Um convite inopinado. Afinal, com essa idade, participar de baile à fantasia. Mas o mais surpreendente foi minha decisão em aceitar tal convite. E vós, por certo, diríeis: “Nada demais!” Todavia, eu concordo em ter que discordar. Primeira dúvida: que fantasia usar? Tentei recordar-me dos heróis de antanho... mas eram jovens, vigorosos, esbeltos... Nada que fosse preenchido por minha atual disponibilidade orgânico-estética. Contudo, ao buscar por alguns sucessos cinematográficos, veio-me à memória a figura de Obi-Wan Kenobi.
Sim, isso! Por que não? Daí em diante,
mesmo antes de providenciar a fantasia, comecei por adequar-me à postura do
personagem. Em verdade, eu já desfrutava do exílio, isso porque, diferentemente
de Ben Kenobi, eu não vivia em uma República séria, mas em alguma coisa do tipo
“democracia relativa”. Nada obstante, tornei-me alguém compenetrado, mais
humano, sensível, disposto a servir, muito embora longe de ser um Jedi. E eu
repetia pra mim mesmo: “A Força está com você”.
Bem, o dia do baile chegara. E lá
estava eu a envergar o clássico traje de Cavaleiro Jedi: a sobreposição de
cores bege e marrom, com cinto de couro, manto e capuz. E antes de ser questionado
por vós, adianto-me: Não, não consegui arranjar nada parecido com um sabre de
luz! Mas tratava-se de um baile; pra que armas? Outra dúvida assolou-me: há
quem dance em um baile à fantasia? A mim me parece, salvo melhor engano, apenas
um arranjo para que vaidades exorbitem os limites predeterminados. Mas a música
impunha-se: We Are the Champions!
Logo à entrada deparo-me com o Homem
Aranha, alguém magrinho, muito embora revelasse uma barriga bem pronunciada;
imagino que aquela aranha já carecia de teias. Em seguida o Batman, mas ao
invés de cinto de utilidades exibia um enorme celular, ou seria um tablet?
Volta e meia ele e a Mulher Gato paravam para uma selfie. E lá estava o Super
Homem mesclado de Clark Kent, pois nosso herói exibia um jocoso par de óculos.
E vós me perguntais: - “Por que jocoso?” Parece-me que fora empréstimo de Elton
John. Pergunto-me: Existiria ainda a afamada visão de raios X?
Quando tudo me parecia perdido, a
coisa piorou: surge o conde Drácula, acompanhado e amparado pelo seu
arqui-inimigo. Na verdade, a pessoa que incorporara Abraham Van Helsing era seu
cuidador; Drácula tinha Alzheimer e nenhum dente. Então, todos se voltaram para
um certo anãozinho. Calma, muita calma nessa hora. O que seria um anãozinho? Anão
é um homem pequeno; anãozinho seria a miniatura de um pequenino? Mas deixemos
de lado o percurso linguístico e atenhamo-nos à festa. Pois bem, o anão optara
por caracterizar mestre Yoda. Ao cruzar comigo ele resmungou: “O maior
professor, o fracasso é”.
Já me decidira voltar para casa e
entregar-me à Netflix quando desponta Chewbacca. Até que enfim! Ele deu logo
aquele grito de guerra na chegada, reclamando atenção e provocando risos. A arma
que adornava a fantasia era um misto de AR 15 com Besta. Esbarrei-me na princesa
Leia: a mesma roupinha branca e o inconfundível penteado. No canto do salão conversavam
animadamente Frodo e Gandalf. Neste momento percebi outro fundo musical: “What
a Wonderful World”, na voz de Louis Armstrong. Tudo parecia melhorar...
Súbito, a música foi abruptamente
interrompida para dar lugar a “The Imperial March”, e com ela o desprezível
Darth Vader. Inconscientemente levei minha mão à cintura, mas estava sem o sabre
de luz. Ele caminhou em minha direção desafiador; fiquei estático. Medo?
Sinceramente, não saberia dizê-lo. Mesmo assim sustentei o terrível olhar. Que
olhar? Ele usava máscara. Luke Skywalker passou por mim e murmurou: “A força
está com você!” No entanto, sabeis quem me tirou da encrenca? Pasmai. Harry
Potter! O menino (menino?) pegou-me pelo braço, guiou-me até seu Honda Civic e
levou-me para casa.
Já no aconchego do lar permiti-me
pensar. Eu fora convidado para uma redundância; o mundo em si é fantasia.
Bailemos, pois!
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