segunda-feira, 1 de dezembro de 2025

Carnaval

 

O armário eu abri: nenhuma camisa listrada para eu sair por aí. Não gosto de chá com torradas; talvez de algum parati. Nada de canivete, gravata ou pandeiro. Era carnaval, tudo só carnaval e eu apenas ... brasileiro. Carnaval! Somos herdeiros do paganismo. Por que festa pagã? Ora, conseguimos honrar a Baco e a Saturno de uma só vez; uma mescla de bacanal e saturnal, ou seja, bebida, sexo, folia, inversões nos papeis sociais, onde escravos assumem a identidade de seus senhores. Eis o carnaval!

Todavia, ainda sou um cavalheiro. Meu armário de portas escancaradas torna-me ciente disso: nada com losangos coloridos. Porém, sinto-me escravo, mesmo sem identificar meus senhores. Vejo-me manipulado, portanto, quero-me fantasiado. Como? De que? Não um palhaço, mas algo próximo. Que tal um arlequim? Mas, foram-me negadas as máscaras! Seria possível um bobo austero e elegante? Como? Se eu vivesse em fins do século XIX, por certo, teria posado para Paul Cézanne.

O apito soou; o bloco já vai passar. O quê? Meu Deus, ainda sou do tempo dos blocos! Pior do que cidadão condicionado ou arlequim desenxabido, só mesmo folião ultrapassado.

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