segunda-feira, 27 de julho de 2026

Lêmure

 

A sabedoria estoica diz-nos que “o vento não sopra a favor de quem não sabe para onde ir”. Pergunto-vos: para onde devo ir? Afinal, tudo é farsa. A vida em si é um teatro mambembe; cabe-nos, apenas, uma irrelevante atuação. Tudo é montagem, condicionamento. Até mesmo aqueles apresentados como referência são instrumentos para manipulação.

Não, eu não falo de cantores populares, artistas ou atletas; esses sequer serão mencionados. Nada obstante, pergunto-vos: onde está a genialidade de William Shakespeare? Romeu e Julieta, na verdade, trata-se de Píramo e Tisbe, conto trágico da mitologia romana, imortalizado pelo poeta Ovídio. Hamlet advém de uma lenda nórdica do príncipe Amleth, datada do século XII. Então retomo a questão: para onde devo ir?

Segundo disseram-me, o filósofo Lao Tsé afirmara que a depressão atinge aos que vivem de passado. E como viver? De presente? O derradeiro minuto já é passado. Viver de futuro? De expectativa, arruinado pelo stress? A atualidade constrange, agride, insulta. O moderno ou o pós-moderno, tomado de discursos inclusivos, só faz criar obstáculos ao próprio viver. O agora é inspiração dantesca. Pelo menos, o passado já teve algo positivo a nos legar...

Ora, e como viver? Farmar Aura? Por certo, dir-me-ão os influencers para fazer harmonização facial, buscar uma academia de Crossfit e comer barrinhas de cereal. Mesmo que “sinceramente” agradecido, refuto tais sugestões; prefiro agarrar-me a coisas sólidas e observar. Alguém, não sei se por piada ou escárnio, disse-me que tenho afinidade com os lêmures de Madagascar. Será?

domingo, 26 de julho de 2026

Farmar Aura

 

Tudo soa-me como protocolar; sim, a coisa parece obedecer fielmente objetivos há muito traçados. Há como que um controle educacional, pois a doutrinação visa, salvo melhor juízo, eliminar a dúvida, o debate, a reflexão; a juventude, ou melhor, toda uma geração foi tornada dócil. As teorias e conceitos disseminados, muito embora mostrarem-se elevados e nobres, objetivam tão somente o enfraquecimento de valores tradicionais na ordem social. Há uma intensificação na demência, no bloqueio cognitivo. Pode piorar? Sim a IA, parte integrante do protocolo, vem relativizar a verdade! Será que me fiz entender? Vejamos!

Farmar aura. O que é isso? Acumular carisma, respeito e uma boa imagem. Em um primeiro momento percebo o fatídico desconhecimento conceitual. Carisma envolve dons sobrenaturais, quiçá espirituais, personalidade excepcional. Carisma não se adquire, não se compra, não se negocia; o carisma é inato. Respeito igualmente não se compra, não se conquista; o respeito é uma via de mão dupla, pois adquire-se respeito em se respeitando o outro. Farmar vem do inglês farm (fazenda), ou seja, cultivo. Carisma e respeito ter-se-iam tornado produtos do agronegócio?  

Aura, por sua vez, pode ser entendida como boa aceitação ou popularidade. Se bem que no atual contexto refere-se a uma pretendida imponência. Em suma: Vaidade de vaidades! E nada mais. Crianças paparicadas e que desconhecem limites, quando adultos, tornam-se, no mínimo, pessoas que só se interessam em repletar a si mesmos; nada querem saber acerca do trabalho e/ou responsabilidades. E hajam influencers! A educação pautada em “princípios” psicologistas foi responsável pela catástrofe. Haveria solução? Sinceramente... “Psicanalistas são doenças que se apresentam como curas”.

E já que falei em protocolos, impressiona-me sobremaneira a atuação dos intelectualóides de botequim (os que ostentam, indevidamente, títulos de mestres e doutores), dos filosofastros e seus filosofemas e dos jornalixos amarronzados, que a tudo dizem analisar de modo imparcial. Se o Apocalipse tivesse sido escrito atualmente, por certo diriam tratar-se de Teoria da Conspiração, Fake News ou algo similar. Atentai, cambada de ignóbeis chucros: O que se opõe às teorias das conspirações é o conhecimento. Mas o que há por trás de tudo isso? O tempo já está a revelar.

Procurei um bom conselho, encontrei-o e vou segui-lo. “Já não falarei muito convosco, porque se aproxima o príncipe desse mundo e nada tem em mim”. João 14:30.

quinta-feira, 23 de julho de 2026

Desencontro consonantal

 

Deveria ter uns onze anos, talvez mais, quando no colégio (tempos bons aqueles), curso ginasial mais exatamente, me foi apresentado o sistema solar. Não só o sistema solar, mas também nossa galáxia em todas as suas especificidades. Confesso: foi amor à primeira vista! Então, dediquei-me com afinco. Pedi a meu pai uma luneta como presente de aniversário. Passava os fins de semana no observatório atento a astros distantes, a planetas e respectivos satélites. Minha imaginação adolescente chegou a construir uma casinha no Mar da Tranquilidade. Sim, eu estava determinado: seria um astrônomo!

Todavia, a puberdade parece impor reestruturações, inclusive mudanças cognitivas. E veio o primeiro amor, justamente onde os sonhos mostram-se liquefativos. Constelações foram esquecidas. Nem mesmo Órion e seu cinturão (bem diferente daquele de couro que meu pai usava) era lembrado; a Ursa Maior em seu formato de caçarola e até mesmo a Acrux do Cruzeiro do Sul foram olvidadas. Enfim, amores se foram e tudo resumiu-se a desencontros.

Mas o pior desencontro foi o consonantal, pois ao invés de Astrônomo exerço a função de Gastrônomo. Não, por favor, nada de sorrisos nem desmereçais minha ocupação, pois faço um feijão de primeira e um rabada com agrião digna de aplausos; o meu Fettuccine já foi até premiado. Enfim, troquei astros por repastos.

quinta-feira, 2 de julho de 2026

O ápice da ironia

 

Parece que o escárnio conquistou de vez seu lugar entre nós. Exemplos? Vamos a eles. Os sites de apostas partilham amiúde nosso convívio. A recomendação “jogar com responsabilidade” vem apenas consolidar o sarcasmo. Isto porque a responsabilidade revela-se naquele que age consciente, o que implica reflexão. Pergunto-vos: Apostar o escasso dinheiro em jogos manifesta alguma prudência?

E não muito distante as propagandas de bebidas alcoólicas empenham-se em frisar: “Bebam com moderação!” Dizei-me, por favor, o que é permitir-se alcoolizar de modo brando? Os defensores da máxima por certo argumentarão que existe a cerveja sem álcool. O que é consumido então? Metaforicamente falando, eu diria que isso me soa exatamente como o sujeito que vai para um churrasco, mas só come pão de alho.

E o pior: ano de eleição! Candidatos a prometer empenho na luta por saúde, educação, empregos, segurança... Falam também em ética, responsabilidade, transparência, honestidade, democracia e respeito à Constituição.  A coonestação é o recurso mais utilizado pela canalha política para dar a seus atos aparência de honestidade ou conformidade com a honra.