Eu, e essa minha mania (não sei se salutar; espero que sim) de recordar. Recordemos, pois. Volto-me ao final dos anos cinquentas. Uma rua de subúrbio em desalinho com as demais. A menos de 100 metros, a primeira esquina em ferro de engomar. Nesta, o bar com pomposa mesa de sinuca (snooker). Vizinha ao bar, a então famosa loja: cama, mesa, banho e brinquedos. Lá, eu e meu irmão fomos fotografados em companhia de um conhecido casal de humoristas da época. A casa ao lado da loja abrigava numerosa família chefiada pelo motorneiro de um saudoso bonde.
Defronte, do outro lado da rua, o
prédio de 3 andares que me servia de morada; construção antiga a exibir paredes
de grafiato. No térreo, a loja do Sr. Oscar, uma autoescola. Era comum
observar-se próximo ao calçamento exemplares automotivos do tipo Packard 1940,
Oldsmobile 1942, Chevrolet Bel Air 1952, o clássico Citroën 1948 ou até mesmo
um Nash 1949. À esquerda, indo em direção à praia, a Igreja Pentecostal; à
direita, algumas outras casas e lojas. Sim, havia uma sapataria, um açougue e o
Sr. Deusdete, o bugigangueiro, ou seja, a lojinha que vendia banalidades. Anos
mais tarde, a filha dele, professora Marília, possibilitou-me o ingresso no
curso ginasiano.
Ainda na mesma calçada, a loja referência
da infância: o herbanário. Sim, dali saiam os remédios, as poções, as ervas, as
drogas homeopatas manipuladas: hamamelis, arnica, etc. E pasmai, logo a seguir,
numa segunda esquina em ferro de engomar, a farmácia alopática. Já na outra
rua, quase em frente à farmácia, o cinema, no qual assisti alguns filmes de sucesso
estrelado por Jerry Lewis. Na junção das 3 ruas, das 3 esquinas, o amplo espaço,
e sobre a vasta e oposta calçada uma enorme pedra.
E tudo a desembocar na avenida
principal. E lá ficava a padaria; o pão quentinho, o leite na leiteira, o café
torrado e moído na hora. Ao atravessar a rua, o muro que corre paralelo à via
férrea. Ainda ouço o apito do trem de então; algo como um lamento. Ao trem
moderno falta um quê de romantismo, de sensibilidade, a ternura intransmissível.
Infelizmente, a vivência não é hereditária... Aquilo se foi, desfez-se, o tempo
já não é presente. O que nos resta, então? Apenas o saudável passado!
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