quarta-feira, 17 de junho de 2026

Flying dutch

 

Na verdade, eu busco similaridades com o folclore marítimo, até porque a vida marítima é bastante folclorizada. O holandês voador, segundo a lenda, fora um navio mercante holandês, cujo capitão, Hendrick Van der Decken, muito embora os protestos da tripulação, teria feito um pacto com o diabo em face da proximidade de terrível tempestade. O acontecimento tivera lugar em meados do século XVII, ao atravessar o Cabo das Tormentas ou Cabo da Boa Esperança. O navio teria saído ileso, mas a maldição foi ter que vagar eternamente pelos oceanos, sem ter sequer um porto como destino.

Agora voltemo-nos às similaridades. Meu primeiro embarque deu-se em 1981; eu acabara de sair da academia. O petroleiro em questão, muito maior de tudo que eu já conhecera, fora fabricado na Holanda, em 1974, no estaleiro Amels. Já embarcado, e no contato com a tripulação, soube que o navio sempre fora problemático; isso eu pude confirmar em poucos dias. Soube que vários trabalhadores do estaleiro lá haviam falecido; foram explosões, incêndios e quedas inexplicáveis. Alguém não muito zeloso segredou-me que não tripulantes (possíveis fantasmas) eram avistados amiúde a transitar livremente pelas dependências do navio-tanque.  

Depois de vários dias fundeados a fazer reparos, pretendíamos sair em viagem. Como? Não conseguíamos dar partida no motor principal. Várias foram as tentativas... e nada. Até que o chefe de máquinas gritou: - “Já sei!” e saiu.  Eu o acompanhei. Subimos as escadas até o camarote reservado ao armador. Lá uma fotografia do homem que dava nome à embarcação. O chefe então virou a fotografia para a antepara. Pegou o telefone, ligou para a sala de controle e ordenou: - “Dê a partida agora!” E o motor do navio funcionou.

Saímos a navegar. Assim que liberado da manobra subi ao convés para observar o mar. Lindo luar abrilhantava o espetáculo. Próximo à entrada da casa de bombas, percebi alguém sentado. Homem jovem, cabelos compridos e louros, roupas claras em desalinho e de cigarro aceso em punho. Como era possível tal coisa, fumar no convés de um navio tanque? Dirigi-me ao imediato. Ele sorriu e contemporizou: - “Não é tripulante; ele aparece às vezes, fuma um cigarro e some.

Foi quase um ano a colecionar relatos e visões estranhas. Certa vez, tarde da noite, a voltar para bordo do navio fundeado, todos os ocupantes da lancha de transporte viram-no a brilhar na escuridão: algo fantasmagórico. Teríamos sido afetados por algum fenômeno ótico? Fata Morgana ou excesso de cana? Afinal estávamos em costas brasileiras, onde não havia neblina e as temperaturas quase constantes, temperadas, seriam incapazes de distorcer a luz.  

Enfim desembarquei. E sou agradecido por isso; não por conta de tais fenômenos e/ou aparições, mas porque o navio era bastante trabalhoso. Pouco tempo depois soube que o navio tornara-se inoperante. Portanto, fora vendido. E o comprador, um armador indiano, contratara dois rebocadores oceânicos para conduzi-lo ao novo destino. No sul da África, ao cruzarem o Cabo da Boa Esperança, depararam-se com uma tempestade, mar força 12. Os rebocadores tiveram que soltar os cabos. O que restou do petroleiro nunca mais foi encontrado. Teria naufragado? Talvez esta nova versão do Flying dutch esteja por aí a navegar para sempre.  

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