quinta-feira, 27 de dezembro de 2018

O Presidenciável



Chico andava de um lado para outro, meneava a cabeça de modo cômico, recolhia as enormes gengivas ao ensaiar um sorriso, emitia alguns gritos curtos e lançava o corpo para trás numa pirueta engraçada. Sim, Chico era um chimpanzé, um chimpanzé-comum, um Pan Troglodytes, primata do gênero Pan, da família Hominidae, da subfamília Homininae. Nosso personagem aguardava impaciente o alfaiate de renome que lhe tiraria as medidas e lhe faria um terno de ocasião. Não, não esperem que o simplório chimpanzé manifeste elegância em um Giorgio Armani, afinal já faz bastante tempo que nosso país carece de um representante que exteriorize alguma elegância, seja ela no falar, no pensar ou no agir. A vestimenta, contudo, fazia-se necessária, pois não é todo dia que temos um pequeno primata lançado como candidato à Presidência da República. 

Aqui os senhores e as senhoras, não necessariamente nesta ordem, leitores em potencial, exclamarão: Um chimpanzé! Sim, a estupefação é compreensível e nada vinculada a qualquer preconceito. Igualmente baseados em uma inconfessada estupefação, mas com a abundância de motivos preconceituosos, diversos partidos envolvidos na corrida presidencial entraram com recurso junto ao Tribunal Superior Eleitoral, TSE, objetivando a impugnação da candidatura de Chico.

Bem, ciente de que a temática envolve uma série de dúvidas, permito-me antecipadamente esclarecer-vos acerca das mesmas. Diz-nos a Constituição Federal de 1988, em seu Art. 14, §3º, as condições necessárias para a candidatura à Presidência da República. Ei-las: 1- Ser brasileiro nato. Ora, Chico tem sua brasilidade reconhecida em cartório, posto que a família que o adotou, não só exigiu seu Pedigree, mas também sua Certidão de Nascimento expedida pela autoridade notarial. 2- Ter mais de 35 anos completados antes do pleito. Perfeito; Chico tem 35 anos e 4 meses, segundo ainda a mesma Certidão de Nascimento. Chimpanzés vivem em média 40 anos, mas Chico deve transcender tal limite, pois não bebe, não fuma e é adepto do Fitness. 3- Ter o exercício de seus direitos políticos. Ora, segundo o Art. 15 da mesma Constituição Federal, os óbices que impedem o exercício dos direitos políticos são: a) cancelamento da naturalização por sentença transitada em julgado. Fiquemos calmos, pois Chico nunca foi naturalizado; vide Certidão de Nascimento anexa. b) incapacidade civil absoluta. Ora, Chico conduz-se com autonomia, independência e eficiência na vida; ele rege seus bens pessoais. Tente surrupiar, mesmo que a título de galhofa, uma banana de Chico e saberás, in loco, o que é, de fato, reger os próprios bens. c) condenação civil transitada em julgado. Bem, Chico, diferentemente de alguns outros candidatos a cargos públicos, não ostenta qualquer acusação, e, portanto, qualquer condenação. d) recusa a cumprir obrigação a todos imposta ou prestação alternativa. Chico, de fato, não serviu a pátria, mas por conta do excesso de contingente. Mesmo assim, Chico prestou grande serviço à comunidade quando o pequeno vilarejo onde nasceu e viveu foi invadido por um sem número de serpentes. Ele ficava em cima das árvores e punha-se a fazer enorme escarcéu quando divisava qualquer coisa rastejante; inegavelmente foi de grande utilidade pública. e) improbidade administrativa. Nunca se soube de qualquer deslize de Chico no que tange à coisa pública. Portanto, satisfeitas tais exigências, podemos continuar dando sustentação à candidatura de Chico. 4- Ser eleitor e ter domicílio eleitoral no Brasil. Bem, domicílio eleitoral é algo inegável. Quanto a ser eleitor, faz já uns 14 anos que um dos candidatos de certo partido com orientação esquerdista, na época muito popular, visando a uma das cadeiras na Câmara de Vereadores da cidade, e desconhece-se a que preço, conseguiu conferir a Chico um Título de Eleitor. Nosso personagem, primata zeloso, aprendeu a digitar o número do candidato escolhido e premer o botão de Confirme. 5- Ser filiado a uma agremiação ou partido político. O mesmo candidato que lhe conferiu o Título de Eleitor, tratou de sua filiação ao partido. Mas Chico depois foi cooptado por outros partidos, haja vista sua atuação e boas relações com todos os habitantes da comunidade. Hoje, podemos dizer, que Chico é membro de um partido de centro, tendendo mais para o liberalismo do que para qualquer socialdemocracia ou para um contraditório socialismo-cristão.

Bem, os advogados dos partidos que entraram com recurso no TSE entenderam que seria melhor unificarem a representação, e, para tanto, deixaram como responsável para gerir a causa o causídico do partido de esquerda, o mesmo partido que conferira a Chico o Título de Eleitor e que o aceitara como membro. O advogado, Dr. Incredulano Chinfrim, sujeito branquelo, calvo, parecendo um suricato, aceitara a causa não por considerá-la procedente, mas apenas para ficar conhecido; ele buscava tornar-se celebridade. Ele queria o reconhecimento público, e para alcançar tal desideratum não mediria esforços: ele faria apelações aberrantes, expenderia recursos os mais esdrúxulos, usaria de chicanas protelatórias, etc.

Não obstante, o relator do processo do TSE, acompanhado por unanimidade pelos seus pares, entendeu que a candidatura de Chico seria não só pertinente, bem como estaria amparada pela Constituição Federal. O eminente relator embasou-se nos Direitos Humanos dos Animais. O que???!!! Calma, muita calma nessa hora. Como diria Jack, O Estripador, “vamos por partes”. Segundo alguns de nossos mais preclaros juristas, “os animais não têm natureza jurídica diferente dos humanos”. A Constituição da República, em seu Art. 225, entende que o meio ambiente, e por extensão os animais são considerados bens de uso comum do povo. Já o Art. 32 da Lei 9.605/98 esclarece-nos que o termo “abuso” não deve ser relacionado apenas à violência contra a integridade física dos animais; o vocábulo “abuso” é bem amplo e incorpora pressões psicológicas. Ora, além do Ordenamento Pátrio - advogados, juízes e ministros adoram usar este termo - nosso relator entende que os animais não são propriedades; nosso entendimento deve evoluir no sentido de que os animais tenham acesso aos direitos fundamentais, o que implica autonomia, liberdade, etc. Ora, impedir Chico de candidatar-se seria uma agressão a sua cidadania, uma agressão a sua liberdade, um abuso, o que, portanto, feriria um preceito constitucional.

Incredulano Chinfrim entrou com recurso no mesmo TSE na tentativa de revogar a decisão, mas tal expediente foi negado; os embargos foram igualmente recusados. Enfim, Chico teve sua candidatura homologada depois de julgamento em segunda instância por órgão colegiado. Mas, como meu público leitor conhece a realidade brasileira, apesar do mérito já ter sido julgado, ainda cabe recurso ao STF. Enquanto isso, Chico prepara-se para sua aparição em público, com direito a marqueteiro, carreata e tudo mais. Sim, seu slogan de campanha é: Não pague Mico, vote em Chico! Porque isto aqui não é mais uma republiqueta de bananas. 

domingo, 16 de dezembro de 2018

O leilão




A informação chegou-me de modo espontâneo, porém com apoio de recursos documentais. Sim, eu e esta minha mania de vasculhar papeis velhos em bibliotecas. Imaginai que eu buscava informações acerca de fósseis no Brasil, ou possíveis vestígios deles, na patente demonstração de paleontólogo amador, quando vi-me requestado por uma pilha de papeis jogados a um canto de uma das muitas salas mofadas da biblioteca municipal. Sim, a biblioteca estava literalmente entregue às traças, pois encontrava-se refém de funcionários incompetentes, presa fácil de jovens mal informados, chefiados por burocratas sisudos e empolados.

Debrucei-me sobre a pilha e comecei a manusear os papeis: eram jornais antigos, amarelecidos, borrados. Em um dos exemplares encontrei a data: 10 de fevereiro de 1842. Sim, a Carta Constitucional fora restabelecida. Mas havia notícias outras, se bem que uma em especial reclamou-me a atenção: trazia o aviso de que determinado navio aportaria aquela tarde no Rio de Janeiro, e que em quatro dias teria lugar o leilão de escravos. Muito embora a notícia ainda hoje me constranja e acuse asco, devo observar que para a realidade de então a informação seria corriqueira. Todavia, como adendo à notícia, o inusitado: o jornal informava que junto com os escravos seria também leiloada uma turma de intelectuais da época, filósofos na verdade, que por conta de uma série de desmandos exibiam o adjetivo de malta.

A nota jornalística mostrava-se sui generis; em toda a história da filosofia, a não ser no caso de Platão, que preso por Dion de Siracusa, tornou-se escravo, foi posto à venda e depois arrematado pelos discípulos, não tivera ciência de nenhum outro caso, principalmente no Brasil imperial, ainda mais com número tão expressivo de representantes. Certifiquei-me desalentado que Diógenes Laércio estava ultrapassado. A notícia serviu-me de estímulo ao mesmo tempo em que deixava-me assaz desanimado: onde encontrar as notícias daquele singular leilão? Como encontrar o jornal do dia 14 ou 15 de fevereiro de 1842? Irritei-me: estava, de fato, aborrecido; a notícia acabara por fazer-me mal. Sentei-me ao chão, próximo à pilha de matutinos; os “funcionários” da fúngica biblioteca torceram o nariz, afinal o fim do expediente aproximava-se célere. Mas a perspectiva de ser bem sucedido açodou-me. Eu examinava um por um os jornais amarelados e puídos em busca de qualquer notícia acerca de leilões. O tempo passava; eu já me coçava de modo impertinente, não sei se por conta do contato com a abundância de fungos que dos noticiários deviam emanar, ou por conta de minha incontida inquietação.

Quase gritei: 15 de fevereiro de 1842. Meus olhos percorriam as letras, os trechos, as sentenças impressas. As frases buscavam se esconder de mim; eu ávido por consumi-las, por investigá-las. Eu observava coluna por coluna; eu esquadrinhava página a página. Opa, lá estava: o resumo do dito leilão! Curioso, o autor do artigo especificava, inclusive, os critérios utilizados pelos possíveis compradores de escravos: observavam dentes, o corpo, o aspecto saudável, habilidades profissionais, procedência, etc. No final do evento, todos os escravos tinham sido vendidos, mas ninguém quis comprar sequer um intelectual. Por quê? A pergunta não queria calar. Não, a partir daquele momento despi-me da faceta paleontológica e assumi minha desdita filosófica. “Por quê?”, eu repetia insistentemente de mim para comigo.

Dobrei-me, portanto, aos ditames da filosofia e pus-me a buscar conceitos. Enfim, o que é um escravo? Ser humano privado de liberdade e sujeito a alguém que dele desfruta como um bem, passível de ser explorado e negociado. O que é um intelectual? Alguém que declara-se livre de toda e qualquer sujeição e pensa por si mesmo. Será? Conversa fiada! Luciano, um jornalista da Mesopotâmia, antes mesmo do advento do cristianismo, comparara os intelectuais a colecionadores de moscas; dissera ele que, se levados a leilão como escravos, ninguém se interessaria em arrematar criaturas tão inúteis. Mesmo ao se descontar os excessos de Luciano, ficamos entregues a seres estranhos. Afinal, o que e quem são esses filósofos, essa dita intelectualidade? De onde veem? Como vivem? De que se alimentam? No Brasil, pelo menos, intelectuais são aqueles que, apesar de todo o discurso, submetem-se a outrem, ou por interesse ou por mau-caratismo; passam a defender legados estranhos e tornam-se torpes ideólogos; revelam-se simples arautos de pensamentos alheios, repetindo slogans e chavões a exaustão. A filosofia mesma é difundida através de máximas. Os intelectuais brasileiros submetem-se ao academicismo e investem-se de uma fatuidade que abeira a repugnância. Ser filósofo e/ou intelectual no Brasil é malbaratar a dignidade proporcionada pelo conhecimento em prol de reconhecimento ou de um lugarzinho ao Sol.

Ensandecido, rasguei o dito matutino.

sexta-feira, 14 de dezembro de 2018

Aliteração atípica.



Diz-se da aliteração ser uma figura de linguagem, caracterizada pela repetição consecutiva de sons consonantais idênticos ou parecidos. O texto abaixo pode ser entendido como aliteração, se bem que os sons consonantais e idênticos não se façam através de uma repetição consecutiva. 
 
Vamos a ele:

A título de PREâmbulo, adianto que a escolha das letras PRE, por não se tratar de sigla, não tem vinculação a qualquer partido político, apenas nos PREdispomos a ministrar breve aula de português, até por PREcaução ou PREvenção, haja vista a PREcariedade do ensino no Brasil. PREvino-vos, porém: evitais serdes PREmaturos em vossas PREvisões, pois não nos limitaremos a falar de PREfixos, ou seja, sílaba ou sílabas que PREcedem a raiz de uma palavra. Encerrada, portanto, nossa PREfaciação, tentaremos PREconizar aos PREclaros leitores a importância do PREdomínio desta parcela lexical, pois que além do interesse PREcípuo, o uso do termo PRE aliado a um complemento qualquer está muito presente em nosso cotidiano.

Não é PREcoce introduzirmos o tema político, afinal desde nossa PRÉ-história que vimos PREsenciando o PREjuízo não só da nação, mas principalmente do povo. E aqui não faço PREito a seu ninguém, seja PRElado, seja PRElecionador, seja PRÉ-letrado, PREposto, PREpotente, PREsbiteriano ou PREtor. Não, e não se trata de PREgação pautada em PREconceito. O fato é que, vítima de bem engendrada PRÉdica, o povo cedeu aos rogos do PREcito e o elegeu PREsidente, muito embora hoje a ele seja conferido o status de PREsidiário. E não foram poucos os PREterdolos. A coisa não ficou na PREsunção de inocência, na PREssuposição; foi muito além da PREvaricação. E como não houve PREscrição, PREponderou o peso da lei. 

Mas não ficamos por aí. Veio a sucessora, apesar das PREvisões e PREdições. A PREsidenta, que tinha por PREmissa render homenagens à macaxeira e estocar vento, PREgava de modo PREsto lisura e compromisso com a democracia. Esquecemo-nos, todavia, de examinar sua vida PREgressa: também fora PREsa, uma dica PREmonitória do caos que nos tornaria reféns. Nossa economia ruiu; a única coisa que ela PREfixou foi o modus operandi para atender aos interesses socialistas. E recebeu apoio de diversas esferas, desde humildes PREfeituras a PREeminentes figuras ligadas não só a política, mas às artes e à intelectualidade.

Por fim, chega-nos o ilustre PREterido, PREpotente, algo PREtencioso, algo indecoroso, um PREpóstero, PREssagiando o pior, o derradeiro PREjudicador. Tentou reformar a PREvidência, mas o intento foi a burla, foi a farsa. Para fugir também do PREsídio como tantos outros de seus afetos, PREsenteou-os com a liberação de PREcatórios, levando o país à condição de PRÉ-falência.

E eu, nesta fase PRÉ-natalina, PREtendo ofertar-vos um novo alento: alguém de fato PREstimoso, PREocupado com os rumos da nação, homem PREzado, umPREvisor, enfim, um PREfigurado salvador.          

quinta-feira, 13 de dezembro de 2018

Subserviência



Eis que no momento venho vos falar acerca da subserviência, bem como de suas possíveis causas e desdobramentos. Ora, a subserviência está diretamente ligada àqueles que têm propensão a obedecer cegamente; o servilismo típico dos que se fazem voluntariamente escravos. E a primeira pergunta invade nossas mentes: Por que? Percebei, este tipo de pessoa não se vê como escravo; ela é capaz, inclusive, de verter incansável oratória em defesa da liberdade. A subserviência oculta-se à percepção do subserviente; ela - a subserviência - é capaz de mostrar-se transcendente ao entendimento daquele que a expõe e publiciza. E uma segunda questão se nos torna incômoda: e qual seria sua origem? Simples, as pessoas que manifestam tal faceta, personalíssima, em geral, têm ciência de sua própria inépcia, muito embora sejam igualmente vitimados por excessiva vaidade. Ora, a excessiva vaidade aliada à escassa inteligência, revela-se como mistura explosiva e engendra a falta de dignidade. A falta de dignidade conduz seu detentor por caminhos, eu diria ... tortuosos. O indigno busca criar situações em que possa ser contemplado, e para isso não tem qualquer escrúpulo; ele busca apenas a realização de seus desejos. Ele bajula, ele adula, ele abusa da lisonja. E o pior de tudo é quando faz uso destes expedientes com um declarado apedeuta. Ao conseguir seu intento, - seja uma posição de destaque na sociedade ou cargo que lhe confira grande autoridade - o subserviente passa a nutrir pelo seu protetor uma obediência cega, algo bem próximo do fanatismo. Eis porque ele não consegue perceber-se subserviente; a baixeza provoca uma espécie de bloqueio cognitivo, onde não há lugar para uma mínima autocrítica.

Lançando mão de mero recurso didático para que melhor seja assimilado o conceito, passo, agora, ao exemplo. Eu vos reclamo atenção para o fato de que não se trata de hipótese, mas sim de exemplo. Ei-lo: Ricardo Lewandowski. A pessoa em questão tornou-se Ministro do Supremo Tribunal Federal sem nunca ter sido aprovado em qualquer concurso público. Ele propôs-se ficar à espera de nomeações durante toda a vida, adulando aqui, bajulando ali, até culminar no STF. Sim, ele é o exemplo vivo de subserviência, pois foi nomeado pelo ex-presidente e atual presidiário Luís Inácio da Silva. O que ele é deve-se à política rasteira de políticos inescrupulosos, o que por si só explica a subserviência. A subserviência esteve presente na votação do impeachment, quando, em conluio com o presidente do senado e a escória representativa, rasgou a Constituição; documento que como ministro deveria defender e preservar. O STF, pelo menos oficialmente, nunca se pronunciou a respeito. A subserviência está sempre presente nas seções do STF, principalmente quando a pauta envolve nomes e interesses do PT. E são atitudes de provocar o pasmo e o risível, dada às suas estroinices acintosas que, em vão, buscam amparo numa hermenêutica jurídica claudicante. Mas a subserviência é também eivada de arrogância. Vamos a mais um exemplo: semana passada, um advogado também passageiro do mesmo voo que o pândego ministro, ao exercer seu direito de livre expressão, declarou que o STF era uma vergonha, que sentia-se envergonhado pelo que lá ocorria. Então o papalvo, do auto de sua empáfia, do cimo do que ele julga ser autoridade incontestável, deu ao verdadeiro cidadão voz de prisão. No entanto, ele se empenha para que o ilustre presidiário de Curitiba, condenado em segunda instância, possa dar entrevistas a jornais e TVs, com o argumento que defende a liberdade de expressão. Durma-se com um barulho desses! E o pior é que recebe de outros ministros apoio e solidariedade. Amizade, respeito, admiração ou corporativismo?

segunda-feira, 10 de dezembro de 2018

A maldição



O texto abaixo foi baseado em fatos reais


Houve uma data, e já faz alguns anos, que eu, este que redige a presente missiva, declarei estar dando início ao processo de publicação, através de um blog para isso especialmente criado, daquilo que julgava, então, ser meus “dejetos” universais. Se os pouquíssimos leitores assim o consideraram, eu não saberia dizê-lo. Contudo, foram poucos os que se propuseram a lê-lo; e a cada dia percebo o reduzido número apequenar-se. Os possíveis comentários também se mostram mais e mais escassos. Pois bem, desta feita, venho vos participar a interrupção, senão a extinção de tais “bobagens”. Sem embargo, posso vos adiantar que se trata de algo como que um suicídio intelectual. E como o termo suicídio pode vir a suscitar um sem número de dúvidas e preocupações de ordem escatológica, buscarei de modo sucinto explicá-lo.

O que seria um suicídio intelectual? Bem, comecemos pelo suicídio. Suicidar é usado apenas como verbo pronominal. Ora, suicidar é tirar a própria vida; ou seja é reflexivo. Se suicidar for pronominal, então suicidar-se é matar-se a si mesmo, o que revela total redundância! Seria possível alguém suicidar a outro que não a si mesmo? Logo, o verbo é reflexivo, pois o ato de suicidar implica tirar a própria vida. Mas deixemos de lado estas questiúnculas gramaticais a cargo dos acadêmicos e voltemo-nos ao X da questão: suicidar é tirar a própria vida. Pois bem senhores, esta é a minha vida; eu amo escrever. E vou abdicar da mesma.

Mas o simples fato de escrever não satisfaz ao que escreve. Aliás, como toda arte, ela inicia pela visão particular do autor, algo subjetivo, se bem que guarde em si a pretensão de universalizar-se, de tornar-se objetiva, isto é, de ser assimilada por todos os que com ela travem contato. Estaríamos nós, artistas, autores, fadados a um anonimato existencial? Sim, anonimato existencial porque é contumaz os grandes artistas, pensadores e até cientistas obterem reconhecimento ou bem tardiamente ou numa condição post mortem. E, por favor, não me rotuleis de pretensioso por considerar-me grande artista ou autor. Sabeis por que? Porque eu o sou, e não pretendo arrastar para o túmulo a epígrafe de falsa modéstia.

Conseguis perceber? Até bem antes de optar pelo meu suicídio intelectual, vós já havíeis contribuído para tal sentença; vós outros - e aqui o universo é bem amplo - não mais cultivais o hábito de ler. Preferis, é claro, estar diante de um aparelho celular a ver e ouvir as patranhas que abarrotam as redes sociais ou a fazer selfies que tendem a vos enodoar com a perspectiva de tornar-vos celebridades. E eu que pensava ter conhecido a fundo a vaidade humana!

É isso, meu suicídio intelectual não é fake. Continuarei escrevendo; apenas nada mais será divulgado. Bem, e quanto a vós, fica aqui registrado o meu amaldiçoar. Não, não se trata da “vingança maligna” de um vampiro brasileiro. Não, pois até para se prever maldições faz-se necessário estudar, ler, informar-se. Caso vos falte o conhecimento, o que é evidente, ainda posso ser de algum modo útil: recentes pesquisas confirmaram que o hábito da leitura afasta e previne o mal de Alzheimer. A leitura não é só informação, formação e cultura, é prática terapêutica. Portanto, fica aqui o meu alerta, que a depender de vossa aceitação, poderá ser entendido como medicamento ou maldição.

Eu não ficaria realizado ou experimentaria qualquer satisfação em observar toda uma geração acometida de precoce demência.      

domingo, 9 de dezembro de 2018

Eleútheros




Alguns conceitos, por se fazerem amplos, acabam por transcender o entendimento humano. O conceito de liberdade é exemplo disso. Uma singela definição nos diz que liberdade é o direito de agir de acordo como nosso entendimento, contanto que esse direito não interfira e avilte o direito de outrem. Mas se temos o direito de proceder de acordo com nossa intelecção, por que a preocupação com o direito do outro? Afinal, o simples fato de não poder agir em conformidade com nossa razão para não ferir o direito de outrem, fere nossa liberdade. Em verdade, por se tratar de um direito, estamos na presença de regras, normas, leis. Ora, mas as leis tem por finalidade por limites à liberdade. Neste caso a liberdade assimila a condição de dever e não mais um direito. Eis um primeiro obstáculo em face da amplidão do conceito.

No entanto, gozar de liberdade é ser livre? Então perguntemo-nos: o que é ser livre? Ora, ser livre é poder dispor de si, é propor-se, é resolver-se, é resignar-se. Nesse caso, podemos nos sentir livres sem dispormos de nós mesmos. Percebei? Ser livre é um sentir. Ser livre não é um direito, mas sim uma condição, uma circunstância, uma autodeterminação, algo de foro íntimo; sentir-se livre estaria vinculado à idiossincrasia. A sabedoria estoica diz-nos que apesar de escravizados, os cidadãos podem sentir-se livres. O sentir-se livre independe da liberdade, pois que liberdade é conduta social. A liberdade deve e tem que passar pelo controle social para que não culmine no absoluto, no libertário, no anarquismo.

Nossa sociedade, no entanto, em face dos desmandos e da busca incessante por uma liberdade que desconhece qualquer responsabilidade, já transpôs o anarquismo. Nossa sociedade, e graças ao messianismo jurídico, aliado aos discursos escamoteados por uma retórica irritante da esquerda, já prescinde das regras e adentra o orbe da libertinagem. Sim, nosso comportamento social é totalmente desregrado, o povo mostra-se como dissoluto, devasso, licencioso, indisciplinado, negligente, imorigerado. Mas, curiosamente, a esquerda continua brandindo seu gládio, instando por liberdade, liberdade, liberdade...

E Eleútheros revelou-me em sussurro: “quando a verdadeira liberdade abrir suas asas sobre nós, ficaremos, enfim, libertos desta esquerda doentia e leviana”.

quinta-feira, 6 de dezembro de 2018

Correção de rumos




Em um primeiro momento, reclamo vossa atenção para o fato de que nossos jovens, estudantes do ensino médio e do ensino superior, manifestam-se sempre, e de modo homogêneo, a favor das militâncias de esquerda, bem como de movimentos ditos “democráticos”, que declaram preservar liberdades e direitos. Importante frisar, no entanto, que tais manifestações mascaram verdadeiros interesses. Se questionados, os jovens, independente da região do país, do poder aquisitivo, da orientação religiosa ou cultural, responderão com os mesmos slogans, os mesmos chavões, os mesmos clichês. Coincidência? Evidente que não. O que temos são gerações jovens vitimadas por um protocolo de doutrinamento, que vem sendo colocado em prática desde a chegada da esquerda ao poder. O referido processo, observado pelo campo da psicologia, tem por desiderato o bloqueio cognitivo, o que popularmente é conhecido como “lavagem cerebral”, pois prima pela repetição constante dos princípios que norteiam as ideologias de esquerda, inclusive exercendo uma espécie de patrulhamento ideológico, sem olvidar a perseguição ostensiva aos opositores. Não obstante, este processo de doutrinamento não foi forjado nas Universidades, Faculdades ou Centros Universitários; eles advém do ensino médio, pois lá tiveram sua origem.

Historicamente, podemos identificar a fonte de semelhante “empreendimento”. Com a eleição de Fernando Henrique Cardoso à Presidência da República, em 1995, sociólogo e de orientação socialista, observou-se na LDB de 1996, a “sugestão” do retorno das disciplinas Sociologia e Filosofia ao currículo do ensino médio, disciplinas estas retiradas pelo governo militar. Pois bem, em 2008, já sob o governo de Luís Inácio da Silva, o artigo 36 da Lei nº 9.394/96 foi alterado, tornando, então, tais disciplinas obrigatórias. A lei nº 11.684/2008 é bem explícita. A chegada de Michel Temer à Presidência e a emissão da MP 746/2016 manifestaram claramente a intenção de mudar esta realidade. Todavia, com a celeuma criada pela Sociedade Brasileira de Progresso da Ciência - SBPC, a Associação Nacional de Pós-graduação e Pesquisa em Educação - ANPED e o Movimento em Defesa do Ensino Médio - ABECS, a coisa culminou no Projeto de Lei de Conversão - PLC - nº 34/2016, a partir do qual as disciplinas Sociologia e Filosofia perdem o caráter de obrigatoriedade.

Em face do exposto, venho, através deste, instar junto às autoridades, bem como a seus auxiliares, urgência no sentido de criar lei e/ou dispositivo que impeça terminantemente o ensino da Filosofia e Sociologia no ensino médio, pois que, como busquei demonstrar acima, é a fonte de doutrinamento de nossos jovens. Além do mais, o tempo que seria utilizado para ministrar as citadas disciplinas, pode ser ocupado para se ministrar conteúdos de Português, Matemática, Física, Química, Biologia, etc., matérias que têm deixado muito a desejar no que tange ao desempenho de nossos alunos do ensino médio.

Em se tratando de Ensino Superior, sugiro a extinção dos cursos de graduação em Filosofia e Sociologia das Universidades. O ensino da Filosofia limitar-se-ia a alguns outros cursos e de maneira bem pontual, como por exemplo do curso de Direito, com a Filosofia do Direito, ou no curso de Educação, com a Filosofia da Educação. Mister observar que universidades famosas e consideradas as melhores do mundo - Harvard e Yale, por exemplo - têm apenas departamentos de Filosofia, pois que parecem ter confirmado a ausência de utilidade prática para a Filosofia. A Filosofia, portanto, é aplicada a diversas áreas específicas no intuito de potencializar conhecimentos; e só. O curso de Filosofia, em si, é ministrado unicamente em nível de pós-graduação. E aqui permito-me sugerir a leitura do artigo “Estudar filosofia para pensar melhor: um caso de publicidade falsa?”, de Neven Sesardic, publicado na revista “Quillette” em 01 de julho de 2017. No Brasil, o curso de graduação em Filosofia, além de criar falsa expectativa no alunado, porque os leva a pensar em arrumar emprego com facilidade e tornarem-se “filósofos” profissionais, serve somente para dar continuidade ao projeto de poder instaurado pela esquerda, e isso tem, evidentemente, um alto custo, porque vem financiando pesquisas que nada acrescentam. Entendo que a educação superior brasileira deve objetivar o crescimento e o reconhecimento científico no panorama mundial. Somente assim seremos respeitados como uma grande nação.