segunda-feira, 24 de janeiro de 2022

Caverna: a farsa da existência


Minha origem - meados de século XIV d.C. - deveu-se à decepção dos seres no tocante a verdade em sua mais abrangente concepção, o que engloba a verdade científica (veritas), a verdade revelada (emunáh), a verdade investigada (aletheia). Sim, de início, por conta de minha condição atemporal, pretenderam-me um demiurgo, deus ou semideus que busca construir um novo mundo a partir de visões ideais. Mas eu nada de ideal vislumbrara; busquei apenas identificar falhas inseridas nas estruturas sociais, culturais e científicas de um mundo (ou seria uma caverna?) eminentemente natural.  

Seres que entendem-se a si mesmos como do tipo Alfa (melhores que os demais) deram início a um certo tipo de protocolo que teria como finalidade última perpetuarem-se no poder, não um poder oficial, mas algo próximo de uma eminência parda. É patente a influência de organizações rotuladas de filantrópicas nas decisões de alcance mundial. Neste ponto já podemos perceber uma primeira falha, não na caverna ou no mundo, mas na má formação de caráter: o fato de indivíduos perceberem-se melhores que os demais. Todavia, a coisa (ações protocolares) ganhou proporções.

Sim, apesar de certo filósofo (coitado, um apátrida) atestar que os seres humanos são naturalmente bons, a violência e a agressividade sempre partilharam da existência humana (vide o Pentateuco), mas pior que a violência é a hipocrisia, ou como dizem os religiosos, o fermento dos fariseus. A hipocrisia sustenta discursos, ações, intenções; a hipocrisia arregimenta, fomenta, reúne, pactua. E teve lugar o discurso; um primeiro sintoma do cinismo: o clamor pela liberdade! Curioso é que muito embora desfraldar a bandeira da liberdade, a Europa se encarregava de escravizar e transportar seres humanos (escravos) para o recém descoberto continente: a América.

E surge um movimento ligado às artes: o Renascimento. Este pode ser entendido como uma reformulação, nada de clássicos pagãos, mas um novo nascer das artes da antiguidade, se bem que uma cultura urbana, algo bem mais pé no chão O termo estaria ligado à igreja em reconhecer seus próprios excessos; seria o “renascer da água e do espírito”. E vós me perguntais: Por que iniciar pela cultura? Sim, povos permitem-se dominar militarmente, politicamente, economicamente, mas culturalmente é bem mais difícil. A título de exemplo, cito a Grécia dominada pelo Império Romano; culturalmente o domínio foi grego. E a questão cultural desempenhará papel fundamental nas duas grandes guerras.

Antes disso, podemos observar um outro movimento no interior da caverna: o humanismo. Sim, embora alinhado ao Renascimento, aqui fica evidenciado a ruptura com a Igreja; o ser humano, inebriado com a ideia de liberdade, reclama para si o traçar de seu próprio destino. Muito bem, ótimo! Então surgem como sequazes o Antropocentrismo, o Racionalismo, o Cientificismo. Sim, o ser humano daí em diante pretende-se o centro de tudo. Os seres pleiteiam a condição de racionais, mas fica aqui um alerta aristotélico: Grandes crimes são perpetrados por grandes mentes! Creio que os seres humanos confundiram inteligência com racionalidade. A inteligência é característica humana, já a racionalidade necessita de um “algo a mais”. Que tal uma pitada de sensibilidade, alguns valores e certo apego à divindade?  E o cientificismo? Houve quem declarasse que “submetidos à ciência seríamos felizes”. Pergunto: Somos, de fato?

O Antropocentrismo, mesmo de modo lento e discreto, deu início ao processo de individualização; hoje vivemos a exacerbação do indivíduo, uma verdadeira egolatria, e tudo graças às ciências que se dizem sociais. No panorama jurídico/político já se confirmam os interesses particulares acima dos interesses do Estado, e isso aliado a um discurso que declara defender a democracia. Pergunto: de quem seriam esses interesses?

O advento do Racionalismo, outra cortina de fumaça, só serviu para dar sustentação a uma gama de discursos sofísticos e bem ordenados que exigem ser tratados como ciência. Seres humanos, muito embora a bandeira da liberdade e sob a égide do humanismo, declaram-se vítimas de uma sociedade injusta. Outra pretensa ciência adentrou a esfera jurídica e começou a interferir na educação doméstica, a ponto de criarem um Direito Privado.

O cientificismo desempenha papel fundamental na caverna: ele serve como make up para uma série de informações desencontradas que se autodetermina “pesquisa científica”. Na verdade, o que temos em mãos é uma verborragia acadêmica mesclada à oratória demagógica tão presente no exercício politiqueiro. No politizar-se da ciência, surgem os desmandos típicos de toda má informação.

Mas os influenciadores que atuam na caverna para conduzirem seus “rebanhos” não desistem; eles entendem que a maneira de corrigir erros é estabelecendo rupturas. E lá ficamos às voltas com o Iluminismo. Mas o que é isso? Falamos do Aufklärung, do esclarecimento, de lançar luzes sobre o que estava ofuscado, nas sombras. Mas será que o Iluminismo iluminou? Apoiado no Iluminismo tivemos uma Revolução Francesa, cujos pilares seriam Liberté, Égalité et Fraternité. Esqueceram os iluministas de plantão que tais valores são excludentes? A Revolução Francesa tencionava acabar com a monarquia absolutista e seus privilégios, inclusive estabelecendo a liberdade de propriedade. Ora, nesse caso, pergunto-vos: Será que a liberdade de ter, ocupa-se com igualdade e fraternidade? Evidente que não. Falemos, então, em Justiça. O que seria? Justiça é tratar iguais como iguais e desiguais como desiguais na medida de suas desigualdades. Não há como estabelecer tratamentos iguais. A igualdade é burra! E desde quando a pretensa igualdade desigual ocupa-se em ser fraterna? O fracasso do Iluminismo, traço característico da modernidade, deu origem a uma contrarrevolução, a pós-modernidade, que não sabemos ao certo quando teve início. O Iluminismo, enquanto discurso, assimilou um sem número de jargões utilizados pelos poderosos na tentativa de justificar o número expressivo de assassinatos cometidos na Revolução; eu chamaria de recurso hipócrita e, consequentemente cínico. Uma das torpes heranças, na verdade o câncer advindo desse tal de Iluminismo atende pelo nome de “politicamente correto”, recurso utilizado para dividir e, portanto, melhor governar.

Vivenciamos guerras, e com elas as questões culturais que subjazem. Sob o manto do humanismo, subsumidos pela ideia de liberdade, a Europa quis apartar-se de sua cultura, de seus valores. No entanto, ao buscar a origem de seus valores, de sua religiosidade, de sua ética, de sua arte, deparou-se com o judaísmo cristão. Houve rupturas, reformas, movimentos outros, a caça às bruxas, o Martelo das Feiticeiras, a Inquisição etc. O povo germânico, contudo, amparado em Nietzsche, na “morte de Deus”, e na mitologia nórdica/germânica musicada por Richard Wagner e suas Valquírias, pretendeu extirpar o judaísmo, muito embora a tentativa de justificar o genocídio paute-se em declarações de caos econômico.

Os adestradores de nossa imensa caverna, no pós-guerra, tentaram gerar um organismo que estabelecesse regras aos países membros, e isso com o discurso de acabar com as guerras. Balela! A primeira tentativa fracassou e a Liga das Nações experimentou rápida existência. Então criaram as Nações Unidas. Não, a finalidade não é acabar com guerras ou evitar confrontos entre povos, pois a guerra traz lucro, gera empregos e cria dependências. A finalidade maior da ONU é atender à exigência das grandes famílias para criar um governo mundial. As grandes famílias têm como pátria os países que formam o Conselho de Segurança. De certo forma esse governo mundial já existe, pois a ONU não respeita qualquer soberania. Países signatários devem adaptar suas Constituições de modo a satisfazer as exigências da ONU. Os países ainda se entendem como soberanos porque a ONU não agride diretamente as diferentes culturas regionais.   

Não trateis a questão cultural como coisa de “menor valor”. Atentai! De início, seres humanos lançavam mão de deuses (deuses que justificavam toda e qualquer faceta humana). Então apareceram os heróis para guiar a existência humana; heróis, contudo, mostraram-se falhos. Com o advento do povo hebreu, acompanhamos o surgimento de um único Deus. E tiveram lugar os “representantes” deste único Deus, que se empenharam em torná-lo indesejado. A ciência despontou como panaceia a todos os males e também fracassou; os políticos e seus ditadores igualmente fracassaram. Durante algum tempo falaram em ética, porém tratava-se de discurso vazio, apesar da rebuscada oratória. O individualismo foi então contemplado, mas o indivíduo necessitava de referências. Logo, teve início uma manipulação cultural para servir de supedâneo ao indivíduo, ao ego. Um retorno aos gregos: o povo necessita de heróis!  

E descendências foram gestadas segundo novos heróis, novos valores. A educação, que sempre esteve a serviço do Estado, parece desempenhar o papel de uma prostituta cultual, pois só atua para arrebanhar seguidores e fazer proselitismo. Não só a educação, mas a arte de um modo geral prestou-se a isso. Novos heróis foram criados, segundo o interesse das classes poderosas, com o fito de forjar gerações servis. O cinema, o teatro, a música, a poesia, a dança, os esportes fornecem estranhos estereótipos, (mitos, outros heróis) para pré-programar novas gerações. Têm lugar o despontar de alguns atletas, cantores populares, religiosos, estadistas etc.: todos lobos em peles de ovelhas. Um recurso eufemístico apelida tais estereótipos de originais, exóticos ou singulares, ao mesmo tempo em que lhes dispensa culto e recomenda respeito.

A contribuição de filósofos iluministas, suas risíveis filosofias (algo bem clichê), teorias políticas (enredos de um filme noir) travestidas de ideologias pútridas e pervertidas disseminaram mais uma vez a ideia de um viver feliz e com total liberdade. A juventude, preparada de antemão para bem recepcionar o discurso, aplaude e assimila todo o conteúdo sem o menor resquício de espírito crítico. O espírito crítico fora distorcido. Crítica, termo utilizado pela medicina grega, cujo significado seria a cura para um mal, transformou-se num menosprezo ao pensamento dialético, um conformismo ao status quo ante. Mas o prazer oferecido fez da Matrix o lugar ideal; fomenta-se, inclusive, a vontade de uma eterna existência.  

A ciência em muito auxilia às classes (algumas famílias) que se dizem dominantes e “naturalmente imunizadas”. A indústria farmacêutica atende às expectativas dos dominadores. Com o rótulo de ciência demonizam-se raios solares, bebidas lácteas, algumas frutas, alguns grãos, algumas verduras. E a Indústria Alimentícia, aliada à Indústria Farmacêutica, supre as carências daí decorrentes. Os dominadores agradecem. Doenças são criadas para dar ensejo ao controle de natalidade. A grande mídia, ideologizada e por receber benesses, massifica diariamente “aconselhamentos”, portfólios, imagens, comunicados, e tudo em nome de um bem estar social. Em toda e qualquer novidade “sócio/científica”, a mídia cuida em apresentar “especialistas” para defender temas até então inusitados. Em pouco tempo tais novidades recebem o amparo das leis. Eis um outro descalabro presente no cotidiano: a judicialização das relações.

Uma “revolução” (???) teve lugar na caverna: a ciência orgulha-se de desenvolver a tecnologia da informação que: a) apequena as relações humanas; b) tem alienado gerações inteiras; c) serve como aporte às classes dominantes que buscam intensificar a observação e melhor controlar seus dominados. A tecnologia da informação, infelizmente à serviço da canalha, mascara-se de ciência, e além de ofuscar desempenhos verdadeiramente originais, arrefece as relações entre profissionais, enfraquece conhecimentos e proporciona o surgimento de oportunistas.

A busca pela verdade, na qual tive origem, assimila então um novo conceito dentre tantos outros: A verdade é uma crença eletiva! Sim, infelizmente algo pessoal, individual, pois as pessoas escolhem em que acreditar, apesar de comprovações irrefutáveis. Mesmo as verdades científicas se vergam a este meu novo conceito, pois se assim não fosse, não haveria uma “teoria da terra plana”. O que é o mundo, afinal? Perdão; seria uma caverna? Respondo-vos sem temer represálias: Uma grande farsa! Vivemos o embuste que nos foi reservado. A existência é uma farsa. E os seres humanos empenham-se em preservar tais farsas.  

Em face do exposto, questiono-vos: Como adquirir conhecimento? Assimilar conhecimento parece-me extremamente difícil, senão impossível, pois que todo e qualquer saber está subjetivado. E vós me perguntais: E a sabedoria? Eu vos respondo: O mesmo grupo de poderosos, fantasiados de ciência, travestidos de seriedade e apoiados em alguma rota filosofia, exige de mim a crença nesses “desvalores” criados e manipulados para me alienar; no entanto, deprecia-me quando eu revelo minha predisposição ao sagrado, ao religioso. E a mim, ao demiurgo, só me resta crer. Eis a sabedoria!


sábado, 22 de janeiro de 2022

A síndrome de Sodoma

  

Nosso mundo claudica... agoniza. Não pela iminência de uma guerra qualquer; não pelo descaso ao meio ambiente; não pelo possível choque de um cometa ou meteoro; não pelo advento de um governo central imposto por uma nova ordem mundial. Estas não seriam causas, mas apenas efeitos. O mundo, através de uma quase totalidade de cidades, assimilou essa doença; na verdade uma síndrome: a síndrome de Sodoma. O pensar renovador que despreza valores, a visão progressista que olvida princípios, os revolucionários que rejeitam a religião, os vanguardeiros que depreciam e/ou desonram a família são responsáveis pela algaravia que envolve nosso dia-a-dia, pela comédia burlesca que fingimos ser prazerosa e verdadeira. Eis aí a personificação da besta. As emanações mentais provenientes de um sem número de cérebros inovadores em eterno espasmo criaram as situações das quais somos reféns. Não vos enganeis, Ló e seus familiares já foram retirados das cidades enfestadas. Todavia, ainda haverá esposas a olhar para trás, não por conservadorismo, mas pelo desejo de perpetuar o clima liberal; ainda haverá filhas buscando embebedarem seus pais na tentativa de parirem novos povos, povos estes que fatalmente se odiariam. E o que será do mundo? A total destruição? Não, pasmai: o mundo será resgatado pelos conservadores, pelos reacionários, pelos tradicionalistas, pelos ultrapassados. Aliás, os únicos a entenderem que as constantes rupturas entre passado e futuro dão lugar a lacunas intransponíveis, como as que partilham do nosso cotidiano, impedindo, inclusive, o livre traçado da história.      

quarta-feira, 19 de janeiro de 2022

O Sal

 

Independentemente de informações midiáticas ou de redes sociais, está evidenciado o caos em que mergulhou o orbe terrestre. O ser humano parece ter-se degenerado, regredido; a violência aumentou sobremaneira; tornaram-se rotineiros os assassinatos, os estupros, os roubos, os furtos, a corrupção ativa e passiva. A introdução de novos valores parece ter dissociado as relações mesmas; ao dia-a-dia somam-se as catástrofes naturais, os efeitos das alterações climáticas, as doenças. E a reboque temos a politização e a ideologização dos tão afamados “Contratos Sociais”. Todavia, perguntas se nos revelam pertinentes: somente gestores, administradores e políticos seriam responsáveis por tal panorama? Enfim, por que nos isentarmos? Por que nos abrigarmos sob a égide da responsabilidade alheia? Senão, vejamos!

“Vós sois o sal da terra; e se o sal for insípido com que se há de salgar?” (Mt. 5:13) Ora, por que a figura do sal? Sim, o sal deve ser utilizado como a arte de dar sabor. Nós devemos dar sabor à terra. E como? A sabedoria salga a terra, dá-lhe sabor e fertilidade. O sal significa preservação, fidelidade, constância. O sal é o elemento utilizado para selar o concerto com Deus; a aliança com Deus nada mais é do que nos tornarmos conscientes e certos da fidelidade de Deus para conosco. O sal é o elemento purificador; ele simboliza a perenidade da aliança entre Deus e seres humanos. E como devemos entender o dar arte e sabor à terra? Damos sabor à terra quando cumprimos nosso pacto com Deus. Somos o sal da terra quando nos tornamos testemunhas de Deus; quando servimos a Deus. E se não o fizermos? E se o sal não salgar? “Para nada mais presta senão para se lançar fora e ser pisado pelos homens”. (Mt. 5:13)

Por outro lado, ideias que declaram salgar a terra, mas, no entanto, apenas se prestam para por em evidência o pretenso salgador, tornam o solo ermo. Ideias tresloucadas que propõem superar toda e qualquer dificuldade e abrigam promessas de eterna felicidade são disfarçadas apostasias; nesse caso o sal transforma-se em enxofre. Tais ideias nada mais são do que o fermento dos fariseus, a hipocrisia. A maldade dos seres que habitam um terreno qualquer não permite que este produza bons frutos; as ideias maldosas execram qualquer adubo. Uma terra coberta de sal e enxofre não poderá ser semeada; erva alguma nela crescerá. E se algo nela brotar terá início um povo similar à Sodoma e Gomorra; em verdade, tal terreno tornar-se-á lamacento, nada mais que um charco.   

Permiti que vossos pensamentos recriem a terra; uma terra farta em arte e de sítios saudáveis e prazerosos. Afastai-vos, portanto, do pensamento insípido, assim como do fermento que transforma o simples pensar em cruel pesadelo.

quarta-feira, 14 de julho de 2021

Antigo pecado

 

Não me reporto a pecados outrora cometidos; aqueles característicos da saudosa juventude. Não. Eu falo do conceito que precede o pecado. Sim, porque o pecado como conhecemos (erros cometidos, mal procedimento, o confrontar de declarações contraditórias, etc.) deve-se ao advento do judaísmo cristão. Então vós me perguntais: “Ora, e antes do surgimento desse nosso pilar - a religião - não haviam pecados?”  Eu, pelo menos por enquanto, não me arriscaria em proferir um sim ou um não. Contudo, advirto-vos que os gregos falavam em Υβρισ (hybris), ou seja, um insulto, uma ofensa realizada com desprezo, uma insolência, uma injúria, uma afronta, e mais uma vez o confrontar, ou seja, a acareação entre contraditórios. Se bem que o insulto, a ofensa, a insolência e injúria presentes no conceito grego, estariam relacionados ao excesso, ao descomedimento, ao desequilíbrio, uma afronta ao justo meio aristotélico (não ao meio aritmético). E o que seria o justo meio aristotélico? Lancemos mão de um exemplo: entre os extremos Covardia e Temeridade existe a Coragem. Todavia, em nos valendo de melhor acurácia, percebemos que a Coragem estaria mais próxima da Ousadia, ou seja, da Temeridade. Eis o justo meio!

Nada obstante, o conceito de hybris relaciona-se diretamente à natureza; seria o insulto, a afronta, o descomedimento no que tange à natureza. Sim, falamos em preservação e respeito a physis (natureza). Em se observando a medicina proposta pela escola hipocrática, poderemos depreender que a ciência médica trataria somente de reequilibrar os organismos tendo como base a natureza. Os descomedimentos, os excessos provocariam um desequilíbrio orgânico em confronto à natureza.

Enfim, acredito que agora possa responder vosso pioneiro questionamento. Eis o nosso maior, mais antigo e grave pecado: os excessos que agridem a natureza, inclusive a nossa natureza, a natureza humana. Para finalizar, lanço mão de verso presente em antiga canção popular: “Água de mais mata a planta!”  

domingo, 4 de julho de 2021

Voto de aplauso

 

A Ciência Jurídica no Brasil é algo singular; por isso gravada em maiúsculas. Sim, volta e meia somos “agraciados” (seria melhor brindados?) com um parecer, decisão ou até mesmo sentença, no mínimo, atípica. Duvidais? Pois bem, aqui vai um exemplo. É bom frisar: trata-se de exemplo, não de situação hipotética. Certo magistrado, creio que sobremaneira empenhado em minimizar a ação de seu afeiçoado, estabeleceu entendimento ímpar, baseado evidentemente em torpe hermenêutica, no tocante a determinada acusação de estupro. Sim, o meritíssimo entendeu que tratava-se de um estupro culposo, não doloso, ou seja, o rapaz estuprou sem a intenção de fazê-lo. Lógico, a mulher que dizia-se vítima, fora, na verdade, a causadora do delito, pois que seduziu o jovem moçoilo induzindo-o a fazer o que não queria. A pretensa vítima sim, deveria ser processada pelo crime de sedução, quiçá, por assediar o acusado. Ocorre-me, então, a dúvida: devemos levar tal ciência a sério?  

Não obstante, mesmo em face da seriedade requestada pela dita ciência, não raramente nos deparamos com algo risível. Não?! Vejamos. A prostituição é entendida como uma alternativa de trabalho, haja vista as desigualdades econômico-sociais. (Justificativa) Desde 2002, portanto, a prostituição passou a ser reconhecida pelo Ministério do Trabalho como profissão, muito embora a exigência de idade mínima:18 anos. Donos de prostíbulos não cometem crime algum, desde que não explorem serviços sexuais alheios, segundo o entendimento da 8ª Câmara Criminal do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro. Curioso é que cresci aprendendo que caftinar era não só ilegal como também imoral. Papai deve ter-se enganado. Mas... continuemos. Baseado na Lei 10.097, de 19 de dezembro de 2000, o dono de um famoso lupanar contratou para seu “negócio” alguns Jovens Aprendizes, todos com mais de 18 anos de idade. Pergunto-vos: cômico ou repulsivo?

Mas meu voto de aplauso vai para nosso STF, o Supremo Tribunal Federal, o Tribunal Constitucional, a Corte Suprema do país. Buscai imaginar Suas Excelências a prolatarem sentenças para crimes ainda não cometidos. Estaríamos diante da releitura de Minority Report, a Nova Lei? Duvidais? Pois bem. Prevaricar é crime cometido por funcionário público quando busca ocultar, retardar, deixar de praticar de ofício ou pôr-se contra certa disposição legal expressa, na tentativa de acobertar ilícito, visando satisfação pessoal. O que daqui se depreende é que prevaricar é crime subsidiário, é algo acessório, secundário. Arrisco-me a falar em epifenômeno, pois que a doença deve ser declarada para que outros sintomas sobrevenham. Há que se confirmar a ocorrência do crime para aventar-se possível prevaricação. Todavia, nossa Suprema Corte vem se preocupando mais em comprovar sintomas secundários do que provar a existência da conjuntura ilícita.  E torno a perguntar-vos: cômico ou repulsivo?

sexta-feira, 2 de julho de 2021

Ativismo Judicial

 

Estava eu em Tegucigalpa, Honduras, a realizar algo próximo de uma pesquisa histórica; dir-se-ia uma viagem Cult. Quase 19:00 horas, 7 da noite, portanto, conduzido pelo apetite, adentrei Malportado, um restaurante local a servir comidas latino-americanas. Já refestelado na cadeira do estabelecimento, pude ouvir a notícia divulgada pela TV local: a CIA divulgara os nomes dos maiores grupos a abrigarem bandidos e terroristas em todo o mundo. Pasmai! Dentre o Hamas, o Estado Islâmico, a Al-Qaeda, o Boko Haram, o Talibã, o Hezbollah, estava o Fórum de São Paulo, o grupo que reúne partidos de esquerda, sindicalistas e declara-se anti-imperialista. Contudo, sabemos que o objetivo final é criar a URSAL, ou seja, a União das Repúblicas Socialistas da América Latina.  

A decepção, adicionada à revolta em presenciar mais uma vez o nome de minha pátria envolvida em escândalos escabrosos, fez cessar de imediato qualquer resquício de fome; o apetite evadira-se. Lamentável, pois as pessoas que se autodeclaram de esquerda, jamais conheceram ou vivenciaram qualquer experiência em países governados pela esquerda. A ignorância, a desinformação reelaborada pela falácia manipuladora cria a expectativa de conquista, estimula a ganância e molda um ambiente propício à egolatria desenfreada. O apedeutismo é explorado e mesmo assim sente-se grato. Eu arriscaria estabelecer um elo com a Síndrome de Estocolmo, onde a vítima desenvolve sentimentos pelo agressor, com ele identificando-se emocionalmente.

Eu ruminava pensamentos e palavras enquanto sorvia margaritas. Meu olhar errava pelo recinto. E neste vaguear deparei-me com um conhecido personagem: Raymond Reddington! Sim, inegavelmente era ele, pois até Dembe Zuma estava a seu lado. Atenção: eu não falei em James Spader, mas simplesmente em Reddington. Eu o encarei, ele sorriu, abandonou a mesa e veio sentar-se a meu lado. Disse ter percebido meu mal-estar. Enquanto libávamos outras margaritas eu desabafei. Dembe nos vigiava de longe. Reddington esboçou seu pior sorriso; algo misto de lamento e deboche. Passados alguns segundos anunciou-me algo ainda bem pior: disse-me ele que em sua Black List acrescentara nosso STF, nossa Corte Constitucional.

Ergui-me, cambaleei até a porta do restaurante e inalei o ar que momentaneamente faltava-me. Reddington ainda sorria zombeteiro quando tornei a sentar-me. Estalou os lábios depois do gole de margarita e pôs-se a tudo relatar. O Supremo Tribunal Federal assumira de vez a postura expansiva e proativa. O povo brasileiro experimentava, então, o ativismo judicial. Na verdade, o judiciário carregava a pretensão de governar o país sem receber um voto sequer. Ora bolas, isto além de anticonstitucional é antidemocrático. Não pude rebater tais declarações, pois sabia de antemão que o judiciário invadira a esfera do executivo quando retirou do presidente atribuições a ele garantidas pela Constituição Federal; que exigiu do legislativo abertura de CPI, bem como a instauração de um processo de impeachment. Nosso Corte Constitucional, de fato, brinca de polícia, pois investiga, dá voz de prisão, condena e outras cositas más. É bom destacar que o artigo 142 da Constituição pode ser aplicado quando há essa invasão de competência entre os poderes.

Não obstante, o que mais me chocou na revelação foi que, além do ativismo judicial, pautado na ideologia de esquerda, haja vista o empenho em descriminalizar as drogas, aprovar o aborto, suprimir relações familiares e perseguir religiões, o STF está envolvido em tentativa de assassinato, pois o atentado à faca ao então candidato à presidência, passados 3 anos, ainda não foi explicado. A polícia federal oculta muita coisa, pois enxerga o povo brasileiro como imbecil. O acusado ainda não foi posto em liberdade pelo STF, porque não cabe habeas corpus em casos de sentença a ser cumprida em manicômio judiciário.

O telefone tocou, Reddington atendeu: tratava-se de algum problema com Elizabeth Keen. Minha fonte e seu acompanhante despediram-se e deixaram-me entregue às lucubrações. Vós não podeis imaginar o quanto eu gostaria de isentar, pelo menos, um ministro de nossa Corte Suprema, mas fica difícil fazê-lo. Todavia, dentre eles, o que mais me decepciona é o atual Presidente da Corte. O senhor Luiz Fux não só agride a nação brasileira e a ciência jurídica, ele desmoraliza o judaísmo enquanto instituição, ele vilipendia o povo judeu, ele desdenha do povo escolhido de Deus.

Data muitíssima vênia, tomo a liberdade de citar a Vossa Excelência um alerta que deveria orientar as ações de todo e qualquer magistrado: “Ai dos que decretam leis injustas, dos que escrevem leis de opressão, para negarem justiça aos pobres, para arrebatarem o direito aos aflitos do meu povo, a fim de despojarem as viúvas e roubarem os órfãos!” Isaías 10: 1 e 2

quinta-feira, 1 de julho de 2021

Fashion diseases

 

Confesso-me um tanto inseguro para abordar e/ou dar início ao tema. Pensei na modalidade conto, pois, muito embora a gravidade do assunto, teria nuanças algo lúdicas e sobremodo satíricas. Formulei, inclusive, ideias acerca de um personagem animal, um bicho selvagem, um protagonista poderoso (ou seria apenas mero coadjuvante?). Pois bem, este seria o leão, batizado por Adão, se bem que a fera perderia muito de sua característica no que tange à dieta. Sim, eu falo de um leão vegano. Este leão, apesar de toda reconhecida ferocidade, tornar-se-ia refém de astuciosa falácia. E quem seria este outro personagem, (protagonista ou coadjuvante?) capaz de manipular aquele que detém o título de “rei dos animais”? Lógico, só poderia ser um charlatão traiçoeiro que atende pelo nome de Dráuzio, uma hiena macho, com cara de sofredora e com achaques de pieguice social. Não, nada pessoal, apenas a personificação de uma medicina midiático-curandeirística.

Todavia, percebo que o pretendido conto não atenderia a abrangência que o assunto requer. Então, assim que abandono os personagens da vida selvagem, vem-me à mente um fato assaz interessante que, certamente, tornou-se marco de uma distante juventude: houve uma época em que a moda exigiu da mulher a obrigatoriedade na companhia de motociclistas. E como comprovar o status de acompanhante? Simples, tornou-se comum as jovens exibirem como troféu a pele das pernas queimadas pelos escapamentos das motos. Algumas, as não vitimadas pelos “escrupulosos” pilotos, usavam a lâmina de uma faca fumegante para implantar queimaduras na pele das próprias pernas. Atentai! Estou a falar de seres humanos que detêm como apanágio a racionalidade.

Ainda bem que esta moda tornou-se démodé. Sim, o modismo é isso: conhece rápida ascensão, arrebanha prosélitos, estabelece comportamentos e em curto período de tempo entra em declínio. Quando professor, enquanto aguardava o início da aula, sentado próximo a entrada da sala, percebi que as alunas, de um modo geral, vestiam-se do mesmo modo: calça jeans de cintura baixa e uma blusa curta, independente da cor, com o umbigo de fora. A imagem de uma manada surgiu instantaneamente diante de meus olhos. Enfim, essa é uma geração que clama por liberdade.  

Nada obstante, deve-se ter em mente que a moda não se limita ao uso de roupas, palavreados ou comportamentos; atualmente partilhamos nosso dia-a-dia com as “doenças da moda”. Pergunto-vos: O modismo nas doenças sempre existiu? Pode ter acontecido, é óbvio, mas sinceramente não me recordo. E pautado nas minhas não recordações, arrisco-me a declarar que as Fashion Diseases são características da pós-modernidade. Parece-me que a pós-modernidade traz esse viés antípoda, isto é, a tudo contraria, a tudo se opõe. E a justificativa para tal oposição é o vazio de uma falácia que se autodeclara ideológica.

Mas voltemos a falar de assuntos sérios. Falemos, portanto, das doenças da moda: Os seres humanos foram declarados mamíferos porque possuem glândulas mamárias e produzem leite para alimentar suas crias. Desde tenra idade e até muito antes, sempre soube que o leite, não só o materno, mas também o leite de gado é imprescindível na alimentação humana. Meu pai, meu avô, o bisavô, o pai dele e assim por diante poderiam corroborar o que digo. Contudo, os dias atuais com sua estropiada ciência optaram por demonizar a lactose. Eu nunca ouvi esta mesma ciência - por isso estropiada - questionar os produtos químicos misturados ao leite e laticínios para necessária conservação. A indústria alimentícia agradece; eles criam um leite sem lactose, uma café sem cafeína, uma cerveja sem álcool. Sim, e quando as não vítimas da lactose apresentarem carências, será a vez da indústria farmacêutica desfazer-se em mesuras e em lucros, evidentemente.

Falemos agora do glúten. Este componente tornou-se famoso, sendo apontado como único culpado pelo ganho de peso e mal-estar intestinal dos glutões. Curioso é como os criminosos são considerados suspeitos de crimes mesmo quando os confessam; o glúten já foi apontado, indiciado, julgado e condenado. Conceitualmente falando, esta proteína está presente em alguns cereais como trigo, a cevada, o centeio e o malte. Após o processo de demonização midiático-curandeirístico, a pseudo ciência jamais questionou a validade e/ou apontou seus dedos para os alimentos transgênicos. Pergunto-vos: a engenharia genética pode mensurar as consequências futuras nas alterações provocadas no DNA das sementes? Creio corrermos o risco de uma futura geração de X-Men.

Mais uma vez a indústria alimentícia vem nos “socorrer” e cria alimentos sem glúten. Contudo, assim acredito, não mais teremos cevada, centeio, trigo ou malte, mas uma outra coisa qualquer. Lancemos mão, portanto, de uma situação hipotética: para corrigir o andar do caranguejo, o bichinho que só anda para trás, modificou-se geneticamente o movimento em suas articulações. Agora o caranguejo terá o andar de uma Gisele Bündchen quando em passarelas da vida. E a pergunta que não quer calar: mas ainda tratar-se-á de um caranguejo? E quando as carências surgirem nos “acautelados” com o glúten, a indústria farmacêutica, por certo, de muito boa vontade, apresentará um substitutivo aos “bem informados”.

Abri vossos olhos ó raça embrutecida e na ignorância mantida; buscai pensar por vós mesmos. Bem, não sou de dar conselhos, sugestões ou algo que o valha. Apenas um alerta: vossa saúde, bem estar, longevidade, etc., a ninguém preocupa. Sois apenas números sem valor, que em face de protocolar condução, forneceis números para um balancete que visa somente valores.