Setenta anos! Data comemorativa? Não, não creio. Tenho vontades de produzir alguma coisa; o fato de trabalhar, de ter utilidade, cativa-me. Deve existir algo que eu possa fazer. Mas ... o quê? A saúde mostra-se a cada dia mais ausente: há um quê de cansaço, músculos doridos de modo contumaz, falha-me a memória e por vezes o perceptual. E a hipocrisia socializada - dita inclusiva - rotula-me de viver a “melhor idade”. Não, definitivamente esta não é a melhor idade. Moisés, há bem mais de 5000 anos, declarara: “A duração de nossa vida é de setenta anos, e se alguns, pela sua robustez, chegam a oitenta anos, o melhor deles é canseira e enfado,...” (Salmo 90, versículo 10). A ciência médica, ao abandonar seu compromisso de restabelecer equilíbrio entre seres humanos e natureza, aplica-se à longevidade, à perenidade. Todavia, esquecida está a ciência de que a natureza é o limite do ser humano.
Mas o espirito produtivo é combativo,
pelo menos o meu. Ele quer seguir adiante, tornar-se ainda criador, fazedor...
E a pergunta que se me visita com constância: O que ainda posso fazer? Simples:
Escrever! Contudo, percebo a complexidade que envolve tal resposta. Graças a
tecnologia da informação, às redes sociais, aos aplicativos e a toda esta
técnica que nos escraviza, certos hábitos foram tornados démodé. O imagético
está em alta; textos são lidos e/ou mensagens escritas em claudicante e
incipiente linguagem. As pessoas não mais gostam de ler. Então convenço-me: Meu
tempo passou! O que esperar de mim, o que esperar da vida, doravante? E aqui
faço minhas as palavras de Jó: “Qual é a minha força, para que eu espere? Ou
qual é o meu fim, para que prolongue a minha vida?” (Jó 6:11). Definitivamente,
minha força não é a força da pedra; minha pele não é de cobre.
Súbito, no pensar de minhas limitadas
forças, ocorre-me: E se não houvessem tais obstáculos? O que seria de mim? Ora,
são os obstáculos que me alicerçam, que me constroem, que me moldam. Seria
saudável um viver livre de desafios? Sem dificuldades, por certo, eu estaria
vazio, oco, tão hipócrita quanto àqueles que há pouco critiquei. O mero passar
pela vida não é um viver. Ainda segundo Jó, obstáculos são as águas, o lodo que
dá viço ao papiro. Portanto nós, papiros, agradeçamos o lodo (estorvos) nosso
de cada dia. “A cada dia o seu mal”, ou melhor, o seu lodo. São os impedimentos
que nos fazem florescer. Sim, e esse florescer é único, intransmissível.
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