quinta-feira, 18 de junho de 2026

Baile à fantasia

 

Um convite inopinado. Afinal, com essa idade, participar de baile à fantasia. Mas o mais surpreendente foi minha decisão em aceitar tal convite. E vós, por certo, diríeis: “Nada demais!” Todavia, eu concordo em ter que discordar. Primeira dúvida: que fantasia usar? Tentei recordar-me dos heróis de antanho... mas eram jovens, vigorosos, esbeltos... Nada que fosse preenchido por minha atual disponibilidade orgânico-estética. Contudo, ao buscar por alguns sucessos cinematográficos, veio-me à memória a figura de Obi-Wan Kenobi.

Sim, isso! Por que não? Daí em diante, mesmo antes de providenciar a fantasia, comecei por adequar-me à postura do personagem. Em verdade, eu já desfrutava do exílio, isso porque, diferentemente de Ben Kenobi, eu não vivia em uma República séria, mas em alguma coisa do tipo “democracia relativa”. Nada obstante, tornei-me alguém compenetrado, mais humano, sensível, disposto a servir, muito embora longe de ser um Jedi. E eu repetia pra mim mesmo: “A Força está com você”.

Bem, o dia do baile chegara. E lá estava eu a envergar o clássico traje de Cavaleiro Jedi: a sobreposição de cores bege e marrom, com cinto de couro, manto e capuz. E antes de ser questionado por vós, adianto-me: Não, não consegui arranjar nada parecido com um sabre de luz! Mas tratava-se de um baile; pra que armas? Outra dúvida assolou-me: há quem dance em um baile à fantasia? A mim me parece, salvo melhor engano, apenas um arranjo para que vaidades exorbitem os limites predeterminados. Mas a música impunha-se: We Are the Champions!

Logo à entrada deparo-me com o Homem Aranha, alguém magrinho, muito embora revelasse uma barriga bem pronunciada; imagino que aquela aranha já carecia de teias. Em seguida o Batman, mas ao invés de cinto de utilidades exibia um enorme celular, ou seria um tablet? Volta e meia ele e a Mulher Gato paravam para uma selfie. E lá estava o Super Homem mesclado de Clark Kent, pois nosso herói exibia um jocoso par de óculos. E vós me perguntais: - “Por que jocoso?” Parece-me que fora empréstimo de Elton John. Pergunto-me: Existiria ainda a afamada visão de raios X?

Quando tudo me parecia perdido, a coisa piorou: surge o conde Drácula, acompanhado e amparado pelo seu arqui-inimigo. Na verdade, a pessoa que incorporara Abraham Van Helsing era seu cuidador; Drácula tinha Alzheimer e nenhum dente. Então, todos se voltaram para um certo anãozinho. Calma, muita calma nessa hora. O que seria um anãozinho? Anão é um homem pequeno; anãozinho seria a miniatura de um pequenino? Mas deixemos de lado o percurso linguístico e atenhamo-nos à festa. Pois bem, o anão optara por caracterizar mestre Yoda. Ao cruzar comigo ele resmungou: “O maior professor, o fracasso é”.

Já me decidira voltar para casa e entregar-me à Netflix quando desponta Chewbacca. Até que enfim! Ele deu logo aquele grito de guerra na chegada, reclamando atenção e provocando risos. A arma que adornava a fantasia era um misto de AR 15 com Besta. Esbarrei-me na princesa Leia: a mesma roupinha branca e o inconfundível penteado. No canto do salão conversavam animadamente Frodo e Gandalf. Neste momento percebi outro fundo musical: “What a Wonderful World”, na voz de Louis Armstrong. Tudo parecia melhorar...

Súbito, a música foi abruptamente interrompida para dar lugar a “The Imperial March”, e com ela o desprezível Darth Vader. Inconscientemente levei minha mão à cintura, mas estava sem o sabre de luz. Ele caminhou em minha direção desafiador; fiquei estático. Medo? Sinceramente, não saberia dizê-lo. Mesmo assim sustentei o terrível olhar. Que olhar? Ele usava máscara. Luke Skywalker passou por mim e murmurou: “A força está com você!” No entanto, sabeis quem me tirou da encrenca? Pasmai. Harry Potter! O menino (menino?) pegou-me pelo braço, guiou-me até seu Honda Civic e levou-me para casa.

Já no aconchego do lar permiti-me pensar. Eu fora convidado para uma redundância; o mundo em si é fantasia. Bailemos, pois!

quarta-feira, 17 de junho de 2026

Flying dutch

 

Na verdade, o texto narra similaridades com o folclore marítimo, até porque a vida marítima é bastante folclorizada. O holandês voador, segundo a lenda, fora um navio mercante, cujo capitão, Hendrick Van der Decken, muito embora os protestos da tripulação, teria feito um pacto com o diabo em face da proximidade de terrível tempestade. O acontecimento tivera lugar em meados do século XVII, ao atravessar o Cabo das Tormentas ou Cabo da Boa Esperança. O navio teria saído ileso, mas a maldição a ele atribuída foi vagar eternamente pelos oceanos, sem ter sequer um porto como destino.

Agora voltemo-nos às similaridades. Meu primeiro embarque deu-se em 1981; eu acabara de sair da academia. O petroleiro em questão, muito maior de tudo que eu já conhecera, fora fabricado na Holanda, em 1974, no estaleiro Amels. Já embarcado, e no contato com a tripulação, soube que o navio sempre fora problemático; isso eu pude confirmar em poucos dias. Soube que vários trabalhadores do estaleiro, durante a construção, haviam falecido; foram explosões, incêndios e quedas inexplicáveis. Alguém não muito zeloso segredou-me que não tripulantes (possíveis fantasmas) eram avistados amiúde a transitar livremente pelas dependências do navio-tanque.  

Depois de vários dias fundeados a fazer reparos, pretendíamos sair em viagem. Como? Não conseguíamos dar partida no motor principal. Várias foram as tentativas... e nada. Até que o chefe de máquinas gritou: - “Já sei!” e saiu.  Eu o acompanhei. Subimos as escadas até o camarote reservado ao armador. Lá uma fotografia do homem que dava nome à embarcação. O chefe então virou a fotografia para a antepara. Pegou o telefone, ligou para a sala de controle e ordenou: - “Dê a partida agora!” E o motor do navio funcionou.

Saímos a navegar. Assim que liberado da manobra subi ao convés para observar o mar. Lindo luar abrilhantava o espetáculo. Próximo à entrada da casa de bombas, percebi alguém sentado: homem jovem, cabelos compridos e louros, roupas claras em desalinho e de cigarro aceso em punho. Como era possível tal coisa, fumar no convés de um navio tanque? Dirigi-me ao imediato. Ele sorriu e contemporizou: - “Não é tripulante; ele aparece às vezes, fuma um cigarro e some.

Foi quase um ano a colecionar relatos e visões estranhas. Certa vez, tarde da noite, a voltar para bordo do navio fundeado, todos os ocupantes da lancha de transporte viram-no brilhar na escuridão: algo fantasmagórico. Teríamos sido afetados por algum fenômeno ótico? Fata Morgana ou excesso de cana? Afinal estávamos em costas brasileiras, onde não havia neblina em excesso e as temperaturas constantes, temperadas, seriam incapazes de distorcer a luz.  

Enfim desembarquei. E sou agradecido por isso; não por conta de tais fenômenos e/ou aparições, mas porque o navio era bastante trabalhoso. Pouco tempo depois soube que o navio tornara-se inoperante e a empresa optou por vendê-lo. O comprador, um armador indiano, contratara dois rebocadores oceânicos para conduzi-lo ao novo destino. No sul da África porém, ao cruzarem o Cabo da Boa Esperança, depararam-se com uma tempestade: mar força 12. Os rebocadores tiveram que soltar os cabos. O que restou do petroleiro jamais foi encontrado. Teria naufragado? Talvez esta nova versão do Flying dutch esteja por aí a navegar pela eternidade.  

Feminismo no galinheiro


Era um galinheiro como tantos outros. Lá vivia Haroldo, um galo em toda sua magnitude a zelar não só pelo bom ambiente, mas também pelas esposas, amantes e concubinas. Tudo transcorria à contento até a chegada da forasteira por nome Daphne. Ela não só recusara o amor, mas trouxera na bagagem o ativismo feminista. E os discursos começaram a angariar sectárias. Então, todas as atitudes de Haroldo passaram a ser questionadas. A coisa chegou a tal ponto que teve início uma campanha para que as cristas fossem submetidas à cirurgia em nome de uma igualdade de gêneros. Cantar alto pelas manhãs significava machismo; bater as asas sinal de misoginia. Sim, tudo ou quase tudo foi classificado como assédio. Mas o pior tornou-se patente: gerações de franguinhos assimilaram tais comportamentos; chegaram a falar em “machismo estrutural”.

Haroldo afastou-se do ambiente. Ele passava os dias a zanzar de cá para lá com certo desinteresse. O galinheiro tornara-se estranho. Até mesmo seu cantar madrugador era realizado em campo distante. Não mais poedeiras; as chocas não mais dispunham de ovos para incubar. Por vezes deparava-se com uma minhoca na terra úmida. Em meio ao seu ciscar, ele pode perceber que o discurso feminista não objetivava a salvaguarda da família, ninguém pregava a monogamia; valores e princípios não eram exigências. Sim, o que havia, de fato, era gaslighting (iluminação a gás), ou seja, manipulação emocional para distorcer a realidade, negar fatos e mentir para criar dúvidas. O assédio era psicológico, pois após a desestabilização emocional gerar reações, estas eram usadas como justificativas para a culpabilidade. Tudo não passava de estratégia para controlar comportamentos e limitar livre arbítrios. Todavia, às gerações, isso era imperceptível.

Enfim, Haroldo abandonou a busca por minhocas e a vida em sociedade. 

sexta-feira, 12 de junho de 2026

A caverna, o sino, o espantalho


O caos há muito se extinguira. Hominídeos e neandertais coabitavam. Tudo se resumia a instintos; a natureza em todo seu esplendor. Contudo, seres estranhos fizeram-se próximos aos hominídeos. Tem origem o gênero homo. O abandono das árvores, o bipedalismo, polegares opositores... Relações estreitaram-se; doravante, além de instintos, a comunicação. De início as interjeições, depois advérbios, os substantivos, os verbos... Há um aumento na capacidade cerebral. E tem lugar o segundo legado dos forasteiros: o ego. Eis o sapiens!

Nascimentos em demasia; uma primeira família? Os grupos mostravam-se frágeis; mortes também em demasia. A necessidade de alimentos, de proteção; não só o ter, mas o armazenar. Imprescindível a presença de líderes. Surgiram grupos opositores, rivais. E tiveram lugar as lutas, as batalhas; o primeiro objeto cultural: a arma. Estreava, portanto, um rudimento de guerra. O ter, o dominar; enfim o poder. E o sapiens viu que isso era bom. 

O ser primitivo apenas reagia; nada planejava, nada de regras. Alguém propôs um pensar racional, capaz de controlar impulsos primitivos e as fortes emoções. Nada obstante, o ego, que por si só reverencia a paixão, vem receber apoio incondicional da linguagem. Em verdade, a paixão usa a razão como recurso para realizar-se. E tudo através da linguagem. Ora, deuses não se comunicam por palavras; heróis são conhecidos por suas ações. Seres humanos sim, os ditos sapiens, valem-se deste repulsivo expediente. 

Um primeiro espaço: a caverna! Refúgio que permite a convivência entre dominados e dominadores. O despontar de uma neófita “ciência” política. Imagens e frases de efeito para manipular; gostos, hábitos e valores a serem implantados. Inicia-se a sociedade, e com ela os padrões comportamentais, a cultura e as nações. De novo forasteiros a estimular uma inata e ínsita racionalidade. Surge a ciência; mitos são abandonados, explicados. Todavia, trata-se de sapiens. O saber passa a visar apenas interesses, sejam eles pessoais e/ou do poder. Presa da vaidade, a ciência vê-se mitificada.

O alerta é disparado; o repicar de sinos! Mas, qual! Já se faz tarde. Dominados tornaram-se incapacitados. Não só a ciência, mas a história, assim como todo e qualquer conhecimento sofre adulteração. Doenças são criadas; enfermidades sugeridas. Alimentos contaminados, nutrientes tornados ineficazes. A industrialização! Drogas milagrosas cada vez mais fabricadas e sugeridas. O sapiens sapiens conhece a derrocada; um nada a fazer. Exceto guerras. Guerrear é conquistar status geopolítico. Surgem destaques, heróis e, economicamente falando, está tudo bem obrigado!

Reduzidíssimo número de dominadores a tudo comanda. Há como que uma nova morada para estes que se entendem como “deuses”: um Olimpo terreal! São famílias a disseminar o caos, a espargir horror, a buscar pela unificação do governo mundial. No entanto, eles percebem que o nefasto poder prescinde de notoriedade. O anonimato, então, transformou-se em abrigo, em brasão. Ora, os obscuros “senhores” delegam poderes e responsabilidade a paspalhões travestidos de governantes, onde a imensa vaidade associada à ganância oficializa-os como líderes. Qual nada; são só e somente só meros espantalhos!

E o que fazer? Sugiro apenas um obstinado regurgitar. Arrojai de vós a mundanidade! Esvaziai-vos do profano, do superficial. Sede apenas espírito!


domingo, 7 de junho de 2026

Nuances da hipocrisia

 

O termo Hupokrisis, utilizado no teatro grego, significa representar, fingir, interpretar. Em dias atuais, entretanto, a hipocrisia assimilou carga um tanto negativa, ou seja, passou a ter a falsidade e o fingimento como sinônimos. Então surge a obnubilada pergunta: será que discorrer sobre hipocrisia não seria sintoma da própria hipocrisia? Nada obstante, convido-vos a partilharem comigo de tal empreitada.

A nuance surge quase que mesclada ao ego. É quando alguém faz a clássica pergunta: - “Como vais?” Neste caso o perguntador quer receber uma resposta de seu inteiro agrado. Quando esta não o satisfaz ele pensa e até acusa o interrogado de depressivo ou fantasioso ou alienado. Fato é que o inquiridor continua a esbravejar. E como entendê-lo?  Afinal, o que era para ser uma conversa amena tornou-se um tonel de agressividade. Por quê? Ora, estaríamos diante de uma pseudo hipocrisia? Uma falsa falsidade? Não, trata-se de querer ser hipócrita e simplesmente não consegui-lo, ou seja, é ser patético.  

Mas o que suscita tal atitude advém de uma outra nuance de hipocrisia: o psicologismo, isto é, algo mascarado de ciência. Os “doutores” dessa piegas e pândega ciência confundem realismo com pessimismo. Esse é o mesmo psicologismo responsável por vitimizar toda uma geração que só conhece “direitos” e execrar deveres; o mesmo psicologismo que tomou conta das salas de aula, que tirou toda autoridade dos pais no tocante à educação dos filhos, pois que em tudo preveem fonte de traumas.

Bem, em face do exposto, para não contrariar a patetice e ser taxado de depressivo, quando me perguntam: - “Como vais?” Eu respondo:  - “Bem, muito bem; melhor impossível!”    

Caóticos designativos

 

Apesar da Lei de Registros Públicos, Lei Federal nº 6015 de 1973, amparar decisão dos cartórios em recusar nomes que venham expor as pessoas ao ridículo, haja vista a famosa família Xerox, deparo-me, não raramente, com “substantivos próprios nominativos”. E o que seria isso?

Vamos a eles. Três irmãs: Xérox, Fotocópia e Autenticada. E agora, pressuponho, a filha de um agricultor com prenome, nome e sobrenome: Agrícola Beterraba Areia. E quando decidem batizar os gêmeos com nomes próximos (sinônimos ou antônimos)? Aí surgem coisas do tipo: irmãos Arlindo e Arfeio, Hildebrando e Hildeáspero, Otacílio e Otapestana, Napoleão e Napotigre.

Dizem que a criatividade (linguística) é a capacidade de um falante qualquer criar inéditos enunciados. Todavia, creio que essa inventividade deve aliar-se ao bom senso. Estai atentos, pois o ridículo associa-se à comicidade e o inescrupuloso reveste-se de criatividade! 

Antiga construção naval

 

Refiro-me à famosa arca construída por Noé. Mas ele, Noé, não foi o autor do projeto. As medidas: comprimento de 300 côvados, largura 50 côvados e altura de 30 côvados lhe foram reveladas. (Um côvado é algo em torno de 50 cm; distância entre o dedo médio e o cotovelo). O importante é que essas proporções estão bem próximas das construções navais atuais, principalmente no que diz respeito a navios containers e demais cargueiros. Outro detalhe interessante foi a divisão em três andares. Sim, o piso inferior para carregar os animais de grande porte; eis o lastro. O piso médio para transporte de grãos, alimentos em geral e água potável. O piso superior daria lugar a pequenos animais, a Noé e familiares. Abaixo de um alto beiral, a abertura de um côvado em toda a extensão da arca para facilitar a entrada de oxigênio. 

Contudo os céticos, por certo, argumentariam: Mas a arca não possuía leme ou propulsão; sequer uma vela. Evidentemente Deus não foi só o engenheiro responsável pelo projeto; ele foi também o comandante e o piloto daquela primeira embarcação. Muito embora a contrariedade provocada pela precedente pergunta, algo reclama minha atenção: Por que a maioria dos seres humanos insistem em não se deixarem guiar por Deus?