segunda-feira, 19 de outubro de 2026

Dilema do chef

 

De tanto revirar-me no leito, despertei; estava calor, abafado. E ainda era primavera... Aproveito o ensejo para sugerir aos hermeneutas meteorológicos - meteorologia, uma ciência a posteriori - a criação de mais uma estação climática: o primão, isto é, a primavera aliada ao verão. Então, já que desperto, surge o apetite. A propósito, seres humanos, antes da alcunha da racionais, deveriam ser conhecidos por devoracionais. Sim, eles devoram; comem quando ansiosos, quando alegres, quando famosos, quando preocupados, quando tristes...

E aqui recordo-me que meus pais receberam certo presente de um neighbor (vizinho chique): uma galinha para o almoço. E lá estava mamãe de facão em punho para sacrificar a ave. Mas, pera aí; onde está a Sociedade Protetora dos Animais? Fica aqui subentendido, pelo menos para mim, que galináceos são aves nutricionais e, portanto, não abrangidos pela SPA. Opus-me, contudo, à imolação. Além do que a galinha tinha as penas pretas; vizinhos de diferente ideologia poderiam acusar-nos de racismo; e a ave sequer era afrodescendente. Outra preocupação minha: por que não um galo? Se fosse meu pai a pegar na faca, seria acusado de tentativa de feminicídio; sacrificar o galináceo poderiam chamá-lo misógino, afinal a misoginia fundamenta o feminicídio.

Então partimos para a votação (isso sim é democracia) e a ave foi poupada. Comemos salada e tomamos caldo Maggi. Perdoai-me, mas o mundo em que vivo não mais existe.

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