Eu deveria estar com nove ou dez anos; na pré-adolescência para ser mais inexato. E como sempre, quando em fins de semana ou feriados, refugiava-me na casa de meus avós, na enorme propriedade rural, que nós, eu, meus irmãos, primos e primas chamávamos de sítio. Lá fora palco não só de excelentes recordações, mas também de inúmeros aprendizados. E um deles creio ter sido marcante, inclusive filosoficamente falando.
Nunca fui de tirar proveito da
preguiça que nos incita após o almoço. Então eu ficava à janela observando o
entorno enverdecido por árvores, plantas, flores. Um pássaro, que nunca
consegui identificar a espécie, em seu despreocupado voo, chocou-se, por não
perceber, com o vidro da janela. A ave caiu ao solo e começou a se debater, creio
que por causa da dor. Pulei a janela e o peguei cuidadosamente. Pareceu-me que
uma das suas asas estava quebrada. Chamei por meu avô. Ele, como sempre
solícito, recolheu o bichinho, investigou o ferimento e deu início ao
tratamento. Eu apenas um neófito. Depois do procedimento, primeiros socorros
promovidos por dois incipientes veterinários, vovô decidiu deixá-lo em uma
gaiola.
Passados poucos dias, observando o
passarinho já de pé sobre o poleiro, quis deixá-lo ir. Todavia meu avô não
permitiu. E o aprendizado teve início: - “Queres vê-lo livre, não? Pois é, mas
ele ainda não está pronto para desfrutar da liberdade; se o soltarmos agora,
por certo morrerá”. Então pus-me a pensar sobre a liberdade. Até hoje
pergunto-me se, de fato, todas as pessoas estão prontas para desfrutar da
liberdade? A vera liberdade, a meu ver, é uma autoconstrução; o livre arbítrio
condiciona a liberdade.
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