Era um galinheiro como tantos outros. Lá vivia Haroldo, um galo em toda sua magnitude a zelar não só pelo bom ambiente, mas também pelas esposas, amantes e concubinas. Tudo transcorria à contento até a chegada da forasteira por nome Daphne. Ela não só recusara o amor, mas trouxera na bagagem o ativismo feminista. E os discursos começaram a angariar sectárias. Então, todas as atitudes de Haroldo passaram a ser questionadas. A coisa chegou a tal ponto que teve início uma campanha para que as cristas fossem submetidas à cirurgia em nome de uma igualdade de gêneros. Cantar alto pelas manhãs significava machismo; bater as asas sinal de misoginia. Sim, tudo ou quase tudo foi classificado como assédio. Mas o pior tornou-se patente: gerações de franguinhos assimilaram tais comportamentos; chegaram a falar em “machismo estrutural”.
Haroldo afastou-se do ambiente. Ele passava
os dias a zanzar de cá para lá com certo desinteresse. O galinheiro tornara-se
estranho. Até mesmo seu cantar madrugador era realizado em campo distante. Não mais
poedeiras; as chocas não mais dispunham de ovos para incubar. Por vezes deparava-se
com uma minhoca na terra úmida. Em meio ao seu ciscar, ele pode perceber que o
discurso feminista não objetivava a salvaguarda da família, ninguém pregava a
monogamia; valores e princípios não eram exigências. Sim, o que havia, de fato,
era gaslighting (iluminação a gás),
ou seja, manipulação emocional para distorcer a realidade, negar fatos e mentir
para criar dúvidas. O assédio era psicológico, pois após a desestabilização emocional
gerar reações, estas eram usadas como justificativas para a culpabilidade. Tudo
não passava de estratégia para controlar comportamentos e limitar livre
arbítrios. Todavia, às gerações, isso era imperceptível.
Enfim, Haroldo abandonou a busca por minhocas e a vida em sociedade.
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