Na verdade, eu busco similaridades com o folclore marítimo, até porque a vida marítima é bastante folclorizada. O holandês voador, segundo a lenda, fora um navio mercante holandês, cujo capitão, Hendrick Van der Decken, muito embora os protestos da tripulação, teria feito um pacto com o diabo em face da proximidade de terrível tempestade. O acontecimento tivera lugar em meados do século XVII, ao atravessar o Cabo das Tormentas ou Cabo da Boa Esperança. O navio teria saído ileso, mas a maldição foi ter que vagar eternamente pelos oceanos, sem ter sequer um porto como destino.
Agora voltemo-nos às similaridades.
Meu primeiro embarque deu-se em 1981; eu acabara de sair da academia. O petroleiro
em questão, muito maior de tudo que eu já conhecera, fora fabricado na Holanda,
em 1974, no estaleiro Amels. Já embarcado, e no contato com a tripulação, soube
que o navio sempre fora problemático; isso eu pude confirmar em poucos dias.
Soube que vários trabalhadores do estaleiro lá haviam falecido; foram
explosões, incêndios e quedas inexplicáveis. Alguém não muito zeloso
segredou-me que não tripulantes (possíveis fantasmas) eram avistados amiúde a
transitar livremente pelas dependências do navio-tanque.
Depois de vários dias fundeados a
fazer reparos, pretendíamos sair em viagem. Como? Não conseguíamos dar partida
no motor principal. Várias foram as tentativas... e nada. Até que o chefe de
máquinas gritou: - “Já sei!” e saiu. Eu
o acompanhei. Subimos as escadas até o camarote reservado ao armador. Lá uma
fotografia do homem que dava nome à embarcação. O chefe então virou a
fotografia para a antepara. Pegou o telefone, ligou para a sala de controle e
ordenou: - “Dê a partida agora!” E o motor do navio funcionou.
Saímos a navegar. Assim que liberado
da manobra subi ao convés para observar o mar. Lindo luar abrilhantava o
espetáculo. Próximo à entrada da casa de bombas, percebi alguém sentado. Homem
jovem, cabelos compridos e louros, roupas claras em desalinho e de cigarro
aceso em punho. Como era possível tal coisa, fumar no convés de um navio tanque?
Dirigi-me ao imediato. Ele sorriu e contemporizou: - “Não é tripulante; ele
aparece às vezes, fuma um cigarro e some.
Foi quase um ano a colecionar relatos
e visões estranhas. Certa vez, tarde da noite, a voltar para bordo do navio fundeado,
todos os ocupantes da lancha de transporte viram-no a brilhar na escuridão: algo
fantasmagórico. Teríamos sido afetados por algum fenômeno ótico? Fata Morgana
ou excesso de cana? Afinal estávamos em costas brasileiras, onde não havia
neblina e as temperaturas quase constantes, temperadas, seriam incapazes de
distorcer a luz.
Enfim desembarquei. E sou agradecido
por isso; não por conta de tais fenômenos e/ou aparições, mas porque o navio
era bastante trabalhoso. Pouco tempo depois soube que o navio tornara-se
inoperante. Portanto, fora vendido. E o comprador, um armador indiano,
contratara dois rebocadores oceânicos para conduzi-lo ao novo destino. No sul
da África, ao cruzarem o Cabo da Boa Esperança, depararam-se com uma
tempestade, mar força 12. Os rebocadores tiveram que soltar os cabos. O que
restou do petroleiro nunca mais foi encontrado. Teria naufragado? Talvez esta
nova versão do Flying dutch esteja por aí a navegar para sempre.
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