quinta-feira, 23 de julho de 2026

Desencontro consonantal

 

Deveria ter uns onze anos, talvez mais, quando no colégio (tempos bons aqueles), curso ginasial mais exatamente, me foi apresentado o sistema solar. Não só o sistema solar, mas também nossa galáxia em todas as suas especificidades. Confesso: foi amor à primeira vista! Então, dediquei-me com afinco. Pedi a meu pai uma luneta como presente de aniversário. Passava os fins de semana no observatório atento a astros distantes, a planetas e respectivos satélites. Minha imaginação adolescente chegou a construir uma casinha no Mar da Tranquilidade. Sim, eu estava determinado: seria um astrônomo!

Todavia, a puberdade parece impor reestruturações, inclusive mudanças cognitivas. E veio o primeiro amor, justamente onde os sonhos mostram-se liquefativos. Constelações foram esquecidas. Nem mesmo Órion e seu cinturão (bem diferente daquele de couro que meu pai usava) era lembrado; a Ursa Maior em seu formato de caçarola e até mesmo a Acrux do Cruzeiro do Sul foram olvidadas. Enfim, amores se foram e tudo resumiu-se a desencontros.

Mas o pior desencontro foi o consonantal, pois ao invés de Astrônomo exerço a função de Gastrônomo. Não, por favor, nada de sorrisos nem desmereçais minha ocupação, pois faço um feijão de primeira e um rabada com agrião digna de aplausos; o meu Fettuccine já foi até premiado. Enfim, troquei astros por repastos.

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