Tornou-se rotineiro atribuir ao termo
catarse a origem da arte. A psicanálise vê a catarse como uma liberação de
emoções ou de sentimentos reprimidos; o método psicanalítico busca trazer à
consciência recônditas recordações. Seria honesto reduzir a arte a uma
purificação de sentimentos, tanto do artista quanto do público? Meu pedido de
desculpas post mortem à Clarisse Lispector,
mas será que o fato de expor simplesmente o inquietante resultaria em
purificação, em libertação?
Consultemos, então, os gregos: Segundo
Aristóteles, a palavra catarse expressa purificação, o que deve ser vivenciado
pelos expectadores (o grifo é meu). Nada obstante, o conceito
principal ligado à arte é Mímesis, ou
seja, a imitação da realidade, independentemente se reproduzir a natureza ou a
complexidade humana. Outros conceitos, no entanto, ligam-se à Mímesis: a Tékhne, a habilidade técnica; Gnósis,
o conhecimento intuitivo; Episteme, o
conhecimento científico.
Pressupõe-se que um músico domine a Tékhne, ou seja, conhecimento de
harmonia, melodia, ritmo, saiba ler uma pauta, conheça as claves, tons,
semitons etc. para poder proporcionar a tão aguardada catarse. O dançarino -
outra vez a Tékhne - deve exercitar-se,
estudar e aprimorar os passos, tornando-os acordes com a melodia a ser
apresentada. Pintores e escultores devem dominar não só a Gnósis, mas também a Episteme.
O teatro e o cinema estarão afeitos à Mímesis.
E a literatura? Esta deve reunir Mímesis,
Tékhne, haja vista o domínio do
idioma e também Gnósis.
Dizem as más - ou boas - línguas que,
muito embora o castigo de Pandora, Zeus tenha nos brindado com a arte, para que
esta nos sirva de alento. Permitamo-nos, então, averiguar o que a arte tem por
objetivo. Senão vejamos: ao compor uma melodia ou uma canção, o autor espera
que a mesma seja conhecida do público; quando divulgada, a visão
particularizada do autor torna-se universalizada. Do mesmo modo é com a
escultura, com a pintura, com a literatura e com qualquer expressão artística. A
arte traz em si a busca pela universalização. Eis o nosso alento!
Com isso identificamos não só o
objetivo da arte, mas também a responsabilidade dos que a ela se dedicam. Logo,
revela-se impossível assimilar uma expressão artística que tenha origem no
vácuo do conhecimento, no vazio de princípios, no caos de uma inverídica
realidade.
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