quarta-feira, 17 de dezembro de 2025

Coincidências


Em 1933, 27 de fevereiro mais exatamente, logo após Hitler ter conquistado o poder, um “misterioso” incêndio no Reichstag, o parlamento alemão, serviu como ponto de partida para a facção nazista acabar com a democracia na Alemanha. Hitler também esteve preso. Depois de liberto, quando no poder, nomeou aquele que fora seu advogado para o cargo de ministro. No ministério, o ex advogado começou a perseguir todos os inimigos políticos de Adolf Hitler.

Em 2023, 08 de janeiro, logo após Lula ter sido descondenado e voltado ao poder, um inexplicável golpe de estado (sem armas, sem apoio das Forças Armadas), serviu como ponto de partida para o PT e o judiciário rasgarem a Constituição e desmantelarem a democracia. Vários foram os ministros nomeados pelo ex-presidiário, dentre eles seu advogado. E o que eles fazem? Perseguem politicamente todos os adversários políticos do atual mandatário.

Critérios, métodos, expedientes são sempre os mesmos. Uma das facetas mais cômicas (ou ridículas?) da política é a falta de criatividade.


sexta-feira, 12 de dezembro de 2025

Arte


Tornou-se rotineiro atribuir ao termo catarse a origem da arte. A psicanálise vê a catarse como uma liberação de emoções ou de sentimentos reprimidos; o método psicanalítico busca trazer à consciência recônditas recordações. Seria honesto reduzir a arte a uma purificação de sentimentos, tanto do artista quanto do público? Meu pedido de desculpas post mortem à Clarisse Lispector, mas será que o fato de expor simplesmente o inquietante resultaria em purificação, em libertação?

Consultemos, então, os gregos: Segundo Aristóteles, a palavra catarse expressa purificação, o que deve ser vivenciado pelos expectadores (o grifo é meu). Nada obstante, o conceito principal ligado à arte é Mímesis, ou seja, a imitação da realidade, independentemente se reproduzir a natureza ou a complexidade humana. Outros conceitos, no entanto, ligam-se à Mímesis: a Tékhne, a habilidade técnica; Gnósis, o conhecimento intuitivo; Episteme, o conhecimento científico.

Pressupõe-se que um músico domine a Tékhne, ou seja, conhecimento de harmonia, melodia, ritmo, saiba ler uma pauta, conheça as claves, tons, semitons etc. para poder proporcionar a tão aguardada catarse. O dançarino - outra vez a Tékhne - deve exercitar-se, estudar e aprimorar os passos, tornando-os acordes com a melodia a ser apresentada. Pintores e escultores devem dominar não só a Gnósis, mas também a Episteme. O teatro e o cinema estarão afeitos à Mímesis. E a literatura? Esta deve reunir Mímesis, Tékhne, haja vista o domínio do idioma e também Gnósis.

Dizem as más - ou boas - línguas que, muito embora o castigo de Pandora, Zeus tenha nos brindado com a arte, para que esta nos sirva de alento. Permitamo-nos, então, averiguar o que a arte tem por objetivo. Senão vejamos: ao compor uma melodia ou uma canção, o autor espera que a mesma seja conhecida do público; quando divulgada, a visão particularizada do autor torna-se universalizada. Do mesmo modo é com a escultura, com a pintura, com a literatura e com qualquer expressão artística. A arte traz em si a busca pela universalização. Eis o nosso alento!

Com isso identificamos não só o objetivo da arte, mas também a responsabilidade dos que a ela se dedicam. Logo, revela-se impossível assimilar uma expressão artística que tenha origem no vácuo do conhecimento, no vazio de princípios, no caos de uma inverídica realidade.     


quinta-feira, 11 de dezembro de 2025

Tendência

 

John Cage, pianista, compositor experimental (?), em certa “audição” apresentou a obra - algo infame - intitulada 4’33’’, onde nem sequer tocou uma única nota. É de causar pasmo; foi assaz aplaudido!

Certo conhecido, não um compositor experimental, a título de realização pessoal, levou seu piano eletrônico para o deserto e lá executou várias músicas. Outra vez o pasmo: cobras, lagartos, roedores, escorpiões e até mesmo um solitário camelo pararam para ouvi-lo.

Elefantes a usar suas trombas para segurar pincéis, pintam telas, ou melhor, produzem obras de arte ditas abstratas. Mais uma vez o pasmo: as pinturas são vendidas por expressivos valores.

E o último pasmo: caso desconheçais, a literatura também é uma forma de expressão artística. Contudo, por mais que eu e mais alguns outros (poucos, na verdade) nos esforcemos em escrever algo de bom tom, não há quem se interesse por ler-nos.

Instalou-se a dúvida: estamos a lidar com uma tendência natural, uma propensão, inclinação? Talvez - quem o sabe? - uma singular carência de propósito.

quarta-feira, 10 de dezembro de 2025

A “pelada” do Fim de Ano

 

Soubemos, através da mídia, que o Supremo Tribunal Federal vem causando grandes polêmicas ao lançar licitações para comprar vinhos importados, lagostas e outros artigos de luxo. E tudo em nome da confraternização. Pois bem, este ano a coisa foi diferente, pois nossos ministros decidiram jogar uma “pelada” para confraternizar, afinal são 11 (onze) os principais integrantes da Suprema Corte. Todavia, quem aceitaria jogar contra Suas Excelências? Consultaram Vini Júnior, Wesley, Estevão, Marquinhos e tantos outros no exterior, mas eles pediram muito e o orçamento já estava estourado.

Então a parceria entre Gilmar Mendes e a CBF pode resolver o imbróglio. Um time nacional famoso seria escolhido, haja vista o empenho dos ministros em tornarem-se próximos do povão. Outro problema: que time escolher? Um dos ministros - não o relator - sugeriu que fosse time em destaque e com expressivo número de torcedores. Portanto, o Clube de Regatas do Flamengo foi escolhido por unanimidade.

Bem, alguns atletas tentaram pular fora, inclusive o técnico Filipe Luís, mas de pronto foram ameaçados por Alexandre de Moraes. A conversa era a de que tratava-se de uma brincadeira de fim de ano, onde os jogadores poderiam relaxar e também confraternizarem-se. A Ministra Carmen Lúcia seria a madrinha, muito embora as insinuações da Janja. O técnico? José Dirceu. Quanto à escalação: Fachin o capitão, Flávio Dino no gol, para armar as jogadas Alexandre de Moraes (ele é bom em armações), Gilmar Mendes na zaga central, Zanin no ataque. No banco ficaram Nunes Marques, André Mendonça e Luiz Fux. Dias Toffoli e ministros do STJ completaram a equipe togada.

E a pelada foi marcada. Uma força-tarefa da Polícia Federal faria a segurança. Seria aberto ao público? Não, Fernando Haddad quis sobretaxar os ingressos e ninguém, nem mesmo os flamenguistas se interessaram em assistir o “clássico” Craques da Toga X CRF. Televisionado? Só mesmo a Globo! (risos). Mas o jogo aparentava seriedade (aliás, como tudo no STF), pois até VAR (mais risos) seria disponibilizado. Adivinhai quem seria o responsável pelo VAR! Sim, ele mesmo, o PGR Paulo Gonet. O juiz seria o AGU Jorge Messias; árbitros auxiliares seriam Davi Alcolumbre e Hugo Mota. (Putz)

E teve início a partida. Jogo feio; os ministros todos de preto mais pareciam moscas a zanzar de lá para cá. Jogo chato; ninguém andava em campo, nem uma jogada bonita. Nem Pedro ou Bruno Henrique, atacantes do Flamengo, davam sequência às jogadas; Arrascaeta parecia hipnotizado. Depois ficamos sabendo que grande parte da equipe rubro-negra fora ameaçada com busca e apreensão; Arrascaeta teve seu passaporte apreendido. E tudo se resumia a: o jogo é uma brincadeira (isso é a cara do STF); então é para ficar empatado em 0 X 0.

Mas a coisa desandou graças ao PGR, ou melhor, ao VAR. Quando faltavam poucos minutos para o final da peleja, Paulo Gonet alertou Jorge Messias, o juiz da partida, através do rádio. Segundo o PGR a bola chutada por Carlos Brandão, ministro do STJ, dentro da área, resvalara no braço do Alex Sandro. Não, não houve replay. O pênalti foi marcado. E quem cobraria a penalidade máxima? Zanin! Gilmar Mendes o chamou em off e o alertou que o gol não deveria acontecer; a partida tinha que terminar empatada.

Agustín Rossi preparado. Zanin aproxima-se da marca, toma distância, tenta isolar a bola com um “bicudo”. Mas Zanin é uma daquelas pessoas que erra até na hora de cometer erros. A pelota pega efeito, resvala no travessão e entra. O narrador da Globo, um chato de galocha, vibrando com o acontecido, passa uma eternidade a anunciar o gol. Depois disso ele pergunta: “Sabe de quem?”

Fico aqui a dar tratos à bola (não a bola de futebol): E se o time do Flamengo tivesse goleado os “Craques da Toga”? No mínimo seria acusado de atentar contra a democracia, de agredir o Estado Democrático de Direito. Quiçá, os atletas seriam incriminados por tentativa de golpe e a esta hora estariam na Papuda.      

segunda-feira, 1 de dezembro de 2025

Carnaval

 

O armário eu abri: nenhuma camisa listrada para eu sair por aí. Não gosto de chá com torradas; talvez de algum parati. Nada de canivete, gravata ou pandeiro. Era carnaval, tudo só carnaval e eu apenas ... brasileiro. Carnaval! Somos herdeiros do paganismo. Por que festa pagã? Ora, conseguimos honrar a Baco e a Saturno de uma só vez; uma mescla de bacanal e saturnal, ou seja, bebida, sexo, folia, inversões nos papeis sociais, onde escravos assumem a identidade de seus senhores. Eis o carnaval!

Todavia, ainda sou um cavalheiro. Meu armário de portas escancaradas torna-me ciente disso: nada com losangos coloridos. Porém, sinto-me escravo, mesmo sem identificar meus senhores. Vejo-me manipulado, portanto, quero-me fantasiado. Como? De que? Não um palhaço, mas algo próximo. Que tal um arlequim? Mas, foram-me negadas as máscaras! Seria possível um bobo austero e elegante? Como? Se eu vivesse em fins do século XIX, por certo, teria posado para Paul Cézanne.

O apito soou; o bloco já vai passar. O quê? Meu Deus, ainda sou do tempo dos blocos! Pior do que cidadão condicionado ou arlequim desenxabido, só mesmo folião ultrapassado.