Parece-me que vivemos em época de forjadas ambiguidades, obscuridades e indefinições. Sim, os conceitos consolidam-se de modo equivocado, o que revela, antes de tudo, enorme irresponsabilidade. A imprecisão, salvo melhor juízo, serve de estímulo aos desvalores (ou não valores). Pedis exemplos? Pois bem, vamos a eles: ao conceito de pobreza vinculou-se a honestidade. Por que? Qual o propósito? Os discursos para acalentar simplesmente incitam o pobre à desonestidade. Quando em face de alguém confessadamente honesto, ouve-se a máxima: “Por isso que tu és pobre!” Outrossim, por que a pobreza está vinculada à ignorância? Ora, o fato de ser pobre nunca impediu ninguém de lançar-se ao aprendizado. Mas a falácia, valendo-se de uma espécie de palíndromo, ambiguamente, faz com que a ignorância seja justificada pela pobreza e a pobreza, por sua vez, seja explicada pela ignorância. Não vos enganeis, pois a imprecisão é recurso. O bom humor mascarou-se de vulgaridade; a caridade fantasiou-se de benefícios sociais. Confiais, porventura, em órgãos de opinião pública, em estatísticas e pesquisas governamentais? O conceito de confiabilidade sujeitou-se a discursos e informações oficiais. E o mais grave: a miséria foi romantizada.
Nenhum comentário:
Postar um comentário