“Bem aventurados os limpos de coração, porque eles verão a Deus”. Mt. 5:8
Meister Eckhart, em O Silêncio da Criação, aponta-nos
condição única e basilar para que Deus se nos revele. Para tal, devemos
preencher o requisito de “[...] pessoa fiel e per-feita (feita a partir de) que
caminhou e caminha os caminhos de Deus”. E em seguida fornece-nos alguns detalhes:
“É por isso que a alma deve-se manter toda pura e viver em toda a nobreza, com
todo reconhecimento e em toda interioridade”. No livro dos Salmos, encontramos:
“Eis que te comprazes na verdade no íntimo, e no recôndito me fazes conhecer a
sabedoria”. (Salmo 51:6). Portanto, “não se deve dissipar com os sentidos pela
variedade multiforme das criaturas”. Voltemo-nos a nós mesmos, à nosso
interior, no que possuímos de mais puro, pois este é o lugar do silêncio. O
salmista mais uma vez clama ao Senhor: “Purifica-me com hissopo e ficarei
limpo; lava-me e ficarei mais alvo que a neve”. (Sl. 51: 7.) “Tudo que for inferior, ofereçamos-lhe
resistência”.
Neste passo, fazem-se necessários
alguns esclarecimentos: Silêncio, para Eckhart, não se resume à cessação de som
ou ruído; silêncio é condição, é lugar específico. O silêncio “deve ser e estar
no que a alma tem de mais puro, de mais nobre e de mais delicado”. No Salmo 51,
versículo 10, encontramos: “Cria em mim, ó Deus, um coração puro e renova
dentro em mim um espírito inabalável”. Trata-se do lugar mais oculto, o recôndito,
o ser da alma, isto é, sua essência. A alma deve ser entendida como substância
vivente, simples e incorpórea, invisível aos olhos do corpo. Ela apresenta três
aspectos fundamentais: a imortalidade, a racionalidade, a intelectualidade; não
possui representação e tem o corpo como instrumento. A imagem da Sabedoria
Divina dá origem a alma. O Ser da alma, a essência, por sua vez, é nada mais
que a parte de Deus presente em sua criação. O ser da alma e Deus são Uno.
Nesse meio silencioso a Unidade atua; aí Deus dá continuidade à sua criação; lá
Deus pronuncia sua palavra.
Em face do exposto, poder-se-ia pensar
que já dispomos de informações suficientes para conhecer a Deus. Contudo, nosso
conhecimento ainda é falto, superficial. Continuemos, pois: A alma, como dito
acima, tem o corpo como instrumento. Todas as ações da alma dependem de
intermediação; ela faz uso dos sentidos corpóreos, bem como das faculdades para
realizar suas obras. Tudo que a alma exterioriza ela o faz com auxílio dos
sentidos; o que ela cria e interioriza acontece por intermédio das faculdades, seja
a razão, a memória, a vontade. Estas faculdades, características das criaturas
que agem e operam, tem origem no Ser, no Uno, onde Deus pronuncia Sua palavra.
Deus, portanto, é a fonte do conhecimento!
No conhecimento, ou seja, no contato exterior,
as almas, através dos sentidos e faculdades, retiram e haurem das criaturas imagem
e semelhança, recolhendo-as a seu interior. A imagem é algo que a alma recolhe
das coisas através das faculdades. A alma não é receptiva; ela só consegue
conhecer através das imagens que ela mesma forma das criaturas. Logo, a alma
não pode conhecer a si mesma, porque não possui uma imagem de si. A alma só é receptiva
a Deus, isto porque Deus não exige mediação; Deus não passa pelos sentidos
corpóreos e não carece de faculdades intermediárias para dar-se a conhecer.
Deus é o Ser no fundo da alma; Ele é Uno com as almas de suas criaturas.
Bem, agora podemos dizer, de fato, que conhecemos a Deus, muito embora não tenhamos Dele uma imagem. O ser humano é capaz de intuir, perceber e reconhecer Deus em sua interioridade, mas não consegue descrevê-Lo. E é nesse reconhecimento que se origina a fé. Estai atentos! Deus pode até ser contemplado, mas não pode ser descrito, não pode ser caracterizado ou comparado. Não há linguagem capaz de fazê-lo! Isto porque Deus não pode ser mensurado; a mensuração é recurso humano e apenas reflete a pequenez dos seres diante da natureza e de seu Criador.
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