quinta-feira, 5 de setembro de 2013

Da ignorância


A sabedoria árabe afirma:
- “Quem não sabe e não sabe que não sabe, é um imbecil: deve ser internado.
- Quem não sabe e sabe que não sabe, é um ignorante: deve ser instruído.
- Quem sabe e não sabe que sabe, é um sonhador: deve ser acordado.
- Quem sabe e sabe que sabe, é um sábio: deve ser imitado”.

Em se aplicando a máxima à educação voltamo-nos irremediavelmente para a ignorância - para aquele que não sabe e sabe que não sabe - pois que esta, além de estar afeita à função educacional, se revela sobremodo incômoda à relação ensino-aprendizagem. A ignorância não só é atrevida, mas vaidosa. O ignorante, ciente de sua própria incapacidade de assimilar ou apreender qualquer conteúdo que não seja o medíocre, o rasteiro, o vulgar, tenta ocultar-se. E para mascarar sua inépcia, lança mão de recursos espúrios e igualmente deletérios: a banalização, a piada, a chacota. Então, os seus iguais, também ignorantes, divertem-se com sua recursal e estroina jocosidade. A ignorância daí em diante vê-se como irreverência, como excentricidade. E arrebata prosélitos, posto que a pretensa extravagância tem o poder de se tornar arrebatadora dentre a caterva auto fracassada. A ignorância em si nada seria, mas sua contaminabilidade é preocupante.

Seria bastante pertinente a pergunta: e como combater semelhante mal? Posso lhes afiançar, e pautado em experimentos empíricos, que a ignorância, depois de experimentar o glamour da irreverência, submete-se à fama que dela se originou, transformando-se assim, numa espécie de doença auto-imune.  

Acredito poder terminar nossa leitura com outro provérbio também bastante popular: “Uma laranja estragada pode contaminar todo o cesto”.

quarta-feira, 4 de setembro de 2013

Democracia: uma retórica nada democrática


Fala-se em regime político caracterizado pela soberania popular e de distribuição equitativa do poder. Mas isso pode levar a uma interpretação errônea do conceito, pois não poucos a entendem como uma proposta imoderada de liberdade. O próprio Montesquieu, preocupado com o desdobramento da dita interpretação, disse-nos, através do seu Espírito das Leis que, “A democracia e a aristocracia não são estados livres por natureza”. Nem mesmo governos moderados permitem a liberdade política, quando detecta abusos de poder. Aqui se torna necessária, portanto, a tripartição dos poderes.

Parece-me que, na verdade, a democracia, e isso remonta à própria origem do conceito, não passa de um grande engodo. Soberania popular, em si, é um conceito vazio, pois o povo nunca foi soberano. Famílias tradicionais sempre, e através do poder econômico, dividiram e partilharam o poder, evidentemente trazendo em seus discursos a retórica da soberania popular. Ainda na ágora grega, haja vista a condenação de Sócrates, pode-se perceber que o poder não se solidariza com a emulação. Nem mesmo a triste experiência do comunismo soviético conseguiu demonstrar a factibilidade desta forma de governo, isto é, a soberania popular.

O que a democracia faz, e muito bem, é criar a ilusão de uma liberdade e de uma participação no poder. Vejamos: o povo - a multiplicidade - é um universo difuso, díspar, divergente. Ora, a difusão leva à confusão, ao conflito de interesses. Qualquer governo que se pretende independente, soberano ou hegemônico deve manter-se coeso, resoluto, decidido, determinado. “Razões de Estado”, diria o cardeal de Richelieu. Portanto, o lema retórico disseminado pela democracia “O poder emana do povo, para o povo e pelo povo”, exaure-se por sua própria inaplicabilidade. Os sistemas de governo, seja lá qual for o grau utilizado de separação dos poderes, não conseguem tornar factível a proposta democrática. Estados unitários ou federativos também se mostram incapazes de tal realização.

Mas poderíamos de bom grado falar em outros regimes de governo. Tanto o autoritarismo, o despotismo, a ditadura, as oligarquias, as plutocracias, as teocracias, as tiranias e os totalitarismos manipulam os povos, só que, diferentemente da democracia, os faz acreditar que a força, a exceção, o arbítrio e a própria fé são os únicos modos de proporcionar a felicidade humana. Se nos voltarmos às ideologias políticas, seja o comunismo ou socialismo, até por uma experiência histórica, veremos que foram baldas as tentativas de fazer do ensejo, das expectativas do povo uma voz ativa e altissonante. E por favor, não recorram ao argumento sub-reptício do consenso. O consenso é outro conceito vazio. Em decisão eletiva, a maioria numérica vence; em decisão arbitrária, quase todos perdem. 

Se nos voltarmos à forma de governo tida como a menos imperfeita, a república, normalmente confundida com a democracia, até porque seus pressupostos se assemelham, poderemos observar que o povo como autoridade também está descartado. Como apanágio do republicanismo destacamos o sufrágio livre e secreto. Todavia, a república, a res publica, a coisa pública, na verdade a administração pública, já era contemplada no Império Romano e em alguns reinados europeus. Maquiavel utilizava a palavra res publica para reportar-se tanto a democracias quanto a aristocracias. Etimologicamente a palavra tem o significado de bem comum, e, atualmente, diz-se de um sistema de governo que emana do povo. Isto não só a aproxima da democracia, e todas as suas perversões acima descritas, bem como, quando no predomínio econômico ou político do capital, de um liberalismo, que em nada proporciona a igualdade e ou a fraternidade difundida pelo Iluminismo.

Democracia, em termos práticos, seria uma proposta eminentemente e unicamente utópica. A liberdade, retoricamente defendida por governantes, fica refém da liberdade política, pois atenderia somente aos interesses da classe que se propõe a governar. Na verdade, podemos entendê-la, fazendo uso das palavras de Aristóteles, como uma forma impura, isto é, uma demagogia, onde o governo exercido pela maioria - entenda-se uma maioria qualitativa e não quantitativa - para oprimir uma minoria, também qualitativa e nunca quantitativa. E se buscarem saber o que significa, neste caso, o qualitativo, pensem no poder, na riqueza, no tráfico de influência etc.

Então meus atentos leitores perguntar-se-iam: será que o autor defende um regime anárquico? Evidente que não. O que seria a anarquia dentro da própria anarquia? A negação de uma negação é tão somente uma afirmação. Mas ainda uma questão poderia pairar na reflexão do leitor: e qual seria a forma pura? E eu diria: Não há!  O que há são pessoas, seres humanos, e nada mais. O que me soa nefasto são os mecanismos retóricos utilizados para se hipostasiar, ou seja, conferir substância a algo, no caso a um estereótipo fajuto. E quando falo em estereótipo fajuto me refiro ao fato de se ter atribuído predicados como racionalidade e/ou socius aos seres humanos. São esses paradigmas infamantes, - na verdade difamantes - sociabilidade e racionalidade, que teimam em retirar os humanoides de seu perpétuo estado de natureza. Percebam! Os sistemas, as formas de governo e de estado, na tentativa de justificar a racionalidade e a sociabilidade impostas aos humanos, nada mais fazem do que reiterar o estado de natureza de que vos falo, - e em que estão imersos - onde os mais fortes e os mais hábeis oprimem, vilipendiam e exploram os fracos, os incapazes e obtusos, muitas das vezes vítimas de uma potencialização da pusilanimidade, da inaptidão, da estupidez.

Nada a fazer!

domingo, 1 de setembro de 2013

O diplomata que virou babalorixá


Meus leitores podem achar estranha a narrativa, pois que o exercício da diplomacia rescende refinamento, elegância, airosidade. Envolve igualmente o domínio de várias línguas, bem como conhecimentos de ciência política, de relações internacionais, economia, história universal, geografia, direito, artes etc. Mas não seria isso já um sintoma de preconceito? Afinal, vivemos em plenitude o respeito às diferenças. E não é o primeiro caso - pelo menos no Brasil - em que um diplomata abandona a diplomacia e volta-se a outro afazer, estreitando sua relação com a cultura afro-brasileira, a exemplo de Vinícius de Moraes.
Mutatis mutandis, meu amigo sempre se mostrou determinado em exercer a diplomacia. E conseguiu. Mas a diplomacia, por sua natureza intrínseca, pauta-se numa espécie de seleção aristocrática, pois que os representantes de qualquer nação devem fazê-lo com desembaraço, extremo zelo, conhecimento e desenvoltura. E creio que, ainda por uma exigência calcada em costumes, tradições e donaires, a diplomacia leva muito em conta a estirpe familiar.
Meu amigo, um lutador, advindo de uma classe médio média, ousou. E de tanto ousar, realizou seu intento, mas nunca fora enviado em longas missões por países classificados como primeiro mundo. Teve apenas uma rápida passagem pela Europa e nada mais. Da vez primeira lá estava o amigo no Marrocos. Ao ler suas missivas deparava-me com o harmônico Salaam Aleikum; na despedida, digitava um garboso Inshalá. Mas as culturas apenas desempenham seu papel: insinuam-se, disseminam-se e instalam-se. De outra feita, lá estava o diplomata na Mauritânia, depois Senegal, depois Nigéria... E teve início um peregrinar pelos países sul-africanos; dir-se-ia que o amigo tornara-se um especialista nas questões daquele continente.
Todavia, dependendo da receptividade, a cultura pode mostrar-se invasiva. Com os anos, comecei a estranhar os e-mails, porque além de se tornarem sintéticos e raros, vinham repletos de palavras em Yorubá. Os textos começavam, em geral por um Karò, o! Deixei de ser amigo e passei a ser Yekan. Do Brasil, da família, dos amigos, já não sentia mais saudades, e sim Inuyiyó. Sua senhora mãe tornou-se Yiá. Já não nos desejava felicidades, apenas Alafiá. Quando irritado, já a ninguém chamava de idiota e sim Akurete. O adeus limitava-se a um impessoal Ó dabò. Em verdade, o amigo africanizara, e sua assimilada africanidade era pura, espontânea, leal. Contudo, eu sentia falta do bom papo, das tergiversações, das gargalhadas, das fofocas e intrigas internacionais.
Algum tempo depois, recebi a notícia de que meu Yekan - amigo - abandonara a diplomacia e estava de volta ao Brasil; fixara residência em Salvador. Lá, com os recursos amealhados durante anos como diplomata, tentou fundar um terreiro de candomblé, mas a coisa não deu muito certo por conta da concorrência. Fazer o quê? Regras de mercado! Carecendo da verve para a poesia e/ou composição, mas detentor do conhecimento diplomático, preenchera proposta de adesão ao grupo Filhos de Gandhy. Bem, enquanto aguardava a resposta de sua solicitação, vendia acarajé no Rio Vermelho e jogava búzios na Baixa do Sapateiro. Apesar da Inuyiyó, ou melhor, saudade do nosso bom papo, eu lhe desejo muita Alafiá, isto é: Felicidades!


A vida ainda me surpreende! 

quinta-feira, 29 de agosto de 2013

Da revolta contra a autoridade e o faz de conta educacional


De início, parece que tudo é fruto - consciente ou inconsciente - de uma confusão conceitual, pois que expressivo número de pessoas confunde autoridade com poder. A autoridade tem como fonte o valor pessoal, a importância, e por isso mesmo, desperta a atenção, a admiração, o respeito; a autoridade impõe-se sem constranger, sem coagir, sem obrigar. Já o poder é coator, vincula-se à posse, ao domínio, à força, ao vigor. Daqui pode-se inferir que as pessoas se colocam contra a autoridade por entenderem-na sinônima do poder.

Mas por que tal confusão? O poder é entidade abstrata, oriunda de um mandato, de uma função específica, característica de um império ou de uma soberania, mas seu exercício precisa ser delegado. O poder sempre é delegado. No entanto, aquele que detém o poder nem sempre consegue manifestar autoridade. E ciente de sua não autoridade, simplesmente exerce o poder impondo sua vontade, dizendo-se autoridade, e demonstrando, acima de tudo, uma grande dose de arbitrariedade. Eis a origem da perturbação. As pessoas ao se colocarem contra a autoridade, na verdade, estão se pondo contra o poder.

Autoridade é conquista. No entanto, no mundo atual, a autoridade vê-se achincalhada, desrespeitada, execrada. E por quê? Despreparados para o exercício do poder, carentes de autoridade, os poderosos se permitem cair no ridículo, seja no ridículo das ações ou dos pensamentos, pensando assim atender às exigências caricatas do populismo.  Aliado a isso, percebe-se algo como um esconso propósito, um protocolo dissimulado que vem sendo cumprido fielmente, disposto a alienar a civilização, transformando o mundo numa barbárie, onde a insensatez deverá criar uma elite de oligofrênicos.

A autoridade, seja do síndico, do pai, do papa, do presidente, do professor, do chefe etc., caiu em desgraça. Todavia, tudo começa em casa, a partir da autoridade paternal. Mas esta há muito foi solapada. O pai já não pode, mesmo que o queira, exercer sua autoridade, autoridade esta que pressupõe orientação, educação, introdução de valores. Não, autoridade do pai foi suprimida por um psicologismo social estrambólico, senão ridículo. Seu lema: “a autoridade do pai, ao impor valores e castigar os filhos causam traumas irreparáveis”. Esquecem os psicologistas, no entanto, que os traumas de uma não educação são muito mais nocivos, não só aos deseducados, como também à família e à sociedade. Os psicologistas, coitados, ainda vivem sob a égide do “é proibido proibir”; ainda se submetem ao guante do laissez faire.

Depois disso veio o recurso infamante, espúrio e covarde de um expediente jurídico: o conselho tutelar! E o pano de fundo para semelhante recurso é outra doença: direitos humanos das crianças e adolescentes. Se o objetivo de tais recursos é obstar a ação dos pais que se mostram violentos, pois que eles mesmos confundem autoridade e poder, então que sejam punidos. Hoje não mais se educa filhos; eles ficam à mercê da televisão, da orientação dos colegas e das prerrogativas de uma sociedade que se diz “bem antenada”.

Bem, e essa nova geração sem limites adentrou os muros das escolas. Ainda aí o psicologismo deixou sua marca, disseminando o discurso de um enganoso construtivismo, que nada tem a ver com Piaget, ensejando igualmente depreciar o poder, confundindo-o com a autoridade intrinsecamente vinculada à função professoral. E como desdobramento, valendo-se deste “benefício”, os deseducados se desinteressaram por assimilar quaisquer conhecimentos; querem apenas todas as facilidades. Os conselhos de classe, por sua vez, alinhados a um sociologismo barato, algo próximo de um messianismo, aprovam os incapazes porque entendem que os mesmos passam por situações difíceis no lar e outras bobagens. Enfim, o mérito foi banido do léxico.

No curso superior não é diferente; mal sabem formar uma simples frase. Contudo, são aprovados em “mágicos” vestibulares, pois o governo permite a criação de IES em toda e qualquer esquina ociosa. Ora, a educação tornou-se presa fácil de empresários que visam unicamente o lucro, apesar das frases de efeito divulgarem missões, visões e lemas em seus murais e folders. O MEC, sequaz da postura do politicamente correto, do hipossuficiente etc., consubstanciou de maneira inescrupulosa um modo dos alunos avaliarem seus professores. Pasmem: o professor é avaliado pela espontânea e estimulada incultura, que vê nessa ocasião oportunidade para ridicularizar a autoridade.

Sem exercer autoridade, a relação professor/aluno - uma relação também de poder - se extingue. O que pode fazer o professor para não cair em desgraça com a coordenação pedagógica? Ou ele se torna refém deste esquema aviltador ou fica desempregado. A escolha é lógica e evidente. A manipulação leva o professor a aprovar todos os seus discentes, olvidando quaisquer critérios para fazê-lo. Os alunos, satisfeitos, avaliam positivamente os docentes. A instituição agradece o fortalecimento de seu caixa, a coordenação pedagógica fica feliz e os professores mantêm seus empregos. Em suma: professores fingem ensinar; alunos fingem aprender; o mercado finge contratar; os salários pagos aos recém-formados fingem retribuir.


Monteiro Lobato foi o homem que melhor caracterizou este país: o Sítio do Pica-Pau Amarelo. É isso: vivemos um eterno faz de conta!

domingo, 25 de agosto de 2013

A coruja e o camaleão


Houve uma época - até a morte de Hegel, em 1831 - que a filosofia sistematizava os problemas. De lá para cá, a filosofia optou por problematizar os sistemas. Ora, nunca foi escopo da filosofia responder e/ou resolver problemas, até porque isso é do orbe das ciências. A filosofia apenas observava o problema e criava hipóteses a serem trabalhadas tão somente pela razão, nunca com a preocupação de testá-las empiricamente.

Então o pensamento de Descartes, o Pai da Modernidade, com seu “Discurso do Método”, acredito que originado a partir do ressentimento com a idade média, experimenta o apogeu. Tal método propagou-se ubiquamente e inspirou o cientificismo. Doravante, com Condorcet e Saint Simon, tudo precisou ser testado, ponderado, medido, mensurado. E as ciências despontam como panaceia para resolver todos os problemas humanos. Pergunto: resolveu? Não, mas criou a expectativa de fazê-lo. A história submeteu-se ao método científico; os primeiros escritos de economia também se inclinaram ao método; a ciência política, através de Gaetano Mosca e Vilfredo Pareto também se volta ao estudo empírico; a antropologia também se verga às exigências científicas através de Taylor, Boaz, Malinowsky e Lévi-Strauss.

A exacerbação do cientificismo deságua na corrente filosófica do positivismo fundado por Auguste Comte. E neste surto positivista sucumbem a psicologia, a pedagogia, o direito, etc. A psicologia positiva, rebatizada de psicologia social, passa a conduzir o pendão do compromisso em tornar possível - e por que não obrigatória - a felicidade humana; a pedagogia positiva, aliada à psicologia positiva, vem enaltecer o valor utilitário da educação; o direito positivo, por sua vez, busca explicar o fenômeno jurídico através das normas impostas por uma autoridade soberana, olvidando o Espírito das Leis e desterrando a sábia e sensata equidade.

E a filosofia? Bem a filosofia sofre uma forte pressão da nova ciência que dela se originou: a sociologia, que se justifica pelas graves modificações sociais advindas das Revoluções Industrial e Francesa, bem como do iluminismo. Em verdade, a sociologia é nada mais do que o emprego do método científico na filosofia política. Todavia, a sociologia tenta superar a filosofia, calá-la. Poder-se-ia, fazendo uso da analogia, falar em uma espécie de parricídio, isto é, o rebento que tenta não só superar, mas descaracterizar, desautorizar e desmoralizar o próprio pai. A sociologia envaidecida torna-se jactanciosa e obriga-se em encampar todas as humanidades.

Para fugir da crise que se instaurara a partir de sua própria criação, - o rebento que tem por nome sociologia - a filosofia diligencia-se e arrisca uma auto superação. A filosofia diz-se, então, analítica, algo pautado no empirismo e busca analisar e descrever os conceitos filosóficos. Daí surge ramificações: O Círculo de Viena bane a metafísica com o positivismo lógico; a Escola de Frankfurt, também neopositivista, reveste-se do idealismo marxista e igualmente humanista. Do materialismo dialético de Marx emerge uma Filosofia da Práxis que contempla o agir individual e social. Mas ainda podemos citar algo pós-moderno: a Filosofia da Libertação, também conhecida como filosofia sul-americana, um amálgama messiânico que aquiesce a Teologia da Libertação. E para cumular - acreditem - alguém propôs uma Filosofia Clínica.

O que se pode perceber é que a filosofia mesma perdeu seu foco. Na tentativa de se fazer ciência, adentrou por caminhos mais obscuros do que quando simplesmente pensava e repensava os fenômenos a ela submetidos. Muito embora a pretensão do status de ciência, a filosofia ainda não responde ou resolve problema algum, não porque seja seu intento preservar o vetusto questionar, mas simplesmente porque não sabe o que responder. A filosofia parece ter firmado um determinado pacto com Proteu, a figura mitológica que tinha por característica mudar de face para não se envolver com qualquer questão. A filosofia moderna e contemporânea criou clichês para se furtar a qualquer exposição, e com isso programou sua própria banalização.

Meus possíveis e atentos leitores poderiam se perguntar: “Afinal, qual a finalidade deste sermão enciclopédico?” E eu lhes responderia de pronto: o propósito deste breve texto é propor a modificação do ícone filosófico. Esqueçamos, portanto, a coruja, ave de hábitos noturnos, solitária, que na mitologia grega significa a reflexão, o conhecimento racional e intuitivo, e elejamos o camaleão, animal que se move lentamente, usa a língua - esta célere - para apanhar sua presa, e com o recurso da camuflagem, furta-se a qualquer presença que lhe seja estranha. Eis a filosofia pós-moderna e sua respectiva imagem: lenta, viscosa, dissimulada e que usa somente a língua - retoricamente forjada - para esquivar-se de seus oponentes. Pobre filosofia! 

quinta-feira, 22 de agosto de 2013

Da expectativa


Os viveres caninos e humanos têm em comum a expectativa. O cão vive a expectativa do reencontro com aquele que elegeu como dono; o homem vive a expectativa de desfrutar da convivência daqueles que elegeu como referência, ou como condição ideal, seja o próximo (mulher, amigo, parentes, vizinhos, amante etc., nada mais do que fetiches) ou Deus (uma entidade abstrata).

Pelo menos o cão não se vale de fetiches nem de entidades abstratas.

A vida é isso: expectativa. Criamos expectativas quanto ao futuro, quanto à posse de objetos, quanto à convivência, quanto à preferência, quanto às realizações destas expectativas, quanto à própria viva, seja em função da longevidade, da saúde e da não morte. Ao criar expectativas acerca da vida, que em si é um emoldurar de expectativas, criamos expectativas de expectativas.

E por que não escarnecer da expectativa? Teria o ser humano tal habilidade, tal destreza? O cínico é aquele que, muito embora criar expectativas, zomba não só das suas, mas também da expectativa alheia. Enfim, zomba do próprio viver. Filosofar é preciso; viver não é preciso, a não ser que seja uma vida canina. Um voto de aplauso aos cínicos!

quarta-feira, 21 de agosto de 2013

Disputatio entre ministros


As frequentes controvérsias jurídicas que envolvem os ministros Joaquim Barbosa e Ricardo Lewandowski vêm chamando a atenção do público que, com base antijurídica, postula as mais diversas e equivocadas opiniões. Todavia, a constância dos eventos também reclama o zelo de alguns operadores do direito. A meu ver, um olhar atento mas nada pretensioso,  percebo tão somente questões que envolvem o embate de valores.

Os valores, queiramos ou não, gostemos ou não, governam nossas ações. E é em decorrência deles - os valores - que presenciamos tais polêmicas. De um lado temos o defensor que prima pelo valor Justiça, alguém extremamente dedicado em extirpar o estigma nacional de “país da impunidade”; do outro aquele que prima pelo positivismo jurídico - teoria que nega a relação necessária entre direito e Justiça - e igualmente refém do processualismo.

Mas ainda lidamos com o fato - entenda-se fato jurídico, o que dá origem à relação jurídica. O fato que, na verdade, não é fato, mas uma interpretação do fato. Aqui posso me valer de Nietzsche que afirmara: “Não existem fatos, mas interpretações do mesmo”. Para Piaget, o fato puro não existe; o fato puro é inefável, pois, no momento de narrá-lo, nele acondicionamos nossa visão particular, isto é, nossos valores. Poincaré ainda teria dito: “Todo fato é solidário a qualquer interpretação”.

Ora, com base no exposto, podemos inferir as dificuldades de ambos os ministros: Além da não percepção direta dos fatos, pois que estes seriam apenas fenômenos e não númenos, soma-se a questão valorativa. Posso lhes garantir que a questão do valor não implica qualquer artifício evasivo e/ou subterfúgio. O que presenciamos é a questão jurídica levada a sério por seus representantes máximos.


Quanto às declarações um tanto acaloradas do Ministro Joaquim Barbosa podemos entendê-las como um temperamento sanguíneo - coisa tipicamente humana, se bem que esperamos de um ministro atitudes um pouco mais ponderadas; quanto à postura do Ministro Ricardo Lewandowski podemos sugerir, com base em Paulo, na sua epístola aos Coríntios a seguinte leitura: “A letra mata, mas o espírito vivifica”. Não obstante, há um brocardo latino do eminente Cícero: summum jus, summa injuria.