quarta-feira, 5 de junho de 2019

Olhares



A abordagem filosófica do tema não é inusitada; Sartre já o examinara com propriedade em sua obra o Ser e o Nada. Na análise do filósofo, o olhar revela-se como algo invasivo, vigilante, acusador, fazendo presa de inquietação aquele que se torna objeto do olhar, o que causa embaraços, inclusive, à própria liberdade, pois que esta vê-se limitada. Porém, longe de espelhar-me no exemplar existencialista e seu característico existencialismo, busco analisar os olhares pelo estrito ângulo da estética das emoções. Seria isso possível? Vejamos!

Já faz uns bons anos, eu desempenhava a grata e quase estéril profissão de professor em instituição particular de ensino. Era próxima a hora do almoço; eu caminhava a passos rápidos pelos corredores da faculdade. Tinha a cabeça a mil. Sim, preocupações as mais variadas ocupavam-me os pensamentos. Acredito que exibia um semblante tenso, carregado. Alunos cruzavam o extenso corredor; alguns me cumprimentavam, outros preferiam me desconhecer. Eu sequer os via, haja vista a imersão em meus receios e lucubrações. Todavia, uma aluna, cujo nome não me recordo, ao aproximar-se, chamou-me pelo nome e saudou-me com um olhar cintilante, algo que irradiava alegria, positividade, confiança, uma pureza intata, serenidade. Pareceu-me que ela também sorria, não sei ao certo. Talvez o alcance e profundidade de seu olhar a fizesse parecer que sorria. Ela seguiu seu caminhar pelo longo corredor, deixando-me refém daquele olhar e totalmente liberto das inquietações.

Recentemente, caminhava eu pela rua deserta do bairro, desta feita de modo lento, apatetado. Sim, eu precisava fazê-lo, pois a vida de aposentado me angustia; eu busco um afazer qualquer, e como não o encontro, determino-me a andar. Claro, é um caminhar lento, sem destino ou objetividade. É algo patético... Não há nobreza, não há dignidade num caminhar erradio. Mas eu assim o fazia e faço. Chego à esquina de uma rua qualquer: um portão aberto, displicente, inconsequente. Aproximo-me. Uma mulher nova, não diria bela, mas com algum atrativo surge à minha frente. Olhou-me, buscou um sorriso e desejou-me ou decretou-me um Bom Dia! Seu olhar encabulou-me. Não, não tinha pureza, positividade ou alegria; tudo nele era impudicícia, era agressão, era subterfúgio. Era um olhar que precisava da companhia de um sorriso, pois que na ausência deste, aquele mostrar-se-ia torpe. O olhar era de tal modo luxurioso que fazia do sorriso uma mera irrisão.

Hesitante, respondi ao Bom Dia, se bem que aquele olhar ofendera-me. Senti-me devassado em minha patente oclusão, em meu espontâneo obscurecimento. Aquela estranha tentava reconduzir-me a uma dimensão que eu abominava. Então recordei-me de Sartre, pois até mesmo a liberdade consciente de sentir-me nada fora aviltada.

terça-feira, 4 de junho de 2019

Obituário



Já fazia dois anos ou mais que eu me afastara da vida citadina. O interior, a ruralidade sempre exerceu sobre mim forte atração. No campo, tudo pode resumir-se em simplicidade, tranquilidade e quietude. A família, por sua vez, agora extensa, haja vista os filhos, vivia em grandes centros e ainda alimentava expectativas de um viver saudável. Sendo assim, a relação com meus descendentes, poder-se-ia dizer, fez-se “morna”, pois dava-se de modo raro e esporádico. Passavam-se meses sem nos falarmos. Na maioria das vezes, era eu quem aparecia em suas casas na qualidade de visitante, abraçava os netos e depois de dois dias retornava ao meu eremitério.

Todavia, em meu existir interiorano nem tudo era perfeito; eu sentia alguma falta do teatro, da boa sala de projeção, de edificantes conversas. A solidão proporciona a reflexão e o pensamento quer expandir-se, quer relacionar-se. Na tentativa de suprir tais lacunas, portanto, eu me apegava a leitura de jornais. Minha avidez por notícias era tanta, que eu lia e relia os diários que se me apresentavam, independente da data de publicação ou temática. Eu me informava não só acerca de política e economia, mas também experimentava certo deleite com as fofocas sociais, com a moda, culinária, etc.

Naquela manhã de domingo, após a missa na matriz, eu retornara ao lar a meditar nas palavras de Mateus abordadas na homilia. “Segue-me e deixa aos mortos o sepultar os seus próprios mortos”. Mateus, 8:22. Nietzsche e seu Zaratustra levaram-me a tergiversar. Mais tarde, não mais investido de qualquer resquício religioso e/ou filosófico, permiti-me certo abandono na rede armada no alpendre de meu tugúrio, tendo nas mãos a gazeta impressa e distribuída há mais de quinze dias. Os olhos passeavam de lá pra cá em busca do novo, do inédito, do singular. A atenção redobrada; estava focado. Foi-se a seção dos classificados. Onde o invulgar, o significativo? Sim, o obituário apresentou-se como neófito. A informação era completa: abrangia nomes dos falecidos, lugares, horários e datas de sepultamentos, assim como o percurso do cortejo fúnebre nos quais os féretros poderiam ser acompanhados.

Súbito, algo reclama minha total atenção. Meus olhos fixam-se em determinada parte da página do periódico. Alguns segundos depois o impresso cai-me das mãos. Estava boquiaberto, pasmo, estupefato. Recolho as folhas de papel caídas a minha frente. Busco aquela parte do obituário e a releio com cautela. Enorme angústia se me invade. A notícia, de fato, a princípio causara-me torpor, depois descrença e por fim angústia. Sim, eu estava morto. Era essa a notícia estampada no obituário. Meu nome completo, mesma idade; a foto era também a minha. Como? Eu estava vivo e lia a notícia de minha morte! O sepultamento já acontecera; a campa do cemitério acolhera meu corpo. Acalmei-me e busquei sorrir. Recordei-me de Pirandello; eu seria a reedição, a encarnação, a consubstanciação de Mattia Pascal. Abandonei a rede; precisava voltar à cidade grande e acabar de vez com aquele mal entendido. Afinal, eu vivia a não-existência; tudo naquele momento era póstumo. Reuni documentos, juntei algumas peças de roupa e tranquei a casa.

A viagem mostrou-se mais demorada, o percurso mais longínquo do que de costume. Ao desembarcar na Estação Rodoviária, busquei o auxílio de um taxi, pois experimentava grande curiosidade em relação a minha tumba. Apesar do trânsito e tráfico intenso, a chegada ao cemitério não se fez tarde. Como gostaria de poder registrar esse momento: eu parado diante de meu sepulcro! Era simples, erguido sem nenhuma pompa, e ainda revelando os vestígios da tinta recém usada; literalmente “um sepulcro caiado”. A estatueta de um anjo protegia o habitante daquela sepultura: eu, esse que vos escreve. O humilde mausoléu exibia uma foto; minha foto. Sim recordo-me da ocasião: fora na casa de um dos filhos. Pude ler o epitáfio, algo bem clichê: “Descanse em paz”. Mas eu não estava ali sepultado. Quem teria sido o infeliz? Ou a infelicidade seria minha? Ora, eu continuava a viver a desditosa vida, embora exibindo o status de defunto.

Outro cortejo avizinhava-se de minha campa. Aproximei-me de um dos coveiros. Ele tratou-me com distinção. Busquei saber a história daquele que ali estava sepultado. Ele olhou-me com atenção e voltou-se para a fotografia presa à campa. Eu sorri e disse-me parente do morto, mas que só recentemente soube de sua passagem. Superando o espanto, fez o sinal da cruz e disse-me em poucas palavras que o meu “parente” fora encontrado na Estação Rodoviária, sem quaisquer documentos, desmemoriado e já em processo comatoso. Internado em hospital público, a imprensa encarregou-se de divulgar uma foto, o que facilitou a identificação por parte dos familiares. Dias depois eu viria à óbito. Não, não eu, mas aquele que diziam ser eu. Sim, eu fora reconhecido e identificado pela família. E agora?

Conseguis perceber a comicidade ou o ridículo da situação? Eu, o de cujus, buscando detalhes acerca da própria morte. E como contestar? Há uma premissa lógico-filosófica que estabelece: a negação de uma negação é uma afirmação. Ora, eu deveria negar o que me foi negado: a existência! Mas como? Meus documentos não mais tinham validade. Tornara-me fake, uma farsa, um embuste. Por outro lado, negar a existência de algo é afirmá-lo, pois como falar em algo sem pressupor sua existência? Todavia, seria possível minha existência real sem o aval da formalidade documental? Ah, como eu gostaria, então, de tornar-me um Elias; poderia simplesmente ser arrebatado aos céus. Mas minha faceta profética é manca; minha religiosidade é herética.

Bem, enganosamente fora dado por morto: eis minha primeira morte. Uma segunda, estou certo, não me proporcionará chances para qualquer comentário. Nada obstante, já me chega algum alento. Sim, muito embora as dificuldades que desse tipo de morte - ou não-morte - podem advir, uma certeza fez-se instalar em minha consciência: eu não tenho mais qualquer responsabilidade com a vida. Já percebeis que o simples fato de estarmos reconhecidamente vivos e termos ciência disso obriga-nos a desempenhar papeis os mais adversos e/ou desfavoráveis? Fora da vida, posso desobrigar-me das posturas hipócritas, dos desmedidos escrúpulos, da fingida sociabilidade, dos padrões estereotipados pelo vulgo insociável. E o mais gratificante em tudo isso é que só depois desta atípica morte pude sentir-me, de fato, de bem com a vida! 

segunda-feira, 3 de junho de 2019

Curiosidade semântico-científica



No auge do discurso que exorbita a tolerância, ou melhor, que prega o ir mais além na deferência ou flexibilidade com o que não se quer ou pode impedir; que preconiza o bom ânimo às opiniões opostas, nosso organismo mostra-se avesso, discordante. Nosso organismo revela-se como intolerante. Por que um êmulo doméstico diante do universo cientificista? O que teria tornado nosso corpo em adversário? É de nossa natureza ser contrário às circunstâncias fático-sociais? Ou estaríamos, de fato, sendo manipulados pelo cientificismo? O importante é que, pelo menos no que tange ao modismo do ser humano saudável midiático, nosso corpo desenvolveu intolerâncias: intolerância à lactose; intolerância ao glúten. O risível é que as pessoas - corroboradas por um desajeitado cientificismo - associam as atuações sociais e os imperativos estéticos a doenças. A intolerância à lactose está diretamente vinculada ao flatos, ou melhor, aos que liberam gases sistematicamente após a ingestão de derivados do leite. O flatoso, portanto, está perdoado; trata-se de uma doença. A intolerância ao glúten, por sua vez, tem a ver com a obesidade. Mas os infelizes não conseguem desenvolver bons hábitos alimentares. Logo, o gordo - obeso é nada mais que um eufemismo - também está perdoado.

Eis o curioso: nosso corpo desenvolveu a intolerância, enquanto nosso “ser” social aspira por tolerância. Quanta ambiguidade em um único e insignificante vivente! Enfim, seria esta uma mensagem subliminar da natureza mesma? Isto é, algo como um aviso que insta por nos tornarmos e demonstrarmos nossa ignota intolerância? Ou o cientificismo, aliado aos interesses laboratoriais, empresariais, busca condicionar e mover os cordões com que conduzem as marionetes, a grande manada humana? Ora, as empresas farmacêuticas continuam a lucrar com os que se convencem que são intolerantes; as empresas alimentícias aumentam sobremodo seus lucros com os que se propõem a uma alimentação alternativa. Coincidências? Não, eu acredito em propósitos. E, por favor, não me venham falar em pesquisa científicas ou similares; depois da ênfase na teoria da terra plana, tudo cai por terra.

Nada obstante, descobri que tenho algumas intolerâncias: socialmente, sou intolerante ao existir humano e seus expedientes mesquinhos para acumular lucro, louros ou glória; fisiologicamente - e aqui espero enriquecer e tornar-me celebridade - sou intolerante a glutamina. Sim, trata-se de um aminoácido não essencial, abundante no plasma e que pode ser sintetizado pelo organismo a partir de outros aminoácidos. E como descobri tal moléstia? Simples: com quase 70 anos, jamais tenho desgaste ou canseira física, minha imunidade é sempre ótima, dificilmente adoeço. Ora, por certo tenho alguma coisa de errado. No mundo hodierno deve-se, por vezes, apresentar fadiga, mostrar-se indisposto, com imunidade baixa e ter os nutrientes não absorvidos. Este meu “incômodo” é causado pela intolerância à glutamina.

Bem, espero sinceramente ser procurado por algum laboratório farmacêutico, quem sabe para obsequiar-me com algum lucro. E no medicamento estará estampado: No combate aos efeitos negativos da Glutamina. “Se os sintomas persistirem, o médico deverá ser consultado”.    

domingo, 2 de junho de 2019

Espelhos



Acredito que eu seja bastante sensível a comentários, mesmo os mais descabidos ou simplesmente provocativos. Mas o fato é que nada, ou quase nada do que me é dito, quando foge a meu conhecimento, fica sem algum tipo de pesquisa. E a presente demanda a mim se fez, não sei se advinda de comentário insipiente ou por irresponsável jocosidade, mas com efeito se fez.

Alguém, cujo nome prefiro omitir, declarou-me que um demônio habita os espelhos. Recordo-me com alguma dificuldade que, certa feita, quando menino, ao assistir pela TV a uma película grega, qualquer coisa nesse sentido fora dito. Todavia, são imagens furtivas, fugidias; cenas confusas, obscuras; e não por conta do filme, mas por causa do tempo decorrido e da minha capacidade cognitiva de então.

Pois bem, disposto a descobrir a veracidade da incômoda declaração, fiz-me ativo e devotado pesquisador. Uma primeira questão: por onde começar? Uma segunda: como interpretar o espelho...? O demônio – ou seria espírito? – que, assim diziam e dizem, nele habita, a mim fazia-se oculto, ausente. Outra dúvida fez-se presente: a entidade ficaria atrás ou no interior dos espelhos? Pensei em Ludwig Wittgenstein: o espelho reflete o mundo, o palpável, o físico; coisas como ética, estética e metafísica ficam atrás do espelho, pois delas não se têm reflexo. Ora, o demônio abrange não só o ético, mas o estético e o metafísico. Observei, apalpei, inspecionei espelhos os mais variados, porém eles permaneceram mudos. Já desanimado, invoquei a personagem de um dos contos compilados pelos irmãos Grimm, a rainha madrasta de Branca de Neve. “Espelho, espelho meu, existe alguém mais belo do que eu?”

Curioso é como o silêncio manifesta-se de diversas maneiras: por vezes mostra-se como consolo, por vezes como obstáculo, em algumas ocasiões é pura angústia, outras ainda pode trazer respostas. E foi quando vi e ouvi meu reflexo responder: – “A pergunta não tem por objeto a beleza, mas a vaidade. A beleza é apenas um subterfúgio para ocultar a enorme vaidade. A pergunta deveria ser: espelho meu, há alguém mais vaidoso do que eu?” Atônito, não cri que aquilo fosse verdade. Mas o que é a verdade senão uma crença eletiva? Nós escolhemos em que acreditar. Crer ou não crer em determinado evento é crer na própria crença.

Permaneci encarando minha espelhada carranca. Arrisquei com cautela o comentário e a pergunta: – “Dizem-te um demônio; como te chamas?” O refletido – não eu – assumiu um ar professoral para responder: – “Demônio é um termo muito genérico, mas devo ser algo que paira numa espécie de limbo entre o bem e o mal, dependendo, evidentemente, da carga valorativa daquele que me visita”. Fez uma pausa e continuou: “Quanto ao meu nome, – aqui tentou dissimular uma irrisão – pode-se dizer que somos homônimos”. Pus-me a refletir, mas minha imagem retrucou: – “Não, não sou nenhum alter ego, autoconsciência ou coisa assim. Assumo a identidade daqueles que a mim procuram; sou apenas vanglória. Este é o apanágio do demônio que de vós transcende”. Indignei-me com a entidade, e com dedo em riste alteei a voz: – “Mas não tenho vaidade; apenas busco o conhecimento!” Minha imagem sorriu-me largo e com escárnio para declarar: – “A desvairada busca por conhecimento também é vaidade”. Recordei-me do Eclesiastes. “Vaidade de vaidades; tudo é vaidade debaixo do céu”. Ecl. 1:2. O sorriso que adornava a face do demônio refletido desfez-se para rematar: – “Vós, seres humanos reais, fugis para o virtual. Espelhos foram criados por conta do vosso preconceito, muito embora façais da estética refúgio, o que aumenta sobremodo a vaidade. Vós simplesmente não sabeis conviver com as diferenças, com o que foge ao estereótipo ou ao ortodoxo. Todos vós sois edições de Victor Frankenstein, pois que não conseguis conviver com as próprias criações, com as próprias perversões. Os espelhos, assim como minha banal existência, são simples criações de vossa vaidade, o que tem como objetivo precípuo mitigar vossas más consciências”.

terça-feira, 28 de maio de 2019

Melodia



Amanhecia... um chilrear nada outonal aumentava de intensidade. Luzes então sobejaram. Aqui e acolá cores vibrantes. E a bailarina invadiu meu cenário com seu salto... Jeté, o corpo fora impulsionado com ímpeto. Um salto belo, pujante, extremamente dosado. Sim, ela movia-se ao som de uma melodia: minha vida. Meu viver é isso: melodia por mim composta, construída, delineada. Em seu movimento Presto a moça fez-se alígera, alada; no Allegro ma non troppo a jovem mostrou concisa moderação, o amplo vivido. Pude experimentar o esmorecimento de passos durante o Largo. Sim, o ballet aliara-se à musicalidade de meu mundo. Houve movimentos lentos, solenes; houve ocasiões arrebatadoras, Grand Battement e Adágios; houve saltos em profusão; houve calma e silêncio. A bailarina, então, ousa pôr os pés por inteiro no chão... En dehors. Um breve giro em torno de si, um Rond de Jambe e ela se deixa cair com elegância e graça. Agora que a melodia se esvai, meu Grand Finale, admiro-me, pois que minha vida também teve leveza, graça e bastante elegância.    

segunda-feira, 27 de maio de 2019

Hominem publicae: de te fabula narratur



Gente, não é inveja... eu diria ... imensa admiração. Como eu gostaria de ser Esopo! de conseguir fabular! Mas onde encontrar um animal que preencha todas as características dos homens e mulheres públicas? (Não necessariamente nesta ordem). Não se deve somente abarcar uma única faceta, pois que isso descaracterizaria a pessoa pública. Falar somente em desonestidade é muito limitante; falar só em corrupção passiva e/ou ativa é ser superficial; falar unicamente em falta de escrúpulos é irrisão; falar apenas em vigarice é abusar do arrefecimento.

Neste passo, sou levado a crer, em definitivo, na afirmação de que o ser humano é superior aos demais animais. Todavia, discorramos, um pouco que seja, acerca de algumas espécies. Falemos do Canis Lupus (o lobo): pessoas públicas também vivem em alcateias, ou seja, em seus respectivos partidos políticos; refugiam-se em ideologias. Ainda na família Canidae, as raposas: o ardil é fenótipo dentre a classe que se faz privilegiada. Visitemos o serpentário, as Cobras: bem, pelo menos contra os efeitos das toxinas inoculadas pelas serpentes há o soro antiofídico. E a ferocidade tão presente nos Alligatoridae, jacarés; nos Rinocerontes e nos Felidae, ou seja, leões, tigres, leopardos, etc. Contudo, por mais terrível que sejam, nada se compara ao cinismo, à infâmia, à torpeza, à mesquinhez das pessoas públicas.

Que fazer, então? Em respeito aos animais, criemos um novo pet, um amálgama em forma de bichinho - não de estimação - que colija todos estes “sinais distintivos”. Que tal um corpinho similar ao de urso ainda filhote? A aparência de quem inspira confiança é fundamental. Há que manifestar certa fleuma. Não obstante, a desfaçatez é inevitável; a desonestidade gritante deve ser incomensurável. Não deixemos de lado a facúndia ignominiosa dos ministros do Supremo Tribunal Federal. O mau-caratismo não pode ser olvidado. E por que não a arrogância? Um tanto de desonestidade será bem-vinda. Não esqueçamos da psicopatia que acomete a muitos e da manipulação cognitiva que bloqueia o raciocínio de tantos outros. 
  
Bem, longe de pleitear o status de um Demiurgo, posso declarar-me - sem me envaidecer -criador de uma criatura vil e desprezível que venha servir de base à minha primeira fábula. Mas por favor, não confundais com Mary Shelley e seu Frankenstein; minha intenção diverge totalmente da autora. Eu dou vida a um aleijão, a uma amoralidade. Seu nome? Cientificamente eu chamaria de Teratodemo, uma singular espécie de mamífero, oriunda da deformidade de caráter, tipo de monstruosidade advinda do humano. Sim, seria o substrato que germina espontaneamente da escória; da choldra irresponsável que causa repugna e ânsias de vômito. Entretanto advirto-vos: Não vos preocupeis, “esta é uma obra de ficção; qualquer semelhança com pessoas vivas ou mortas será coincidência”.

Então, em uníssono gritaríeis: Allez poète! E na qualidade de poeta rapsodo, ou fabulador, inicio minha narrativa.

Um teratodemo, exemplar originado no âmago de certa nação, amiúde lançava mão de recursos os mais mesquinhos para entorpecer os sentidos e a razão dos habitantes, seus pares. Isso fazia-se necessário para melhor governá-los e tê-los sob rédea curta. Os vis expedientes variavam do estímulo à sensualidade exacerbada, dos discursos retóricos, da irresponsabilidade nas comemorações, até o financiamento das mais variadas festas, que ostentavam o título de manifestação cultural. E como os autóctones viviam numa espécie de limbo, eles eram explorados, expropriados, achincalhados e manipulados. Certa feita, no entanto, a coruja resolveu dar um basta naquela situação e mostrar-se imune ao indutor, ao incitador. Sim, poder-se-ia aqui estabelecer um paralelo à Caverna de Platão, pois sempre haverá um insurreto dentre os manipulados. A insurgência escreve a história e é bem-vinda porque rompe com o estabelecido. E o insurreto, a coruja, portanto, tratou de despertar o povo tradicionalmente sonolento. Em conversa com o teratodemo, a coruja perguntou: - “Por que te fazes amigo desse povo somente com a intenção de explorá-lo? Por que os engana com teus discursos vazios? Por que os manipula? Por que fazes da nação que também é tua um antro de analfabetos, de preguiçosos, de oportunistas? Por que enalteces as iniquidades e as ações dos pervertidos? Por que os vitimiza?” Mas o teratodemo nada respondeu. Apenas virou as costas e deu início a uma perseguição sem par, na tentativa de desmascarar a coruja, que de fato, preocupava-se com a nação e com o povo que a integrava. O teratodemo, apesar de dizer-se poderoso, sucumbiu, mostrou-se fraco, pusilânime; uma farsa é o que melhor pode diagnosticá-lo.

Bem, nesse momento todos vós aguardais ansiosamente pela moral da história. Aqui a tens, nas palavras de Abraham Lincoln: “Pode-se enganar a todos por algum tempo; pode-se enganar alguns por todo o tempo, mas não se pode enganar a todos por tanto tempo”.

quarta-feira, 22 de maio de 2019

O Colecionador



Há que se fazer, de início, uma notável distinção dentre aqueles que se propõe a colecionar. Afinal, existem colecionadores e colecionadores, distinção esta presente em toda e qualquer atividade laboral e/ou profissional. No entanto, se de outro modo preferirdes, há colecionadores do bem e colecionadores do mal. Ora, assim como não podemos increpar a numismática ou a filatelia, não devemos cortejar a compulsão de Frederick Clegg, colecionador de borboletas, personagem de John Fowles no romance “O Colecionador”, onde este busca manter junto a si seu objeto contemplativo: a bela Miranda. É pertinente, inclusive, apontar - segundo a psicologia - o viés egoísta presente em alguns dos que têm o coligir por hábito. 
 
Evidente que não me reporto aos que colecionam revistas velhas, roupas antiquadas, carros antigos, máquinas obsoletas, etc., enfim, aos que demonstram serem aficionados pelo vetusto, isto porque o vetusto é histórico, é cultural. Tampouco dirijo-me aos acumuladores. Entretanto, como caracterizar uma estranha compulsão? Ora, por ser compulsão já soa de certo modo ... eu não diria estranho, mas atípico. E vos pergunto: como caracterizar aquele que coleciona bulas de remédios? Sim, exatamente isso: bulas de remédios! Percebei que dirigi-me a um único sujeito: “aquele”, pois que, parece-me, ser caso singular. Mas discorramos um pouco mais sobre semelhante talento. Ora, se colecionar é demonstrar certo fascínio pelo antigo, será que colecionar bulas de remédios antigos implicaria algum “saudosismo” pelas doenças antigas? Patético, direis vós em uníssono. No entanto, conheci um cidadão, já entrado em anos, que quando interpelado acerca do avanço da medicina, ele dizia a ostentar alguma vaidade: “Eu sou do tempo da galopante; H1N1 não me apavora”.

Mas Feijó, esse era o nome do nosso insólito personagem colecionador, desenvolvera tal faceta quando viajava na marinha mercante. Sua função a bordo era a de taifeiro. Nas horas vagas, contudo, auxiliava o enfermeiro Julião na limpeza da enfermaria. Julião, zeloso de seu ofício, observava não só a validade dos medicamentos, mas também a posologia, a composição e seus efeitos secundários. Dessarte, Feijó, através de conversas informais com o profissional de saúde, passou a nutrir certo interesse pelas informações disponibilizadas nas bulas dos medicamentos. Com o tempo, incorporou-se ao vocabulário do taifeiro termos como bicarbonato de sódio, carbonato de magnésio, lactose, amido, celulose microcristalina, dióxido de silício, dióxido de titânio, fosfato de cálcio dibásico, estearato de magnésio, polimetacrilicocopoliacrilato de etila, hidróxido de sódio, etc
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Bem, em meio a toda esta Babel alopática, destaca-se o saudável da coleção que nos foi legada por Feijó: Sabíeis que o Biotônico Fontoura já tem mais de 100 anos? Que o Óleo de Fígado de Bacalhau é amplamente utilizado como complemento alimentar nos países nórdicos e que é um dos componentes da Emulsão Scott? Que, de início, o extrato de Cannabis trazia estampado em seu rótulo o aviso “Veneno”? Não nos esqueçamos do Anapyon, do 1 Minuto, do Regulador Xavier, do Calcigenol Irradiado. E, neste momento, saudoso faço-me para vos convidar a uma breve viagem no tempo. Vinde; tomai vossos lugares! “Veja, ilustre passageiro, o belo tipo faceiro que o senhor tem ao seu lado. E, no entanto, acredite, quase morreu de bronquite, salvou-o o Rhum Creosotado”.