domingo, 30 de novembro de 2025

 

Pode até parecer brincadeira, mas as palavras fã e fama, embora correlatas - a fama agrupa fãs, organiza fãs clube - e tão próximas foneticamente, trilham diferentes caminhos etimológicos. Se me permitido for uma abordagem genética, eu diria não se tratar de gêmeos univitelinos, pois não têm o mesmo DNA.

Etimologicamente, a palavra fã deriva do termo latino fanaticus, que, a princípio, significava um exaltado, um frenético religioso. Com o tempo, contudo, passou a designar um admirador, um entusiasta. Já o sentido original do termo fama resumia o conjunto de opiniões acerca de certo indivíduo; posteriormente assimilou a acepção de notoriedade, celebridade. É pertinente lembrar que a mitologia romana nos fala de uma deusa Fama encarregada de espalhar notícias pelo mundo.

Pois bem, e já que cientes da “distante proximidade” entre os termos (Pra que isso?), posso então vos perguntar: A fama seria algo saudável? Dito de outra forma: É bom ser famoso; ter fãs? Refiro-me àquele fã leal ao fanatismo que o originou... Qual seria a diferença entre o tiete e o stalker? Ora, o stalker é aquele que persegue de modo obsessivo, invade privacidades etc. Salvo melhor juízo, parece-me haver uma linha muito tênue entre seguidores (fãs) e stalkers. E para exemplificar o que digo (atenção, eu falo em exemplo, não em suposição), passo a vos relatar um causo por mim vivenciado.

A padaria estava bem concorrida naquela manhã de domingo; fila pra tudo, até para o desjejum. Mulher de meia idade fez-se próxima de mim com belo sorriso. Ela falou: - “O senhor é o ...” (nada de nomes). Eu neguei de imediato. Ela insistiu; eu continuei negando. A mulher justificou minha recusa como humildade; ela queria fazer uma selfie, chegou a pedir autógrafo. Não! Pior do que a fama, creio eu, é ser confundido com alguém famoso. Mas a coisa não parou por aí: sentou-se à minha mesa, partilhou a refeição e disse-me seu endereço.

Mais do que um vizinho chato e ter um stalker (perseguidor) como vizinho. Doravante, onde quer que eu ia, lá estava a mulher; para onde eu me virasse era fotografado. Chegou ao ponto de trazer consigo uma foto do tal famoso para comparar comigo. Quando minha paciência já alarmava nível crítico, peguei a fã pelo braço e mostrei minha carteira de identidade. Sabeis o que ela respondeu-me? - “Esse é seu nome verdadeiro?” Ainda a sorrir concluiu: - “Prefiro seu nome artístico!” Não teve jeito, solicitei às autoridades uma Medida Protetiva.

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