Sempre pareceu-me arriscado discorrer sobre entidades bíblicas, haja vista a carência de informações, mesmo em face das benvindas atualizações fornecidas pela arqueologia e antropologia. E a história de Saul, primeiro rei de Israel, não seria diferente, pois data aproximadamente de 3.060 anos. Pois bem, Saul, filho de Quis, homem de posses da tribo de Benjamim, fora escolhido por Deus para governar Israel, isso porque o povo clamava por um rei. E por mais incrível que possa parecer, foi a procura por jumentas extraviadas que possibilitou a aproximação entre o jovem Saul e o profeta Samuel, este já alertado pelo Senhor acerca do encontro com o benjamita, a menor das tribos de Israel.
Além de informar a Saul sobre o
paradeiro das jumentas, Samuel convidou-o para sua casa. Lá o visitante ocupou
lugar de honra à mesa, facultando ao anfitrião o estreitamento de laços. Ao
raiar do dia seguinte, Samuel despertou o jovem hóspede que dormira no eirado,
levou-o às cercanias da cidade e o ungiu. Após a sagração, Saul foi instruído
sobre as pessoas que encontraria, sobre os procedimentos a serem realizados e o
fato de profetizar quando apossado pelo Espírito do Senhor. Holocausto e
ofertas pacíficas fizeram-se necessárias. A presença do Senhor, doravante junto
a Saul, faria dele um outro homem.
Em Mispá, dias mais tarde, Samuel
convocou o povo e indicou Saul como rei de Israel, afinal o povo hebreu exigira
ser governado por um rei; o Senhor fora, de certo modo, preterido pelo povo
escolhido. Muito embora a indicação não ter sido do agrado de todos (filhos de
Belial, homens malignos sempre existiram), Saul mostrou-se bastante competente
ao vencer a batalha contra os amonitas. Então Samuel, mais uma vez reuniu o
povo e, em Gilgal, Saul foi proclamado rei perante o Senhor. Com o passar do
tempo, o rei, jovem desconhecido e de pequena família, ganhou a confiança do
povo em face dos resultados de suas campanhas militares vitoriosas contra os
inimigos de Israel.
Neste ponto, uma pergunta mostra-se
pertinente: Saul era apenas bom estrategista e guerreiro ou, de fato, homem temente
a Deus? Os frequentes atritos e inúmeras batalhas com os filisteus acabaram por
revelar um outro Saul. Não o Saul religioso, mas o Saul político; não a
política conceituada por Aristóteles como a ciência do bem governar, mas a
política próxima de nossos dias, isto é, a arte do tornar possível. Exemplo
disso está quando os filisteus reuniram-se para atacar os soldados de Israel.
Saul, ainda em Gilgal solicitara a presença de Samuel. Com o atraso do profeta,
Saul resolve, ele mesmo, oferecer sacrifícios, algo de competência exclusiva
dos sacerdotes. Interrogado por Samuel, que chegara logo depois, asseverou que
vira o povo espalhando-se e o exército filisteu na iminência de um ataque. Ou seja,
Saul coloca suas preocupações acima de tudo; ele pareceu usar dos sacrifícios
ao Senhor para tirar proveito pessoal; o Senhor, nesse caso, tornou-se apenas
um meio para atingir determinado fim.
Em outra oportunidade, Saul recebe de
Samuel ordens expressas para castigar Amaleque pelo que fez a Israel; ter-se
oposto a Israel quando este subia do Egito. O versículo é bem explícito: “Vai,
pois, agora e fere a Amaleque, e destrói totalmente a tudo o que tiver; nada
lhe poupes, porém matarás homem e mulher, meninos e crianças de peito, bois e
ovelhas, camelos e jumentos”. (1 Samule15: 3) Saul convocou o povo, dirigiu-se
à cidade de Amaleque, armou emboscadas e atacou. Todavia, manteve vivo Agague,
rei dos amalequitas, assim como poupou os animais de boa procedência. Ao ser
interpelado por Samuel, que fora alertado por Deus, declarou Saul que havia
dado ouvidos à voz do Senhor e ter seguido o caminho por Ele indicado, ao
trazer Agague preso. Neste passo fica evidente que a intenção de Saul, muito
embora argumentar valendo-se da referência ao Senhor, foi de colocar os
interesses do Estado - sua própria vontade - acima dos interesses de Deus.
Acerca dos animais, alegou Saul que o povo tomara do despojo ovelhas e gados
para oferecer em sacrifícios ao Senhor em Gilgal. E aqui está presente a tônica
do populismo: Saul busca agradar ao povo - uma espécie de governo estilo pão e
circo - apesar das ordens expressas de Deus. O rei de Israel revelou-se como um
primeiro exemplar dos politiqueiros atuais, ou seja, um populista. A orientação
platônica mostra-se oposta: “O bom governante é aquele que faz o que o povo
precisa e não o que o povo quer”.
A vanglória de Saul o afastou definitivamente
de Deus, e ele tinha ciência disso. O rei não esconde sua preocupação com a
opinião do povo; ele foi invadido por profunda vaidade. Depois de ter rasgado a orla do manto de
Samuel disse: “Pequei; honra-me, porém, agora, diante dos anciãos do meu povo e
diante de Israel; e volta comigo para que adore ao Senhor teu Deus”. (1 Samuel
15: 30) Atentai para a declaração de Saul: “... adore ao Senhor TEU Deus”;
somente o Deus de Samuel, não mais o dele. Saul abandonou a fé em prol da
política e governou por 42 anos; período marcado por diversas guerras, ornadas
por momentos de depressão, manifestação de raiva e loucura, bem como o aconselhamento
de feiticeiras.
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