Tratava-se apenas de um fim de semana no interior. O clima? Dias de Sol agradáveis com noites amenas. Ah, o silêncio! O maravilhoso do silêncio é que ele pode ser ouvido. Sim, eram manhãs orvalhadas, gorjeios, volatas. À noite, em meio ao ruidoso coaxar, um luar convidativo, nada científico, apenas romantizado. A enorme Lua cheia arrebatou-me a atenção. O entusiasmo tornou-me indiferente ao entorno. Eu só tinha olhos para aquele céu estrelado e maravilhoso.
De repente, inexplicado foco de luz
pairou sobre mim; luz forte, brilhante, se bem que nada agressiva ou invasiva.
Esse foco de luz fez-me levitar; pouco a pouco fui afastando-me do solo. O luzeiro
conduzia-me. Não, eu não tinha vontade alguma de lutar, de evitar aquela
condução. Na verdade, senti-me confortável ao ser transportado. Questionei-me:
que era aquilo? De que se tratava? E veio o desmaio.
Difícil mensurar o tempo, mas
despertei em algo que me pareceu uma maca hospitalar; tinha o corpo envolvido
numa roupagem, creio que metalizada, e a usar uma máscara de oxigênio. Alguém
aproximou-se. Encaramo-nos demoradamente. Alto, corpo esguio e de pele
alaranjada. Não tive mais dúvidas: fora abduzido! Sorriu-me; um sorriso
simpático, empático. A pequena boca não se movia para falar, mas eu ouvia seus
pensamentos, e através deles nos comunicávamos. Minha voz, então, fez-se nada
enfática, sem relevo ou entonação. Agradeceu pela minha colaboração e avisou
que eu dormira durante toda a “viagem”. Respondi que não houve colaboração e
sim coação, pois sequer fora convidado. Também perguntei acerca da dita
“viagem”. Explicou-me ele que estávamos
em Encélado, uma das luas de Júpiter.
Fiquei pasmo, uma das luas de
Júpiter!? Nossos cientistas, principalmente da NASA, gastam tanto tempo e
dinheiro para realizarem viagens em torno de nosso próprio planeta e eu a fazer
“turismo” em Encélado. Outras circunstâncias, por certo, ter-me-iam feito
sorrir. Perguntei o que queriam de mim. A resposta foi que, enquanto terráqueo,
eu era objeto de pesquisa. Como assim? Pesquisavam eles outras formas de vida?
Não, respondeu-me o estranho. Minha forçada colaboração foi no sentido de ter
meu cérebro e corpo averiguados e examinados pelos extraterrestres. A roupa e a
máscara de oxigênio estavam justificadas, afinal, gravidade e pressão
atmosférica diferentes. Perguntei se o exame já terminara. O pensar do
extraterrestre (nesse caso eu seria o alienígena) declarou que faltava apenas uma
amostra do meu DNA.
Ergui-me da maca irritado. Por que?
Para que meu DNA? De modo silente pediu-me calma e explicou: estavam em processo
de criar novos seres com as mesmas características humanas. Seriam, no entanto,
seres bem mais evoluídos mental e moralmente. Meu DNA seria avaliado.
Acalmei-me; senti-me até ditoso com a possibilidade de colaborar com uma
descendência mais apurada. Indaguei pelo tempo que tais exames vinham se
realizando. A resposta deixou-me boquiaberto. Os pensamentos do alienígena
informaram-me que, quando da primeira visita, nós, seres humanos (ainda não
homo sapiens) dormíamos em árvores; sequer empregávamos o bipedalismo. Tempos
depois passamos a usar cavernas como esconderijos. Outras “visitas” foram
feitas no sentido de depurar uma raça futuramente humana. Foi-nos apresentado
um primeiro idioma e um esboço de ciência; para complementar a base educacional
fomos introduzidos nas artes.
Mas nossos “propedeutas” haviam
cometido grave erro: não estávamos preparados para o conhecimento e/ou
autoconhecimento. A descoberta do ego foi desastrosa. E para completar experienciamos
a liberdade. Podíamos fazer escolhas, e as escolhas, em geral, foram as piores.
Desponta então a vaidade, a ganância, o egoísmo, a usura. Tiveram início as
perseguições, a escravidão... o conhecimento passou a ser usado como arma. As
guerras nos afastaram. O convívio e as relações mostraram-se insustentáveis. Tornamo-nos
inimigos de nós mesmos; uma espécie que mata pelo prazer de matar. O caos
estava próximo: luta armada, confronto nuclear. A iminente destruição do
planeta colocará em risco todo o sistema solar...
Bem, os ditos exames foram realizados
e pude, enfim, retonar. Estive igualmente desacordado em toda a viagem de volta.
Outro facho de luz devolveu-me ao local; poucos segundos teriam se passado
durante minha anômala odisseia. Já não mais admirei o luar; dúvidas em mim se
instalaram: Haveria como reverter tal quadro? Ou seja, haverá solução favorável
ao desenvolvimento humano?
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