sexta-feira, 12 de dezembro de 2025

Arte


Tornou-se rotineiro atribuir ao termo catarse a origem da arte. A psicanálise vê a catarse como uma liberação de emoções ou de sentimentos reprimidos; o método psicanalítico busca trazer à consciência recônditas recordações. Seria honesto reduzir a arte a uma purificação de sentimentos, tanto do artista quanto do público? Meu pedido de desculpas post mortem à Clarisse Lispector, mas será que o fato de expor simplesmente o inquietante resultaria em purificação, em libertação?

Consultemos, então, os gregos: Segundo Aristóteles, a palavra catarse expressa purificação, o que deve ser vivenciado pelos expectadores (o grifo é meu). Nada obstante, o conceito principal ligado à arte é Mímesis, ou seja, a imitação da realidade, independentemente se reproduzir a natureza ou a complexidade humana. Outros conceitos, no entanto, ligam-se à Mímesis: a Tékhne, a habilidade técnica; Gnósis, o conhecimento intuitivo; Episteme, o conhecimento científico.

Pressupõe-se que um músico domine a Tékhne, ou seja, conhecimento de harmonia, melodia, ritmo, saiba ler uma pauta, conheça as claves, tons, semitons etc. para poder proporcionar a tão aguardada catarse. O dançarino - outra vez a Tékhne - deve exercitar-se, estudar e aprimorar os passos, tornando-os acordes com a melodia a ser apresentada. Pintores e escultores devem dominar não só a Gnósis, mas também a Episteme. O teatro e o cinema estarão afeitos à Mímesis. E a literatura? Esta deve reunir Mímesis, Tékhne, haja vista o domínio do idioma e também Gnósis.

Dizem as más - ou boas - línguas que, muito embora o castigo de Pandora, Zeus tenha nos brindado com a arte, para que esta nos sirva de alento. Permitamo-nos, então, averiguar o que a arte tem por objetivo. Senão vejamos: ao compor uma melodia ou uma canção, o autor espera que a mesma seja conhecida do público; quando divulgada, a visão particularizada do autor torna-se universalizada. Do mesmo modo é com a escultura, com a pintura, com a literatura e com qualquer expressão artística. A arte traz em si a busca pela universalização. Eis o nosso alento!

Com isso identificamos não só o objetivo da arte, mas também a responsabilidade dos que a ela se dedicam. Logo, revela-se impossível assimilar uma expressão artística que tenha origem no vácuo do conhecimento, no vazio de princípios, no caos de uma inverídica realidade.     


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