sexta-feira, 4 de janeiro de 2013

A atualidade de Germinal



Se nos despirmos da fantasiosa realidade social em que vive a massa trabalhadora, seremos lançados de volta à Émile Zola. Mutatis mutandis, o que vemos dentro do ambiente de trabalho, segundo a observação de Marx e Zola? Uma massa compacta de trabalhadores sem quaisquer identidades ou perspectivas, muito embora, hodiernamente, se possa argumentar com a existência de sindicatos, se bem que tais sindicatos e sindicalistas nada mais fazem do que encarnar o peleguismo.
Dias se seguem, se somam, se transformam em noites, se traduzem em fadiga, enfado, angústias. O valor a ser percebido pelo trabalho, que se avizinha da escravidão, é o suficiente para fazer com que o trabalhador supra, e de modo parco, sua humílima condição de mero trabalhador (esta é a finalidade do salário-mínimo). O profissional, se é que assim pode ser classificado, negocia sua força produtiva em troca da condição de subsistência; nada mais. É execrado, discriminado, não tem expectativa de melhora, é-lhe negada a propriedade, a assistência médico-social, a educação, o progredir.
Em nossa realidade, atualíssima por sinal, as coisas assim se revelam: a discriminação sempre houve e me parece que sempre haverá; a assistência médico-social é um embuste, haja vista o INSS; a educação, por sua vez, cumpre uma mera formalidade, dizendo alfabetizados àqueles que simplesmente “desenham” o nome em pedaços de papel, mas incapazes de realizar uma simples operação de adição ou subtração sem o auxilio da popular máquina de calcular.
Por consequência, amontoam-se em “guetos” - leiam-se favelas, ou melhor, fazendo uso do politicamente correto: “comunidades” - ou vilas operárias, em condições sub-humanas, onde faltam água, transportes e segurança. A propriedade deixa de ser uma conquista obtida pela atividade laboral, mas apenas fruto da obstinada determinação de muitos, que invadem, ocupam encostas, agrupam-se em casebres etc. Então o Estado “urbaniza” tais habitações e lhes empresta o status de “comunidade carente”, fazendo deste expediente plataforma política arrebanhadora de votos.
Os alimentos, ingredientes fundamentais na formação cerebral e psicofísica, quando ingeridos, são sempre insuficientes para repor as energias dispendidas com qualquer trabalho - entenda-se aqui informalidade ou “biscate”. Onde se pautar uma perspectiva de melhora? Na doença, sucedânea das péssimas condições de vida, experimentam o abandono por parte dos patrões, o que explica o colapso no sistema de saúde. Neste caso, os trabalhadores veem-se como singelas peças de reposição da enorme máquina industrial burguesa da qual fazem parte. Aqui é pertinente reclamar a atenção para a atualidade da obra de Chaplin, “Tempos Modernos”.
O que se percebe no ambiente laboral, dentro e fora do local de trabalho, é uma turba sem dignidade, amalgamada pela necessidade e instinto de sobrevivência, mas igualmente entorpecida pela posse de um telefone celular, pelos campeonatos de futebol, pelas festas populares, pelo crédito fácil. Mas o instinto de sobrevivência, com o passar dos anos, acaba por interferir até mesmo nos laços familiares. Estes laços tendem a se estiolar, assim como os valores, as crenças religiosas, os sentimentos etc. Os componentes da unidade familiar desestruturam-se em busca da sobrevivência. Por conseguinte, o caos instalado traduz-se em revoltas, na exacerbação da violência, e dá origem aos grandes movimentos sociais.
Então o Estado pacifica as favelas, libera o crédito, derruba taxas e os impostos sobre produtos industrializados, postula o acesso à justiça, estimula a criação de ONGs, delegando a outrem uma responsabilidade que somente a ele cabe, milita por direitos humanos, discursa em favor das minorias, cria uma política de cotas e distribui bolsas-família. O estado-providência não extirpa os males sociais, apenas os mascara, e então, pautado nestes procedimentos pífios e espúrios, cria ou recria novos indicadores sociais.
Fazer o quê, se a educação mesma foi aviltada, evitada, manietada e amordaçada?

terça-feira, 18 de dezembro de 2012

Uma nova Gotham City


Acredito que o termo Gotham, antes um substantivo próprio, designante de uma cidade, esta por sua vez fruto da criação, uma abstração portanto, tenha se transformado em conceito. Gotham City, a princípio, seria uma cidade envolta em trevas (e aqui o termo trevas pode ser entendido de modo abrangente), habitada por um sem número de marginais, repleta de punguistas e desocupados. Fato curioso é que dentre a marginalidade típica de Gotham, emergem sempre “líderes” que se valem de recursos os mais sofisticados, inclusive tecnológicos, para realizarem seus intentos.
A autoridade policial - em Gotham, evidentemente - mostra-se amiúde incapaz, pois não desfruta dos mesmos requintados aparatos de que se valem os transgressores. Então, em face da impotência desta ineficaz e ruidosa autoridade, surge o herói: destemido, acusador, litigante. Mas este herói mostra-se sempre mascarado (a máscara aqui pode ser amplamente interpretada); por trás deste herói há um homem de sociedade, igualmente “sociabilizado”, e, por conseguinte, eivado de torpezas e recursos. Não é uma heroicidade espontânea, standard, original, surgida como algo arrebatador; é um heroísmo construído, moldado, forjado, esculpido, trajado de um altruísmo casuísta. E justamente por ser casuísta, este herói, em bem pouco tempo, perde seu valor, entorpece suas proezas e decepciona, originando a indiferença e a revolta em seus antigos tutelados hipossuficientes. Antigos heróis cedem lugar a outros; por mais que se queira descartá-los, nós ainda por eles instamos. Este foi o legado do grego Homero e de outras civilizações: heróis nos servem de esteio, de leimotiv. E na falta de verdadeiros heróis, tornamo-nos amoucos mesmo de qualquer arremedo.
Nosso país em muito se assemelha a Gotham, seja no aspecto social, seja na estrutura organizacional, seja nas circunstâncias políticas. Gotham agora se nos revela como síndrome. Heróis, ou melhor, arremedos de heróis abundam nossa história desde os primórdios da nação, surgidos eles do esporte, do executivo ou do legislativo. E o que temos agora? Uma nova classe de heróis: heróis de toga negra - trajes semelhantes ao do herói morcego de Gotham - que surgem como vestais e propõem extirpar o câncer disseminado pelos heróis de ontem. Preocupa-me não o fato de serem novos os heróis, mas sim o alto preço que se deve pagar para resgatar a credibilidade do sistema judiciário. E como em resposta ao surgimento desta nova classe, vincula-se-nos a malfadada esperança, o que nos torna condescendentes e rotos reféns, simplesmente, de uma inexplicável, imponderável e ignota fé. Louvemos, então, a nova classe heroicizada. Não obstante, contrariando o legado homérico, podemos afirmar: “Triste da nação que precisa de heróis”!  

sábado, 24 de novembro de 2012

Mentira & Verdade



Em geral, a mentira é dita com a precípua intenção de enganar. E o engano, neste caso, não se originaria de uma antífrase nem da ironia. Então nos perguntamos: porque a intenção de enganar? Ou melhor: por que as pessoas mentem? Mentir, assim me parece, seria um mecanismo desenvolvido pela condição mesma da sociabilidade. Isto porque as pessoas digerem mais facilmente a mentira do que a verdade. Seres humanos têm com a mentira uma relação de cumplicidade; há como que uma parceria, uma tácita aceitação da mendacidade. A mentira torna as relações possíveis; ela as pacifica. Todavia, e não raramente, elas - as relações - mostram-se superficiais. Eis o porquê da instabilidade nas mesmas.
E a verdade? Por que seres humanos evitam um maior “contágio” com a verdade? A verdade cria êmulos; a verdade revela, expõe, desoculta, despe e se manifesta como algoz. A verdade não é para ser dita; a verdade, então, se reveste de inefabilidade. A verdade faz da mentira algo necessário. A verdade ficaria, por conseguinte, restrita à evidência. O evidente é o que se revela por si, e prescinde da palavra, do verbo, do logos. A verdade é silêncio, é mística, é um mergulhar em si. Nada mais.
Dizem por aí que a verdade deve corresponder aos fatos. Bem, neste caso, todo fato deveria ser verdadeiro. Fato verdadeiro, portanto, seria uma redundância. Não obstante, fatos, verdadeiros ou não, são inexistentes. Pois que a narrativa de qualquer fato, ao ter a pretensão (ou não) de versar sobre o verdadeiro, assimila valores (e por vezes os mais espúrios); estes arrebanhariam uma gama de controvérsias, de contraditores, de contraditórios. Como dizia Nietzsche: “Não existem fatos; existem interpretações”. E eu, do alto de minha humilde pretensão, posso lhes afiançar: verdades quando narradas beiram a fabulações.
Como a verdade é silêncio, é um voltar-se a si, percebo que é hora de calar. 

domingo, 18 de novembro de 2012

Do sentido da vida




Não raro perguntamo-nos pelo sentido da vida. A meu ver, dependendo do interesse do questionador, tal questão seria do orbe da psicologia ou da teleologia ou então da teologia. Mas não nos furtemos ao desafio. Então uma outra pergunta faz-se mister: a vida tem sentido? De que sentido falamos? De um intento, um objetivo? De uma direção? De um aspecto? Os pragmáticos entenderam que tal questão deveria ser respondida por algum tipo de ciência, e para tal, criaram a teleonomia. O que nos remete a um tipo de teologia teleológica, pois tal construção exprime uma pré-determinação, um destino, ou algo que o valha.
E a resposta: parece-me que o simples fato de buscarmos um sentido para a vida, estamos dando sentido à vida. É um sentido filosófico, claro, mas é o melhor que se pode fazer. Contudo, fica aqui uma sugestão sine pecunia: apesar de bastante louvável essa tentativa de apreensão, não nos preocupemos em buscar um sentido para a vida. Sêneca, distante da teleonomia, disse-nos: “Aquele que quer, o destino o conduz; aquele que não quer, o destino o arrasta”.

quarta-feira, 14 de novembro de 2012

Dilema



O simples exercício do viver nos torna presas de situações embaraçosas. A elas, contudo, se solidarizam um leque de soluções possíveis. Em geral, dentre estas, duas se nos apresentam como viáveis, se bem que ambas com consequências difíceis e/ou penosas. Neste caso, não se observa a eterna disputa entre o apolíneo e o dionisíaco; não há razão opondo-se ao prazer. Tudo é razão. Eu diria até um racionalismo exacerbado e insensato. E como corolário teremos: uma solução deverá ser tomada em detrimento a outra. São dilemas!
Dilemas pervagam nossa existência e nos conduzem, inexoravelmente, à insegurança. Todavia, seres humanos costumam lançar mão de alguns recursos. Uns optam pelo aconselhamento, outros para o divã, alguns recorrem aos amigos. Existem aqueles que se voltam para a religião, onde fé, orações e promessas se mostram como ingredientes fundamentais. Em verdade, queremos não só fugir dos maus resultados de nossas decisões, mas também transferir ao outro a responsabilidade por possíveis malogros. Esquecemos, entretanto, que em se tratando de dilemas, os insucessos não serão meras possibilidades, mas algo efetivo, concreto.
Em face dos dilemas, seres humanos, em geral, revelam-se como incipientes; manifestam toda a sua meninice, toda a sua infantil evolução. Parecem esquecer que esta dualidade é bem-vinda e que serve de suporte às decisões futuras. A dúvida é sempre benéfica.

domingo, 11 de novembro de 2012

Do complexo de Peter Pan ou da Ingenuidade




Surpreendo-me, e não raramente, dentre muitos dos meus solilóquios, questionando o porquê de certas pessoas - pelo menos assim me parece - negarem-se a crescer. Reformulando: por que algumas pessoas teimam em permanecer crianças? Esse questionamento conduz-me a outra questão: O que é ser criança? O que existe de tão atrativo na infância? Tais perguntas me soam intrigantes. Pesquisemos, pois!
Crianças são seres que primam pela simplicidade. E quando falo em simplicidade reporto-me ao caráter originário, genuíno, o natural. Crianças manifestam sinceridade, desafetação, ou seja, carecem de vaidade, de pedantismo, de verniz social. Não obstante, as crianças estão inseridas no convívio social, estão no mundo, no mundo da vida - no Lebenswelt. E o que a vida lhes fornece em retribuição? Brinda-as com a hipocrisia, com a mentira, coma arrogância, com a ganância, com a mesquinhez. Mas o fato de brindar não é suficiente, pois as cobranças são insaciáveis. Há como que uma exigência social - e o processo tem início na educação doméstica - de perverter o caráter originário, de aniquilar o natural. Toda a educação no lar visa, estritamente, moldar, modelar, superar, romper o caráter genuíno dos rebentos, de modo a criar seres que atendam exemplarmente às expectativas sociais. E essa “linha de montagem” acaba por criar “máscaras”, por onde pessoas, já adultas, respiram, transpiram, gritam, sorriem, choram, amam, sofrem, desempenhando seu papel no teatro da vida. (melhor seria falar em burlesca comédia).
No entanto, há aqueles - acredito serem pouquíssimos - que se negam a desempenhar tal papel, muito embora a educação social ter-lhes sido apresentada. Como a sociedade não se conforma em abrigar atores que lhes contesta o roteiro preestabelecido, ela os retribui com o adjetivo ingênuo. E o que seria a ingenuidade? A ingenuidade só pode ser atribuída a alguém que contraria - contrariar aqui deve ser entendido como não ter apreço - os valores sociais; àquele que quebra, ou tenta romper paradigmas sociais. Ser ingênuo é viver em uma dimensão similar a uma bolha, é optar pelo autismo, isto é, tornar-se autista por espontânea vontade e permanecer fiel a seu caráter natural, o que exige extrema capacidade, tenacidade, dom. A ingenuidade é, em si, um eufemismo para se falar do pária, ou seja, daquele que a sociedade exclui. O adjetivo ingênuo é uma criação descortês, fruto do ressentimento social, e atribuído a todo aquele que quer permanecer em sua naturalidade, em sua genuinidade. O ingênuo é o que se opõe ao genuíno.
Portanto, presto aqui minha invejosa solidariedade àqueles que demonstram a devida coragem para se voltarem a si mesmos e optar pela “Terra do Nunca” - Neverland - em detrimento à farsa social.

sexta-feira, 2 de novembro de 2012

Palavra de ordem: Esterilização!



Há não muito, circulou pelo Congresso Nacional, assim soube, um projeto de lei que visava esterilizar todos os cães da raça Pit Bull. A sustentação fundamental de tal projeto seria o já badalado argumento da agressividade, periculosidade, nocividade e outras “dades” que transitam pelo linguajar dos seres humanos.
Bem, parto do princípio que, se para nos livrar de certos perigos - mesmo aqueles que envolvem de perto a vida humana - usássemos o recurso da esterilização, algumas perguntas ficariam sem respostas. Por exemplo: a quantidade de vítimas fatais no trânsito é aterradora. Que fazer? Esterilizar os automóveis? Ou a raça de motoristas irresponsáveis que exibem uma habilitação para conduzi-los? Talvez devamos nos ocupar das autoridades que fornecem sem quaisquer critérios as habilitações.
Mas falemos em animais. Devemos esterilizar as baleias Orca Orcinus  para que não mais matem e/ou afoguem seus treinadores. E olha que o nome Orcinus é bem sugestivo: significa “do Inferno”.
Neste ponto posso ser acusado de retórico. Solicitando vênia, retomo minha argumentação com um acento mais pragmático. O que fazer com o sem número de assassinos que cresce em proporção geométrica numa sociedade onde a violência é banalizada? Esterilizá-los? De certo que não.
E os envolvidos na guerra do tráfico que acumulam vítimas sobre vítimas e exibem com soberba seus feitos na mídia e na sociedade? Também esteriliza-los?
Certamente existem males bem piores na sociedade do que cães, agressivos ou não. Existem males que estão além do fazer mal ao dono: são aqueles nocivos a toda uma sociedade; são aqueles que, pautados no cinismo e na hipocrisia, dissimulam sua própria nocividade; são aqueles que, sob a égide de uma pseudoautoridade, usam do recurso de uma imunidade parlamentar, de um foro privilegiado. Eles matam, quando embriagados ou não; eles usurpam e não de modo inconsciente; eles extorquem, e para tal fazem uso da racionalidade. Eles preterem, discriminam, molestam.
Neste caso, já que a palavra de ordem é esterilizar, esterilizemos, portanto, a classe política! Quem sabe uma geração alheia a esta raça anômala possa nos agraciar com a dignidade?