sexta-feira, 9 de novembro de 2018

STF



1

Uma família de castores deu início à construção de um dique em um dos rios da região amazônica. O IBAMA embargou a obra, alegando que a mesma traria consequências ainda imprevisíveis ao meio ambiente, inclusive porque a localização é motivo de disputas entre posseiros, grileiros, fazendeiros, mineiros e outros eiros. Os ambientalistas conseguiram uma liminar em favor dos interesses dos castores, mas o IBAMA promete recorrer ao STF torcendo para que o recurso seja julgado por “certo” ministro. É difícil adivinhar quem seria o tal ministro? Que Deus se apiede deles (dos castores, é claro).

2

Ambientalista deu entrada em tribunal de primeira instância no sentido de que a Justiça proíba terminantemente os bovinos de soltarem gases, pois tal atitude contumaz agride a camada e ozônio e provoca o tão badalado efeito estufa. O juiz de 1ª instância julgou improcedente tal solicitação. O ambientalista recorreu ao Tribunal Federal Regional que se declarou favorável ao flatus bovino. Pois bem, a coisa está no STF. Tentem adivinhar quem é o relator... É ele mesmo. O relator mostrou-se favorável aos bovinos, se bem que com algumas restrições. Ei-las: Os bovinos terão que habitar um recinto fechado onde haverá um depurador de ar; não poderão assistir ao Globo Rural. Àqueles - os bovinos - que descumprirem tais resoluções e forem flagrados peidando em ambientes abertos vão usar uma espécie de tornozeleira eletrônica.

3

Em uma das últimas e mais brilhantes atuações do STF, ficou decidido que Ministros, Juízes e similares devem obrigatoriamente usar cuecas do tipo “samba canção”. Data máxima vênia, as cuecas modernas, sejam de lycra ou algodão colantes, apertam os testículos dos ministros - em sua maioria de priscas eras - provocando desconforto, e, por conseguinte, mal estar, o que poderia implicar numa má hermenêutica do fato analisado. 

Em suma, este é o nosso STF: compromisso com o interesse público e a Constituição Federal. Os ministros que compõem a Corte Suprema ou tergiversam sobre o banal, ou protegem os interesses de seus acólitos, ou se mascaram de legisladores. Talvez isso justifique o “merecido” reajuste de 16% em seus respectivos salários aprovado pelo mau-caratismo senatorial. 
  

quinta-feira, 8 de novembro de 2018

Estrangeiro



Não me preocupa em nada o fato de ser estrangeiro; preocupa-me sim o sentir-me estrangeiro, pois assim me vejo dentro de meu próprio país. Mas isso não foi causal; foi algo lentamente forjado, impingido, construído. E como? Através do processo de estrangeirar. E como se daria tal processo? Com o hábil expediente de nos fazer sentir alheios a todo e qualquer assunto, a todo e qualquer propósito. Infelizmente constato que o Brasil está repleto de peregrinos; o Brasil carece de autóctones. A política brasileira torna seus verdadeiros cidadãos em apátridas. Evidentemente que tal situação não se aplica àqueles que se locupletam com os desmandos das instituições, nem àqueles incapazes de pensar sem a tutela de uma ideologia facciosa. O estrangeiro, o mero peregrino, o forasteiro se aplica somente aos que se preocupam com os rumos caóticos da nação, sem colocarem seus interesses acima dos interesses do Estado e sem fazer uso da vitimização. 

Sentimo-nos estrangeiros quando vemos o legislativo votar contra projetos que venham afetar seu repulsivo corporativismo; quando vemos as manobras do judiciário para acobertar seus acólitos do executivo e legislativo; quando sabemos das reuniões entre as três maiores instâncias do país para tramarem uma desvairada hegemonia de poder; quando percebemos que nossa Constituição foi escrita e sancionada com o propósito de acobertar crimes e falcatruas dos poderosos, o que culmina com a impunidade dos mesmos.

O adágio popular declara que “todo povo tem o governo que merece”. Será? Ou o povo tem como exemplo o mau-caratismo das instituições que o governa? Há quantos anos testemunhamos a corrupção ativa e passiva, o tráfico de influência, a lavagem de dinheiro, o desvio de recursos públicos, a fuga de divisas, o peculato, o enriquecimento ilícito, a formação de quadrilhas escamoteadas sob o manto da legalidade, a distribuição de cargos públicos em troca de apoio parlamentar? E tudo é justificado pelo que chamam de “governo de coalisão”.

Bem, já que estrangeiro, posso afirmar que a tal democracia é nada mais que uma grande farsa, um embuste, uma ignomínia. Brasil e brasileiros não estão prontos para a democracia. Esta é uma nação rude, rudimentar, analfabeta, aculturada, desonesta, iníqua, ímpia, pífia, de má índole, imprópria, indigna. E estejai à vontade para acrescentar qualquer outro adjetivo.

Écloga Brasil


Ainda sinto-me gado,
Neste imenso urdido pasto,
Neste sofrido solo gasto,
De tantas comédias vividas,
Pelo mesmo enredo nefasto,
A ampliar dores sofridas.

E se achega o que preside,
Com sua empolada retórica,
(E em poucos explica a cólica)
Pois de chofre escandaloso,
Em face de carência da lógica,
Revela só mais um criminoso.

E tem início o governo,
Distribui-se então as pastas,
Com perfil de encomiastas,
A dilapidar o parco erário,
Numa economia madrasta,
A notabilizar o salafrário.

Mas descobre-se falcatrua;
Faz-se denúncia, mostra-se evasão,
E logo vem a burla pela dissuasão.
Apela-se ao singular legislativo,
Que na tônica do mesmo diapasão,
Mostra-se canalha e amiúde agressivo.

Voltamo-nos ao supremo recurso,
Instamos apoio da Constituição,
Respeito, apreço à instituição.
Mas nada nos pode acalentar;
Experimentamos apenas aflição.
Em uníssono gritamos: O que é isso Gilmar?

Como disse eu algures,
Sinto-me ainda gado,
Perdido, faminto, capado,
Neste imenso prado: Brasil,
A compor éclogas revoltado,
Sabendo-o não pátria, mas ardil.

quarta-feira, 7 de novembro de 2018

Pragmatismo político



De início, devo confessar, já faz algum tempo, alimento certa vontadezinha em tornar-me político. Não obstante, antevejo algumas dificuldades, como por exemplo a falta de recursos financeiros e minha baixa popularidade. Contudo, o desejo fez-me atento observador e estudioso de casos. Percebi que a primeira coisa a ser providenciada seria o de identificar uma parte da sociedade que carecesse de alguma representatividade. Em seguida, após estudar sua idiossincrasia, torná-la-ia vítima desta mesma sociedade, apontando, se possível, potenciais algozes. Feito isso, eu deveria construir um discurso ideológico, exaltando as qualidades das ideadas vítimas, o tratamento desigual a elas dispensado, o modo preconceituoso no trato com as mesmas, apesar do inegável prestígio, influência e importância dentre alguns de seus membros.

Bem, e assim o fiz. Próximo passo seria o vincular-me a um partido político. Sim, mas a que vertente filiar-me? Ainda pautado em meras observações, convenci-me de que as ditas minorias, depois de identificadas, tornadas moedas de troca e massas de manobra, devem se converter à esquerda. Sim, os negros, por serem negros, devem ser de esquerda, porque existe alguém que se diz líder, ou há grupos que vomitam a rodos os mesmos clichês, ou seja, a vitimização, o preconceito, os inimigos, os direitos a serem preservados, etc. E o mesmo se dá com os homossexuais, com as mulheres, com os descendentes indígenas e outros. Importante frisar é que, se algum representante dessas ditas minorias pensar de modo diferenciado tornar-se-á um pária, pois a esquerda exerce uma espécie de policiamento ideológico.

Como a vontade de enveredar pelos escaninhos da política era imensa, solicitei não só minha filiação em partido de esquerda, bem como meu desejo de sair candidato ao cargo de vereador na eleição que se mostrava próxima. Pois bem, e lá estava eu às voltas com a esquerda. Aqui registro fato curioso: não saberia vos dizer, se acaso me perguntásseis, o que diferençava meu partido dos demais que ostentavam o rótulo de centro, de centro esquerda, liberal, sócio liberal, direita (existe, de fato????), democrata, etc. Todos manifestavam o mesmo desleixo, a mesma indiferença para com o povo que os elege e que diziam respeitar. Todos, sem exceção, adoram ter poder e deste usufruir; todos cultuam o dinheiro e a boa vida; todos colocam os interesses individuais acima do da coletividade. Mas afinal isso é política, quem sou eu para modificá-la?

E a data da eleição fazia-se próxima. Fui orientado no sentido de criar uma plataforma única, algo peculiar. E assim o fiz: saí em defesa dos carecas. No entanto, de início sofri certa admoestação pelo uso do termo “careca”, pois havia ainda o óbice criado pelo discurso do politicamente correto. A palavra a ser usada seria calvo. Portanto, saí em defesa dos calvos. E, para tal, pus-me a estudar a calvície. Sabeis vós que 20% da população masculina no Brasil apresenta calvície? 20% dos mais de 210 milhões de habitantes fazem dos calvos, de fato, um número expressivo.

Focado em meu discurso ideológico, voltei-me para as relações que envolvem os calvos, isto é, como são tratados em seus dia-a-dias, as piadas, etc. Apeguei-me mais exatamente às chacotas, onde pude aumentar sobremaneira meu repertório particular. Um dos meus auxiliares aconselhou-me no sentido de combater quaisquer referências a carecas, fossem em conversas informais, entrevistas e até mesmo em músicas. Aqui rogo perdão ao compositor Roberto Roberti, apesar do sucesso de “Nós, os carecas”, lançado em 1942, quando grande parte dos carecas - perdão, calvos - ainda não era nascida.

Todavia, gostaria de chamar vossa atenção para o todo do meu arcabouço de campanha. Em meus discursos, além de citar diversas personalidades históricas que careceram de pelos no alto da cabeça, tornei-os alvos de piadas, muito embora sem saber se as mesmas se deram de fato. Empenhei-me junto ao eleitorado, declarando que não mediria esforços para criar uma Secretaria específica para tratar dos calvos, ciente de que esta secretaria serviria como “cabide de emprego”; falei em Projeto de Lei junto ao município, visando tornar crime qualquer referência mordaz aos desprovidos de cabelos; prometi atuar junto ao Prefeito e ao Governo do Estado, no sentido de pressionar o Ministério da Saúde e/ou da Previdência, obrigando o SUS a custear procedimentos de implante; se necessário fosse, que nossos legisladores votassem uma PEC, ou até mesmo que o executivo lançasse mão de mais uma de suas MPs. Aventei a possibilidade de criar uma espécie de incentivo fiscal para as clínicas estéticas e salões de beleza que se dispusessem a tratar da calvície. Outrossim, profissionais de psicologia poderiam dedicar-se ao acompanhamento dos traumas causados pela falta de cabelos e do bullying sofrido pelos calvos, tendo como contrapartida merecido desconto no recolhimento do Imposto de Renda. Um primo meu, com verba da sobra de campanha, desempregado há algum tempo, criaria uma ONG bem atípica: “Amigos dos Pouca Telhas”, na qual o calvo seria ouvido, acolhido e teria sua dignidade resgatada. O lema dessa ONG - que receberia repasse do Governo Federal - seria dizer NÃO às elites de bastos cabelos, NÃO às oligarquias que fazem uso do Botox capilar e da hidratação, NÃO à classe média maldita que abusa das escovas progressivas, dos frisos e dos cacheados.

Enfim, fui eleito. E cá entre nós: torço para que a cada dia seres humanos nasçam ou tornem-se carecas. As mulheres, segundo o compositor da marchinha, na hora do aperto gostam mais dos carecas; eu, de minha parte, não passo aperto graças a eles.

terça-feira, 6 de novembro de 2018

Dúvidas


Notícia interessante, senão alarmante. Senti-me alarmado não pela notícia, mas pelo conteúdo da mesma. Nesta, pude inteirar-me de que a Ministra Rosa Weber, presidente do TSE, acionou a corregedoria da instituição para investigar e, consequentemente, coibir eventuais excessos no exercício de poder de polícia eleitoral no que tange às universidades. A eminente Procuradora da República, Sra. Raquel Dodge, por sua vez, dispôs-se a apresentar ação no STF, objetivando assegurar a liberdade de manifestação nas universidades federais. O Ministro Marco Aurélio Mello declarou repudiar qualquer ação que se coloque contra a autonomia das universidades, pois que elas, as universidades, proporcionam a “liberdade no pensar e expressar ideias”. A OAB, do alto de seu púlpito, afirmou que qualquer manifestação livre, não alinhada a candidatos e partidos, não pode ser confundida com propaganda eleitoral.

Curioso é que, por unanimidade, as autoridades pautam-se inexoravelmente na Constituição. Perfeito! Sabe-se, inclusive, que O STF defende autonomia e a independência das universidades brasileiras, baluartes que são do livre exercício do pensar e da manifestação pacífica. Bem, já que se fala tanto em liberdade, gostaria que uma das senhoras ou senhores aqui citados dirimissem minha primeira dúvida: qual o limite da liberdade? As leis, que Vossas Excelências declarais defender, têm por objetivo colocar limites à liberdade. Ou estarei equivocado? Outrossim, liberdade implica responsabilidade. Uma segunda dúvida se me torna incômoda. Já que se fala tanto em Constituição, por favor digam-me: qual o artigo, parágrafo ou inciso da Constituição da República Federativa do Brasil de 1988, que permite, em nome da tão alardeada liberdade, pessoas fazerem uso de disciplinas das ciências sociais para doutrinar nossos jovens? Ora, por favor, deixemos de lado nossa faceta cínica! O que se faz nas universidades é nada mais que doutrina, na qual se segue à risca a matriz populista da esquerda em consonância com a hegemonia cultural da teoria de Gramsci. Enfim, o que temos é simplesmente marxismo cultural. No entanto, a eminente Ministra Carmem Lúcia decidiu proibir qualquer intervenção da polícia em universidades públicas, e tudo em nome da liberdade.

A propósito, acerca da alarmante notícia, o próprio jornal traz estampado uma bandeira, ou um cartaz imenso conduzido pelos estudantes de direito da Universidade Federal Fluminense. Neste, de cor alaranjada, o mote “Antifascista”. Mais uma vez, insto para que deixemos de lado nosso viés responsável pelo cinismo, para reconhecermos que sabemos do que e de quem se trata. Nada obstante, cito os artigos 37 e 73 da Lei Eleitoral. Comecemos pelo Art. 37. “É proibido a veiculação de propaganda de qualquer natureza, inclusive pichação, inscrição a tinta e exposição de placas, faixas, cavaletes, bonecos e assemelhados nos bens públicos”. O grifo é meu! Art. 73. “É proibido ceder ou usar, em benefício de candidato, partido político ou coligação, bens móveis ou imóveis públicos, com exceção de convenções partidárias”. O grifo também é meu.

Aguardo resposta.

segunda-feira, 5 de novembro de 2018

Culturae Inhabilem: uma biografia



Quando menino, filho de família classe média – declarar-se honesta seria pura perda de tempo, pois que classe média em si, pela canhestra ótica da pós-modernidade tão “politizada”, incorpora predicados outros eivados de uma raiva ignota; dir-se-ia que classe média implica grupo composto de dissimulados, ignorantes, réprobos, etc. – fora matriculado nas aulas de piano. Sim, na verdade, eu começara no ginásio, na banda do colégio, a me entender com um saxhorn. Mais tarde, voltei-me ao trompete. Todavia, certo de que jamais me tornaria um Glenn Miller, abandonei-o. Com a saída do ginásio, o piano chamou-me a atenção. Na época, eu podia ouvir, – a palavra deveria ser desfrutar – e com muita frequência, graças às extintas vitrolas, várias peças escritas para piano, bem como a inúmeros concertos. Pude também deixar-me encantar pela maviosidade das melodias de Mozart, pelo arrojado Chopin, pela grandeza de um Beethoven, a tristeza quase endêmica de Rachmaninoff, a magnanimidade de um Brahms, a virtuosidade de um Liszt. Não obstante, uma certeza me acossava: jamais alcançaria o nível de qualquer um destes exemplares. Seriam necessárias horas e horas debruçado sobre o teclado do piano; seria necessária muita dedicação, abnegação, abrir mão de brincadeiras e molecagens tão benvindas e pertinentes na adolescência. Além da falta de determinação e da preguiça, faltava-me talento – eu tinha certeza disso. Minha carência de talento só seria suplantado pela enorme vaidade. Mas eu queria ser como eles; eu precisava ser como eles; eu queria ser famoso. Na verdade, eu não admirava aqueles expoentes, eu os invejava.

Revoltado e consciente de minha fracassada tentativa, lancei-me com sofreguidão ao violão. Sim, eu queria então ser violonista clássico, executar com perfeição Aranjuez mon Amour ou um concerto de Villa Lobos, mas as dificuldades eram as mesmas: à falta de determinação somavam-se preguiça e falta de talento. Eu precisaria passar horas e horas acariciando o instrumento e ferindo os dedos. Não, de modo algum. Mas pergunto: por que o clássico? Poderia tornar-me uma referência na música popular. E assim fiz. Mas, qual... Eu jamais seria um Toquinho, um Baden Powell. Outro fracasso! O rock tornou-se a saída. Ledo engano: irritei-me e quase atingi a loucura tentando fazer o solo de Sultans of Swings do Dire Straits. Enfim, minha carreira de músico nunca passou de sonhos, ou melhor, desatinos.

Andava então, de bar em bar, limitando-me a ouvir a música dos outros e a encher a cara o quanto podia. Certa feita, uma mulher dispôs-se a cantar; ninguém para acompanhá-la. Já refém dos efeitos etílicos, dispus-me a fazê-lo. Nada muito brilhante, mas como o populacho frequentador da noite é nada exigente, passei por agradável. Depois disso, busquei compor. Como? Minha poesia era torpe, pobre, repleta de aliterações, haja vista a falta de intimidade com a língua pátria. Sim, os versos eram livres; não podia dar-me ao desplante de exigir rimas. Ciente de que jamais seria capaz de aproximar-me de um Bilac, de um Gonçalves Dias, de um Castro Alves ou um Drummond, optei pela vulgaridade, pelo que tem aceitação imediata. E assim compus minha primeira canção, sem frases melódicas, com refrãos agressivos e de uma insensatez incomum. Fiz sucesso. Mas como era difícil mantê-lo! Tive apenas este único sucesso e em pouco tempo vi-me no ostracismo.
 
Como a vaidade é sempre companheira dos arrogantes, declarava aos poucos curiosos que iria me dedicar à pintura. E assim fiz: adquiri telas, cavalete, tintas, espátulas, trinchas e pincéis... Mas o que pintar? Como pintar? Coisa difícil ser artista plástico! Até hoje não consigo entender bem porque o que pinta uma tela é chamado de “artista plástico”. Seria por que este, talvez, tenha competência para dar forma? Andei observando os clássicos: Vermeer, Velasquez, Rembrandt, Degas, Monet, Cézanne ... Qual nada! Tudo era muito complicado para minha cabeça. Voltei-me para Van Gogh, para Pablo Picasso, para Dalí. Dentre os brasileiros, observei Pedro Américo, Tarsila, Portinari. Nada! Minha incompetência exorbitava.

Bem, os recursos amealhados com meu único e meteórico sucesso estavam no fim; precisava de dinheiro. Voltei a tocar nas noites, nas quais revisitava alguns sucessos; nunca o meu. Eram parcos os recursos, mas era o que um inconfesso carente de qualquer talento conseguia conquistar. Pensei em escrever um romance, porém logo desisti. Folheei alguns considerados clássicos: Homero, Dante, Cervantes, Dostoievsky, Stendhal, as irmãs Brontë, Hemingway, Dickens, Thomas Mann, Eça de Queiroz ... Dentre os nacionais, José de Alencar, Machado de Assis, José Lins do Rego, Lima Barreto. Comecei a perceber que minha estupidez tinha origem genética. Por que sequer conseguia ordenar ideias, no sentido de criar uma simples historinha infantil? Sim, eu exigia da vida o que ela não podia me proporcionar.

Minha vaidade, contudo, meu desejo de ser importante, de ser destaque na sociedade, de ser reconhecido, de tornar-me “celebridade” fustigava-me sobremaneira. Como fazê-lo? Pus-me a beber com frequência. Da bebida às drogas. Minha vida desmoronava. Fui internado em hospital público, depois de ter sido encontrado na rua com suspeita de overdose. Não sei quantos dias haviam passado quando fui reconhecido por alguém. Sim, alguém que fora meu fã no meu único sucesso; um ativista político que militava na esquerda. E então, depois da alta e de algumas conversas com meu salvador, convenci-me de que minha falta de talento deveu-se à indiferença que a sociedade capitalista nos dispensa. Sim, minha incapacidade criativa era fruto de um processo cultural imposto pelas elites, que assim me estigmatizavam e mantinham sob domínio. Não, eu não deveria estar preocupado, mas sim exteriorizar essa raiva através de minha arte, algo único e sui generis. Assim, estaria, de fato, livre, afinal, segundo o clichê criado pelos incompetentes para justificar a incompetência, “a arte é a mais pura manifestação de liberdade”.

Agora sou representante da contracultura; oponho-me francamente a tudo que li, vi e observei: a arte das elites, das oligarquias, de uma aristocracia impudente, de uma classe média maldita. Hoje sou igualmente marxista. Abandonei o pouco que tinha em mim de religiosidade; Marx é meu novo Senhor. Deus não deve traçar meu destino; o determinismo materialista sim. Eu faço música de protesto, pois quero causar embaraço e agredir; minha pintura transcende o surreal, pois pretendo criar escândalo e ofender; minha poesia é vulgar, pois quero enaltecer o que em mim sobeja: a inaptidão. Não obstante, realizei-me: tornei-me mito, sou famoso dentre a multidão inculta, apedeuta e manipulada pelos líderes que se dizem justos e libertadores.

Para ser honesto - coisa rara - consigo entender, então, o porquê dizer-se que arte é catarse. Catarse é purificação; nós nos purificamos quando expulsamos de nós o que há de mais sórdido, no caso, minha arte. Pela psicanálise, catarse é trazer à consciência recordações recalcadas, ou seja, minha ciente e total incompetência artística, minha insuperável inveja dos grandes talentos aliada à preguiça, à falta de determinação, mas resgatada através do discurso marxista. Bem, segundo a medicina, catarse é o processo caracterizado pela evacuação dos intestinos. Cá entre nós, minha arte é bem isso: uma evacuação, excreção. Entretanto, graças a Marx, estou amparado por sua filosofia, a filosofia dos fracassados!

Observação: o texto original foi corrigido e revisado, ou melhor, reescrito por um velho professor contratado por mim. Ele faz parte daquela direita que defende cultura e valores ultrapassados.

domingo, 4 de novembro de 2018

10 passos para se tornar um líder carismático



“Mostre-me um herói e eu escreverei uma tragédia”.
F. Scott Fitzgerald

Bem, como toda consultoria e/ou aconselhamento, faz-se necessário o emprego de um método rigoroso, método este que, para se lograr resultado, cada passo deve ser seguido à risca.
1º - Encontra uma categoria que não seja bem acolhida pelos governantes, ou melhor, uma classe de trabalhadores que padeça de alguma indiferença do Estado.
2º - Busca nela se infiltrar, indiferente se tens ou não interesse na mesma; se sabes ou não exercer tal função. Isso não é essencial; o importante é nela se infiltrar no intuito de realizar teu sonho de liderança carismática.
3º - Feito isso, cria uma base sólida de apoio. Como? Simples: começa por fazer daquela classe uma vítima. Atenção: É muito importante o mecanismo de vitimização da classe, pois que esta é a base do proselitismo que permitirá uma melhor cooptação. Não te preocupes em nada com a dita classe, apenas demonstra com ela se importar. Nada de preocupação com a ética.
4º - Quando a classe estiver convencida da sua condição de vítima, dá início ao discurso de cooptação. Como deve ser esse discurso? Simples: Mostra-te irritado e diz toda tua indignação pelo modo como a classe tem sido tratada até então. Usa uma linguagem vulgar, até mesmo chula. Não te esqueças de que a linguagem deve se aproximar ao máximo da linguagem da classe que dizes defender. Cria palavras de ordem; inventa chavões que sintetizem teu pensamento. Aqueles que se sentem vítimas adoram seguir chavões; parte do princípio de que eles não pensam, mas tu pensas por eles. Busca ler o Manifesto Comunista, de preferência em quadrinhos, pois a edição impressa é algo muito difícil para ti. O marxismo é a melhor base para pronunciamentos afetados e o melhor consolo para aqueles que foram taxados de vítimas. Assim, a classe em questão, vai se sentir bem mesmo quando se veja como um fracasso. Não te preocupes com pensamentos rebuscados, afinal és um semianalfabeto e oportunista que busca apenas reconhecimento e destaque. Tu só queres “se dar bem”, e nada mais. Portanto, não poupes bravatas e fanfarronadas. Sim, coloca-te frontalmente contra a classe média, mesmo que a classe média seja o teu objetivo sonhado. É bom lembrar que até filósofos profissionais declaram odiar a classe média. Afinal, se pertencesses à classe A ou às oligarquias, não terias necessidade ou mesmo vontade de se tornar líder classista. 
5º - Agora já podes fundar um sindicato. Sim, promete melhoras; promete lutar pelo progresso da classe que te propões defender. Grita, esbraveja, exalta-te. Por certo tu serás eleito presidente da tal classe trabalhadora e não mais precisarás ficar batendo ponto, pegando no pesado, aturando gerentes, chefes, cumprindo metas, etc. A partir daí já podes começar a desfrutar da tua condição de destaque, pois que vais viver das contribuições dos sindicalizados. Nesta condição, não temas fazer acordos por debaixo dos panos. Negocia sempre visando teu único bem-estar. Tem sempre dois discursos prontos: um para os trabalhadores que dizes representar e outro para as negociações com os empresários. Não esqueças que teu objetivo é a realização pessoal; mente nas promessas aos associados e sê dissoluto nos acordos com os patrões. Não é preciso coerência!
6º - Bem, podes parar por aqui. Se atendeste rigorosamente às determinações deste manual, certamente já és um líder carismático. Mas se quiseres seguir adiante, pois o espírito capitalista, a vaidade e a ganância não conhecem limites, adentra a política. Escolhe um partido pequeno, porque neste tens condição de tornar-te também um dos dirigentes; partidos grandes já têm suas “velhas raposas”. Mas o ideal é que fundes teu próprio partido político, assim continuarias a dar as cartas. Age partidariamente do mesmo modo como vinhas agindo sindicalmente: visa apenas teus interesses. Nada de ideologias; tua ideologia é o lucro. De início, confirma apoio aos poderosos, mas não esqueças de que buscas ser tão poderoso quanto eles. Portanto, esquece qualquer escrúpulo, qualquer princípio moral ou algo que o valha. Do mesmo jeito que tratavas teus antigos sindicalizados, deves tratar teus eleitores. Não deixes de lado os dois tipos de discurso. Todavia, precisas do apoio de alguns intelectuais. Sim, os intelectuais vivem para dar apoio a causas estúpidas; intelectuais, em geral, são depressivos e se alinham aos discursos afetados por conta de suas más consciências. Sugestão: bajula-os! Eles adoram isso.
7º - Agora já podes desfrutar do poder. Não, o poder não modifica ninguém, apenas revela as distorções de caráter. Neste caso, continua obstinado a tornar-te um líder carismático; o poder pode ser de grande ajuda. Teus discursos devem manter a mesma tônica, o mesmo conteúdo: promessas, agressões, fanfarronadas, bravatas, termos chulos, ameaças. Não interessa se teus discursos destoam de tuas ações; como já foi dito, não há necessidade de coerência. Se for preciso, chora. O povo adora discursos exaltados e apaixonados; o povo é apenas massa de manobra. O bom líder faz o que quer das massas.
8º - Sabe fazer concessões, aprende a driblar, a costurar acordos. Exige total submissão de teus comandados e correligionários. Usa tua influência e beneficia amigos e familiares; principalmente os familiares. Negocia e aceita propina; suborna, compra, corrompe, indiferentemente se empresários, políticos ou representantes do judiciário. Aproveita as licitações públicas e faz acordos de superfaturamento. E lembra-te: bens móveis e imóveis em nome de “laranjas”; dinheiro só em contas numeradas em algum paraíso fiscal no exterior. Nada de moralidade, nada de probidade. Na política, nem os religiosos usam de probidade. E mais uma vez: nada de princípios éticos. O discurso ético só tem serventia quando fores acusar um de teus desafetos. Recebe presentes, agrados, etc., mas lembra-te: nada em teu nome; nada de documentos; nada de testemunhas. Não te deixes gravar, filmar ou algo parecido. Outra coisa importante: Em teus discursos, não deixes de sempre se referir àqueles primeiros companheiros do sindicato; continua fazendo-os vítimas de um sistema injusto e excludente. Desse modo deles receberás eterno respeito e admiração; serás venerado e considerado alguém acima de qualquer suspeita.
9º - Coisa importante quando em cargos eletivos: nomeia indiretamente amigos e pessoas de teu círculo, ou seja, através de teus correligionários, mas não deixes de mantê-los nas rédeas. Não, não se deve travar luta com inimigos políticos: acerca-te deles e os tenha por perto. Transforma-os em teus colaboradores quando descobrir neles qualquer desvio; mantenha-os sob controle. Distribui cargos, nomeia de preferência aqueles de quem conheces a banda podre. Sim, continua agradando os “intelectuais”. Como? Faz uso dos recursos do governo que financia projetos culturais para comprar-lhes o apoio. Não obstante, teus discursos devem primar pela preocupação com Direitos Humanos, com as minorias, com a pobreza, com os movimentos sociais, com o meio ambiente, etc. Teus projetos devem albergar veladamente o princípio do populismo, do assistencialismo. Diz sempre aquilo que as pessoas desejam ouvir; esse é o bom discurso. Continuarás a arrebanhar respeito, admiração e a fazer proselitismo. Serás um herói.  
10º - Assim conseguirás alcançar teu objetivo. Não, nada de arrependimentos, enfim, és apenas mais um oportunista que se deu bem na vida. Farreia à vontade, viaja para lá e para cá pelo mundo com o dinheiro do contribuinte. Veste boas roupas de grife, entope-te com as melhores iguarias, embebeda-te com os melhores uísques, conhaques e vinhos, inala o melhor dos fumos cubanos ou da República Dominicana. Mazel Tov! Se, porventura, surgir algum contratempo, isto é, alguém que te denuncie, apenas nega tudo. Diz que não sabe de nada; diz que é armação, que estão querendo te incriminar; põe a culpa na oposição, na elite, nas oligarquias, na burguesia. Fala em perseguição política. Mune-te de advogados tão oportunistas quanto tu. Está tranquilo, afinal, corrupção não se prova ou comprova.
Não esqueças, contudo, que existem pessoas, assim como eu, que conhecem todo esse processo hipócrita e covarde. Não pretendas convencer-nos da tua virtude; não empregues conosco tua desfaçatez; não busques mostrar-te como alguém de caráter exemplar. Não tentes passar-nos uma imagem de altruísmo ou de honradez. Sabemos da tua notoriedade, todavia, já por alguma experiência, sabemos também que és, dentre tantos, apenas mais um canalha que pretende se eternizar no poder travestido de fabricado carisma.