segunda-feira, 26 de novembro de 2018

Περί Ιδεολογία - Acerca da Ideologia



Por vezes partilhamos o dia-a-dia com vocábulos que, muito embora repetidos à exaustão, continuam a nos soar estranhos. O termo ideologia, exigido pelo poeta Cazuza como mister para viver, é um desses exemplos. Então perguntamo-nos: o que é de fato ideologia? Permito-me uma definição de certo modo ortodoxa: Conjunto de ideias fundada em princípios sócio-político-filosóficos, e que se reveste de argumentos para justificar interesses individuais ou de grupos, tendo em vista, evidentemente, o momento e a conjuntura social. E o que se pode depreender da definição acima? a) Que a ideologia vai depender do indivíduo ou grupo. Ora, se indivíduos e grupos carecerem de sólidos valores, fica evidente que o conjunto de argumentos daí advindos carecerão igualmente de valores; b) se, de fato, levar em conta o momento e a estrutura social, torna-se patente que um povo socialmente desestruturado mostrar-se-á incapaz de oportunizar uma saudável ideologia.

Talvez aí esteja a dificuldade em se entender com clareza o que significa ideologia. Bem, valendo-me do recurso da metáfora e como profundo conhecedor da mentalidade brasileira, posso afiançar-vos: ideologia é o tipo de discurso que convence o ávido a degustar um alimento que já apresenta indícios de putrefação; o argumento nessa primeira fase pautar-se-á em negar o estado de apodrecimento, alegando que tudo foi criado para fazê-lo crer na corrupção alimentar. E se o comilão dissipador vier a óbito, a segunda fase do discurso ideológico terá como objetivo convencer os circunstantes de que o glutão faleceu por morte natural.   

domingo, 25 de novembro de 2018

Hidrografia pós-existencial



Inegavelmente, a vida do ser humano é pautada em dúvidas, medos, apreensões. E isso graças ao deus Logos que, em face do inapreensível, ou se revolta, ou se cala, ou se entrega a crenças ou investiga. Tememos as doenças, as relações, as consequências das atitudes e o desfecho de tudo que se revela através da morte. É nesta última, pontualmente, que reside o medo maior, muito embora já ter sido dito que o “ser é ser para a morte”. Mas da morte nenhum medo, apenas o que viria após a mesma, isto é, o desconhecido. O fato de temermos o desconhecido funda-se tão somente na impossibilidade de perseguir o permanecer em si, o conatus de Spinoza.

É a possível impossibilidade que nos leva ao escapismo. Ao temor se soma a consciência moral: valores determinantes que prescrevem o certo e o errado. Assimiladas estas noções, o ser humano se pune, se horroriza, se castiga, se auto imola. Nossos semelhantes criaram, criam e continuarão criando algo como um código penal moral, e, consequentemente, um tribunal particular: a má consciência. Baseiam-se unicamente em valores interiorizados e manipulados, graças à imposição de uma crença estranha, alheia, exógena, alienígena.

Os egípcios falavam em Anúbis, o deus que acompanhava o fenômeno da morte e colocava o coração dos mortos em uma balança, tendo a verdade como referencial no outro prato. Depois de pesados os corações, e se estes fossem mais pesados que a verdade, a pena seria arbitrada por Maat, a deusa da justiça e consorte de Anúbis. Corações mais pesados que a verdade eram devorados por Ammit. Em caso da leveza dos corações, o defunto seria encaminhado ao paraíso. Homero, por sua vez, fala no Hades, um inferno mitológico, e também nos pesados desafios que aguardam as almas que para lá se dirigem.

Mas foi Dante Alighieri, em sua Divina Comédia, que estabeleceu uma divisão tripartite para a possibilidade da vida pós-morte. Não há balanças na visão dantesca, mas rios que devem ser cruzados a título de ordálios, estes em parceria com a mitologia grega. Caronte, um barqueiro mal-encarado e o primeiro capitalista selvagem de quem se tem notícia, pois cobrava para executar seu trabalho - na verdade uma economia informal - conduzia os recém-chegados às portas do Hades, o círculo mais rasteiro, mais famoso e mais acessível à raça humana. Aquele que não tivesse uma moeda, sequer seria sepultado e estaria condenado a vagar na condição de alma penada. Aí começo a perceber certa discriminação social. Mas continuemos. O primeiro desafio a ser vencido é navegar, sob o comando do capitão Caronte, nas águas imundas do Cócito.

O Cócito é conhecido como o rio das lamentações. De início a alma lamenta por estar morta, lamenta também pelas condições de navegabilidade das águas, lamenta pelo odor das mesmas, lamenta por seu passado terreal, por sua conduta, por seus pecados. Algumas ainda lamentam por não saber nadar. Depois das lamentações e arrependimentos o morto muda de águas e adentra Aqueronte, o rio do infortúnio. Neste, a alma do morto experimenta a desgraça, o sofrimento, e na mesma medida em que causou danos e desditas aos semelhantes quando ainda vivo.  E só então chega às portas do Hades.

Dependendo se o viajante prosseguirá em seu tour, Aqueronte espontaneamente se transforma no Estige, o rio da invulnerabilidade. Ali as almas experimentam regozijo, afinal não mais ficará exposta ao sofrimento, à dor. Pelo Estige se chega ao purgatório - o nível intermédio da vida post mortem - e lá a alma descansa e se prepara para a próxima e última etapa do cruzeiro mítico-metafísico. Há uma mudança de águas, não por sua característica, mas por sua finalidade. Eis o Lethe, o rio do esquecimento. Desta água a alma tocará e beberá para poder experimentar total esquecimento; o defunto olvida quem foi, o que fez, o que deixou de fazer. Bem, aos que em relação à morte se mostram preconceituosos, devem folgar, pelo menos, com este aspecto positivo. E limpos, límpidos, cristalinos e diáfanos chegamos ao céu, o mais alto grau da comédia pós-existencial.

Meus leitores podem até estranhar esta minha declaração, pois embora não familiarizado com os esportes aquáticos, quero bem nadar para vencer no menor tempo possível as agruras nas travessias do Cócito, do Aqueronte, do Estige. Feito isso, beberei à larga do Lethe e ocupar meu lugar no céu. Quem sabe ainda possa encontrar minha Beatriz?

sexta-feira, 23 de novembro de 2018

Pós-guerra



O ano é 2072. Estamos no pós-guerra; a 3ª Guerra Mundial, de fato, aconteceu. Sim, mas não nos moldes da guerra que até então conhecêramos. Vivenciou-se uma guerra digital, disputada palmo a palmo, com mãos sobre o teclado, com olhos aflitos e fixos em telas, em vídeos. Hackers? Os grandes heróis foram os grandes derrotados. Aliás, como em toda e qualquer guerra não existem vencedores. As redes, os sistemas, os programas se foram; tudo perdido. O que estava nas nuvens evolou-se. Nada mais de interfaces, de bluetooth, de pixels, de gigabytes; tal terminologia caiu de moda, deixou de ser pertinente. Não mais comunicação digital. É imprescindível retornar às ligações telefônicas convencionais e fazer uso da piezoeletricidade; temos que resgatar o código morse. Documentos, dados, informações de valor inestimáveis perdidas. Onde foi parar nosso desenvolvimento científico? Estavam armazenados em arquivos ditos seguros, invioláveis. Qual nada! Qual a segurança em uma guerra? É difícil recomeçar sem um ponto de partida. Onde nossa história? Não mais existem anotações; o papel tornou-se obsoleto. Temos que reinventar o papel; reelaborar a comunicação via missivas. Poucas obras de arte restaram, e isso graças a colecionadores considerados reacionários e ultrapassados. A juventude não mais sabe escrever, pois apenas se comunicavam via redes sociais; as relações e interações davam-se apenas quando conectados. Até a deflagração da guerra, os jovens acreditavam que o fato de estar online seria suficiente para dizerem-se informados. Para fugirem da mesmice e ainda estimulados por uma vaidade gritante praticavam crossfit. A nova geração não mais sabe expressar-se; precisa passar por um processo de ressocialização, inclusive atentando para o retorno presencial às escolas. Mas o que mais me causa espanto, me revolta e entristece, é que os jovens desconhecem o que é um livro.

quinta-feira, 22 de novembro de 2018

Demografia carcerária



Era uma vez um senhor, alguém muito equilibrado e preocupado em manter a família em harmonia, coesa e com hábitos sadios. Entretanto, certa feita, ao chegar em casa, deparou-se com uma cena, no mínimo grotesca, pois sua filha estava a fazer sexo bizarro no sofá da sala com o namorado. Tal senhor, vencida as primeiras impressões que muito lhe constrangeram, resolveu tomar uma atitude, de modo que tais práticas jamais se repetissem. Pois bem, ele vendeu o sofá.

Neste momento meus possíveis leitores devem estar rindo à larga, mas posso vos afiançar que não foi este meu propósito. Não, definitivamente não, pois, mutatis mutandis, decisão parecida deve ser tomada pelo nosso eminente Presidente do Supremo Tribunal Federal, Ministro Dias Toffoli. Pasmem! Recentemente, ao mostrar-se assaz preocupado com a superpopulação carcerária no Brasil, declarou que as penas devem ser abrandadas de modo a se observar um esvaziamento substancial nas prisões. Pior do que isso foi a justificativa dada pelo preclaro ministro. Disse ele que nem na Idade Média haviam tantos condenados com pena privativa de liberdade. Aqui, então, dirijo uma questão direta a Sua Excelência: Qual era a população do planeta na Idade Média? Posso antecipar-me: no ano 1000, a população mundial estava em torno de 265 milhões de pessoas; ao final da Idade Média, a densidade demográfica do planeta era em torno de 425 milhões de pessoas. A população no Brasil hoje é de 208,5 milhões de habitantes, ou seja, praticamente a população do planeta na alta Idade Média. Nada obstante, deve-se ter em conta que grande parte dos apenados na época sofriam a pena capital. É pertinente recordar ainda da Inquisição iniciada na baixa Idade Média, pois que esta levou muita gente para a fogueira.

Em resumo, e por inferência, posso dizer que nosso Ministro pretende vender o sofá. E a partir de sua hábil premissa, dou início a algumas orientações aos insignes leitores: a) se o rendimento advindo de atividade laboral não for suficiente para garantir a mínima subsistência, pedi demissão! b) se o quadro no estado de saúde mostrar algum desarranjo, mesmo que passageiro, suicidai! c) se as visitas constantes de familiares e vizinhos te causam tanto desconforto, ide morar nas ruas.

A esquerda e a síndrome de Procrusto.



Antes de tudo, mergulhemos a fundo na sábia mitologia grega. Lá encontraremos Procrusto, bandido que habitava a montanha Elêusis e aterrorizava a polis de Coridalos. Narra o mito que Procrusto convidava os viajantes a repousarem em sua casa, em sua cama. Acontece que a cama deveria ter exatamente o tamanho do anfitrião. Se os hóspedes tivessem altura maior que a cama, ele amputava parte de seus membros para ajustá-los à cama; se fossem menor que a cama, Procrusto esticava seus membros até que ficassem na medida exata do leito referência. Aqui, longe de fazer piada, poder-se-ia dizer que a cama de Procrusto era, de fato, um leito de morte.

Como a fama do assassino espalhara-se por toda a Hélade, Palas Atena, deusa guerreira e símbolo da sabedoria, resolveu investigar. Em lá chegando, ouviu do celerado a justificativa de que agia conforme a justiça e a razão, pois que as diferenças eram injustas e permitiam que uns se sobressaíssem e subjugassem os demais.  Aqui abro um parêntese na narrativa mítica, com intuito de chamar vossa atenção para o fato de que as argumentações dos cínicos têm sido as mesmas, haja vista a retórica esbanjada pelos acusados na “Operação Lava Jato”. Bem, de volta ao mito, encontramos um Procrusto bem à vontade, pois que findou sua declaração à deusa com o argumento de que sua cama acabava com a diferença, igualando todos os homens. Não obstante, deparamo-nos com o inusitado, pois Palas Atena, diante da justificativa do pária, emudecera. E mais uma vez vejo-me obrigado a abandonar o mito para tecer breve comentário: a atitude de Palas Atena remeteu-me celeremente ao nosso STF, pois nossos ministros se vergam e se mostram apáticos, senão omissos, frente às mais esdrúxulas alegações realizadas pelos acusados e seus advogados. Racionalidade?

Na tentativa de absorver o logos - a explicação - referente ao mito, devemos ter em mente que a questão da igualdade era tema recorrente dentre os povos da antiguidade. No entanto, Aristóteles pode vir em nosso socorro quando nos fala de sua Justiça Distributiva, isto é, o tratamento isonômico implica tratar os iguais como iguais e os desiguais como desiguais, na exata medida de suas desigualdades. Aristóteles e depois Nelson Rodrigues ainda nos prega: “a igualdade é burra”. Mas por que Palas Atena emudecera? Por que a Sabedoria omitira-se? Simples: questões como igualdade não são tratadas unicamente pela razão, muito pelo contrário, a razão tem participação mínima; esses temas são do orbe da paixão. Seres humanos são seres eminentemente piegas, passionais e não racionais; a razão é nada mais que um artifício da própria paixão.

Neste momento seria pertinente vossa pergunta: “E o que a esquerda tem a ver com isso?” Calma, muita calma nessa hora! De fato, o apelo à igualdade experimenta sua retomada e conhece grande impulso na Revolução Francesa. Não devemos esquecer o lema: Liberté, Egalité, Fraternité, pois isso seria uma grosseria com nossos amigos franceses. Contudo, percebeis vós que tais princípios se excluem? Sim, a liberdade proposta é uma liberdade de propriedade, para se colocar contra a exploração e a expropriação dos bens do povo. Como, pergunto-vos, esta liberdade pensará em igualdade e fraternidade? Como um mesmo tratamento imposto a iguais e a desiguais pode se revelar fraterno? Não, de fato houve grave equívoco na assertiva, o que talvez explique o fracasso das propostas da modernidade.

Sim, e vós ainda insistis na pergunta: “E a esquerda?” E eu vos respondo: Quem mais dissemina o culto à igualdade senão a esquerda? Ela, a esquerda, para atingir seus objetivos, traveste-se de “politicamente correto”, de “direitos humanos”, de “democracia”, de “liberdade de expressão”, de “respeito às diferenças”, e evidentemente, fala todo o tempo em igualdade. Bem, aqui peço desculpas e pratico uma espécie de mea culpa, pois devo retornar ao mito para complementá-lo, e isso graças à esquerda. Procrusto não tinha só uma cama; a outra cama ficava oculta. Quando alguém se ajustava perfeitamente a uma delas, ele lançava mão da outra, e isso com o fino propósito de mutilar, de afastar os que a ele se equiparava. Eis, enfim a esquerda: não há apenas um padrão, mas pesos e medidas diferentes para se tratar não os desiguais, mas os assemelhados que não partilham de seus hábitos, de seus afazeres, de suas preocupações, de suas vilezas.

quarta-feira, 21 de novembro de 2018

Estímulo à servidão



Minha homenagem a Aldous Huxley

Independente da forma ou sistema de governo, pode-se identificar facilmente um traço em comum: a preocupação, pelo menos no discurso, em promover o bem estar da população - o Welfare State - na verdade, o típico estado assistencial, no qual esteja garantido um padrão mínimo de educação, saúde, habitação, salário e segurança. Mesmo em se tratando de um único Estado, tal fenômeno poderá ser percebido dentre as diversas ideologias e partidos. Então surgem algumas questões: Essa seria uma exigência das populações em si mesmas nos diferentes Estados? Por que a semelhança não só nos discursos, mas também nos procedimentos? O que leva políticos de diferentes correntes e orientações demonstrarem detalhe de pensamento tão homogêneo?

Vejamos! Toda e qualquer ideologia ou corrente de pensamento político compromete-se com a segurança econômica de seus cidadãos, e, ipso facto, do Estado. Por que? De início a pergunta pode parecer retórica, mas não o é. Em verdade, a segurança econômica tornou-se algo aceito como “normal”. Todavia, ela, a segurança econômica, apesar do status de “normalidade”, é refém de diversas variáveis, o que foge ao controle dos estadistas. Logo, para que a lacuna tida por “normal” seja suprida, recursos outros são acionados e disponibilizados. Na verdade, os recursos substitutivos se instalaram e provocaram uma profunda revolução pessoal na mente humana. E a revolução nas mentes, por sua vez, teve outros suportes.

Neste momento os senhores e senhoras, por certo, perguntar-me-ão: Como? A princípio fizeram-se necessárias descobertas científicas. Seres humanos passaram a se preocupar com tudo que promovesse ou contemplasse sua comodidade. E, destarte, se voltaram para conquistar e /ou adquirir todas essas benesses científicas. Evidentemente, que a ciência econômica vem contribuindo sobremodo com o incentivo ao crédito. Aliadas às descobertas científicas somaram-se aperfeiçoadas técnicas de sugestão, voltadas, evidentemente, ao condicionamento infantil, nas quais pode-se observar o culto ao imaginário, ao lúdico, etc.

As ciências humanas, e aqui me reporto à filosofia, à sociologia, à antropologia e à psicologia, muito embora o nímio verborrágico, nada mais fazem do que estabelecer e afixar os indivíduos em seus devidos lugares na hierarquia social, pois que, pessoas mal adaptadas se revelam como problemas. Percebestes que, ao nos depararmos com uma situação/circunstância atípica ao ambiente social, a primeira providência a ser tomada, com o apoio inequívoco da mídia, é apresentar um “especialista” para discorrer sobre a temática que, ao colocá-la em discussão, termina por banalizá-la?  

Faz-se mister também realizar a substituição dos vícios por coisas mais prazerosas e menos nocivas, afinal, trata-se do bem-estar social. Que tal os fast foods em lugar do álcool? Que tal o sexo em lugar das drogas? Comer em demasia e fazer sexo não se opõe ao politicamente correto. O mais importante, contudo, é a padronização do ser humano. Devo evocar fato, no mínimo curioso: temos manuais para tudo! Temos manuais para alcançar a felicidade, manuais para sermos saudáveis (tanto em ternos de alimentação quanto de exercícios físicos), temos uma vasta leitura de autoajuda, em como se livrar da depressão, etc. Lembrar-vos-ei, contudo, que existem diversos modelos a serem seguidos, seja o imperativo estético, seja a submissão aos desmandos da moda, seja no tocante aos comportamentos, seja no que tange ao próprio pensar, muito embora a “empolgante” bravata da liberdade de expressão, e isso tudo sujeito a uma espécie de patrulhamento. Este patrulhamento, algo de cunho tipicamente ideológico, na verdade, trabalha com a possibilidade de uma “eugenia social”.

Bem, cumpridas as etapas acima descritas, estamos diante de uma sociedade perfeita. Seria? O que temos, então? A realização de uma utopia ou o quadro degenerado de uma distopia? Não, mas nada disso importa. Os seres humanos têm ou detêm, seja o que for. Eles buscam apenas ajustarem-se a um quadro social mesmo que desumanizado. Suas preocupações tornaram-se mínimas, irrisórias; eles seguem manifestamente a um protocolo, e nada mais. Por que questionar o prazer? Sim, e se perguntados, dir-se-ão felizes. E, nós outros, enfim, poderemos entender o porquê da hegemônica “atuação” de insignes políticos: eles conseguem fazer com que a humanidade ame sua condição de servidão.

terça-feira, 20 de novembro de 2018

Demagogia do Irreprimido



Inicio fazendo uso da educação bancária, pois os possíveis leitores, já que oprimidos, adoradores de Paulo Freire, por certo não conhecerão o conceito de demagogia, muito embora a demagogia faça parte do mundo e também se mostre como um correlato da consciência. Na qualidade de opressor, portanto, reclamo vossa atenção! Vamos ao conceito (não precisa decorar!) Demagogia: a) pode ser uma forma de governo onde o povo prepondera, ou seja, exerce influência superior; b) pode ser uma forma abusada de democracia (abusada = forma errada, inconveniente; agir para que somente seus interesses sejam atendidos); c)  pode tratar-se de facções populares (integrantes de partidos; bando político que trama a ruina de seus adversários) exercendo uma dominação tirânica, isto é, um domínio injusto, opressivo; d) pode ser também, e o mais provável no nosso caso, discurso que tem por objeto manipular paixões e sentimentos para conquistar mais facilmente o poder político.

Bem, o irreprimido é aquele que não tem inibição, não é tímido e não conhece limites. O famoso “cara de pau”. Em termos de uso vernacular ou mesmo norma culta, pode-se usar o termo cínico. Nesta oportunidade, não pretendo discorrer sobre o possível plágio ao missionário Frank Charles Lauback, nem mesmo a provável cópia ao método do Marquês de Condorcet. (vide “Cinco memórias sobre a instrução pública”, publicado pela editora Unesp). Nada obstante, surge uma primeira questão: como o irreprimido - o cínico - (que não conhece qualquer tipo de repressão) pode identificar oprimidos e defender seus interesses? É onde se justifica o termo demagogia.

Aos que não se submetem, entretanto, aos conchavos da “intelectualidade humanizadora”, pergunto: percebestes como as diversas maneiras de se entender a demagogia acabam por se somar e nos fornecer uma ideia ampla do que foi tramado para o Brasil e outros países que se permitiram encantar por Paulo Freire? Conseguiste atentar que o discurso freireano, bem como sua pedagogia, atendem direta e descaradamente aos propósitos comunistas? Sim, o processo é o mesmo, a começar pela vitimização. O segundo passo é apontar o algoz, o opressor, ou melhor, o professor. Terceiro passo é disseminar a retórica messiânica, com a promessa de tudo resolver. “Não mais haverá oprimidos ?????; todos usufruirão da liberdade????” Blábláblá. Depois disso, basta conduzir a manada, isto é, os oprimidos - exatamente como o opressor, que ele tanto critica. Enfim, o novo modelo pedagógico, doravante, também manipulará, também castrará, também dará origem ao ser menos.

Curioso é que mesmo citando Sartre em abundância, nosso “Patrono” não vincula liberdade à responsabilidade (o gripo é meu). O que um dito oprimido entenderá por liberdade, já que a liberdade deverá se apresentar “espontaneamente” em seu convívio para ser descoberta, trabalhada e então desfrutada? Não seria esse conceito, adquirido não através da educação bancária, mas pela educação como “prática de liberdade”, o responsável pelo expressivo número de analfabetos funcionais, pela banalização e descrédito do magistério e pelo crescente número de agressões aos docentes em sala de aula?

Ao falar de Hegel, na Fenomenologia do Espírito, capítulo IV, independência e dependência da consciência de si - a dialética do Senhor e do Escravo - parece-me, salvo melhor juízo, que nosso Irreprimido Confessor adaptou (adaptação seria um eufemismo) o pensamento hegeliano a seu bel-prazer e com o propósito de dar embasamento a sua estúrdia teoria: Oprimidos versus Opressores. Segundo Hegel, entre senhor e escravo há uma dupla dependência e uma dupla submissão. O senhor só é senhor porque existe escravo; ele precisa do escravo para realizar-se como senhor e através de seu trabalho, portanto, o senhor é dependente do escravo. O escravo, por sua vez, o que domina e transforma a natureza, mesmo que sob as ordens de seu senhor, percebe-se como o único capaz de fazê-lo (dominar e transformar a natureza), e isso o deixa em vantagem em relação ao seu senhor. É onde ele conhece a liberdade. Senhor e escravo, portanto, são correlativos necessários. A relação é indestrutível. Na “educação como prática de liberdade”, Paulo Freire, denotando um ingênuo ou proposital desconhecimento, fala em revolução - coisa tipicamente marxista - para eliminar os “imaginados opressores”. Nós, os opressores, cultores da educação bancária, tão odiados, repelidos, refutados, somos até mesmo acusados de hipócritas quando demonstramos qualquer laivo de generosidade. Não, nem pensais, portanto, em solidarizar-se com os que são identificados como oprimidos, pois qualquer generosidade nossa seria um embuste para que nos regozijássemos da situação deles. 
  
Paulo Freire também faz uso do método fenomenológico. Seres humanos e mundo - Das Lebenswelt, “o mundo da vida” - postulação de Edmund Husserl - devem estar em íntima relação para que o conhecimento se torne possível. Os objetos cognoscíveis dão-se espontaneamente aos sujeitos cognoscentes.  O importante é a intencionalidade da consciência, ou seja, a consciência é sempre a consciência de algo que não ela mesma. O fundamental para o conhecimento é, portanto, o ato intencional da consciência, ou seja, a vontade de conhecer, o querer conhecer. Logo, dialogicidade na educação é mera falácia. A dialogicidade olvida e manifesta indiferença à especificidade conceitual. O capítulo III da Pedagogia do Oprimido discorre sobre situações limites e temas geradores, que nada mais são do que as preocupações dos camponeses. Os “pesquisadores”, da mesma maneira que os defensores da “educação bancária”, tornam-se os novos “hóspedes” da classe oprimida. Na verdade, os ideólogos de esquerda, depois da codificação e descodificação postulam uma “ação cultural libertadora” ou “ação educativa”, ou seja, despejam a rodos toda uma ideologia caquética, visando, evidentemente, a manipulação comportamental campesina, haja vista a atuação do MST e seus assemelhados. 

Como o nefasto método se emprega na alfabetização de adultos, sugiro a vós outros, problematizadores, politizadores e libertadores da educação - até para mitigar minha culpa em face do status de opressor - não um quefazer revolucionário, mas algo que extraia os ainda oprimidos da “imersão”. Não, não vos preocupeis em apresentá-los a Beethoven, afinal isso é música das elites, de opressores. Apresentai-os apenas a um humilde dicionário, pois, já que tão politizados, sejam capazes de escrever algumas éclogas. Quem sabe, em meio às criações aberrantes que vós, intelectuais de esquerda, rotulais de populares, não venha surgir uma referência artístico-cultural inovadora?