terça-feira, 18 de novembro de 2025

O vegano na pizzaria

 

O convite partira de um dos meus raríssimos amigos. Encontrar-nos-íamos em certa pizzaria. E lá estava eu, pontualmente. Não uma pontualidade britânica, mas algo um pouco mais aquém, tendo-se em conta não só a fome, mas as saudades do gorgonzola. O amigo não deu as caras, mesmo transcorrido um quarto de hora; eu a sonhar com o quatro-queijos ou com a marguerita. Pensei, inclusive, ter aspirado fragrância de manjericão advinda do pescoço da cliente que me ladeava.

Mesa próxima, dois metros talvez, um cliente a ser classificado como atípico. Ora a atipicidade vincula-se ao incaracterístico, não ao preconceito. Dizei-me: famosa pizzaria recebe “cliente” que se propõe ensinar ao pizzaiolo o preparo do repasto. Como dito anteriormente, nada de preconceito, apenas um atípico vegano. De início o chef mostrou-se paciente, porém a coisa foi tomando vulto. Eu, ainda apatetado com o ineditismo da cena, optei por pedir minha quatro-queijos.

Vozes a subir de tom (ou seria volume?). O italiano a gesticular; o vegano a querer demonstrar sabedoria e sociabilidade. As atenções voltadas àquela mesa. Sorrisos de mofa, improvisações sobre a temática, cabeças a balançar em desaprovação. Bem, em meio ao embate gastronômico, surge meu pedido. A bebericar os primeiros goles de vinho pus-me a pensar: Por definição, queijo é um laticínio; laticínio é produto comestível derivado do leite. A pizza, por sua vez, seria uma massa na qual se adiciona queijo, tomate e outros ingredientes, cozida no forno. Queijo vegano? Ora, o inexistente não pode ser nutritivo.

Muito embora estar ciente de que veganismo é uma ideologia, não uma filosofia, proponho-me, então, narrar certa historinha acerca de uma filosofia capenga: era uma vez um sujeito que adorava fumar. Mas cigarros industrializados são prejudiciais à saúde, haja vista a quantidade de substâncias cancerígenas. Então o carinha resolveu fazer cigarros de erva-mate. Cigarros veganos? E onde está a filosofia? Simples! Querer muito alguma coisa! Contudo tal coisa é declarada prejudicial. Então, investido de total impostura, ele cria objeto dessemelhante, mas com mesmo designativo, de modo a preencher lacunas, desejos, carências individuais.

E a discussão continuava cada vez mais acirrada entre cliente e pizzaiolo. Até que o italiano gesticulando (uma redundância), com o rosto avermelhado (não era molho de tomate) deu um murro na mesa e gritou: “Mangia che te fa bene!”   

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