domingo, 30 de novembro de 2025

 

Pode até parecer brincadeira, mas as palavras fã e fama, embora correlatas - a fama agrupa fãs, organiza fãs clube - e tão próximas foneticamente, trilham diferentes caminhos etimológicos. Se me permitido for uma abordagem genética, eu diria não se tratar de gêmeos univitelinos, pois não têm o mesmo DNA.

Etimologicamente, a palavra fã deriva do termo latino fanaticus, que, a princípio, significava um exaltado, um frenético religioso. Com o tempo, contudo, passou a designar um admirador, um entusiasta. Já o sentido original do termo fama resumia o conjunto de opiniões acerca de certo indivíduo; posteriormente assimilou a acepção de notoriedade, celebridade. É pertinente lembrar que a mitologia romana nos fala de uma deusa Fama encarregada de espalhar notícias pelo mundo.

Pois bem, e já que cientes da “distante proximidade” entre os termos (Pra que isso?), posso então vos perguntar: A fama seria algo saudável? Dito de outra forma: É bom ser famoso; ter fãs? Refiro-me àquele fã leal ao fanatismo que o originou... Qual seria a diferença entre o tiete e o stalker? Ora, o stalker é aquele que persegue de modo obsessivo, invade privacidades etc. Salvo melhor juízo, parece-me haver uma linha muito tênue entre seguidores (fãs) e stalkers. E para exemplificar o que digo (atenção, eu falo em exemplo, não em suposição), passo a vos relatar um causo por mim vivenciado.

A padaria estava bem concorrida naquela manhã de domingo; fila pra tudo, até para o desjejum. Mulher de meia idade fez-se próxima de mim com belo sorriso. Ela falou: - “O senhor é o ...” (nada de nomes). Eu neguei de imediato. Ela insistiu; eu continuei negando. A mulher justificou minha recusa como humildade; ela queria fazer uma selfie, chegou a pedir autógrafo. Não! Pior do que a fama, creio eu, é ser confundido com alguém famoso. Mas a coisa não parou por aí: sentou-se à minha mesa, partilhou a refeição e disse-me seu endereço.

Mais do que um vizinho chato e ter um stalker (perseguidor) como vizinho. Doravante, onde quer que eu ia, lá estava a mulher; para onde eu me virasse era fotografado. Chegou ao ponto de trazer consigo uma foto do tal famoso para comparar comigo. Quando minha paciência já alarmava nível crítico, peguei a fã pelo braço e mostrei minha carteira de identidade. Sabeis o que ela respondeu-me? - “Esse é seu nome verdadeiro?” Ainda a sorrir concluiu: - “Prefiro seu nome artístico!” Não teve jeito, solicitei às autoridades uma Medida Protetiva.

sexta-feira, 28 de novembro de 2025

Síndrome cartesiana

 

A primeira pergunta a ser feita é: como viver em um mundo no qual não mais se acredita? A história foi deformada para atender interesses outros; as notícias foram e são, então, manipuladas. Como crer em uma ciência submetida a interesses econômicos? O que esperar de uma educação que atende a desmandos políticos? As religiões sofreram distorções e por isso tornadas convulsas. À contragosto, portanto, constato um viver “de araque” (arak). Vivemos somente sofismas; falácias para justificarem falácias. Até mesmo princípios e valores tornaram-se reféns de embustes.

E de novo a pergunta: Como viver este teatro do absurdo? As relações, em si, perderam-se no fantasioso. Não quero representar! Digo não à intrujice, ao logro! A pantomina exige de mim algo que não pretendo disponibilizar: dramaticidade, ilusão, aparência. Enfim, o mundo não é, ou nunca foi, a imagem que temos dele. Ora, o que somos então? Eu sou o não de mim mesmo; há um eu - fabricado - que busca a mim se incorporar, que insiste em me representar. Se aceito, torno-me farsa; se rebelo-me incorporo adjetivos, títulos do tipo sociopata.

E para fazer jus a imposta sociopatia, pretendo rejeitar tudo que me foi passado, tudo que foi vivido e vivenciado. Não, não quero um novo René Descartes, tampouco algo similar a outro Discurso do Método. Não sei se com pesar ou extrema alegria informo-vos: tornei-me um novo mundo, o meu mundo. Sou, então, um novo mundo! Eu escrevo a história, as notícias; sou a ciência, mesmo que em desalinho. Determino os princípios educacionais e amo a um Deus exclusivo; esse Deus que dá-me certeza e torna-me ousado para enfrentar quaisquer outros mundinhos inflados de farsa e arrogância.  

segunda-feira, 24 de novembro de 2025

Divagar

 

Pessoas há, que, por certo, recordarão dos versos: “Ando devagar porque já tive pressa...” Em face da proximidade semântica esclareço-vos que, pelo menos o meu divagar mostra-se devagar. Nada ao acaso; eu fora convidado exatamente a passear pelo mundo semântico. Os meus - quase nenhum - leitores perguntar-me-ão: o que significa mundo semântico? Poxa, falar em significar na semântica seria pleonasmo vicioso.

Todavia, a semântica, haja vista sua amplitude dimensional, abriga um sem número de “comunidades”, entendidas aqui apenas como agremiações. Dentre estas encontramos diversos tipos de oratória, que, a depender de orador e ouvinte, assimilarão as mais variegadas significações. Talvez, justamente por isso, seja melhor usar o substantivo retórica para delas tratarmos. Observemo-las, pois!

A persuasiva, utilizada por políticos para convencer possíveis eleitores, passa a meu lado com seu jeito pretensioso. A de impacto, não menos pretensiosa, bastante utilizada pela imprensa na tentativa de causar emoção, encarou-me de modo acintoso. A pedagógica, longe de manifestar sabedoria, e que a princípio deveria apenas levar conhecimentos, revela-se tendenciosa, até por exibir bandeiras e símbolos. A religiosa, por sua vez, ao invés de ater-se no disseminar da moral, exibe uma fabricada humildade.

Não obstante, dou continuidade ao meu vaguear pelo mundo semântico, onde, até então, nada me sugeria o insólito. Contudo, tem lugar o imprevisto: por mais que tentasse manter-se absconsa, a mais afamada das inquinadas aberrações mostra sua cara. Eis a narrativa, o recurso caviloso apoiado por políticos, imprensa, educadores e religiosos. Esbirros a seguiam e aclamavam; iconólatras a ovacionavam e aplaudiam sua mais recente criação acorrentada ao final do préstito: a trama golpista!

domingo, 23 de novembro de 2025

Encélado

 

Tratava-se apenas de um fim de semana no interior. O clima? Dias de Sol agradáveis com noites amenas. Ah, o silêncio! O maravilhoso do silêncio é que ele pode ser ouvido. Sim, eram manhãs orvalhadas, gorjeios, volatas. À noite, em meio ao ruidoso coaxar, um luar convidativo, nada científico, apenas romantizado. A enorme Lua cheia arrebatou-me a atenção. O entusiasmo tornou-me indiferente ao entorno. Eu só tinha olhos para aquele céu estrelado e maravilhoso.

De repente, inexplicado foco de luz pairou sobre mim; luz forte, brilhante, se bem que nada agressiva ou invasiva. Esse foco de luz fez-me levitar; pouco a pouco fui afastando-me do solo. O luzeiro conduzia-me. Não, eu não tinha vontade alguma de lutar, de evitar aquela condução. Na verdade, senti-me confortável ao ser transportado. Questionei-me: que era aquilo? De que se tratava? E veio o desmaio.  

Difícil mensurar o tempo, mas despertei em algo que me pareceu uma maca hospitalar; tinha o corpo envolvido numa roupagem, creio que metalizada, e a usar uma máscara de oxigênio. Alguém aproximou-se. Encaramo-nos demoradamente. Alto, corpo esguio e de pele alaranjada. Não tive mais dúvidas: fora abduzido! Sorriu-me; um sorriso simpático, empático. A pequena boca não se movia para falar, mas eu ouvia seus pensamentos, e através deles nos comunicávamos. Minha voz, então, fez-se nada enfática, sem relevo ou entonação. Agradeceu pela minha colaboração e avisou que eu dormira durante toda a “viagem”. Respondi que não houve colaboração e sim coação, pois sequer fora convidado. Também perguntei acerca da dita “viagem”.  Explicou-me ele que estávamos em Encélado, uma das luas de Júpiter.

Fiquei pasmo, uma das luas de Júpiter!? Nossos cientistas, principalmente da NASA, gastam tanto tempo e dinheiro para realizarem viagens em torno de nosso próprio planeta e eu a fazer “turismo” em Encélado. Outras circunstâncias, por certo, ter-me-iam feito sorrir. Perguntei o que queriam de mim. A resposta foi que, enquanto terráqueo, eu era objeto de pesquisa. Como assim? Pesquisavam eles outras formas de vida? Não, respondeu-me o estranho. Minha forçada colaboração foi no sentido de ter meu cérebro e corpo averiguados e examinados pelos extraterrestres. A roupa e a máscara de oxigênio estavam justificadas, afinal, gravidade e pressão atmosférica diferentes. Perguntei se o exame já terminara. O pensar do extraterrestre (nesse caso eu seria o alienígena) declarou que faltava apenas uma amostra do meu DNA.  

Ergui-me da maca irritado. Por que? Para que meu DNA? De modo silente pediu-me calma e explicou: estavam em processo de criar novos seres com as mesmas características humanas. Seriam, no entanto, seres bem mais evoluídos mental e moralmente. Meu DNA seria avaliado. Acalmei-me; senti-me até ditoso com a possibilidade de colaborar com uma descendência mais apurada. Indaguei pelo tempo que tais exames vinham se realizando. A resposta deixou-me boquiaberto. Os pensamentos do alienígena informaram-me que, quando da primeira visita, nós, seres humanos (ainda não homo sapiens) dormíamos em árvores; sequer empregávamos o bipedalismo. Tempos depois passamos a usar cavernas como esconderijos. Outras “visitas” foram feitas no sentido de depurar uma raça futuramente humana. Foi-nos apresentado um primeiro idioma e um esboço de ciência; para complementar a base educacional fomos introduzidos nas artes.

Mas nossos “propedeutas” haviam cometido grave erro: não estávamos preparados para o conhecimento e/ou autoconhecimento. A descoberta do ego foi desastrosa. E para completar experienciamos a liberdade. Podíamos fazer escolhas, e as escolhas, em geral, foram as piores. Desponta então a vaidade, a ganância, o egoísmo, a usura. Tiveram início as perseguições, a escravidão... o conhecimento passou a ser usado como arma. As guerras nos afastaram. O convívio e as relações mostraram-se insustentáveis. Tornamo-nos inimigos de nós mesmos; uma espécie que mata pelo prazer de matar. O caos estava próximo: luta armada, confronto nuclear. A iminente destruição do planeta colocará em risco todo o sistema solar...  

Bem, os ditos exames foram realizados e pude, enfim, retonar. Estive igualmente desacordado em toda a viagem de volta. Outro facho de luz devolveu-me ao local; poucos segundos teriam se passado durante minha anômala odisseia. Já não mais admirei o luar; dúvidas em mim se instalaram: Haveria como reverter tal quadro? Ou seja, haverá solução favorável ao desenvolvimento humano?

sábado, 22 de novembro de 2025

Autocondenação

 

O envelhecimento implica finitude e vem marcado de desafios. Muito embora a Filosofia entender a velhice como período de sabedoria, haja vista o acúmulo de experiências, percebe-se certa estigmatização, pois que convive face a face com uma juventude que se autovaloriza em demasia. Tradicionalmente, há culturas que celebram a vetustez, pois veem-na como sinônimo de respeito e sabedoria. Ainda a evocar a Filosofia, Aristóteles reputava a cultura como conforto à velhice.

Eis aqui o probleminha em particular: Que cultura? Redes sociais? Internet? Filmes e séries que esbanjam violência ou ideologias? Músicas distantes de melodia, harmonia e ritmo? Canções que violam a poesia basilar? Versos sem métrica ou rimas? A nostalgia como tendência? Ora, fazei-me o favor! E chamam-me tiozão, brega, careta. Chego a sentir saudades do antiquado, do obsoleto, do anacrônico, do bokomoko enfim.

Alguns há que exigem-me maior participação no cotidiano. Pergunto-vos então: Como? O que diriam meus filhos ao observarem meu corpo coberto de tatuagens? Que tal piercings, independente se no nariz ou em outros cantos? Que tal voltar-me à microestética, muito embora o uso de prótese? Quem sabe aderir ao estilo blokecore, exibindo sempre as camisetas do meu time de coração? Talvez uma academia de CrossFit, a empurrar pneus pela casa? Certamente deixaria alguém feliz ao assistir um show do Alok...

Definitivamente não! Não mais me identifico com o mundo. Inda que atônito, declaro que a cultura deixou de fazer parte da minha vida. A arte está em crise, em decadência, vandalizou-se. Desculpo-me não só com Aristóteles, mas também com toda a história da Filosofia, pois a cultura hodierna não mais proporciona conforto. Optei por isolar-me; nada mais de interações. Restringi-me às paredes que me cercam. Na verdade, cumpro sentença autoimputada. Nada de "saidinhas"! Visita íntima? (risos) Nem pensar! Todavia, quem sabe, em dia bem próximo, uma progressão de pena?  

sexta-feira, 21 de novembro de 2025

Vilania


Apercebo-me, e com certo incômodo, que a sordidez, a fraude, tem como parceiro a vilania. Já percebestes que a chancela para dissimular uma fraude sempre busca identificar vilões? Sim, nosso dia-a-dia fervilha de vilões, até porque as farsas evoluem em progressão geométrica. E quem estaria em evidência desta vez? Adivinhai! Dou-lhe uma, dou-lhe duas, dou-lhe três: o CO²! Nunca imaginei que depois de estudar botânica - a fotossíntese e a respiração das plantas - sairia em defesa do Dióxido de Carbono. Pera aí; muita calma nessa hora! O CO² de que estão a falar, o vilão, vem da respiração dos animais, ou seja, nós, os humanos.

Bem, a primeira parte está concluída, isto é, identificamos o vilão. Falemos agora da farsa. Vamos a ela! Alguém, (seria melhor alguéns) tendo algures (ou nenhures) como procedência, já bem antes da COP 30, responsabilizava os habitantes do planeta por colaborarem, e de modo amplo, com o aquecimento global. Somos em torno de 8,2 bilhões de pessoas no planeta a respirarem e expelir Dióxido de Carbono. Um mais exaltado, a lobrigar o caos, pensou em reduzir a população. Mas o que é isso? Onde ficariam os direitos humanos e seus blá, blá, blás acessórios?

Não, alguém mais “antenado” causou (ou expeliu): “Mudemos de alimentação, pois as vaquinhas, ao soltarem ‘puns’, ferem a camada de ozônio”. Poxa vida, nem a vaquinha escapou. O leite já está marginalizado, afinal somos mamíferos intolerantes à lactose (Risos). Não obstante, um desses intelectuais orgânicos almofadinha ambientalista (não necessariamente nessa ordem) veio com a “mirífica” ideia de que toda e qualquer viagem fosse proibida. Também não conseguiu adeptos, pois os ambientalistas são os que mais viajam; eles adoram um jatinho e/ou iates a consumir toneladas de óleo diesel.

Foi então que um mais ousado propôs a cobrança da Taxa de Carbono. Sim, isso, cobram pela nossa existência; transformaram o ciclo natural da vida em moeda. Eis a fraude! Afinal, ONGs precisam sobreviver. Logo, os discursos e falácias precisam ser mantidas, mesmo que expressiva quantidade de cientistas desmascarem as narrativas. A mídia torna-se fundamental para moldar opiniões. Não vos enganeis: a COP 30 fez-se mister para que empresas não percam seus verdes lucros e governo algum perca seu poder. Lamentavelmente, o Brasil, e não só a Amazônia, já foi fatiado e agora está sendo leiloado.            

quinta-feira, 20 de novembro de 2025

O inominado

 

O ser humano sempre quis conhecer a Deus. A pergunta é: Deus pode ser conhecido? Segundo Baruch Spinoza, o que temos de Deus é apenas a ideia e a extensão. Aos seres humanos, contudo, não basta a certeza da existência; ele quer ter um substantivo como referência, seria uma “exigência” comunicativa - culpa de Hermes. Mas o que se pode conhecer de Deus? Ora, os hebreus a Ele atribuíram um nome: YHWH. Algo a não ser pronunciado, isto porque divindades não se valem da comunicação verbal. O que significa YHWH? Eu sou o que sou! Yod = Eu; Heh = Sou; Wav = O que; Heh = Sou.

Bem, parece que as dúvidas persistem. Proponho-me então entender - perdoai-me a pretensão - o significado da palavra hebraica. E para tal lanço mão da Tetraktys de Pitágoras. Reclamo vosso atenção para o fato de eu tentar compreender o significado (o grifo é meu) de YHWH; não falo em conhecer a Deus (isso sim seria muita pretensão). Creio que desse modo, perceberíamos, pelo menos, o que Spínoza quis dizer com a ideia de Deus. E por que valer-me de Pitágoras? Simples: além de médico, matemático, músico e filósofo, era seguidor do orfismo, (século VI a.C.) religião que já pregava a unicidade de Deus.

Aqui dou início a análise da palavra, através da Tetraktys. Bem, Yod (Eu) vincula-se ao número 10, que representa o Todo, a completude, a plena realização. A unidade (1) representa o universo antes de sua manifestação; o não-algarismo zero (0), à direita da unidade, vem potencializar a própria unidade. A palavra Heh, número 5, fala de união, representaria o ser humano, ou seja, o meio entre dois extremos. A palavra Wav, ligada ao número 6, vem representar a geração do filho, casamento entre o macro e o micro, repouso e movimento, o intermédio entre espírito e matéria. Outra vez a palavra Heh, e o número 5 vem manifestar equilíbrio. Ao se somar os algarismos, teríamos como resultado o número 8, que estaria a representar harmonia, o infinito e perfeito.

Falemos agora acerca da extensão de Deus. Extensão? Sim, falo de um espaço contido, ocupado; falo em porção de espaço ou tempo. Simples, a lançar mão de uma metáfora posso vos afirmar que algo do autor sempre está presente em sua criação, indiferentemente se na música, na tela, no poema etc. Algo de Deus sempre está presente em nós, mesmo que não tenhamos consciência disso. Temos o DNA de Deus. Essa presença fica latente, até que ampliada pela fé. E a muita fé faz com que a presença de Deus nos arrebate; passe a conduzir-nos. A unicidade de Deus não pode ser entendida matematicamente, mas tão somente porque se revela a cada um de nós de modo único. A maneira de recepcionarmos a semente divina é única. Então, a experiência, o convívio, a relação com Deus é única; não pode ser transmitida. Por isso Deus é único!

Quanto a todos vós que clamais por adjetivos, inclusive no que se refere a Deus, eu acrescentaria o Inefável. Portanto, já que às voltas com o Inominado, com o Inefável, mais uma sugestão nada original: para nos comunicarmos com Deus, já que O temos tão presente em nós, além da prece muda, sentida, calada, estai atentos às atitudes, aos pensamentos, aos sentimentos, às palavras. E para louvá-lo, lacemo-nos às emissões; busquemos a musicalidade que envolve-nos, acalenta-nos, conforta-nos.

quarta-feira, 19 de novembro de 2025

Semelhanças

 

Conheci um ser humano que adorava cozinhar. Era de uma dedicação ímpar. Buscava sempre fazer o melhor; não visava lucros, reconhecimento ou notoriedade. Apenas cozinhava. Empenhava-se não só em proporcionar o melhor sabor, mas também com a questão nutricional, com o saudável dos alimentos. Chegou a instalar-se à beira de calçadas para fornecer suas iguarias, mesmo que gratuitamente ... Nada, as pessoas não mais gostam de tais alimentos; a população foi instada a fast foods, a alimentos industrializados, a rótulos.  E o mais intrigante, ninguém, absolutamente ninguém preocupou-se em alertá-los. Hoje observo um povo adoentado, desnutrido, esmorecido.

Conheci um ser humano que amava escrever. Eram romances, contos, crônicas, poemas. Tudo com o objetivo de aprimorar o conhecimento. Ele também buscava sempre o melhor, sem visar lucros, fama, glória, notoriedade. Apenas uma tentativa de informar os que com ele partilhavam o dia-a-dia. Não, não se tratava de um purista da língua, contudo diligenciava a linguagem escorreita. Sua dedicação fez com que ele publicasse e distribuísse gratuitamente seus escritos...

Mas, as pessoas não as liam, não as leem; as publicações são deixadas de lado. Infelizmente, gerações e gerações foram educadas de modo a desprezarem a literatura, as grandes obras literárias. Tudo que as pessoas “consomem” são breves textos repletos de erros crassos da gramática. Quando muito, comunicam-se por mensagens orais, imagens e/ou emojis. Curiosamente, ninguém, absolutamente ninguém buscou alertá-los. Hoje lamento as gerações insipientes, ociosas, indiferentes ao entorno e culturalmente desnutridas.

Soube que cozinheiro e escritor optaram pelo insulamento.

terça-feira, 18 de novembro de 2025

O vegano na pizzaria

 

O convite partira de um dos meus raríssimos amigos. Encontrar-nos-íamos em certa pizzaria. E lá estava eu, pontualmente. Não uma pontualidade britânica, mas algo um pouco mais aquém, tendo-se em conta não só a fome, mas as saudades do gorgonzola. O amigo não deu as caras, mesmo transcorrido um quarto de hora; eu a sonhar com o quatro-queijos ou com a marguerita. Pensei, inclusive, ter aspirado fragrância de manjericão advinda do pescoço da cliente que me ladeava.

Mesa próxima, dois metros talvez, um cliente a ser classificado como atípico. Ora a atipicidade vincula-se ao incaracterístico, não ao preconceito. Dizei-me: famosa pizzaria recebe “cliente” que se propõe ensinar ao pizzaiolo o preparo do repasto. Como dito anteriormente, nada de preconceito, apenas um atípico vegano. De início o chef mostrou-se paciente, porém a coisa foi tomando vulto. Eu, ainda apatetado com o ineditismo da cena, optei por pedir minha quatro-queijos.

Vozes a subir de tom (ou seria volume?). O italiano a gesticular; o vegano a querer demonstrar sabedoria e sociabilidade. As atenções voltadas àquela mesa. Sorrisos de mofa, improvisações sobre a temática, cabeças a balançar em desaprovação. Bem, em meio ao embate gastronômico, surge meu pedido. A bebericar os primeiros goles de vinho pus-me a pensar: Por definição, queijo é um laticínio; laticínio é produto comestível derivado do leite. A pizza, por sua vez, seria uma massa na qual se adiciona queijo, tomate e outros ingredientes, cozida no forno. Queijo vegano? Ora, o inexistente não pode ser nutritivo.

Muito embora estar ciente de que veganismo é uma ideologia, não uma filosofia, proponho-me, então, narrar certa historinha acerca de uma filosofia capenga: era uma vez um sujeito que adorava fumar. Mas cigarros industrializados são prejudiciais à saúde, haja vista a quantidade de substâncias cancerígenas. Então o carinha resolveu fazer cigarros de erva-mate. Cigarros veganos? E onde está a filosofia? Simples! Querer muito alguma coisa! Contudo tal coisa é declarada prejudicial. Então, investido de total impostura, ele cria objeto dessemelhante, mas com mesmo designativo, de modo a preencher lacunas, desejos, carências individuais.

E a discussão continuava cada vez mais acirrada entre cliente e pizzaiolo. Até que o italiano gesticulando (uma redundância), com o rosto avermelhado (não era molho de tomate) deu um murro na mesa e gritou: “Mangia che te fa bene!”   

segunda-feira, 17 de novembro de 2025

Lugar-comum

 

Elegi-me presidente. Uma grande nação? Não, algo bem próximo de uma republiqueta de bananas. Mas estava eleito, graças, creio eu, ao retorno do voto impresso. E a fugir um pouco de corriqueiras promessas, coisas do tipo saúde, educação, segurança, comprometi-me em transformar a Suprema Corte em Corte Constitucional, reduzir impostos e não mais taxar a indústria. Assim o faria quando empossado.

Mas justamente aí residia minha preocupação. Deixar-me-iam assumir? Afinal, eu me propusera em acabar com mordomias e excessos de um judiciário absconso, politiqueiro, tendencioso... Bem, na programação para a posse constava desfile em carro aberto. Poxa, eu sonhara em passear naquele clássico carro inglês que tinha minha idade! Alguns membros da segurança se mostraram receosos quanto a isso.

Nada obstante, lá estava eu, de pé no velho Rolls Royce, a trafegar vagaroso pelo Eixo Monumental. Aplausos? Nem tanto. Algumas vaias, naturalmente, eu não diria bem vindas. Ora, trata-se de uma democracia; pelo menos eu cria sê-la. De repente, algo chamou-me a atenção: homem de terno escuro, óculos, chapéu e a segurar um guarda-chuva aberto. Naquele sol? Eu já vira cena semelhante! Olhei em torno e busquei chamar a atenção dos seguranças. Nada! Sentei-me no banco ao lado da esposa. Recordei-me de outra esposa a tentar reconstruir a cabeça do marido...

Do lado oposto, alguém gritou pelo meu nome e disparou uma ofensa. Os seguranças encararam-no. Era isso: desviar a atenção. Todavia, eu não estava em Dallas, no Texas; estava na capital tupiniquim... Lembrei-me de que o tráfico agora usa até drone para atacar a força policial. Olhei para o alto: nada de drones! Pensei em Lee Harvey Oswald, mas a coisa aqui ficaria por conta do Oswaldo, talvez o Vadinho, quem o sabe?

Ao invés de corresponder às aclamações, eu me preocupava. Por certo, Oswaldo não agiria só. Ou seria Vadinho apenas um boi de piranha? Nada de PCC ou Comando Vermelho. Em se tratando de “Terra Brasilis”, temos um substituto à altura do FBI, isto é, a Polícia Federal, a nova versão da Gestapo, à serviço de alguns ministros do STF. Súbito, o homem de chapéu e guarda-chuva é imobilizado. Sim, mas foram alguns circunstantes, que mais tarde eu soube tratar-se de agricultores.

Fui empossado, é fato, porém fico pensando no possível atentado à minha vida e nos agricultores que tiveram suas plantações decoradas por agroglifos. Politicamente falando, não sei se me demoro no cargo, pois não tenho apoio da Câmara, do Senado, do Judiciário; até mesmo membros do executivo por mim nomeados buscam puxar-me o tapete. Só me resta, portanto, repetir à exaustão, frase atribuída ao maestro Tom Jobim: “O Brasil não é para amadores!”  

sábado, 15 de novembro de 2025

Verba

 

Questiono-me, com frequência, se palavras, de fato, influenciam emoções e/ou comportamentos. Por vezes sou levado a duvidar até mesmo de seus significados. E vós me perguntais por que? Ora, o substantivo próprio nomeia um ser específico. Pois bem, conheço uma moça por nome Linda, porém, adjetivamente falando, de linda ela nada tem. “Palavras são palavras, nada mais que palavras”. Na música - na arte como um todo - a ter como respaldo a licença poética, a coisa foge ainda mais ao controle, pois outra moça vem nos declarar que está grávida, grávida de um beija-flor, de um liquidificador; e vai parir uma bomba, uma locomotiva a vapor...

Não obstante a poesia, identifico algo como uma terminologia... digamos fugaz. Explico-me: muito embora ser considerado cidadão, a cidadania, por vezes, ignora-me. Sim, e o político a falar em ética? Creio, entretanto, que a fugacidade atém-se ao vício imoderado de a tudo rotular. Conheço alguém que deveria chamar-se Fracasso. E os títulos que permeiam currículos? Currículos não só ocultam valores, mas também dissimulam baixezas. E a polissemia nos auxilia na baita confusão, afinal conheci um mineirinho que considerava certo “trem muito bão”.

Ora, um linguajar hermético dificultaria a compreensão, se bem que o hermético mostra-se como empecilho ao herético. A linguagem vulgar, por sua vez, a ignorar regras gramaticais, facilitaria o chulo, o obsceno. Não falar é contraproducente. Voltemo-nos, então, à artificialidade linguística. O artifício envolve expediente habilidoso, foge à natureza, trata-se do postiço. E lá estamos nós, de novo, às voltas com o inescrupuloso, com a fugacidade, com o frenético rotular, com as titulações estapafúrdias, com a peculiar adjetivação, com o ser humano afinal.     

Perdoai-me a irrisão! Linguagens são características típica e exclusivamente humanas. Consigo entender porque Prometeu foi acorrentado à pedra e ter seu fígado devorado ad eternum por um abutre.  

sexta-feira, 14 de novembro de 2025

Invasores

 

A primeira muda de café foi trazida para o Brasil em 1727, por Francisco de Melo Palheta. As abelhas Apis mellifera chegaram ao Brasil em 1839, trazidas pelo padre Antônio Carneiro. Já as africanas foram introduzidas no Brasil em 1956, por Warwick Kerr; estas se misturaram com as europeias que por aqui habitavam. A cana de açúcar é originária da Nova Guiné e chegou ao Brasil no século XVI.

Curiosidade: Originário do Brasil só mesmo as seringueiras da Amazônia. Mas hoje em dia tudo é de plástico... E o pau-brasil, hein? Ameaçado de extinção, tem sua exploração proibida para fins comerciais. Será? Mesmo assim brindemos a COP 30! Aproveito o ensejo para deixar minha colaboração. Que fique aqui registrada minha sugestão ao governo federal: permitam que a JBS importe café, mel e açúcar. De onde? Ora, de qualquer lugar, principalmente se for governo de esquerda.

Todavia, uma coisa me preocupa: meu avô materno era português. Em pouco tempo, por certo, também serei considerado uma espécie invasora. Será que os irmãos Batista também importarão “outro tipo” de brasileiro? E à bordo do desconfortável avião da FAB, já que fui lançado ao ostracismo, tenho a meu lado um casal de tilápias.

“Governo do Brasil, do lado do povo brasileiro”.

quarta-feira, 12 de novembro de 2025

Terapia educacional


Ainda surpreso, descubro que alguns cargos públicos promovem um “certo grau” de conhecimento. Quereis um exemplo? A presidência da República! Não, eu não me referi à honestidade, nem tampouco à seriedade do pleito. Eu falo em uma obrigatória terapia educacional, que nada tem a ver com Paulo Freire. O presidente é chegado a discursos, inegavelmente, sejam narrativas ou não. Contudo, podeis observar que nestes mais de 20 anos seu palavreado melhorou, muito embora o tempo de cadeia; o conteúdo sim, continua carente de fundamento. Há quem diga (quanta maldade!) que ele usa ponto, ou que lê no teleprompter. Mas ele improvisa, e seus improvisos melhoraram muito em se tratando de prosódia.

Já os grandes discursos por ele proferidos certamente são lidos e relidos de modo antecipado, mesmo que ele desconheça grande parte da terminologia empregada, afinal ele representa a educação que tanto defende: o analfabetismo funcional. Já escrever... Por favor, que não ouseis ensiná-lo a classificar orações! Fico a imaginar Lula declarar certa oração como subordinada substantiva objetiva direta reduzida de infinitivo. Putz! Podeis não crer no que digo, mas ouvi Celso Amorim, já sem a paciência de diplomata, falar: “Presidente, antes de P ou B só se usa M”.

E como todo parvo consciente da própria deficiência cognitiva, apelou para a piada: “Se é para falar de MPB ou de música, eu vou chamar o Chico Buarque".


             

segunda-feira, 10 de novembro de 2025

Bom apetite

 

A esposa escolhera o restaurante; lugar um pouco mais sofisticado do que de costume. Afinal, a data exigia certo requinte. E lá estávamos nós: a linda noite a abrigar casais no ambiente ao ar livre. Ocupávamos o exterior do recinto e bem próximos do calçamento; poder-se-ia, se desejado fosse, interagir com os poucos transeuntes. Eu pedira um bom vinho; este permanecia mergulhado no imenso balde com gelo. A esposa, por sua vez, colocara seu aparelho celular um pouco distante de nós, oculto evidentemente, de modo que o equipamento pudesse gravar nosso élan.

Após alguns goles de vinho, certo automóvel, guiado por homem a usar balaclava, subiu a calçada e aproximou-se da mesa que ocupávamos. O motorista anunciou o assalto; de dentro do carro ele exibia uma arma. Aquela modalidade eu desconhecia: assalto tipo drive thru! A parceira do sujeito, também de balaclava, desceu para recolher nossos pertences. Uma senhora em outra mesa, ao perceber do que se tratava, pôs-se a gritar. A dupla de assaltantes apavorou-se. O homem ao volante vacilou. Então eu peguei do balde de gelo e atirei o conteúdo do mesmo, ou seja, pedras de gelo, no sujeito. Ele deixou cair a arma no piso do calçamento. O motor do carro deixou de funcionar. Alguns clientes e garçons imobilizaram a dupla, chamaram a força pública e os entregaram aos policiais.

O celular da esposa gravara a cena por inteiro. A polícia científica também se fizera presente. Os CSIs (risos) recolheram a arma caída na calçada, buscaram DNAs e colheram impressões digitais até nas pedras de gelo (mais risos). Depois de mostrarmos o vídeo aos investigadores, prestar esclarecimentos, depormos e fazer o boletim de ocorrência, voltamos para casa. A noite findara de modo abrupto e inesperado. A esposa, através das redes sociais, publicou a tentativa de assalto, já que gravado na memória de seu aparelho celular; ela recomendava cuidado aos amantes da boa culinária. Mas a coisa não terminaria por aí.

Dia seguinte e a afamada audiência de custódia. A dupla foi liberada e nós nos tornamos os vilões. Imaginai que fui indiciado por tentativa de homicídio por lançar as pedras de gelo no sujeito que nos ameaçava com uma arma. Faltou pouco para exigirem de mim licença (porte de arma) para atirar pedras de gelo. Não, por favor, dessa vez nada de risos; a coisa é séria. Mas as pedras eram de gelo e haviam derretido; não mais havia “arma do crime”. Todavia, as “autoridades” usaram o vídeo que revelava o delito do casal para acusar-me. Falavam em uso excessivo da força. Sim, já ia esquecendo: como bebi alguns goles do tal vinho, além da tentativa de homicídio, trabalhavam com a hipótese de dolo eventual. A esposa, por sua vez, por ter postado toda a cena nas redes sociais, foi acusada de incitação ao ódio.

O Brasil, enfim, mostrou sua verdadeira cara.      

quinta-feira, 6 de novembro de 2025

O lavador e a steward


Por mais incrível que pareça, depois de anos de estudo, pós-graduação, mestrado e atuar como docente, descobri-me um exímio lavador de louças. Sim, isso mesmo: lavar pratos, copos, panelas, talheres etc. realiza-me, pois sinto prazer em fazê-lo. Depois de a louça ensaboada e enxaguada deposito-as no escorredor. Curiosidades: enquanto exerço a prazerosa atividade permito-me recordar alguma canção, algum poema há muito esquecido (não necessariamente de minha autoria). Absurdo? Chego a sonhar com louças por lavar.  

Pois bem, certa feita sonhei que trabalhava como lavador de louças em um restaurante tradicional de Estocolmo, o Östermalms Saluhall mais exatamente. Isso foi logo após o fracasso da COP 30 (não me refiro a fracasso econômico), pois as tais metas - haja vista o protocolo de Kyoto de 1997 - nunca foram ou serão cumpridas, principalmente pelos países industrializados, os que mais se dizem preocupados com o meio ambiente. (Atualmente, o problema ambiental no Brasil tem a ver com traficantes vítimas de viciados).  Entretanto, expressiva quantidade de pesquisadores negam a tal crise climática. Segundo antiga reportagem da Folha de São Paulo com pesquisador da Universidade Federal de Alagoas, aquecimento global é balela; o ser humano não controla o clima e o mundo está esfriando.

Ora, nem tudo é prazer: preocupo-me deveras, pois muitos são os ativistas ambientais que perderam seus “empregos”. Nada obstante, entre uma lavagem e outra de louças, observo o salão: clientes em demasia. O gerente aproxima-se e fala de modo atencioso: “Daqui a pouco terás uma ajudante, mas coloque-a para secar e guardar a louça; não permitas que a menina as lave, pois ela não me parece preocupada com a quantidade de água a ser utilizada. O Sr. George Soros, cliente muito importante, foi quem nos solicitou o emprego para a tal mocinha... Fazer o quê?”

Fiquei só. A tal mocinha chegou e deu início a seu trabalho. Volto-me, então, à benigna atividade laboral. Muito embora cansado, observo Greta Thunberg a enxugar as louças.   


domingo, 2 de novembro de 2025

Minha Galatéia

 

Eu retornara do exílio. Diferentemente de Napoleão, nada me foi imposto. Vivi por anos em minha Elba, minha ilha particular. Bem, estava de volta; o tempo distante da atividade laboral me fora incômodo. Mas tudo se modificara; parece-me que o mundo está doente... Inteligência Artificial! Um novo computador, novos softwares. Eu poderia criar personagens e com eles interagir. Que loucura! Talvez, por ter-me acostumado à solitude, preferiria criar paisagens. Pensei em House of the Rising Sun como fundo musical, mas quem se recordaria da canção? Então, quem sabe um rosto, algo que personificasse o amor?

Contudo, o que é o amor? Os gregos o diziam termo médio entre a carência e a saciedade. Amar é ... ficar de pé na chuva a espera de quem nunca chega! Sei lá, dizem que é admiração, respeito, devoção, afinidade. Talvez um eu presente no outro. Todavia, continuava minha busca por um rosto. Que tal uma Gioconda? Ou seria Mona Lisa? Mas não a considero bonita; Giacomo Puccini não estava inspirado. E o sorriso dela é puro deboche. Não, nada disso! Como pude confundir Leonardo da Vinci com Puccini? Puccini era compositor! O Mio Babbino Caro, perdonami.

Eu buscava uma face não submetida a imperativos estéticos. Pensei na Beatriz de Dante Alighieri, na Margarida do Dr. Fausto, na Dulcinéia de Dom Quixote. Nada atraía-me. Então comecei a usar os comandos que o software me oferecia. Doravante senti-me um artista (artista plástico? artesão?) um criador, algo bem próximo de um vero escultor. É isso; surge o novo Pigmalião. E o novo rosto também se faz presente: Uma Galatéia virtual, não de marfim. E nós conversamos, interagimos, trocamos olhares. Ah, quisera abraçá-la, tocá-la... Como torná-la vivente? Orei à Afrodite.

No aguardo pelo milagre, pus-me a pensar: A Inteligência Artificial faz de todos nós potenciais Pigmaliões, ou seja, artífices que lidam com criações imponderáveis, intangíveis. E Afrodite não me respondeu as preces. 

sábado, 1 de novembro de 2025

A falsa quimera

  

Baseado em um prefácio de Ernesto Araújo, Ex- Ministro das Relações Exteriores

 

Eu tentei ver o tempo, mas...  vi apenas pessoas vazias de entendimento, incapazes de aperceberem-se dos novos rumos do mundo que as cerca. Creio estar diante de uma outra realidade, um outro tipo de humanidade, ou seja, seres incapazes de raciocinar, de refletir; pessoas inaptas, estúpidas, ignorantes, inábeis para identificar problemas e/ou soluções. Nada é estudado, averiguado; tudo é rotulado. Parece-me, salvo melhor juízo, que o ser humano criou (de modo inconsciente?) este ferrenho inimigo. Ou será algo próximo de um sistema autônomo que busca nos reprogramar?

E que inimigo é esse? Algo que não tem a existência reconhecida. Aliás, a falta de perspicácia para reconhecer o problema é propósito do próprio problema. Assim como o demônio, crer na sua não existência é a melhor desculpa para sua livre atuação. Efeitos outros também se revelam, pois ao ter seus axiomas contraditados, alguém grita aos quatro cantos: Fake News! Qualquer tentativa de reunir fatos e examiná-los é considerado Teoria da Conspiração. Se alguém mostra-se distante dos dogmas midiáticos e evoca o espirito científico, algo considerado vetusto, dèmodè, é ridicularizado.

Não vos enganeis, o único plano do Globalismo em relação à humanidade é exercer sobre ela total controle.