segunda-feira, 19 de agosto de 2013

A procissão


E lá vem a procissão: fogos de artifícios, carros de som ao estilo Dodô e Osmar, gente pulando e mãos para o alto, acompanhando o compasso neurótico de uma música que há muito deixou de representar o sagrado. Mais uma queima de fogos e a voz do Arcebispo que, de pé sobre o teto do trio elétrico, abençoa a multidão desvairada e inicia uma Ave Maria. A oração logo se transforma em cântico; o cântico logo acelera os compassos, modula, e eis uma Ave Maria pós-moderna, evocada, gritada, rebolada por apóstatas maquiados de fiéis. Não percebi o lento caminhar que em sentido teológico significa missão; o abandonar suas casas e anunciar o Evangelho; seguir os passos de Jesus.

Em termos de agir humano o evento não me surpreende, mas sim o fato de se conglomerarem em torno da religião, que - pasmem! - com sua aquiescência, subvertem a própria dogmática. Ora, a procissão implica cortejo religioso, um préstito, uma marcha solene. Mas o solene, por sua vez, implica aparato, pompa, o majestoso que infunde respeito. A procissão, em seu fundamento, envolve a processão, isto é, um modo especial da união do Espírito Santo com o Padre e o Filho. Pergunto-vos: onde o descrito evento contempla o solene, o majestoso que infunde respeito?

“Nem todo aquele que me diz Senhor, Senhor, entrará no Reino dos Céus”. Mateus 7:21. Todavia, quero crer que os fiéis dançarinos pretendam, de fato, adentrar a morada dos eleitos, e para isso devem ter se valido de outra exegese para o versículo acima. Talvez a procissão por mim narrada seja de caráter pagão. Neste caso a procissão precedia os jogos em Roma, era conduzida por magistrados - hoje Arcebispo - e se dirigiam ao circo. Os filhos de cidadãos romanos escolhidos seguiam em seus cavalos - agora no conforto do trio elétrico. Logo em seguida vinham os dançarinos que representavam sátiros, cada qual satirizando a dança dos demais. Neste caso não percebo, sequer, um culto de idolatria, mas sim a exteriorização da hipocrisia, da banalização, de uma devoção fingida.


Sim, a partir do acima exposto, devo-lhes solicitar um favor, ou um rogo, se assim quiserem: não pretendais questionar a minha fé ou a minha não fé! 

sábado, 17 de agosto de 2013

Teoria do TEMEM ou o nada quântico e a "creatio ex nihilo".

O nada quântico

De acordo com algumas teorias modernas acerca da origem, a matéria se dissolve em energia, e esta em algo desconhecido. Bem, quando os objetos materiais se dissolvem, isto é, deixam de ter existência, resta-nos o espaço; nada mais que espaço. Ora, a não existência ou a condição de perda da existência de um objeto - epistemologicamente falando - implica em nada. O espaço, portanto, traduz-se em nada. O nada seria um último estágio de degradação da matéria. O que é, afinal, a irradiação atômica? A perda constante de elétrons, ou seja, a matéria em desagregação. Elementos como o urânio - último da tabela periódica - perdem constantemente seus elétrons; são eletronicamente instáveis e carregados positivamente. Uma bomba atômica nada mais faz do que acelerar o processo de transformação - matéria em energia.

Mas este “nada” espaço, em verdade, é um “nada aparente”. Vejamos: se a matéria se dissolve em energia, podemos indutivamente imaginar o processo inverso. A matéria tem origem no espaço; o espaço seria o repositório de tudo quanto existe, pois ele guarda em latência todos os elementos primordiais, bem como a possibilidade da afinidade entre os mesmos. A matéria seria então uma condensação do espaço. O espaço, portanto, tem massa.

Bem, e como surge a matéria? O espaço se deforma quando em estado de tensão. O estado de tensão provoca uma deformação. De acordo com o grau de deformação, o espaço libera uma força respectiva, dando origem a um estado dinâmico. O dinamismo, a potência, o trabalho realizado pelo espaço nada mais é do que uma consequência desta “força” ou “energia”. O aumento desta força ou energia aumentará o “estado dinâmico”, que por sua vez provocará uma condensação natural do espaço através de vórtices. Movimentos intensos em pequenos vórtices provocarão o adensamento de massa do espaço. Este espaço adensado e reduzido de tamanho dará origem a mais simples e estável manifestação da matéria. Vale reclamar a atenção para o fato: de um vórtice infinitamente pequeno resulta certo valor conhecido como fóton gama. Pode-se dizer que um fóton é possuidor de massa quântica, pois sua massa é infinitamente pequena. O fóton é um concentrado de energia.

Quando este concentrado de energia tange o núcleo atômico de um metal pesado qualquer imerso no espaço - esta grande sopa cósmica - converte-se em um elétron e um pósitron (elétron de carga positiva). Elétron e pósitron destroem-se ao se chocarem e convertem-se em raios gama da alta intensidade de energia. Manuel Dopacio nos diz que estas partículas infinitesimais projetadas no espaço à velocidade da luz traçam trajetória vetorial, e ao tocarem o núcleo de um metal pesado - engolfado na sopa cósmica - têm seus movimentos interrompidos, passando a girar sobre si mesmas e adquirir massa. Nascem os átomos. O primeiro elemento, o hidrogênio, apresenta apenas um elétron em sua órbita. Eis a matéria. Matéria é movimento.

Daqui podemos inferir: a) que energia é um estágio intermediário entre espaço e matéria; b) tudo, enquanto matéria - nós mesmos - é, em essência, espaço e movimento. Espaço é onde vivemos, é o que respiramos, ele nos rodeia, interpenetra nosso ser. As três dimensões de que dispomos são espaciais. Somos manifestações espaciais; somos uma última consequência do espaço. Enfim, somos espaço tornado fenômeno. O espaço em si é númeno; c) o espaço no estado de tensão, quando no início da transformação, faz-se afeito ao tempo.


Creatio ex nihilo.

Apesar de todo empenho em demonstrar a origem da matéria através da teoria quântica, uma pergunta ficou sem resposta: o que provoca a tensão necessária no espaço, para que do mesmo surja a matéria, ratificando uma criação do nada - ex nihilo? De início poderíamos entender Deus como pura energia, mas pudemos ver que energia é só um medium na criação, a condição intermédia entre espaço e matéria. Seria Deus o próprio espaço; onde tudo está latente, imerso, ínsito? O espaço em si é um “nada aparente”, um nada quântico, um nada capaz de tudo produzir, um nada prenhe de tudo. Não obstante, o espaço, quando no momento da tensão, transformação, dinamismo, movimento, fica submetido ao tempo. Eis nosso Deus. Deus é tempo! O pensamento criador de Deus é tempo. Somos criaturas oriundas da combinação de elementos, que por sua vez são frutos da combinação de outros elementos primordiais. E nós nos manifestamos como ajustes de fenômenos, através de um espaço submetido ao tempo. O tempo é a ideia divina em si.


Teoria do TEMEM – O Tempo atua no Espaço pleno de Massa, facultando Energia (movimento) que dá origem à Matéria.

quinta-feira, 15 de agosto de 2013

S ou C: uma questão de escolha


Certa vez, e a meu ver de maneira infeliz, Caetano Veloso declarou que “só é possível filosofar em alemão”. O que percebo, e não casualmente, é que nossa língua não é bem explorada. O povo desacostumou-se de usar o dicionário, talvez porque seja mais elegante - fashion - usar um termo estrangeiro. Todavia, o uso de tais termos se volta mais a uma subserviente preocupação estética, à esnobe e pseudo elegância das expressões. E como tudo que carece de suposta elegância sai de moda, alguns verbetes, locuções e sinônimos de nossa linguagem foram taxados de arcaicos, e, portanto, evitados.

Ao contrário do que o leitor possa pensar, nada tenho contra tal recurso, desde que nosso léxico careça de termo preciso para manifestar o pensamento. Chico Buarque, em outra infeliz declaração, proferiu: “Nossa língua é periférica”. Enfim, nossa língua é tida por marginal, secundária? Ora Chico, seus poemas contrariam sua declaração. E qual ou quais seriam as línguas principais? Isso me parece ser mais uma questão cultural; uma cultura que se vê como periférica; cultural porque ainda não se conseguiu um meio eficaz para que a nação se desvencilhe do estigma de colônia. Nossa língua, repito, é extremamente rica; falta somente ser mais bem estudada.

Pode-se especular também que o problema reside na alcunha - também um estigma - que envolve o uso do dicionário. “Pai dos burros”, diria a falsa intelectualidade. E as pessoas resistem em apelar para os vocábulos disponíveis em sua própria língua. Contudo, a leitura, o estudo descompromissado do dicionário me tem sido de valor inestimável. Não podeis imaginar a quantidade de palavras que, apesar de soarem estranhas, empoeiradas, podem vir a preencher uma suposta carência, e, por isso mesmo, infamar o uso do termo estrangeiro. E foi exatamente no dicionário que encontrei inspiração para escrever essa pequena crônica ortográfica.

Em uma de minhas pesquisas voltei-me à homofonia. Coser e cozer são ótimos exemplos, mas ainda podemos falar em senso e censo, conserto e concerto, paço e passo, assento e acento, cem e sem etc. Não obstante, percebi que a homofonia dá-se mais amiúde quando na utilização do S e C. Então, recôndita, oculta (e por que não ignorada?) descortino certa homofonia entre os termos incipiente e insipiente. Ora, a incipiência (com C) aplica-se ao principiante, ao inexperiente; já a insipiência (com S) volta-se ao ignorante, ao néscio.

Bem, por uma questão unicamente didática, proponho-me, então, a exemplificar empiricamente tais vocábulos. Ora, a homofonia em questão é aplicada a seres humanos. Mas a que tipo de seres humanos? Sem muita demora me surge a imagem do político. Sim, lidamos com políticos, que tanto podem ser investidos de uma insipiência quanto de uma incipiência, isto é, ou ignorantes ou inexperientes (ingênuos). Aqui se pode falar em escolha. Contudo, insipiências ou incipiências, que deveriam nortear nossas escolhas, são mascaradas pela propaganda política regida por marqueteiros. O insipiente se mostra um sábio; o incipiente mascara sua inexperiência.

Excitado com minha descoberta, permiti-me provocar comoções na ortografia - talvez a pretensão de neologismos. Que tal, em se tratando de nossa “casta” política, cunharmos os termos inscipiente - o S antes do C - e incsipiente - o C antes do S? Isso teria a finalidade de condensar num mesmo vocábulo a inexperiência e a ignorância, No entanto, levando em conta a colocação das consoantes, teríamos, por exemplo, o inscipiente, ou seja, aquele que antes de ser inexperiente já reflete ignorância. Se se tratasse de um incsipiente, estaríamos às voltas com alguém em que a inexperiência (ingenuidade) precederia a ignorância.

Por certo, algum meu desafeto diria, “Os termos são quase correlativos e quase redundantes, pois que a inexperiência traduz-se na ignorância, e a ignorância, por sua vez, tem por fundamento a inexperiência”. Eu diria perfeita tal admoestação, no entanto, devo reclamar a atenção do possível êmulo, que, em se tratando de políticos, e levando-se em conta os antônimos dos vocábulos envolvidos na homofonia teríamos: a experiência em contato com a ignorância potencializa esta última. Já a não ignorância aplicada à inexperiência manifesta-se como nefasta liderança.


Quando falo em uma questão de escolha, não me reporto à escolha de políticos, mas sim ao tipo de políticos, indiferentemente se grafados com C, com S, com SC ou se com CS. E o que fazer? Não há alternativas disponíveis. A única sugestão pertinente seria um debruçar-se com afinco sobre o dicionário em busca de terminologias apropriadas que possam exprimir nossa revolta.

segunda-feira, 12 de agosto de 2013

A Filosofia Underground


Recordo-me, e sem muita dificuldade, de um tempo passado. Foi tempo único, singular, onde as relações se mesclavam entre mudanças, revoltas, superações. Na verdade, “tudo ido, lido e vindo do vivido da minha adolescidade”. Com o próprio tempo tínhamos uma relação de companheirismo, um partilhar fraterno. Mas as mudanças chegaram súbitas e exigiram de nós, os paladinos da nova geração, uma rápida readaptação. Ora, toda mudança é difícil; o obsoleto não nos conquista, o desconhecido nos apavora. Então saímos em busca de recursos que viabilizassem as irrevogáveis mudanças. Fugas, portanto, são toleráveis.

E fugimos de casa, dos velhos hábitos, para a vida alternativa, para as drogas. Mas a relação com as drogas tinha outra tônica; o uso de drogas revelava-se como um libelo, algo como um postar-se contra novos ditames de um contexto social que se nos revelava nefasto, mas nunca como um fazer reacionário. Em suma, instávamos pela não mudança e igualmente por não manter o mesmo status quo. E vivemos o movimento Beatnik, Woodstock, Beatles, Jimmy Hendrix, The Who, Rolling Stones etc. Vivenciamos também os cabelos longos, os Hippies, as loucuras de uma juventude sempre escandalosa e ardente, o sexo grupal, os acampamentos, as caronas sem destino e a maconha para 100 anos.

“Bem que eu me lembro, a gente sentava ali, a beira do aterro sob o Sol, observando hipócritas, espalhados andando ao redor”. Mas os hipócritas estão em todo o lugar; são ubíquos; superam o espaço-tempo. Não me recordo se foi exatamente ali; pode ter sido em outro lugar, quando travei, pela vez primeira, meu contato com a Filosofia Primeira. Em torno de uma “fogueirinha de papel”, o grupo buscava explicações para o Ser. Mas não o Ser do Ente e igualmente doentio heideggeriano. Não! Buscávamos unicamente a simplicidade do Ser; um Dasein ausente e presente ao mesmo tempo, no mesmo lugar; o Ser aí podia, inclusive, não estar mais aí, e sim lá ou em lugar nenhum. “Here, there in everywhere”. As drogas nos tornavam ausentes de nossa própria presença.

O primeiro pensador se manifesta acerca da temática. “Nossa essência é essa: não saber o que somos. Se soubermos o que somos, agente perde o contato com agente mesmo”. Alguém aquiesceu: “Falou!”. Um replicante interviu. “Mas se não soubermos o que somos, continuamos não sendo nada”. O mesmo alguém concorda: “Beleza!”. Um terceiro interrompe. “Cara, a essência agente tem buscar para saber qual é”. O eco responde: “Falou, vou apertar mais um pra gente resolver essa parada”. E um silêncio nos envolveu enquanto o cara pilava o fumo. Um mais destemido arriscou: “Existe uma essência em nós e uma fora de nós. Se buscarmos uma essência fora de nós que não se dê bem com a essência dentro de nós vai dar o maior Xabu”. O que pilava o fumo cortou: “Ih, o cara aí, vem com esse papo estranho querendo bagunçar com a nossa filosofia”. O baseado fica pronto e tem início a partilha. Silêncio; um silêncio sacro, profundo, pensado. O que retomou a conversa propõe. “Eis a nossa essência! Buscada fora de nós que está sempre de acordo com o que está dentro de nós”. Um sino-descendente replica: “Prefiro a essência de um chá; é muito legal”. O mais ousado arremata: “Aí, minha essência eu cheiro ou injeto.”

Mas a polícia - os hipócritas que andavam ao redor - chegou e levou-nos todos para a DP. “Que coisa deselegante, agente no meio de um congresso, de um encontro, de um colóquio manero, sei lá, uma onde dessa aí. E vem os cara pra nos fazer calar. Pô aí, onde é que tá a liberdade de expressão? Agente envolvido num lance legal, à procura de nossa essência. Depois falam que os jovens não servem pra nada; os cara não deixam nem agente pensar”.


Então percebi que a seriedade da filosofia não se resume a quem filosofa ou sobre o que se filosofa, mas sim no envolvimento e na determinação daquele que o faz, independente se drogado, careta, chapado ou em crise de abstinência.  

sábado, 10 de agosto de 2013

Cortejos


Certa feita, lá pelos idos dos anos 80, estando eu em New Orleans, dispus-me acompanhar um funeral. A tradicional New Orleans Jazz Funeral dava a tônica do evento. Evidentemente que este tipo de cortejo vincula-se ao cultural e revela-se sobremaneira de interesse dos amantes do jazz. Nesta oportunidade, pude perceber que o caixão era como que embalado ao compasso da música, oferecendo ao recém-defunto uma última dança. Talvez, nesta oportunidade (quem o sabe?) o clima do festivo Mardi Gras mescle-se aos lamentosos acordes do jazz ou blues, proporcionando ao féretro um entusiástico adeus.

E cá estou, outra vez, como intrépido sequaz de outro cortejo funéreo, mas desta feita submetido à outra cultura, e, ipso facto, a outros valores. Não me perguntem pelo nome do defunto, profissão, família, posição social, porque tais detalhes me soam inúteis. Como também não posso discorrer sobre tipo físico, altura, peso, cor dos olhos ou cabelos; são meros acidentes e não predicados, muito embora nenhum destes sejam objetos de meu interesse. Apenas tenho por hábito acompanhar enterros e observar os ritos e práticas desenvolvidas durante o mesmo. Poder-se-ia dizer que sou um pretensioso defensor de uma insipiente antropologia macabra.  
 
Na frente, lentamente, segue o carro negro que conduz o corpo em seu derradeiro passeio por ruas outrora exploradas. Atrás deste, ou melhor, grudado ao para-choque do auto, como se fosse estepe ou acessório, o bêbado conhecido da pesarosa família. O bebum parece desempenhar o papel coadjuvante a ele conferido com a seriedade de um diplomata: cenho cerrado, ensimesmado, cabisbaixo, resignado, cioso de um dever que lhe absorve por inteiro. Logo em seguida a família: a viúva envolta em negros trapos, amparada por filhas de olhos vermelhos. Filhos desfigurados com suas esposas afetadas. Netos estupefatos, com rostos cansados e edulcorados de xarope e catarro, caminham abraçados. Olhares perdidos, vagos, desamparados.

Uma ala de velhas mulheres, de expressões laconicamente arrebatadoras e súplices do nada, caminha com presumida insegurança. São carpideiras. E aqui me permito verberar tal conduta: prática resumidamente obscena! Afinal, o que é chorar pelo desconhecido, por quem não se tem admiração, por quem não se tem respeito, apreço? O expediente apenas reitera minha quase certeza: seres humanos criaram uma relação intrínseca com a piedade; eles têm necessidade de causar comoção e estimular a piedade. Diferentemente do cortejo norte-americano, este premia o féretro com a lamúria e o destempero.

Mas continuemos com nosso atípico tour. Depois vem a turba ínsita à comitiva, eivada de vozes apressadas e pastosas, que rumina cânticos e orações, numa tentativa escandalosa e piegas de requestar a atenção de algum anjo ou entidade metafísica que esteja ali, ao acaso, e possa mitigar a dor, não de quem fica, mas de quem já se foi. Encerrando o cortejo, aqueles, que como eu nada tem melhor a fazer, e que buscam ocupar o tempo de forma singular. Entretanto, não pensem os assustados leitores que nós, os estranhos à comitiva, ficamos imunes aos efeitos insalubres de tal jornada. Não! As vozes que pranteiam, os soluços em murmúrio e as rezas arrebatadas formam um conjunto sem igual, que se enformam num misto de mantra caricato e sugerem depressão e insânia.

Então meus possíveis leitores põem-se a questionar acerca do porquê do meu exótico tour. Em verdade, posso falar num diletantismo; a teoria aristotélica da vontade de conhecer típica de todos os seres humanos posta em prática. Gosto de observar os seres humanos afrontados pelo ângulo anverso; gosto de percebê-los em suas carências e descomposturas; gosto de defrontá-los diante da patente fragilidade; folgo em flagrá-los em suas incúrias e comicidade. Nesse ponto, os que me leem, deliberada ou casualmente, piedosos e indignados, esbravejam e me dizem um sádico. Mas por que sádico? Eu não sinto menor prazer em seus sofrimentos, apenas lamento as escolhas estúpidas. E qual seria a diferença entre o sádico e o masoquista? Sadismo e masoquismo são correlativos necessários. A vida sim é sádica, e só se mostra sádica porque os humanos se revelam como masoquistas. Antes mesmo de masoquistas, os seres humanos me parecem tolos, pois tolos são os que exigem da vida mais do que ela pode dar. Uns exigem da vida realização, outros a felicidade, outros o reconhecimento, outros o respeito, outros ainda, os mais excêntricos e arrebatados, reclamam da vida um viver eterno.


“Deixai os mortos sepultarem seus mortos”.

quinta-feira, 8 de agosto de 2013

Da modéstia


Pergunto-me por que a exigência da modéstia? Por que as pessoas devem revelar-se como limitadas, obtusas? Por que o pejo, o ocultamento das inegáveis qualidades? Por que uma humildade forjada e/ou um fabricado sentimento de inferioridade? Por que a insistência em demonstrar ignorância se a sabedoria é reconhecida por seus pares? Por que aparentar fraqueza ou pusilanimidade se é sabida a coragem exacerbada? Por que manifestar pobreza se a riqueza é de conhecimento geral?

Parece-me que o agir modestamente agrega mais vaidade do que o valor daquilo que foi deliberadamente velado. A modéstia, em si, é a tentativa de dissimular o óbvio. Por que dos ímpios não se exige a modéstia ao confessarem suas impiedades? Por que aos impudicos, aos insensatos e aos covardes não se lhes exige modéstia ao exteriorizarem a impudicícia, a insensatez e a covardia? A resposta parece ser evidente: a nobreza de caráter é incômoda. Ora, mas se aparentar modéstia é mais considerável àqueles que optam por dissimular uma ação nobre, então, as ações nobres inexistem. O que há então é um recurso espúrio que se vale da modéstia para aparentar aquilo que de fato não é.
  
E o que seria, então, a falsa modéstia? É o dissimular de uma dissimulação. Ora, nesse caso, falsa modéstia é uma afirmação. Portanto, a falsa modéstia, tão abominada pelos moralistas de ocasião, ainda se revela menos escandalosa do que a própria modéstia, pois que ao falsear uma condição falsa, o falso modesto expõe a “virtude” da modéstia como simples ferramenta de desfaçatez social, que visa, acima de tudo, um reconhecimento parco, vazio, putrefato.


Ao modesto falta a modéstia para revelar sua imodéstia.   

segunda-feira, 5 de agosto de 2013

Uma teoria do caos

A Teoria do Caos


"Se os fatos não se encaixam na teoria, então modifique os fatos".
Albert Einstein

"Ou então, abandone-se a teoria".
Fernando Monteiro
                                                                                                                                                                                                                                                                                                               
A teoria do caos trata de sistemas dinâmicos, complexos e deterministas. No entanto, através de um fenômeno fundamental, manifestam instabilidade, pois que se revelam sensíveis às condições das quais se originaram. Isso pode ser compreendido levando-se em conta o número de fatores que influenciam certas condições; destarte, os resultados tornam-se instáveis. Contudo as instabilidades mostram-se como recorrentes, e, portanto, previsíveis em longo prazo; algo como que uma constância. A princípio, as manifestações podem parecer aleatórias, mas, de fato, não o são. Não há acasos! Acontecimentos que parecem aleatórios, na verdade estão interligados. “O ruflar de asas de uma borboleta no outro lado do mundo pode desencadear tornados de grandes proporções em plagas distantes”.

O tornado:
A Educação, é fato, está em plena decadência. O sistema como tal fracassou. Não há instrumentos disponíveis para deter a patente falência. Professores fingem que ensinam; alunos fingem que aprendem. Tudo é uma grande comédia. Os lentes estão despreparados, e assim permanecem porque nada lhes desperta o interesse na auto superação; os alunos folgam com isso, porque nada lhes desperta o interesse na formação. O sistema não proporciona saídas; não há mecanismos capazes de criar novos e estimulantes desafios em alunos e propedeutas. Aliás, os únicos interesses são os resultados práticos de ambas as partes: alunos desejam apenas a formalização documentada de um aprendizado, não o aprendizado; professores desejam apenas a formalização do trabalho estampada em seus contracheques, não o trabalho. O que se percebe é um utilitarismo extremado e que revela impressionante volatilidade. Para o alunado, a formação não é um fim, mas um meio; para o corpo docente, educar não é um fim, mas meio de sustento.

Pode-se, então, questionar: mas por que as autoridades - entenda-se Estados - não se movem no sentido de buscar soluções ao impasse? Mas Estados, e ipso facto políticas, também se revelam extremamente utilitaristas. Eleições, reeleições, votos, pesquisas de intenção, plataformas, projetos, orçamentos, relatórios, prestação de contas etc. podem ser resumidos a resultados. Uma nação julga ter bem empregado seus recursos, através de números e resultados. O mercado de trabalho, que deveria ser o aferidor dos bons resultados educacionais, foi tornado também utilitarista através de um equivocado aforisma axiomático: “o mercado de trabalho é quem deve separar o joio do trigo”. Bobagem, a afirmação, em si, rescende ao utilitarismo presente no fordismo, no liberalismo econômico e aquiesce o princípio da seleção natural.

O ruflar de asas:
A partir de Descartes, o mundo, em geral, tornou-se refém de um modo de pensar totalmente matematizado. Tudo obedece a padrões impostos, a fórmulas escorchantes, a cânones, a tabelas, a gráficos, a eixos de abcissas e ordenadas. A proposta educacional iluminista focou-se em criar virtuoses e culminou na crueza de um positivismo, onde tudo é pesado, medido, avaliado. A modernidade, ao invés de banir o disputatio do ensino escolástico, parece tê-lo potencializado. Tal recurso, em si mesmo, leva ao insulamento, proporciona o subjetivismo e, (por que não?) ao individualismo. Os alunos competem entre si, porque o sistema assim o exige; o mercado de trabalho também. O método educacional pautado no pensamento de Descartes, muita embora se revista com trajes de ensino coletivo, acaba por agredir a coletividade.

O pensar cartesiano deve ter inspirado Darwin: only the strong survive. A teoria de seleção natural é filha bastarda da proposta cartesiana. A proposta educacional da modernidade é excludente: através de valores matemáticos enaltece uns e estigmatiza outros, separando bons e maus. Mas o que são bons alunos? Ou melhor: quais são os bons alunos? Percebo que mentes teoricamente brilhantes nem sempre apresentam o mesmo brilhantismo na prática. O que está em questão, afinal? A capacidade de armazenar dados? Ora, a educação não se restringe a memorização. E o que seria um bom docente? A capacidade de transmitir o maior número de dados ao maior número de alunos? Evidente que não. O que fica bastante óbvio é que as propostas educacionais, que visam à melhora do ensino, fixam-se simplesmente em eventos consequenciais. Isso explica a luta inglória.

Acredito que novos projetos devem se voltar a superar a origem do problema, perscrutando em seu cerne a fonte do mal entendido - um proto-equívoco - que repercute hodiernamente na educação ocidental.
Até o presente, nada fizemos além de modificar os fatos para adequá-los a uma teoria; é chegada a hora de banir a teoria. Se hoje fosse convidado a definir educação, eu diria: Educar é aparar as asas da vovó borboleta!