quinta-feira, 27 de agosto de 2026

Ditirambo

 

O brevíssimo conto a seguir baseia-se em fatos reais. Se lançado em plataforma de streaming, cinema ou algo similar, sugiro que venha acompanhado do alerta de que o conteúdo seria impróprio para menores. E vós, mulheres ou homens (não necessariamente nessa ordem), por favor, evitai fazer isso em vossa casa!

Once upon a time e o jantar pronto. O homem cansado, haja vista o volume avassalador de trabalho. A esposa serve vinho e o alerta acerca de sua decisão. Sim, a mulher estava indo embora; queria a separação. O marido esfrega os olhos, busca saber o motivo; a esposa alega um convívio insustentável, pois que o marido vivia para o trabalho e ela sentia-se muito só. Ele assentiu com leve menear de cabeça, lamentou, mas disse acatar sua decisão. Na manhã seguinte a mulher se foi. Onde? Lugar desconhecido e distante.

Algum tempo depois o ex-marido viu-se vítima de acidente automobilístico. A mulher, através de amigos em comum, soube e resolveu visitá-lo. A tiracolo trouxe o novo amante. O homem agradece a visita e os recebe de bom grado. Todavia, quando sozinha com o ex-marido no aposento, ela pergunta se ele ficou com raiva. Ele sorri, balança a cabeça negativamente e diz que a compreende, afinal ela fora honesta e também já estavam separados há quase um ano. A mulher, então, reage aos berros. - “É assim? Tu não consegues guardar raiva? Eu estava certa; tu nunca me amaste”. A cena distanciava-se de um solilóquio; e ela prosseguia: - “Como alguém que diz amar não consegue ter raiva, mágoa ou ressentimentos?” E quase a implorar encerrou a conversa: - “Por favor, tenha raiva de mim!

Pois é, o inusitado, por vezes, se nos apresenta travestido de discernimento e elegância. Evitemo-lo, portanto!

segunda-feira, 17 de agosto de 2026

Mau presságio


Imagens, ainda que confusas, chegaram-me por sonho. As circunstâncias em questão teriam lugar em 2048. O processo de emburrecimento da população fora totalmente levado à efeito. Conhecimento banido, salas de leitura fechadas, o aprendizado expulso, marginalizado. O legado de Prometeu, isto é, o Pântano de Informações, mais conhecido por redes sociais, teriam desempenhado papel fundamental, ou seja, imagens criadas e a multiplicidade de informações contraditórias nada fundamentadas tornaram-se alicerces basilares de toda experiência. A mídia leniente em muito colaborara. Consequentemente, gerações e gerações assomadas por bloqueio cognitivo. Com o analfabetismo funcional em destaque, plataformas de internet, além de promoverem total monitoramento e o fim das liberdades individuais, passaram a discorrer sobre tudo: ciências exatas, sociais, economia, medicina, geopolítica, previsões climáticas, arte, etc.  A Inteligência Artificial, portanto, reivindicou e conquistou uma posição soberana. Todavia, o muito resumiu-se a nada; nada entender, nada reclamar, tudo aceitar. Enfim, uma subserviência implantada. E foi com esse espírito que o sistema de governança mundial assumiu o status de feudalismo digital.

                           


quarta-feira, 12 de agosto de 2026

Imprecisão

 


Parece-me que vivemos em época de forjadas ambiguidades, obscuridades e indefinições. Sim, os conceitos consolidam-se de modo equivocado, o que revela, antes de tudo, enorme irresponsabilidade. A imprecisão, salvo melhor juízo, serve de estímulo aos desvalores (ou não valores). Pedis exemplos? Pois bem, vamos a eles: ao conceito de pobreza vinculou-se a honestidade. Por que? Qual o propósito? Os discursos para acalentar simplesmente incitam o pobre à desonestidade. Quando em face de alguém confessadamente honesto, ouve-se a máxima: “Por isso que tu és pobre!” Outrossim, por que a pobreza está vinculada à ignorância? Ora, o fato de ser pobre nunca impediu ninguém de lançar-se ao aprendizado. Mas a falácia, valendo-se de uma espécie de palíndromo, ambiguamente, faz com que a ignorância seja justificada pela pobreza e a pobreza, por sua vez, seja explicada pela ignorância. Não vos enganeis, pois a imprecisão é recurso. O bom humor mascarou-se de vulgaridade; a caridade fantasiou-se de benefícios sociais. Confiais, porventura, em órgãos de opinião pública, em estatísticas e pesquisas governamentais? O conceito de confiabilidade sujeitou-se a discursos e informações oficiais. E o mais grave: a miséria foi romantizada.

quinta-feira, 6 de agosto de 2026

Confesso que vivi

 

Por certo, minha motivação não foi a mesma que a de Pablo Neruda. Mas vivi... e com intensidade. Uma invejável bagagem fez-me assimilar experiências incríveis. Comecemos pelo auge do jazz e a mistura de blues, gospel e country na origem do rock and roll. Originado no movimento Beatnik, a contracultura Hippie. Anos sessentas: o Festival de Woodstock, Beatles e Rolling Stones. No Brasil a Bossa Nova, a Jovem Guarda. Na política, a tentativa de implantarem em meu país uma “ditadura do proletariado”. Paralelamente vivenciei por 21 anos um severíssimo governo militar.

Mas também pude desfrutar de Festivais de Música Popular Brasileira, bem como de Festivais Internacionais. Meu país foi tricampeão mundial na época em que nosso futebol era referência: o futebol arte. E veio o colapso da União Soviética, a queda do muro de Berlim e o fim da Guerra Fria. A chegada do Plano Real, enfim, para estabilizar uma moeda até então vítima da hiperinflação. Um primeiro mamífero a balir foi clonado. Os ataques terroristas em 11 de setembro às Torres Gêmeas do World Trade Center. A chegada da Internet, smartphones, redes sociais, etc. Certa epidemia mundial, até o momento inexplicada, batizada de Covid 19. Guerras itinerantes, os escândalos na geopolítica e o fim do papel moeda.

E hoje? Bem, hoje, além das boas lembranças e de repetidas idas a consultórios e farmácias, eu vivencio o Apocalipse.