quarta-feira, 20 de janeiro de 2021

Contexto reverso

 

Creio estarmos vivendo o limiar da artificialidade. Explico-me: descobriu-se que existem seres humanos intolerantes a lactose. Ora, a indústria alimentícia, aliada à sua parceira inseparável, a indústria farmacêutica, criou o leite sem lactose. Temos também seres humanos sensíveis ao glúten. Então a insuperável parceria, coisa do tipo Batman e Robin, funcionou mais uma vez: criou-se alimentos sem glúten. Bem, por conta de ações midiáticas, na preocupação de vitimizar os intolerantes, assistimos não só a demonização da vaca, como também a de uma série de alimentos. Há anos que, a indústria alimentícia, voltada ao politicamente correto, ciente de alguns meandros da psique humana, e numa atitude totalmente hipócrita, lançou a cerveja sem álcool, onde o bebum busca enganar a si mesmo declarando-se abstêmio. Sim, tenho uma pergunta: Será que estamos a falar/tratar de seres humanos?  

Prossigamos, pois. Já faz bastante tempo que conheci algumas pessoas alérgicas a ovo. Mas a vida seguia seu curso; até agora. Acabo de ter conhecimento que a nova sensação do mercado de alimentos é o ovo sem galinha. Sim, a indústria alimentícia, com todo o empenho em proporcionar “prazer” aos humanos, criou o ovo que não tem origem na galinha. Atenção:  Veganos, sede bem-vindos! O Ovo não mais terá como definição “corpo formado no útero das fêmeas ovíparas”; sua classificação será alterada para alimento vegetal (ou seria artificialmente vegetalizado?) Na falta de qualquer composto, a indústria farmacêutica lançará uma outra “poção mágica” para suprir a lacuna. O pior de tudo, além da patente vitimização das pessoas alérgicas e dos que assimilaram a filosofia vegana, a galinha será sacrificada; não de fato, mas de direito. Galos, galinhas, frangos e pintos experimentarão o preconceito, o ultraje, a ignomínia. Agora eu grito: Galináceos, uni-vos!

Não obstante, não está descartado o protocolo que visa colocar, mais uma vez, o país em má situação. Porventura sabeis que o Brasil é responsável por 3% da produção mundial de ovos, o 5º lugar na produção mundial? Pois bem, quem estaria interessado em modificar esses números? Não seriam os mesmos que compraram todo a nossa produção de soja, arroz, etc., e que fez com que os preços disparassem no país pós pandemia, a piorar sobremaneira nosso colapso econômico? Convido-vos apenas a pensar; posso afiançar: Não dói! (o grifo é meu). Outrossim, não espero encontrar apoio da imprensa, da mídia em geral, da sociedade como um todo ou mesmo de pessoas próximas. A notícia em pauta só vem corroborar algo que vovó dizia: “Não se deve contar com o ovo no rabo da galinha!”

terça-feira, 19 de janeiro de 2021

Asteroide

 

A notícia surpreendeu a todos; eu diria bombástica. Conseguiu superar o alarde imposto pela cultivada pandemia de Covid19. A diferença é que o asteroide fez-se, de fato, presente; sua proximidade foi confirmada por todos os grandes observatórios astronômicos. Imagens do Hubble, Gama Compton e Spitzer revelaram a dimensão da catástrofe. O Tamanho? Em torno de 300 metros de diâmetro. Astrônomos disseram que o corpo abandonara órbita bem definida, situada entre Marte e Júpiter, na região conhecida como Cinturão de Asteroides e aproximava-se da Terra. Meu Deus, estamos prestes a vivenciar o Armagedom!

E as perguntas que não querem calar. Onde se dará o impacto? Quais as suas consequências? Bem, mesmo interessado em dirimir possíveis e pertinentes dúvidas de meus leitores, não pretendo mostrar-me prolixo. Contudo, não há como se revelar íntimo de Bruce Wayne e desconhecer o Batman. Pois bem, as consequências, em geral, no caso do impacto de asteroides, varia na razão direta das dimensões do mesmo. A coisa vai desde a formação de crateras, até a movimentação de placas tectônicas; a energia liberada pelo impacto provoca mudanças climáticas e na biosfera, o que pode ser devastador para a civilização humana. Se em menores dimensões, o asteroide provoca ainda muita destruição: terremotos, tsunamis, etc.

E o local do impacto? Todos se perguntam. Desta feita, para surpresa geral, nenhuma cidade ou estado norte-americano será atingido; a Estátua da Liberdade permanecerá incólume. A Torre Eiffel sairá ilesa, bem como o Palácio de Buckingham, o Portal de Brandemburgo, as Muralhas da China e o Monte Fuji. O asteroide dirige-se ao Brasil. Brasil?! Gritais em uníssono. Sim, dessa vez caberá ao Brasil a responsabilidade de “segurar a peteca”. Não obstante, Joe Biden colocou as forças especiais norte-americanas a nosso dispor. Boris Johnson ligou, Angela Merkel ligou, Putin ligou, Benjamin Netanyahu ligou. O Macron, ... bem o francês está mais preocupado com o desmatamento da Amazônia. Nicolás Maduro não se decidiu; um poço de ressentimentos o viejo pendejo.

O Ministério da Defesa, juntamente com o Chefe do Executivo, decretam estado de emergência e traçam planos para evacuar as cidades do leste, próximas ao mar. Sim, desta vez a estátua do Cristo Redentor irá desaparecer, para o deleite de alguns que dizem-se artistas e cultuam a cocaína. Mais uma vez o pânico se alastra. A grande mídia põe da lado os números da pandemia e expede a cada cinco minutos boletins sobre a proximidade do asteroide. Redes de TV montam programação específica e convocam especialistas no assunto. Faustão convida alguns doutos, Bial conversa com um expert, Datena convida peritos, Silvio Santos convida práticos. Aqui permito-me um comentário: eu não sabia que o Brasil tinha tantos especialistas para tantas especialidades... Mas vamos em frente! A programação dos rádios e emissoras de TV adaptam-se às demandas noticiosas. Jornais informam resultados de enquetes realizadas por alguns honrados institutos de pesquisas: o número previsto de mortes beira aos milhões e a popularidade do presidente despenca.

Todavia, em termos de Brasil, situação alguma pode ser considerada desastrosa o suficiente que não possa agravar-se. Sim, governadores questionam o estado de emergência, afinal, o carnaval se aproxima... Cariocas e paulistas lamentam. Os baianos pensam que se trata apenas de uma reedição do Bendegó. Não só os estados do leste, mas todos os outros exigem do governo uma verba extra para combaterem os efeitos destrutivos do asteroide; a turba em alvoroço faz filas frente as agências da Caixa Econômica a exigir mais um auxílio emergencial. O Ministro da Economia enfarta. A coisa foge ao controle.

E quando todos pensavam estar a viver seu pior pesadelo, vem o tiro de misericórdia: Impedidos moralmente de acusar cientistas de renome mundial por divulgar Fake News, partidos de esquerda reunidos entraram com um pedido junto ao Supremo Tribunal Federal, objetivando retirar a autoridade do Executivo e transferir a governadores e prefeitos o poder de decisão acerca da evacuação; afinal eles conhecem melhor as realidades de suas cidades. O STF, na pessoa de certo ministro, sua Excelência, Refrigerância, Repugnância, expede parecer favorável aos postulantes. A PGR entra com recurso e tenta sustar o parecer. E por que o recurso não é julgado com presteza? Simples, um de nossos togados está em Portugal a tomar vinhos e escutar fados.  

Bem, enquanto o STF nada decide, o país para; tudo se revela como caos. Organizações criminosas coordenam saques: sobe o preço da gasolina, da farinha de trigo, da soja, etc. Milicianos executam seus desafetos: a Hyundai deve encerrar as atividades no Brasil. E vós me perguntais pelo asteroide. Pari passu a celeridade das soluções no país, o asteroide mantém sua velocidade de cruzeiro: 30 Km/s. Então podemos conhecer, mais uma vez, o caráter do político brasileiro. Aulas são suspensas. Outra vez? Voos são suspensos, exceto para conduzir aqueles que pretendem emigrar. Campeonatos de futebol são suspensos; os estádios deverão estar aptos para receber futuros desabrigados. Fala-se em construir hospitais de campanha. Preocupação maior do brasileiro: Vão fechar os bares? Não, não há necessidade. (Risos) Certo governador vai a público declarar que os chineses têm como deter o impacto do corpo celeste e, por isso, resolveu aumentar o ICMS.

Em meio a toda esta algaravia, outro exemplar da nossa Corte Constitucional estabelece um prazo para que o Chefe do Executivo explique o porquê do asteroide dirigir-se à região leste do país e não a outro local; exige também que sejam anunciadas as medidas que estão sendo tomadas para minimizar os efeitos da “ultrajante impacção ao nosso Estado Democrático de Direito” (palavras da ministra). E vós, cobertos de razão, me direis: “Mas que paisinho sem vergonha!”

sexta-feira, 8 de janeiro de 2021

Curiosidade nada científica

 

Em geral e não imbuídos de espírito científico, perguntamo-nos: para que terceiro molar? Fiz esta pergunta a minha dentista e tive como resposta uma novidade, pelo menos para mim, insólita. Disse-me ela que crânios de nossos antepassados, fósseis evidentemente, revelaram a presença até de um quinto molar. Talvez isso explique porque as mandíbulas de então eram bem maiores que as nossas, as atuais. No entanto, creio que esse nosso “avatar” conheceu não só outro tipo, mas também uma alimentação sem qualquer cozimento.

Por erupcionar somente na adolescência ou próximo a maior idade, diz-se que o terceiro molar é o dente do siso, aqui sinônimo de juízo, tino, prudência, bom senso, circunspecção. Infelizmente tal relação é fantasiosa. E já que nos referimos a processo imaginativo, lembro-me de pândegos a afirmarem que “aos pobres bastam dois dentes: um para roer, outro para doer”; eis a utilidade do siso. Sim, terceiros molares, na verdade, perderam sua função, e, ipso facto, devem ser extraídos. Por outro lado, se o dente siso tornou-se obsoleto e sem espaço, imaginai uma boca adornada com quintos molares. A observarmos por um contexto meramente matemático, no lugar onde cabem 28 ou 32, deveriam caber 40 dentes.

Ponho-me a pensar, então, em primeiro lugar na Fada do Dente, figura lendária que, durante a noite, deixa moedas sob o travesseiro em troca de dentes de leite. Seu trabalho, bem como seus gastos, devem estar sobremodo reduzidos em nossa atualidade. Em segundo lugar penso numa das histórias de minha mãe. Contava-nos ela que, quando menina, a estudar em escola pública, durante o curso primário – o curso fundamental dos dias de hoje – empenhou-se em responder a pergunta feita à turma pela educadora. A questão proposta era: quantos dentes uma pessoa tem na boca? Mamãe, em face da difícil investigação, dispôs-se a contá-los com o auxílio dos dedos; ela identificava qualquer modulação da arcada como unidade independente. Enfim a resposta: 77         

quarta-feira, 6 de janeiro de 2021

Projeto de Lei

 

Soube, à boca pequena, que certo projeto será levado à votação no Congresso, quiçá ao STF, tratando de tema sobremodo polêmico. O referido PL busca criminalizar certo termo científico, entendendo-o como injúria preconceituosa. Sim, se aprovado, o Buraco Negro não mais poderá ser chamado de Buraco Negro. Não me pergunteis pela fonte, pois apesar de não ser jornalista, não a revelarei. Só posso vos adiantar que a Projeto de Lei é de autoria de um deputado federal vinculado a certo partido de esquerda; desses bem mimizentos que empenham-se em polarizar a sociedade, a inventar vítimas e respectivos algozes.

Na justificativa do projeto, alega o autor que - não sei de onde ele tirou a ideia - o termo faz alusão a quantidade de negros, número quase infinito amontoados em guetos, comunidades ou favelas, e que essa massa compactada deformaria o espaço-tempo, isto é, a sociedade de brancos que durante muito tempo ocuparam todos os espaços, impondo sua cultura pseudo aristocrática, sua religião hierarquizante e seus valores ultrapassados.

Mesmo a sorrir de modo desbragado, não posso deixar de reconhecer tamanha criatividade. Ponho-me, então, a matutar: Como falar de Buracos Negros sem assim chamá-los? Cavidade Trevosa? Em inglês ficaria até charmoso: Dark Cavity; em francês seria Cavité Sombre; em alemão chamar-se-ia Dunkle Höhle.  Todavia, não fiqueis boquiaberto, pois, segundo noticiado pela TV, há uma projeto de diretrizes no parlamento norte-americano para os próximos anos proposto pela líder da casa, a democrata Nancy Pelosi, que tem provocado acalorados debates. A coisa - com todo respeito às coisas - prima pela eliminação dos termos de gênero. Fala-se numa linguagem neutra de gênero, a banir, portanto, palavras no masculino ou feminino. Por exemplo: Pai e mãe (father and mother) seriam substituídos por parents; filho e filha (son and daughter) por child; marido e esposa (husband and wife) por spouse; aos membros do congresso ficaria proibido o uso de ele ou ela (he or she), pois estes seriam substituídos por membro, representante ou integrante (member or representative).

E volto-me a pensar na falácia pós-moderna. A isso chamam democracia. O que fizeram com a democracia!? Mas nada é tão desastroso que não possa piorar: imaginai agora o tal Projeto de Lei do nosso deputado - PL que demoniza o termo Buraco Negro - sendo analisado pelos ministros do STF. Tentai imaginar vossas excelências a discorrerem sobre física, sobre astronomia, sobre ciência afinal. Observai que, enquanto nossos togados esbanjam notáveis saberes jurídicos, carecem de conhecimentos científicos, bem como desconhecem in totum alguns poucos adjetivos qualificativos, ou melhor, predicativos que em muito os nobilitariam.  

Tenho dito!

terça-feira, 15 de dezembro de 2020

Apenas vestígios

 

Conhecer a Grécia, Atenas mais especificamente, foi uma espécie de sonho realizado - a dream come true. Desde os primeiros estudos filosóficos certa curiosidade invadiu-me: o desejo de visitar o lugar considerado berço do pensamento ocidental. Eu diria que um conjunto de circunstâncias, buscadas evidentemente, propiciaram-me o ensejado; sim, a oportunidade fez-se presente ... e lá estava eu, aboletado numa das poltronas da aeronave, a pretender ostentar o epígrafe de ter amor ao saber. Todavia, teve lugar alguma decepção. A viagem como um todo foi, de fato, bastante proveitosa em termos de cultura, mas no tocante à filosofia ... talvez por falta de adequada expressão, arrisco-me dizer desapontado.   

Desembarquei no aeroporto de Elefthérios, em Atenas, um pouco depois da meia-noite, haja vista o atraso em Paris, no Charles de Gaulle, em função de uma ameaça de bomba. Bem, em meio a fila da imigração, o visto de passaportes, a retirada de bagagens e outras exigências legais, permiti-me observar o entorno. Curiosamente os jovens, por conta de certo modismo, parecem-me ter perdido suas identidades. Eu falo em falta de identidade cultural, pois vi uma juventude exatamente igual a qualquer outra do planeta: calças jeans, cabelos coloridos, piercings, tatuagens, gestos, sorrisos, desleixo, descompromisso... Nem mesmo o idioma falado pode identificá-los. Se bem que, certo passaporte trouxe-me a resposta: ingleses.

Enquanto caminhava a procura de um taxi, pus-me a pensar: o modismo que iguala toda uma geração é o mesmo que critica os conservadores. Dizem por aí que o conservadorismo é um entrave às demandas sociais e, ipso facto, um obstáculo ao desenvolvimento da sociedade. Pergunto-me: serei um conservador? Afinal, sou contrário a certas reformas, principalmente àquelas que primam por estiolar valores e banalizar identidades culturais; sou apaixonado pelo que exibe raízes históricas. Nas rupturas históricas é mister equilíbrio e bom senso. Mas o taxi encostou na plataforma e arrancou-me do questionamento.

O hotel distava uns bons 30 minutos do aeroporto; a corrida custou-me 70 euros. O motorista falava inglês, mas não lia inglês. A confusão estava formada; ele conhecia o endereço, mas o mesmo não estava grafado em alfabeto cirílico. Chegamos afinal; desculpou-se e partiu. Fiz o check-in. Ainda no lobby, pude observar certa escultura na parede fronteiriça: não era Jesus Cristo nem nenhum santo conhecido por nossa inerente idolatria. Bem, satisfeitos os trâmites que soem acompanhar a qualquer hospedagem, peguei das chaves e subi ao quarto. Um bom banho, a cama e esperar por mim e a TV sintonizada num canal de notícias. Adormeci.  

Hotel Pergamos! Sim, hospedara-me junto aos filhos, aos descendentes de Andrômaca. Da avenida Aharnon, onde era situado, até a Praça Omonia - meu lugar referência - eu transitava pelas avenidas Sokratous e Aristotelous, o que me deixava, já que entusiasmado filósofo, sobremodo vaidoso. Da Praça Omonia à Praça Monastiraki, ponto de partida para conhecer-se os pontos turísticos e históricos, inclusive para chegar a Akropolis, bastava seguir a avenida Athinas.

E teve início meu vaguear helênico. Próximo de Monastiraki pude conhecer o Museu de Arte Folclórica de Atenas, a Biblioteca de Adriano, a Torre dos Ventos, o Fórum Romano, o Museu Kanelopoulos. A Acrópolis de meus sonhos a erguer-se altaneira, soberba, por que não? Bem próximo, o Teatro de Dioniso; adiante a antiga Ágora e o Templo de Hefestos. Impressionante o portal, a Stoá de Attalus. Na Stoá pude observar esculturas dos três grandes dramaturgos gregos: Ésquilo, Sófocles e Eurípedes. Curioso: Aristófanes não fazia parte deste Parnaso. E os filósofos? Então começou minha desilusão.

Em frente a Academia de Atenas as estátuas de Platão e Sócrates. No Monte Filopappos, em destruída prisão, aquela que teria sido a cela de Sócrates. A Academia platônica não passa de ruínas. O Liceu, testemunha do método peripatético de Aristóteles, é apenas sítio arqueológico. Ainda em outra oportunidade, ao visitar o Zappeion, o National Garden e o prédio do parlamento, em elegante alameda, pude encontrar, de novo, as estátuas dos três grandes poetas trágicos da antiguidade. Um senhor, motorista de táxi, declarou-me: estes foram os três maiores gregos que já existiram!

Visitei o atual estádio de Atenas, o Panathinaiko, fui ao Templo de Zeus, fotografei o Arco de Adriano. Fui ao Museu da Acrópolis, ao Museu Nacional de Arqueologia. De uma única vez conheci a Biblioteca Nacional, a Universidade de Athenas, a Academia de Artes e a Igreja de Dioniso Areopagita. Por incrível que pareça, as referências a filósofos que mais me marcaram estão nas avenidas que ostentam os nomes de Sócrates e Aristóteles.  

Ainda um tanto apatetado, adentrei uma livraria e busquei por livros de filosofia. Encontrei Kant, Bertrand Russel, Wittgenstein e Foucault, dentre outros. E os filósofos antigos? E os pré-socráticos? A livraria não dispunha. Minha primeira desilusão foi constatar que a Grécia que eu buscava não mais existia, a não ser nas bibliotecas, corações e mentes de alguns saudosistas como eu, que ainda cultuam o pensamento em sua origem. A filosofia grega antiga transformara-se em vestígios.  

Dali por diante, fixei-me na questão cultural, inclusive a degustar grandes porções de Moussaka. Sim, mais uma vez tive minha atenção requestada pela imagem dependurada no lobby do hotel, até porque já a tinha visto em outros locais, até mesmo em restaurantes. A esbanjar curiosidade, busquei informar-me com o concierge. Explicou-me ele que tratava-se de Dioniso, o deus mais popular, o mais querido de toda a Grécia. Sim, este deus, muito embora ser um dos primeiros deuses a surgir, fora rejeitado por seus pares. Isto porque o Panteon era sobremodo aristocrático, e ele, apesar de filho de Zeus, fora criado no interior, por titãs e fizera-se muito próximo do povo. 

Aqui permito-me citar Xenófanes de Cólofon: “Os homens criaram deuses à sua imagem e semelhança”. Pelo que entendi, os aristocratas criaram deuses e o povo criou Dioniso. E quanto à filosofia? Parece ter sido criada e desenvolvida para trazer solidez ao pensamento humano. Todavia, os seres humanos permitiram-se ao conspurco; o pensamento humano enodoou-se, cobriu-se de excrecências; tornou-se corrompido, depravado. Uma quase certeza me alerta: Não foram os seres humanos que se afastaram da filosofia, mas esta, sim, apartou-se para não se permitir macular.   

domingo, 6 de dezembro de 2020

Oikos


Há lembranças, algumas evidentemente, que se nos revelam agradáveis e são sempre benvindas. Exemplo disso é o personagem alienígena do Filme ET, dirigido por Steven Spielberg. Em determinada cena, o extraterrestre aponta seu longo dedo para um lugar qualquer do universo e pronuncia: “Casa minha”. Não só a cena, mas a frase fez-se antológica. Debruço-me, então, sobre a frase. A casa em questão refere-se a seu mundo, à sua pátria. Alienígenas estimariam, de fato, suas casas?

Ponho-me a pensar em minha casa: grande, algo soberba, confortável, se bem que... Sim, os sintomas da velhice estão patentes: goteiras, quando na temporada chuvosa, transformam-me num Gene Kelly; eu apenas solfejo a meia voz algo parecido com Singing in the Rain. Paredes um tanto amarelecidas que exibem cópias ou obras de arte. Alguns portais, poucos na verdade, receberam a visita de térmites (este substantivo é um eufemismo para evitar-se o cupim). Torneiras e chuveiros gotejam, talvez para marcarem o compasso do estridular de grilos. É minha casa, minha realização, adquirida com determinação...

Pensando bem, não é só minha casa; é também meu lar. Sim, este local está repleto de emoções, de sentimentos. Os bons sentimentos do lar dão anima, vida à casa. Existem histórias as mais variadas; há memórias... Conheço cada canto do imóvel; eu o concebi, o construí. Ali está minha energia, meus bons fluídos. Não se trata apenas de meu Oikos - família, propriedade familiar e moradia - mas também de minha Polis - cidade com suas próprias regras. Minha biblioteca é meu mundo, meu templo particular; há também o quarto que protela em tornar-se oficina. Pelo minúsculo quintal, as flores e folhagens com quem converso. Enfim, minha casa, espaço físico, palco de tantas experiências agradáveis, atingiu o status de lar; há parceria, cumplicidade, completude. Entre mim e minha casa, meu lar, há sinergia, cooperação, solidariedade.

Não tenteis tirá-la de mim com a promessa de algo mais novo, moderno ou próspero, pois apesar dos pesares, foi erguida "com muito esmero". 

sábado, 5 de dezembro de 2020

A Nova Teoria Tridimensional do Direito

Sim, como estamos às voltas com o Novo Normal, discorramos um pouco acerca desta faceta jurídica tipicamente brasileira, ou melhor, tupiniquim: a Nova Teoria Tridimensional do Direito.

Partamos, contudo, da teoria original: Fato, Valor e Norma. O Fato liga-se à sociedade e, por vezes, guarda raízes históricas. O Valor compreende o aspecto axiológico, ou seja, valores contemplados por qualquer sociedade; Justiça, por exemplo. E, por fim, a norma, gerada pelos valores da própria sociedade, que vem regulamentar os fatos. A resumir: a sociedade depara-se com um fato, submete esse fato a valores e cria normas. Doravante, o que teremos? Se A (fato) acontecer, lancemos mão de B (a norma). Estamos, portanto, diante de um juízo hipotético: Simples, não? Mas nem tudo são flores. Surgiu um argentino chamado Carlos Cóssio (tinha que ser argentino) e inventou a Teoria Egológica do Direito. A coisa toma outro rumo: Ainda temos o Fato, o Valor e a Norma, mas a Teoria de Cóssio propõe o Eu como aspecto determinante. Explico-me: Se A (fato) acontecer, teremos ou não B (a norma). Busca-se justificativas e atenuantes para o Fato. O juízo tornou-se disjuntivo. Por que? Porque a Teoria é Egológica (ou seria Egocêntrica, ou ainda uma Ególatra?) O Fato é submetido a valores, mas não mais da sociedade, e sim de um ego, geralmente o interessado.

Atentai todos vós canalhas de plantão! Pelo menos nessa terrinha chamada Brasil, a coisa desandou numa velhaca Teoria (ou seria uma Nova Teoria?). Há uma nova tridimensionalidade à vista: O Fato foi substituído pelo Interesse (entenda-se alguém que pretende mudar ou interferir em texto consagrado na doutrina jurídica). Depois, ao invés do Valor, temos o Cinismo (na verdade, um desvalor) que é apanágio dos que se propõem - os fantoches que trajam capas negras e enxergam a si mesmos como deuses - a observar o Interesse (o Fato) com nova (e por que não capenga?) hermenêutica. E a Norma? perguntar-me-eis. Bem, a Norma passa a ser, então, aquela prostituta de luxo. Sim, mulher cara e sofisticada que, em geral, acompanha alguns “expoentes” da sociedade, apenas para lhes emprestar seriedade.

Como parte de minha pedagogia, procuro sempre usar exemplos práticos. O Artigo 57, §4º da Constituição Federal diz-nos que: “Cada uma das Casas reunir-se-á em sessões preparatórias, a partir de 1º de fevereiro, no primeiro ano da legislatura, para a posse de seus membros e eleição das respectivas Mesas, para mandato de 2 (dois) anos, vedada a recondução para o mesmo cargo na eleição imediatamente subsequente”. Existem dúvidas quanto à clareza do texto? Parece-me que não. Lancemos mão, no entanto, da Nova Teoria Tridimensional do Direito: O Fato foi substituído pelo Interesse dos presidentes do Senado e da Câmara Federal. O Valor foi substituído pelo Cinismo inerente aos títeres que compõem o plenário do Supremo Tribunal Federal. E a Norma? Bem, por enquanto, estamos diante (pelo menos em lugares sérios) do que seria uma contradição absurda: A Corte Constitucional estaria rasgando a Constituição declarando-a Inconstitucional.