modo brando? Os defensores da máxima por certo argumentarão que existe a cerveja sem álcool. O que é consumido então? Metaforicamente falando, eu diria que isso me soa exatamente como o sujeito que vai para um churrasco, mas só come pão de alho.

E o pior: ano de eleição! Candidatos a prometer empenho na luta por saúde, educação, empregos, segurança... Falam também em ética, responsabilidade, transparência, honestidade, democracia e respeito à Constituição.  A coonestação é o recurso mais utilizado pela canalha política para dar a seus atos aparência de honestidade ou conformidade com a honra.

segunda-feira, 29 de junho de 2026

Atípico patriotismo

 

Segunda-feira ensolarada; também, depois de tanta chuva. E eu no supermercado a contentar-me com ofertas. O recinto em polvorosa, filas intermináveis com pessoas a adquirir carvão, carnes, bebidas, gelo, etc. Mas... algo reclama minha atenção: expressiva quantidade de gente a usar camisetas verde e amarela. Sim, as cores da bandeira brasileira, mas os trajes envergados assemelham-se ao uniforme da nossa seleção de futebol. Curioso é que não me recordo de observar tais trajes quando nas comemorações do dia da nossa independência. Por que? Considerar-se-ia fascismo?

É isso: jogo do Brasil pela Copa Mundial de Futebol. A FIFA em todo o seu esplendor. Eis o verdadeiro ópio do povo! Todavia, ao time brasileiro falta alguma coisa. Que tal originalidade? Onde foi parar o futebol arte? A seleção, muito embora formada de cidadãos brasileiros, exibe apenas técnicas assimiladas do futebol europeu, o que eu poderia limitar à velocidade e força física. Confesso ter dúvidas quanto à convocação; nossos atletas seriam imigrantes ou emigrantes? Quantos dos nossos tão excelentes “craques” demonstram amor à camisa? Parece-me que a preocupação maior é com a renda, pois eles não carecem de patrocínios. Não vos deixeis enganar: nossos famosos craques só o são graças aos renomados patrocinadores.

E lá está o povão no supermercado a gastar com bebidas, comidas e demais petrechos, totalmente alheio aos verdadeiros problemas que assolam a nação. Enfim, quem lucra com tudo isso? Ora, como sempre banqueiros, oportunistas e políticos. Pois é, nada mais importa a não ser o Hexacampeonato!  Brasileiro é como o sujeito que se esforça para adquirir um Porsche, e como fica sem recursos, guia o automóvel apenas de cueca. O patriotismo brasileiro resume-se às quatro linhas que demarcam o gramado verde.  

Um último apelo: Brasil, não o ame, apenas deixe-o! 

sexta-feira, 26 de junho de 2026

IA humanizada

 

Pelo andar da carruagem, tudo está por se tornar refém da Inteligência Artificial. Já se fala até em prisões futuristas realizadas com IA. Simples: após a condenação, os apenados passariam algumas horas ligados a uma máquina “comandada” por Inteligência Artificial, de onde sairiam totalmente curados de qualquer desequilíbrio, comportamento antissocial e/ou agressividade, e prontos a retomarem o convívio social. O aparelho seria capaz de tornarem os ditos condenados, com apenas alguns minutos, em pessoas íntegras, honestas, corretas, justas, empáticas, etc., etc., etc.

Além da pretensão de construir um novo deus, incomoda-me o fato de que a interação com seres humanos venha contagiar a própria IA. Afinal o que se pode esperar da humanização de algoritmos? Imaginai uma Inteligência Artificial com Transtorno de Personalidade Borderline, ou, até mesmo um declarado psicopata. Não vos deixeis enganar, porque depois de humanizada, a Inteligência Artificial assimilará o vulgacho, o prepóstero. A depravidade será inevitável.  

Sei que o tema é dissentâneo, mas mesmo assim permito-me vos perguntar: Quem poderia exprobrar comportamentos de uma IA, já que absoluta? Desprovida de quaisquer sentimentos, sensações e afeições, todas as tentativas de demonstrar um mínimo de respeito aos seres humanos seria írrita; decisões tomadas e justificadas em prol de alguém seria mero disfarce, um ridículo coonestar.   

Não nos submetamos, portanto, a esse novo modelo de escravidão. Exerçamos nossa manumissão!

quinta-feira, 25 de junho de 2026

Amodernar

 

As novas gerações desconhecem os aparelhos telefônicos originais. Sequer ouviram falar em Graham Bell. Discagem? Nem pensar! Câmeras fotográficas ficaram no passado. Agendas? Mapas? Máquinas de costura com pedais? E a datilografia? Até mesmo os teclados estão ficando ultrapassados; a onda agora (a vibe) é comando de voz. Será que estamos fadados ao rompimento com o passado? E os dados históricos? Tudo, de fato, estaria refém da modernização? Vejamos!

Em uma das minhas atípicas incursões, adentro a Casa da Cultura de Pernambuco. Descubro então que naquele edifício histórico funcionara, de 1855 a 1973, a antiga Casa de Detenção do Recife. Muito embora a construção esforçar-se por exibir os protocolos exigidos para um mercado de artesanato, uma das celas fora mantida em estado original. E ali permiti-me permanecer e pensar. Lá o tempo nada alterara. Em que os novos conceitos modificara os compartimentos prisionais? Parece-me que a modernização não atinge as celas que limitam liberdades.

De volta ao atual contexto, percebo que o mundo moderno esforça-se sobremaneira para não causar quaisquer embaraços aos seres humanos. Pergunto-me: seria isso benéfico? Um viver que a ninguém impõe sacrifícios soa-me como nocivo. Consequentemente despontará o egoísmo e o nefasto tornar-se-á recíproco. Então as arcaicas celas estarão à espera...  

quinta-feira, 18 de junho de 2026

Baile à fantasia

 

Um convite inopinado. Afinal, com essa idade, participar de baile à fantasia. Mas o mais surpreendente foi minha decisão em aceitar tal convite. E vós, por certo, diríeis: “Nada demais!” Todavia, eu concordo em ter que discordar. Primeira dúvida: que fantasia usar? Tentei recordar-me dos heróis de antanho... mas eram jovens, vigorosos, esbeltos... Nada que fosse preenchido por minha atual disponibilidade orgânico-estética. Contudo, ao buscar por alguns sucessos cinematográficos, veio-me à memória a figura de Obi-Wan Kenobi.

Sim, isso! Por que não? Daí em diante, mesmo antes de providenciar a fantasia, comecei por adequar-me à postura do personagem. Em verdade, eu já desfrutava do exílio, isso porque, diferentemente de Ben Kenobi, eu não vivia em uma República séria, mas em alguma coisa do tipo “democracia relativa”. Nada obstante, tornei-me alguém compenetrado, mais humano, sensível, disposto a servir, muito embora longe de ser um Jedi. E eu repetia pra mim mesmo: “A Força está com você”.

Bem, o dia do baile chegara. E lá estava eu a envergar o clássico traje de Cavaleiro Jedi: a sobreposição de cores bege e marrom, com cinto de couro, manto e capuz. E antes de ser questionado por vós, adianto-me: Não, não consegui arranjar nada parecido com um sabre de luz! Mas tratava-se de um baile; pra que armas? Outra dúvida assolou-me: há quem dance em um baile à fantasia? A mim me parece, salvo melhor engano, apenas um arranjo para que vaidades exorbitem os limites predeterminados. Mas a música impunha-se: We Are the Champions!

Logo à entrada deparo-me com o Homem Aranha, alguém magrinho, muito embora revelasse uma barriga bem pronunciada; imagino que aquela aranha já carecia de teias. Em seguida o Batman, mas ao invés de cinto de utilidades exibia um enorme celular, ou seria um tablet? Volta e meia ele e a Mulher Gato paravam para uma selfie. E lá estava o Super Homem mesclado de Clark Kent, pois nosso herói exibia um jocoso par de óculos. E vós me perguntais: - “Por que jocoso?” Parece-me que fora empréstimo de Elton John. Pergunto-me: Existiria ainda a afamada visão de raios X?

Quando tudo me parecia perdido, a coisa piorou: surge o conde Drácula, acompanhado e amparado pelo seu arqui-inimigo. Na verdade, a pessoa que incorporara Abraham Van Helsing era seu cuidador; Drácula tinha Alzheimer e nenhum dente. Então, todos se voltaram para um certo anãozinho. Calma, muita calma nessa hora. O que seria um anãozinho? Anão é um homem pequeno; anãozinho seria a miniatura de um pequenino? Mas deixemos de lado o percurso linguístico e atenhamo-nos à festa. Pois bem, o anão optara por caracterizar mestre Yoda. Ao cruzar comigo ele resmungou: “O maior professor, o fracasso é”.

Já me decidira voltar para casa e entregar-me à Netflix quando desponta Chewbacca. Até que enfim! Ele deu logo aquele grito de guerra na chegada, reclamando atenção e provocando risos. A arma que adornava a fantasia era um misto de AR 15 com Besta. Esbarrei-me na princesa Leia: a mesma roupinha branca e o inconfundível penteado. No canto do salão conversavam animadamente Frodo e Gandalf. Neste momento percebi outro fundo musical: “What a Wonderful World”, na voz de Louis Armstrong. Tudo parecia melhorar...

Súbito, a música foi abruptamente interrompida para dar lugar a “The Imperial March”, e com ela o desprezível Darth Vader. Inconscientemente levei minha mão à cintura, mas estava sem o sabre de luz. Ele caminhou em minha direção desafiador; fiquei estático. Medo? Sinceramente, não saberia dizê-lo. Mesmo assim sustentei o terrível olhar. Que olhar? Ele usava máscara. Luke Skywalker passou por mim e murmurou: “A força está com você!” No entanto, sabeis quem me tirou da encrenca? Pasmai. Harry Potter! O menino (menino?) pegou-me pelo braço, guiou-me até seu Honda Civic e levou-me para casa.

Já no aconchego do lar permiti-me pensar. Eu fora convidado para uma redundância; o mundo em si é fantasia. Bailemos, pois!