segunda-feira, 17 de novembro de 2025

Lugar-comum

 

Elegi-me presidente. Uma grande nação? Não, algo bem próximo de uma republiqueta de bananas. Mas estava eleito, graças, creio eu, ao retorno do voto impresso. E a fugir um pouco de corriqueiras promessas, coisas do tipo saúde, educação, segurança, comprometi-me em transformar a Suprema Corte em Corte Constitucional, reduzir impostos e não mais taxar a indústria. Assim o faria quando empossado.

Mas justamente aí residia minha preocupação. Deixar-me-iam assumir? Afinal, eu me propusera em acabar com mordomias e excessos de um judiciário absconso, politiqueiro, tendencioso... Bem, na programação para a posse constava desfile em carro aberto. Poxa, eu sonhara em passear naquele clássico carro inglês que tinha minha idade! Alguns membros da segurança se mostraram receosos quanto a isso.

Nada obstante, lá estava eu, de pé no velho Rolls Royce, a trafegar vagaroso pelo Eixo Monumental. Aplausos? Nem tanto. Algumas vaias, naturalmente, eu não diria bem vindas. Ora, trata-se de uma democracia; pelo menos eu cria sê-la. De repente, algo chamou-me a atenção: homem de terno escuro, óculos, chapéu e a segurar um guarda-chuva aberto. Naquele sol? Eu já vira cena semelhante! Olhei em torno e busquei chamar a atenção dos seguranças. Nada! Sentei-me no banco ao lado da esposa. Recordei-me de outra esposa a tentar reconstruir a cabeça do marido...

Do lado oposto, alguém gritou pelo meu nome e disparou uma ofensa. Os seguranças encararam-no. Era isso: desviar a atenção. Todavia, eu não estava em Dallas, no Texas; estava na capital tupiniquim... Lembrei-me de que o tráfico agora usa até drone para atacar a força policial. Olhei para o alto: nada de drones! Pensei em Lee Harvey Oswald, mas a coisa aqui ficaria por conta do Oswaldo, talvez o Vadinho, quem o sabe?

Ao invés de corresponder às aclamações, eu me preocupava. Por certo, Oswaldo não agiria só. Ou seria Vadinho apenas um boi de piranha? Nada de PCC ou Comando Vermelho. Em se tratando de “Terra Brasilis”, temos um substituto à altura do FBI, isto é, a Polícia Federal, a nova versão da Gestapo, à serviço de alguns ministros do STF. Súbito, o homem de chapéu e guarda-chuva é imobilizado. Sim, mas foram alguns circunstantes, que mais tarde eu soube tratar-se de agricultores.

Fui empossado, é fato, porém fico pensando no possível atentado à minha vida e nos agricultores que tiveram suas plantações decoradas por agroglifos. Politicamente falando, não sei se me demoro no cargo, pois não tenho apoio da Câmara, do Senado, do Judiciário; até mesmo membros do executivo por mim nomeados buscam puxar-me o tapete. Só me resta, portanto, repetir à exaustão, frase atribuída ao maestro Tom Jobim: “O Brasil não é para amadores!”  

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