Por companheira a solitude; por ela me deixo conduzir. E não posso reclamar da não convivência, afinal lanço-me por caminhos nunca dantes percorridos. Eu ouço o silêncio (e ele não atordoa), eu vejo o que impende, transcendo a insciência, transito por harmonias, melodias, descortino metáforas... Não mais ideias absconsas; do impensado tornei-me artífice.
Foi com essa disposição que conheci
Sergei. Não pessoalmente, mas através da sua arte, a arte de alguém só, mas não
carente de sentimentos, de alento, de conforto... E teve início o primeiro
movimento: acordes a manifestar certa angústia, e o entorno, mesmo que belo, a
demonstrar indiferença. Até que o adjacente - a amizade, o respeito, o carinho,
a admiração - interfere; a angústia então arrefece, transmuta-se, altera-se. Nas
frases sustenidas ainda se pressente a tristeza, se bem que em sua busca por
auto superação.
O adágio nada mais é do que o meditar,
a proposta de uma melhora. A harmonia descarta o implorar, nem mesmo cogita auto
comiseração. A beleza está em demonstrar superação; o esforço em se reinventar.
Novas ideias a se formar, um imprevisto que agora toma vulto; a buscada paz
interior. A certeza do estar sozinho permeia todo o segundo movimento. A
solidão, no entanto, mostrar-se-á como força, como sensatez.
E tem lugar o terceiro movimento, o
orgânico da melodia em sua inteireza. Propostas são aludidas; força e
delicadeza mesclam-se. Doravante nada mais será deprimente; terá lugar o amor. Habilidades,
originalidade e criatividade revelar-se-ão em todo o viver. Superadas estão as
críticas, as dificuldades. A alegria, a fé e a certeza afloram com força
descomunal. Eis o Concerto nº 2, opus 18, em C menor, para piano e orquestra,
de Sergei Rachmaninoff.
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