O convite partira de um dos meus raríssimos amigos. Encontrar-nos-íamos em certa pizzaria. E lá estava eu, pontualmente. Não uma pontualidade britânica, mas algo um pouco mais aquém, tendo-se em conta não só a fome, mas as saudades do gorgonzola. O amigo não deu as caras, mesmo transcorrido um quarto de hora; eu a sonhar com o quatro-queijos ou com a marguerita. Pensei, inclusive, ter aspirado fragrância de manjericão advinda do pescoço da cliente que me ladeava.
Mesa próxima, dois metros talvez, um
cliente a ser classificado como atípico. Ora a atipicidade vincula-se ao
incaracterístico, não ao preconceito. Dizei-me: famosa pizzaria recebe “cliente”
que se propõe ensinar ao pizzaiolo o preparo do repasto. Como dito anteriormente,
nada de preconceito, apenas um atípico vegano. De início o chef mostrou-se
paciente, porém a coisa foi tomando vulto. Eu, ainda apatetado com o ineditismo
da cena, optei por pedir minha quatro-queijos.
Vozes a subir de tom (ou seria
volume?). O italiano a gesticular; o vegano a querer demonstrar sabedoria e
sociabilidade. As atenções voltadas àquela mesa. Sorrisos de mofa,
improvisações sobre a temática, cabeças a balançar em desaprovação. Bem, em
meio ao embate gastronômico, surge meu pedido. A bebericar os primeiros goles
de vinho pus-me a pensar: Por definição, queijo é um laticínio; laticínio é
produto comestível derivado do leite. A pizza, por sua vez, seria uma massa na
qual se adiciona queijo, tomate e outros ingredientes, cozida no forno. Queijo vegano?
Ora, o inexistente não pode ser nutritivo.
Muito embora estar ciente de que
veganismo é uma ideologia, não uma filosofia, proponho-me, então, narrar certa
historinha acerca de uma filosofia capenga: era uma vez um sujeito que adorava
fumar. Mas cigarros industrializados são prejudiciais à saúde, haja vista a
quantidade de substâncias cancerígenas. Então o carinha resolveu fazer cigarros
de erva-mate. Cigarros veganos? E onde está a filosofia? Simples! Querer muito
alguma coisa! Contudo tal coisa é declarada prejudicial. Então, investido de
total impostura, ele cria objeto dessemelhante, mas com mesmo designativo, de
modo a preencher lacunas, desejos, carências individuais.
E a discussão continuava cada vez mais
acirrada entre cliente e pizzaiolo. Até que o italiano gesticulando (uma
redundância), com o rosto avermelhado (não era molho de tomate) deu um murro na
mesa e gritou: “Mangia che te fa bene!”
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