domingo, 23 de novembro de 2025

Encélado

 

Tratava-se apenas de um fim de semana no interior. O clima? Dias de Sol agradáveis com noites amenas. Ah, o silêncio! O maravilhoso do silêncio é que ele pode ser ouvido. Sim, eram manhãs orvalhadas, gorjeios, volatas. À noite, em meio ao ruidoso coaxar, um luar convidativo, nada científico, apenas romantizado. A enorme Lua cheia arrebatou-me a atenção. O entusiasmo tornou-me indiferente ao entorno. Eu só tinha olhos para aquele céu estrelado e maravilhoso.

De repente, inexplicado foco de luz pairou sobre mim; luz forte, brilhante, se bem que nada agressiva ou invasiva. Esse foco de luz fez-me levitar; pouco a pouco fui afastando-me do solo. O luzeiro conduzia-me. Não, eu não tinha vontade alguma de lutar, de evitar aquela condução. Na verdade, senti-me confortável ao ser transportado. Questionei-me: que era aquilo? De que se tratava? E veio o desmaio.  

Difícil mensurar o tempo, mas despertei em algo que me pareceu uma maca hospitalar; tinha o corpo envolvido numa roupagem, creio que metalizada, e a usar uma máscara de oxigênio. Alguém aproximou-se. Encaramo-nos demoradamente. Alto, corpo esguio e de pele alaranjada. Não tive mais dúvidas: fora abduzido! Sorriu-me; um sorriso simpático, empático. A pequena boca não se movia para falar, mas eu ouvia seus pensamentos, e através deles nos comunicávamos. Minha voz, então, fez-se nada enfática, sem relevo ou entonação. Agradeceu pela minha colaboração e avisou que eu dormira durante toda a “viagem”. Respondi que não houve colaboração e sim coação, pois sequer fora convidado. Também perguntei acerca da dita “viagem”.  Explicou-me ele que estávamos em Encélado, uma das luas de Júpiter.

Fiquei pasmo, uma das luas de Júpiter!? Nossos cientistas, principalmente da NASA, gastam tanto tempo e dinheiro para realizarem viagens em torno de nosso próprio planeta e eu a fazer “turismo” em Encélado. Outras circunstâncias, por certo, ter-me-iam feito sorrir. Perguntei o que queriam de mim. A resposta foi que, enquanto terráqueo, eu era objeto de pesquisa. Como assim? Pesquisavam eles outras formas de vida? Não, respondeu-me o estranho. Minha forçada colaboração foi no sentido de ter meu cérebro e corpo averiguados e examinados pelos extraterrestres. A roupa e a máscara de oxigênio estavam justificadas, afinal, gravidade e pressão atmosférica diferentes. Perguntei se o exame já terminara. O pensar do extraterrestre (nesse caso eu seria o alienígena) declarou que faltava apenas uma amostra do meu DNA.  

Ergui-me da maca irritado. Por que? Para que meu DNA? De modo silente pediu-me calma e explicou: estavam em processo de criar novos seres com as mesmas características humanas. Seriam, no entanto, seres bem mais evoluídos mental e moralmente. Meu DNA seria avaliado. Acalmei-me; senti-me até ditoso com a possibilidade de colaborar com uma descendência mais apurada. Indaguei pelo tempo que tais exames vinham se realizando. A resposta deixou-me boquiaberto. Os pensamentos do alienígena informaram-me que, quando da primeira visita, nós, seres humanos (ainda não homo sapiens) dormíamos em árvores; sequer empregávamos o bipedalismo. Tempos depois passamos a usar cavernas como esconderijos. Outras “visitas” foram feitas no sentido de depurar uma raça futuramente humana. Foi-nos apresentado um primeiro idioma e um esboço de ciência; para complementar a base educacional fomos introduzidos nas artes.

Mas nossos “propedeutas” haviam cometido grave erro: não estávamos preparados para o conhecimento e/ou autoconhecimento. A descoberta do ego foi desastrosa. E para completar experienciamos a liberdade. Podíamos fazer escolhas, e as escolhas, em geral, foram as piores. Desponta então a vaidade, a ganância, o egoísmo, a usura. Tiveram início as perseguições, a escravidão... o conhecimento passou a ser usado como arma. As guerras nos afastaram. O convívio e as relações mostraram-se insustentáveis. Tornamo-nos inimigos de nós mesmos; uma espécie que mata pelo prazer de matar. O caos estava próximo: luta armada, confronto nuclear. A iminente destruição do planeta colocará em risco todo o sistema solar...  

Bem, os ditos exames foram realizados e pude, enfim, retonar. Estive igualmente desacordado em toda a viagem de volta. Outro facho de luz devolveu-me ao local; poucos segundos teriam se passado durante minha anômala odisseia. Já não mais admirei o luar; dúvidas em mim se instalaram: Haveria como reverter tal quadro? Ou seja, haverá solução favorável ao desenvolvimento humano?

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