terça-feira, 25 de junho de 2019

Personagens



Entendo que andar por lugares antigos desperta-nos para uma consciência histórica, pois que a memória, de certo modo, vincula-se à história. Os “lugares” da memória são como que estimulados com a visita e convoca-nos à reflexão. Pondo de lado a faceta melancólica, deparo-me, então, com um ressurgir de personagens que me povoaram a infância.

E lá estava eu a deleitar-me com o Largo do Boticário: o casario antiquíssimo, as ruas forradas de pedras, fios de águas ainda cristalinas, a parte exuberante de uma floresta... O caminhar a que me obrigara pelo Beco do Boticário, mesmo que lento, após o "desbravar da Rua Cosme Velho, acabara por provocar certo cansaço. Recordei-me das escadas nas margens da floresta e para lá dirigi-me.

Ao longe, tive a nítida impressão, ou melhor, a certeza de que outra pessoa já descansava sobre os rústicos degraus. À medida que me aproximava, percebi tratar-se de elegante e jovem senhora trajada com roupas antigas, na verdade, algo bem démodé. Sobre os cabelos presos - o penteado antiquado - um extravagante chapéu. Apoiado à mureta que limita lateralmente as escadas, um curioso guarda-chuva. Pareceu-me triste... sim, eu a conhecia; eu a reconheci: Mary Poppins. Não, não me reporto a Julie Andrews, a intérprete do personagem, mas ao personagem mesmo. Sim era a governanta, a babá, a nanny se assim preferirdes. Todavia, eu não estava em Londres, não se tratava de Upper Richmond Road ou do West End, nem mesmo de um hinterland; estávamos no Brasil, Rio de Janeiro, Cosme Velho...

Aproximei-me. E Mary sorriu-me: um sorriso cansado, desalentado. Observei-a mais atentamente: os anos não lhe haviam maltratado, apesar do patente esmorecimento. Pus fim ao silêncio: – “É surpreendente e bem prazeroso encontrar-te. Trata-se de uma experiência gratificante. Mas... o que te traz a este lugar?” Lançou-me um olhar mais intenso para responder: – “As evocações, as expectativas, as aspirações e vontades de pupilos como tu”. Extasiei-me ao ouvir aquela voz. Acredito que alguns segundos se interpuseram em nosso diálogo. A personagem pareceu tomar fôlego e prosseguiu: – “Vossa geração aspira uma melhor educação e orientação aos filhos. Os rebentos desconhecem limites, vivem a fantasia de um mundo acabado e criado para os servir; as crianças e jovens carecem de valores, pois vos mostrastes incapazes de transmiti-los. Esta geração apenas retrata o vosso fracasso, o vosso descrédito. Crianças e adolescentes prescindem de educadores, pois mesmo que indiretamente, têm a tutela do Estado”. A famosa babá precisou tomar algum fôlego para continuar: – “E isso teve origem na vossa incúria. Antes mesmo de abdicardes de princípios e valores, abristes mão de Deus. Então quisestes colocar o ser humano para preencher tal lacuna, mas sem Deus abdicastes também do próprio ser humano; então, experimentastes o vazio. Distantes de Deus, vós vos lançastes no desespero do individualismo; eis o fruto da vossa inépcia”. Misto de pasmo e súbita ancilose limitei-me a olhar para a senhorita Poppins. Ela, então, rematou nosso encontro: – “Nada a fazer”. Um sorriso lacônico e o pálido “Adeus!” A nanny ergueu-se, empertigou-se, ajeitou o chapéu na cabeça ornada por antigo penteado, pegou o guarda-chuva e fez-se ausente dentre a nesga de floresta.

Permiti-me ficar preguiçoso pelos degraus da escada. Experimentei certo desânimo, muita embora estar tentado a esboçar em papel Mary Poppins no Largo do Boticário. Ainda investido desta ideia, ouvi uma voz infantil que instava: – “Desenha-me a criança do mundo atual”. Surpreso com a voz, voltei-me de súbito para a mata adjacente. E lá estava ele, exatamente como Saint-Exupéry descrevera: o principezinho. Todavia, estou certo, naquela mata não havia Baobás. Sim, o Pequeno Príncipe permitira-se abandonar o asteroide B612. Visitava-me! Em face do meu aturdimento, o recém chegado personagem insistiu: – “Desenha-me a criança do mundo atual. Retrate-a; precisas melhor conhecê-la e cativá-la”. Nada pude fazer e/ou responder; fiz-me mudo, apático. Então, o principezinho continuou: – “Pelo que pude perceber, às crianças faltam ingenuidade. A infância lhes foi projetada; a meiguice extraviada. Onde estão o lúdico e o espontâneo? Não há mais a nobre interação infantil; há apenas a influência de pais assustados, que para preservarem os rebentos de um mundo rival, priva-lhes do convívio com o próprio mundo. Vós não conheceis vossos filhos, pois que sequer os cativastes. As crianças são instaladas em bolhas; tanto os condomínios fechados quanto os brinquedos eletrônicos as afastam da sadia convivência. As crianças, hoje em dia, temem não só os tigres e as serpentes, mas também as correntes de ar, a terra nua sob os pés, os alimentos”. Uma tentativa de sorriso e continuou: – “Os jovens dificilmente observam estrelas. Jovens jamais se fariam exploradores porque perderam o interesse na ação que faculta o conhecimento; tudo lhes é administrado de modo virtual; tudo lhes é introjetado. Até a revolta vivida pela juventude tornou-se algo protocolar; tudo é tão previsível... Infelizmente, crianças hodiernas, na verdade adultos esquisitos, não aguam flores nem revolvem vulcões!”.

Mesmo distante de qualquer serpente, o menino príncipe permitiu-se desaparecer devagarinho entre as névoas do meu imaginar, deixando-me entregue à máxima que deve resumir, inclusive, toda relação pais e filhos: “Tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas!” 

segunda-feira, 24 de junho de 2019

Primitivos



Vi-me bastante contrariado ao deparar com a aranha; justo ali, junto a meus sapatos. Aquilo me pareceu inconveniente, um óbice ao meu conceito de higiene. Aquele bichinho articulado, com oito patas, causava-me repulsa. Dele devo livrar-me o quanto antes. Mas, ... mamãe dizia para que nunca as matasse; um lar com aranha é um lar saudável. Seria, de fato? Onde se fundamenta essa “sabedoria” dos antigos? Ciência? Não, mas a ciência vem corroborar tal crença. Aranhas nem sempre são agressivas ou perigosas e podem nos oferecer alguma proteção, pois operam no controle de pragas.

Incrível como nossa primitividade, essa característica tão presente nos seres humanos, assume descaradamente o título de “instinto de sobrevivência”. O ser humano clama por proteção, mas mata por diversas razões; ele mata até seus iguais e pelos motivos mais torpes. O ser humano mata para alimentar-se, mas também mata aqueles dos quais não se alimenta. O ser humano mata por esporte, por prazer. E que culpa tem o instinto em tudo isso? O simples fato de matar para comer revela primitividade.

A estupidez humana não conhece limites, e o pior é que sempre busca desculpas para sua patente crueldade. Outra justificativa para tirar a vida de animais é o “bem estar da sociedade”. Certa vez, ao folhear um exemplar da “Revista Seleções do Reader’s Digest”, pude deleitar-me com um fato ocorrido na Índia, se não me falha a memória. No interior do país, em distante região agrícola, os moradores perceberam a presença de expressivo número de serpentes numa plantação de batatas. Reuniram-se, e preocupados com o “bem estar dos agricultores”, resolveram declarar verdadeira guerra aos répteis rastejantes. Pois bem, e assim foi feito: as serpentes foram dizimadas. A colheita daquele ano? Total fracasso; os tubérculos foram totalmente devorados pela população de lebres.  

Bem, se falar acerca de aracnídeos e serpentes soa sobremodo deselegante aos detentores de sensibilidade, podemos discorrer sobre outro protagonista considerado “praga”, pois que este assumiu péssima fama no convívio com os ditos “racionais”. Ao assistir pela TV uma reportagem sobre as comemorações dos 500 anos da Universidade de Coimbra, dediquei maior atenção no que dizia respeito à Biblioteca Joanina, afinal, lá podem ser encontrados exemplares com mais de 800 anos. Todavia, pasmai, enquanto acontecia a entrevista com o ínclito bibliotecário, certo morcego fazia malabarismo dentre os circunstantes. Interrogado acerca do “intruso”, o entrevistado esclareceu que os morcegos habitam as bibliotecas; ele enalteceu a importância do mamífero voador para o ambiente, pois que estes se alimentam de traças e outros parasitas prejudiciais aos livros.

Desculpem-me, mas sou levado a encerrar esta brevíssima crônica com uma ilação grotesca: os morcegos têm mais apreço pelos livros do que a grande maioria dos discentes que conheci. Talvez isso explique, em parte, nossa primitividade.    

sábado, 22 de junho de 2019

Amico mio



Estava eu de férias em Florença, na famosa e não menos exuberante região da Toscana. Meu deleite, já que conhecimento é prazer, experimentava o ápice quando em visitas a palácios e igrejas na cidade símbolo do Renascimento. Meu italiano, muito embora a colaboração de Roberto Benigni, era bem resumido. E graças a ele, Benigni, eu usava e abusava do romântico “Buongiorno, principessa”. Este era o mote de que me utilizava para cumprimentar e chamar a atenção da simpática hospedeira, que com algum esforço orientava-me com seu inglês típico da “cosa mostra”. E foi desse jeito que apresentou-me a Carlo Collodi Terzo, senhor já bem entrado em anos, neto do autor de “As Aventuras de Pinocchio” e que, apesar da idade, conseguia falar com desembaraço e exibir sorrisos joviais.
Em outra oportunidade, lembro-me inopinadamente, conhecera alguém cujo avô fora também renomado: em Mikonos, Grécia, conheci o neto de Nikos Kazantzakis. Sim, o neto, cujo nome não me recordo, possui ou possuía um restaurante especializado em iguarias a base de frutos do mar. Não obstante a boa memória, algo me causa incômodo: pessoas da minha idade, da minha geração, podiam ser consideradas como pertencentes a uma geração de netos. Nossos avós, sim, foram pessoas de destaque, não celebridades; nossos avós foram patriarcas, esteios, exemplos, ícones. E a nós cabe ou coube a mais embaraçosa das partes: sermos esnobes.
Mas retornemos à Florença e seu curioso personagem. Certa tarde, refestelados em um terraço ornado de flores, visitado amiúde por esvoaçantes farfalle, depois de algumas taças do maravilhoso vinho de Chianti e sorrisos a granel, signore Carlo segredou-me algo estarrecedor. Disse-me ele que a tentativa de manter viva a memória de seu avô o levara a realizar as mais ousadas pesquisas. A partir de As aventuras de Pinocchio, sua obra maior, o neto resolveu buscar as desdobramentos e consequências dos personagens Geppetto e Pinocchio. É óbvio, a história não terminara daquele jeito. O reencontro entre os dois não se realizou simplesmente após um deles, Pinocchio, ter-se transformado em ser humano normal. Não, a coisa vai bem mais longe. Para melhor compreensão, vale a pena relembrar um pouco da história oficial.
Geppetto, carpinteiro ou marceneiro? Faz diferença? Bem, vamos a ele, Geppetto, além de carpinteiro, fazia um bico como manipulador de marionetes, haja vista sua condição humílima. Ao conseguir o bloco de madeira com um tal de Antônio, dá início ao esculpir do boneco. Todavia, ele começa pelas pernas. Perguntamo-nos: Por que? Coisa que só o manipulador e carpinteiro pode responder. Quando somente as pernas estavam prontas, o futuro fantoche começa a chutar seu criador. Cosa pazzesca! Mas ... continuemos. Ao ficar totalmente esculpido e depois de ter aprendido a andar, Pinocchio sai correndo e entra na cidade. Preso pelos carabiniere, acusa Geppetto de não gostar de crianças, o que leva seu criador a ser detido e acusado de maus tratos. Conselho Tutelar? Geppetto, depois de libertado, demonstrando o amor do criador por sua criatura, substitui os pés queimados do boneco e chega a vender seu único casaco para comprar livros e matriculá-lo na escola. Mas uma coisa chama a atenção do velhinho carpinteiro: o nariz de Pinocchio está maior; cada vez que o boneco mente seu nariz cresce. Atentai para o detalhe: a mentira é apenas reflexo de uma personalidade doentia. Em Pinocchio não havia integridade, honra, caráter ilibado e/ou qualquer princípio moral. A marionete foge de casa e Geppetto constrói um barco para dar início a busca por sua criatura. Levado por um pombo, Pinocchio encontra Geppetto navegando à deriva; lançado na água, o boneco de madeira tenta nadar em direção ao velhinho, até que ambos são engolidos e levados à praia por enorme atum. Pinocchio tornar-se-ia menino depois de zelar a cabeceira de seu pai até que ele se refizesse da doença adquirida.
Bem, de posse destas informações básicas, podemos dar continuidade ao que não é de vosso conhecimento. Segundo as pesquisas do signore Carlo, Geppetto, ao retornar para casa, não reassumiu a profissão de carpinteiro; woodcarving se assim preferirdes. O fato de o boneco Pinocchio ter-se transformado em menino conferiu destaque ao velhinho; a ele, inclusive, foram atribuídos poderes místicos. Foi procurado por um grupo de empresários, financiados pela família Fellicci, “cosa nostra”, que propôs financiar a construção de vários bonecos esculpidos, e depois que adquirissem vida – anima – seriam colocados em pontos chaves do governo. Afinal, apesar de terem aparência humana, na verdade não passariam de fantoches, marionetes, ou seja, fáceis de manipular. E assim foi feito. Geppetto enriqueceu, dando origem a uma vasta produção de bonecos, cujo problema com a hipertrofia nasal foi corrigida. Os bonecos tornados bambini seriam entregues a famílias de imigrantes italianos.
Não só na Itália, mas em grandes potências do mundo pode-se perceber claramente a presença e influência de marionetes em cargos e funções de destaque. Talvez isso possa explicar as duas grandes guerras, a revolução bolchevique, o surgimento do comunismo/ socialismo, o politicamente correto, a teoria da terra plana, etc.  Acontece que nem todos os bonecos, ao adquirirem o status de humanos, conseguem desempenhar a função de marionetes; alguns deles rebelam-se e pensam ter liberdade para fazer o que lhes dá na telha. E isso aconteceu com um exemplar confiado à família de imigrantes italianos vinda para o Brasil: a família Toffoli. Segundo ainda signore Carlo, este exemplar hoje é membro do judiciário daquele país, que junto com outros exemplares – exemplares estes oriundos de bonecos rejeitados pelo controle de qualidade da linha de produção da Geppetto’s enterprises e contrabandeados para o Brasil; gente sobremodo abjeta – pretendem fazer da nação uma pocilga.
Aqui solidarizo-me com os brasileiros: Pior do que ser manipulado é ser manipulado por fantoches!

quinta-feira, 20 de junho de 2019

Mensagem



“Quando o carteiro chegou e o meu nome gritou com uma carta na mão...” Fazeres ultrapassados; hábitos ultrapassados; expectativas ultrapassadas... A canção tem mais de 70 (setenta) anos e eu lamento por Isaurinha Garcia e Cícero Nunes. Nos dias atuais a preocupação não está em receber determinada mensagem, mas em receber mensagens. E para que essa prioridade seja satisfeita, outras preocupações se fazem igualmente importantes: sinal da internet; senha do wifi, etc. E os valores sofreram tantas deformidades que até a espera pela mensagem, a meu ver algo positivo, caiu em desuso. Seria a celeridade, de fato, saudável às relações? Não sei, os antigos também diziam que “a pressa é inimiga da perfeição”, ou inimiga das coisas bem feitas, se assim preferirdes, já que a perfeição inexiste. Mas isso também está ultrapassado, pois o paradigma vigente recomenda a pressa, a velocidade, como padrão para o sucesso.

Então falemos do sucesso: seria bem sucedido aquele ou aquela que não mais consegue escrever uma missiva? Sim, porque a pressa não os permite lançar mão de trabalhada linguagem para externar, através de cartas, a nobreza de sentimentos. As pessoas limitam-se, ou melhor, permitem-se revelar sentimentos através de emojis. Contudo, parece-me que o termo revelar não foi bem empregado no contexto. Em dias de hoje as pessoas não mais se revelam; elas se expõem! E quanto mais expostas melhor. E quando não se expõem, um hacker busca expô-las. A inviolabilidade das cartas, entretanto, era muito respeitada. Por que há essa necessidade premente em conhecer e expor a intimidade alheia?

Bem, falamos das expectativas (a espera) ultrapassadas; falamos dos hábitos (escrever cartas) ultrapassados. Só falta falarmos do fazer (aquele que entrega a carta) ultrapassado. Que saudades daquela imagem – estereótipo maldosamente construído – do cão perseguindo o carteiro! E a insistente campainha da porta a nos avisar da chegada de notícias?! A correspondência em profusão: os postais, os convites, telegramas, os resultados dos exames, a convocação... O que fica é só uma última mensagem: não há mais informes, comunicados, recados, felicitações. Há somente a carga desnecessária e fútil de torpes deformações.  

segunda-feira, 17 de junho de 2019

Master Chef



Venho, por meio desta, informar-vos de que estou disposto a participar do programa MasterChef, graças à veia culinária em mim recém desperta, e, acredito, que tal veia tenha se manifestado em virtude da popularidade da alimentação vegana. Sei que é bastante difícil para vós, que me conheceis como homem de letras, acreditar-me um gourmet, mas tentai modificar este estereótipo, pois criei receitas inimitáveis baseadas nos princípios do veganismo. Sim, um bolo - cupcake se preferirdes - de bertalha, berinjela e gengibre. Nada de açúcar, nem mesmo mascavo ou demerara; nada de óleos ou quaisquer recursos para dar liga. Enfim, uma delícia! E, não busqueis, já que nem sequer provastes, sopitar o sucesso que busco alcançar. Posso, inclusive, divulgar a receita, mas isso ficará para uma outra ocasião.
Eu poderia ainda discorrer sobre o meu quibe feito somente de aveia e trigo, minha pizza confeccionada apenas com berinjelas. E que tal meu salpicão feito de milho, passas, ervilhas e maçãs, tudo cozido com arroz integral? Meu Pot-au-feu, no lugar da carne, acrescento algumas lascas de cedro; meu Ackee é feito com macaxeira; meu Bulgogi, em vez de iscas de carne, uso folhas de mangueira. No Goulash, tiro a carne e introduzo mandioquinha. Minha Mussaca leva granola. Em meu Irish Stew, o cará (inhame) substitui a carne de carneiro. E, por fim, minha Paella, que além do arroz, azeite, açafrão e demais temperos, eu adiciono arroz, arroz e arroz.
Senhoras e senhores, prezados leitores, longe de mim diminuir ou fazer chacota com os que se dizem veganos, mas sou, inconscientemente, conduzido a Pedro Malasartes e sua Sopa de Pedras. O personagem tradicional na cultura ibérica mostra que, na verdade, a sopa não é de pedras; são os demais legumes e temperos que fazem da dita sopa algo delicioso. As pedras são descartáveis, meros artifícios. Em verdade, tudo não passa de maquinações de um caipira sagaz. Não obstante, dentro da antropologia filosófica, há uma corrente que coloca o paladar como o diferencial entre seres humanos e demais animais, afinal somos os únicos a cozinhar os alimentos e se valer de temperos. Essa conversa de se usar a razão para pôr em destaque os seres humanos em detrimento de outras espécies está ultrapassada, pois capacidade de pensar e desenvolver sentimentos são pertinentes também a outras animálias. As críticas daqueles considerados “carnívoros”, por sinal bem pertinentes, aludem a nossa condição animal e as nossas características de predadores. Proteína animal, portanto, seria indispensável a nossa manutenção e saúde.
Bem, já que referi-me à filosofia, a versão vegetariana seria o meio termo aristotélico, a harmonia entre extremos, o equilíbrio, a síntese dialética em sua mais ampla, saudável e saborosa acepção.    

domingo, 16 de junho de 2019

Protegendo o anônimo



Eis o grande desafio de momento: proteger o anônimo! E eu começo citando a Constituição Federal, em seu artigo 5º, Dos Direito e Deveres Individuais e Coletivos, no que se refere, especificamente ao Direito à Segurança. Nossa Carta garante a segurança pública para todos, – anônimos inclusive? – e refere-se não só a segurança policial, mas também jurídica. Como na lei devem ser definidos os crimes e as penalidades para quem os comete, pergunta-se: quem é esse (ou este) quem? Enfim, quem seria o anônimo? P----, trata-se de anônimo... Sim, e a quem atribuir os tais direitos ou crimes? Está difícil e tirando o sono de muita gente. Nessun dorma! Nessun dorma! Entretanto, continuemos, pois a Ciência Jurídica, ou suas interpretações, torna tudo possível. Vejamos: o anônimo é pessoa jurídica de direito privado ou público? Quem o sabe, afinal? Ele é anônimo. Talvez estejamos trilhando o caminho errado; corrijamos nosso rumo e observemos a coisa pelo âmbito da linguagem.

Anônimo: que não tem nome ou identificação; não está assinado; autor não identificado. Todavia, neste caso, pergunto: seria, de fato, um anônimo, ou pessoa que pretende passar por anônima? Sim, caso tenhais dúvidas sobre a diferença, consultai – melhor dizer assisti – a película italiana “Anônimo Veneziano”, com Tony Musante e a brasileira Florinda Bolkan. Só para recordar: “un viso anônimo che sà l’ingratitudine cos’è, e una parola troverà anche per te, per te”. Apesar da beleza do filme, retornemos ao tema. E se, porventura, não for respeitado o princípio constitucional que protege a todos, inclusive o anônimo? E se couber indenização? Quem defenderá seus direitos? Como ficaria a relação do anônimo com seu representante legal? Anônimo se relaciona? Ora, se o anônimo assinar uma procuração qualquer ele estará abrindo mão de seu anonimato.

Bem, sem querer ser um chato, mas já o sendo, e por inferência – ou seria convicção? – afirmo que o dito anônimo é irreal; e se existir é ser metafísico. Percebeis: não há materialidade alguma em afirmar a não existência do anônimo, como também não existe materialidade alguma em afirmar sua existência. Mas não me dou por vencido e quero esgotar toas as possibilidades. Que tal o discurso de um hacker e jornalista de esquerda norte-americano, que empenha-se sobejamente em defender um pilantra apenado, e para isso não mede esforços, não vê limites, não tem escrúpulos? E o mais relevante: ou ele não domina o português, ou é um perfeito imbecil, e isso pelo simples fato de confundir “defender o anonimato de sua fonte”, princípio jornalístico, com “defender fonte anônima”. Neste caso, proponho a seguinte solução: não se trata aqui de proteger o anônimo, mas sim de proteger o inimigo.

sábado, 15 de junho de 2019

All by myself



A noite fora horrível: insônia, frio, tosse, dores pelo corpo. Acabo de abandonar a cama. Desânimo seria a palavra correta para mensurar o tamanho da minha indisposição. O café com leite é sorvido a custo; o pão com requeijão engolido sem o menor prazer. Vago pela casa e busco uma atividade, sobre o que me interessar. Nada, como todos os dias... Penso em ler ou reler um livro qualquer. Mas eu não tenho um livro qualquer ou quaisquer; meus livros não são uns entre outros; meus livros são únicos. Ainda assim vagueio pela casa. Ali está o calendário. Que dia é hoje?
Não, nego-me acreditar nisso: hoje é o dia em que comemoro meu aniversário! A idade? “Poupe-me dos detalhes sórdidos”. Mas até o momento ninguém ligou. Ah, é cedo. Em breve os telefonemas terão início. Receberei alguma prenda? Gostaria de receber um presente diferenciado; nada material, dispendioso ... Sim, Marilyn Monroe cantando Happy Birthday para mim e esbanjando sensualidade. Contudo, ... Marilyn não faz meu tipo. Prefiro Ingrid Bergman; eu a beijaria em Casa Blanca ao som de As Time Goes By. Eu diria: – “Toque Sam” e todo o Marrocos a nos aplaudir e a zombar da cara de Humphrey Bogart. Como vingança ele telefona e me delata aos alemães. Neste momento meu telefone toca. Ergo o fone apressado e pergunto:  – “Quem é?” Uma voz inexpressiva oferece-me empréstimo. Desligo, não quero. Quase grito: – “Hoje é meu aniversário!”. Sim, onde eu estava? Ah, no Marrocos, a aturar os ciúmes de Humphrey Bogart e sua delação. Gostaria também de estar em Mikonos, naquele mesmo bar que serviu de palco a última cena de “A identidade Bourne”; lá pude degustar uma cerveja com minha mulher. Ou quem sabe, talvez, no café Deux Moulins, a partilhar do “Fabuloso Destino de Amélie Poulain”. Mas estou de volta ao Marrocos, e lá vem meu perseguidor; Bogart quer acabar comigo. Mas o cara que tenta me caçar não é alemão; é um spetsnaz. Sim, um russo enorme.
E por falar em russo, a música que se me invade agora é bem diferente. Eu não sabia que Sergei Rachmaninoff teve parceiros, pois Eric Carmen escreveu um poema e o adaptou ao Concerto nº 2 para piano. Então surgiu a canção “All by myself”. E eu solfejo: When I was yong, I never needed anyone and making love was just for fun. Those days are gone. De fato, quando jovem, eu julgava não precisar de ninguém e fazia amor por divertimento ... Realmente, mas aqueles dias se foram. E como a toda ação dá origem a uma reação de mesma intensidade e em sentido contrário, continuo meu bucólico solfejo: Livin’ alone, I think of all the friends I’ve known, but when I dial the telephone, nobody’s home. É isso, vivendo sozinho, eu penso em todos os que conheci; como gostaria de ligar para eles, convidá-los, mas ... quando eu discar o telefone, ninguém atenderá. All by myself. E eu repito: All by myself!