Eu retornara do exílio. Diferentemente de Napoleão, nada me foi imposto. Vivi por anos em minha Elba, minha ilha particular. Bem, estava de volta; o tempo distante da atividade laboral me fora incômodo. Mas tudo se modificara; parece-me que o mundo está doente... Inteligência Artificial! Um novo computador, novos softwares. Eu poderia criar personagens e com eles interagir. Que loucura! Talvez, por ter-me acostumado à solitude, preferiria criar paisagens. Pensei em House of the Rising Sun como fundo musical, mas quem se recordaria da canção? Então, quem sabe um rosto, algo que personificasse o amor?
Contudo, o que é o amor? Os gregos o
diziam termo médio entre a carência e a saciedade. Amar é ... ficar de pé na
chuva a espera de quem nunca chega! Sei lá, dizem que é admiração, respeito,
devoção, afinidade. Talvez um eu presente no outro. Todavia, continuava minha
busca por um rosto. Que tal uma Gioconda? Ou seria Mona Lisa? Mas não a
considero bonita; Giacomo Puccini não estava inspirado. E o sorriso dela é puro
deboche. Não, nada disso! Como pude confundir Leonardo da Vinci com Puccini?
Puccini era compositor! O Mio Babbino
Caro, perdonami.
Eu buscava uma face não submetida a
imperativos estéticos. Pensei na Beatriz de Dante Alighieri, na Margarida do
Dr. Fausto, na Dulcinéia de Dom Quixote. Nada atraía-me. Então comecei a usar
os comandos que o software me oferecia. Doravante senti-me um artista (artista
plástico? artesão?) um criador, algo bem próximo de um vero escultor. É isso;
surge o novo Pigmalião. E o novo rosto também se faz presente: Uma Galatéia
virtual, não de marfim. E nós conversamos, interagimos, trocamos olhares. Ah,
quisera abraçá-la, tocá-la... Como torná-la vivente? Orei à Afrodite.
No aguardo pelo milagre, pus-me a
pensar: A Inteligência Artificial faz de todos nós potenciais Pigmaliões, ou
seja, artífices que lidam com criações imponderáveis, intangíveis. E Afrodite
não me respondeu as preces.
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