quarta-feira, 17 de dezembro de 2025

Coincidências


Em 1933, 27 de fevereiro mais exatamente, logo após Hitler ter conquistado o poder, um “misterioso” incêndio no Reichstag, o parlamento alemão, serviu como ponto de partida para a facção nazista acabar com a democracia na Alemanha. Hitler também esteve preso. Depois de liberto, quando no poder, nomeou aquele que fora seu advogado para o cargo de ministro. No ministério, o ex advogado começou a perseguir todos os inimigos políticos de Adolf Hitler.

Em 2023, 08 de janeiro, logo após Lula ter sido descondenado e voltado ao poder, um inexplicável golpe de estado (sem armas, sem apoio das Forças Armadas), serviu como ponto de partida para o PT e o judiciário rasgarem a Constituição e desmantelarem a democracia. Vários foram os ministros nomeados pelo ex-presidiário, dentre eles seu advogado. E o que eles fazem? Perseguem politicamente todos os adversários políticos do atual mandatário.

Critérios, métodos, expedientes são sempre os mesmos. Uma das facetas mais cômicas (ou ridículas?) da política é a falta de criatividade.


sexta-feira, 12 de dezembro de 2025

Arte


Tornou-se rotineiro atribuir ao termo catarse a origem da arte. A psicanálise vê a catarse como uma liberação de emoções ou de sentimentos reprimidos; o método psicanalítico busca trazer à consciência recônditas recordações. Seria honesto reduzir a arte a uma purificação de sentimentos, tanto do artista quanto do público? Meu pedido de desculpas post mortem à Clarisse Lispector, mas será que o fato de expor simplesmente o inquietante resultaria em purificação, em libertação?

Consultemos, então, os gregos: Segundo Aristóteles, a palavra catarse expressa purificação, o que deve ser vivenciado pelos expectadores (o grifo é meu). Nada obstante, o conceito principal ligado à arte é Mímesis, ou seja, a imitação da realidade, independentemente se reproduzir a natureza ou a complexidade humana. Outros conceitos, no entanto, ligam-se à Mímesis: a Tékhne, a habilidade técnica; Gnósis, o conhecimento intuitivo; Episteme, o conhecimento científico.

Pressupõe-se que um músico domine a Tékhne, ou seja, conhecimento de harmonia, melodia, ritmo, saiba ler uma pauta, conheça as claves, tons, semitons etc. para poder proporcionar a tão aguardada catarse. O dançarino - outra vez a Tékhne - deve exercitar-se, estudar e aprimorar os passos, tornando-os acordes com a melodia a ser apresentada. Pintores e escultores devem dominar não só a Gnósis, mas também a Episteme. O teatro e o cinema estarão afeitos à Mímesis. E a literatura? Esta deve reunir Mímesis, Tékhne, haja vista o domínio do idioma e também Gnósis.

Dizem as más - ou boas - línguas que, muito embora o castigo de Pandora, Zeus tenha nos brindado com a arte, para que esta nos sirva de alento. Permitamo-nos, então, averiguar o que a arte tem por objetivo. Senão vejamos: ao compor uma melodia ou uma canção, o autor espera que a mesma seja conhecida do público; quando divulgada, a visão particularizada do autor torna-se universalizada. Do mesmo modo é com a escultura, com a pintura, com a literatura e com qualquer expressão artística. A arte traz em si a busca pela universalização. Eis o nosso alento!

Com isso identificamos não só o objetivo da arte, mas também a responsabilidade dos que a ela se dedicam. Logo, revela-se impossível assimilar uma expressão artística que tenha origem no vácuo do conhecimento, no vazio de princípios, no caos de uma inverídica realidade.     


quinta-feira, 11 de dezembro de 2025

Tendência

 

John Cage, pianista, compositor experimental (?), em certa “audição” apresentou a obra - algo infame - intitulada 4’33’’, onde nem sequer tocou uma única nota. É de causar pasmo; foi assaz aplaudido!

Certo conhecido, não um compositor experimental, a título de realização pessoal, levou seu piano eletrônico para o deserto e lá executou várias músicas. Outra vez o pasmo: cobras, lagartos, roedores, escorpiões e até mesmo um solitário camelo pararam para ouvi-lo.

Elefantes a usar suas trombas para segurar pincéis, pintam telas, ou melhor, produzem obras de arte ditas abstratas. Mais uma vez o pasmo: as pinturas são vendidas por expressivos valores.

E o último pasmo: caso desconheçais, a literatura também é uma forma de expressão artística. Contudo, por mais que eu e mais alguns outros (poucos, na verdade) nos esforcemos em escrever algo de bom tom, não há quem se interesse por ler-nos.

Instalou-se a dúvida: estamos a lidar com uma tendência natural, uma propensão, inclinação? Talvez - quem o sabe? - uma singular carência de propósito.

quarta-feira, 10 de dezembro de 2025

A “pelada” do Fim de Ano

 

Soubemos, através da mídia, que o Supremo Tribunal Federal vem causando grandes polêmicas ao lançar licitações para comprar vinhos importados, lagostas e outros artigos de luxo. E tudo em nome da confraternização. Pois bem, este ano a coisa foi diferente, pois nossos ministros decidiram jogar uma “pelada” para confraternizar, afinal são 11 (onze) os principais integrantes da Suprema Corte. Todavia, quem aceitaria jogar contra Suas Excelências? Consultaram Vini Júnior, Wesley, Estevão, Marquinhos e tantos outros no exterior, mas eles pediram muito e o orçamento já estava estourado.

Então a parceria entre Gilmar Mendes e a CBF pode resolver o imbróglio. Um time nacional famoso seria escolhido, haja vista o empenho dos ministros em tornarem-se próximos do povão. Outro problema: que time escolher? Um dos ministros - não o relator - sugeriu que fosse time em destaque e com expressivo número de torcedores. Portanto, o Clube de Regatas do Flamengo foi escolhido por unanimidade.

Bem, alguns atletas tentaram pular fora, inclusive o técnico Filipe Luís, mas de pronto foram ameaçados por Alexandre de Moraes. A conversa era a de que tratava-se de uma brincadeira de fim de ano, onde os jogadores poderiam relaxar e também confraternizarem-se. A Ministra Carmen Lúcia seria a madrinha, muito embora as insinuações da Janja. O técnico? José Dirceu. Quanto à escalação: Fachin o capitão, Flávio Dino no gol, para armar as jogadas Alexandre de Moraes (ele é bom em armações), Gilmar Mendes na zaga central, Zanin no ataque. No banco ficaram Nunes Marques, André Mendonça e Luiz Fux. Dias Toffoli e ministros do STJ completaram a equipe togada.

E a pelada foi marcada. Uma força-tarefa da Polícia Federal faria a segurança. Seria aberto ao público? Não, Fernando Haddad quis sobretaxar os ingressos e ninguém, nem mesmo os flamenguistas se interessaram em assistir o “clássico” Craques da Toga X CRF. Televisionado? Só mesmo a Globo! (risos). Mas o jogo aparentava seriedade (aliás, como tudo no STF), pois até VAR (mais risos) seria disponibilizado. Adivinhai quem seria o responsável pelo VAR! Sim, ele mesmo, o PGR Paulo Gonet. O juiz seria o AGU Jorge Messias; árbitros auxiliares seriam Davi Alcolumbre e Hugo Mota. (Putz)

E teve início a partida. Jogo feio; os ministros todos de preto mais pareciam moscas a zanzar de lá para cá. Jogo chato; ninguém andava em campo, nem uma jogada bonita. Nem Pedro ou Bruno Henrique, atacantes do Flamengo, davam sequência às jogadas; Arrascaeta parecia hipnotizado. Depois ficamos sabendo que grande parte da equipe rubro-negra fora ameaçada com busca e apreensão; Arrascaeta teve seu passaporte apreendido. E tudo se resumia a: o jogo é uma brincadeira (isso é a cara do STF); então é para ficar empatado em 0 X 0.

Mas a coisa desandou graças ao PGR, ou melhor, ao VAR. Quando faltavam poucos minutos para o final da peleja, Paulo Gonet alertou Jorge Messias, o juiz da partida, através do rádio. Segundo o PGR a bola chutada por Carlos Brandão, ministro do STJ, dentro da área, resvalara no braço do Alex Sandro. Não, não houve replay. O pênalti foi marcado. E quem cobraria a penalidade máxima? Zanin! Gilmar Mendes o chamou em off e o alertou que o gol não deveria acontecer; a partida tinha que terminar empatada.

Agustín Rossi preparado. Zanin aproxima-se da marca, toma distância, tenta isolar a bola com um “bicudo”. Mas Zanin é uma daquelas pessoas que erra até na hora de cometer erros. A pelota pega efeito, resvala no travessão e entra. O narrador da Globo, um chato de galocha, vibrando com o acontecido, passa uma eternidade a anunciar o gol. Depois disso ele pergunta: “Sabe de quem?”

Fico aqui a dar tratos à bola (não a bola de futebol): E se o time do Flamengo tivesse goleado os “Craques da Toga”? No mínimo seria acusado de atentar contra a democracia, de agredir o Estado Democrático de Direito. Quiçá, os atletas seriam incriminados por tentativa de golpe e a esta hora estariam na Papuda.      

segunda-feira, 1 de dezembro de 2025

Carnaval

 

O armário eu abri: nenhuma camisa listrada para eu sair por aí. Não gosto de chá com torradas; talvez de algum parati. Nada de canivete, gravata ou pandeiro. Era carnaval, tudo só carnaval e eu apenas ... brasileiro. Carnaval! Somos herdeiros do paganismo. Por que festa pagã? Ora, conseguimos honrar a Baco e a Saturno de uma só vez; uma mescla de bacanal e saturnal, ou seja, bebida, sexo, folia, inversões nos papeis sociais, onde escravos assumem a identidade de seus senhores. Eis o carnaval!

Todavia, ainda sou um cavalheiro. Meu armário de portas escancaradas torna-me ciente disso: nada com losangos coloridos. Porém, sinto-me escravo, mesmo sem identificar meus senhores. Vejo-me manipulado, portanto, quero-me fantasiado. Como? De que? Não um palhaço, mas algo próximo. Que tal um arlequim? Mas, foram-me negadas as máscaras! Seria possível um bobo austero e elegante? Como? Se eu vivesse em fins do século XIX, por certo, teria posado para Paul Cézanne.

O apito soou; o bloco já vai passar. O quê? Meu Deus, ainda sou do tempo dos blocos! Pior do que cidadão condicionado ou arlequim desenxabido, só mesmo folião ultrapassado.

domingo, 30 de novembro de 2025

 

Pode até parecer brincadeira, mas as palavras fã e fama, embora correlatas - a fama agrupa fãs, organiza fãs clube - e tão próximas foneticamente, trilham diferentes caminhos etimológicos. Se me permitido for uma abordagem genética, eu diria não se tratar de gêmeos univitelinos, pois não têm o mesmo DNA.

Etimologicamente, a palavra fã deriva do termo latino fanaticus, que, a princípio, significava um exaltado, um frenético religioso. Com o tempo, contudo, passou a designar um admirador, um entusiasta. Já o sentido original do termo fama resumia o conjunto de opiniões acerca de certo indivíduo; posteriormente assimilou a acepção de notoriedade, celebridade. É pertinente lembrar que a mitologia romana nos fala de uma deusa Fama encarregada de espalhar notícias pelo mundo.

Pois bem, e já que cientes da “distante proximidade” entre os termos (Pra que isso?), posso então vos perguntar: A fama seria algo saudável? Dito de outra forma: É bom ser famoso; ter fãs? Refiro-me àquele fã leal ao fanatismo que o originou... Qual seria a diferença entre o tiete e o stalker? Ora, o stalker é aquele que persegue de modo obsessivo, invade privacidades etc. Salvo melhor juízo, parece-me haver uma linha muito tênue entre seguidores (fãs) e stalkers. E para exemplificar o que digo (atenção, eu falo em exemplo, não em suposição), passo a vos relatar um causo por mim vivenciado.

A padaria estava bem concorrida naquela manhã de domingo; fila pra tudo, até para o desjejum. Mulher de meia idade fez-se próxima de mim com belo sorriso. Ela falou: - “O senhor é o ...” (nada de nomes). Eu neguei de imediato. Ela insistiu; eu continuei negando. A mulher justificou minha recusa como humildade; ela queria fazer uma selfie, chegou a pedir autógrafo. Não! Pior do que a fama, creio eu, é ser confundido com alguém famoso. Mas a coisa não parou por aí: sentou-se à minha mesa, partilhou a refeição e disse-me seu endereço.

Mais do que um vizinho chato e ter um stalker (perseguidor) como vizinho. Doravante, onde quer que eu ia, lá estava a mulher; para onde eu me virasse era fotografado. Chegou ao ponto de trazer consigo uma foto do tal famoso para comparar comigo. Quando minha paciência já alarmava nível crítico, peguei a fã pelo braço e mostrei minha carteira de identidade. Sabeis o que ela respondeu-me? - “Esse é seu nome verdadeiro?” Ainda a sorrir concluiu: - “Prefiro seu nome artístico!” Não teve jeito, solicitei às autoridades uma Medida Protetiva.

sexta-feira, 28 de novembro de 2025

Síndrome cartesiana

 

A primeira pergunta a ser feita é: como viver em um mundo no qual não mais se acredita? A história foi deformada para atender interesses outros; as notícias foram e são, então, manipuladas. Como crer em uma ciência submetida a interesses econômicos? O que esperar de uma educação que atende a desmandos políticos? As religiões sofreram distorções e por isso tornadas convulsas. À contragosto, portanto, constato um viver “de araque” (arak). Vivemos somente sofismas; falácias para justificarem falácias. Até mesmo princípios e valores tornaram-se reféns de embustes.

E de novo a pergunta: Como viver este teatro do absurdo? As relações, em si, perderam-se no fantasioso. Não quero representar! Digo não à intrujice, ao logro! A pantomina exige de mim algo que não pretendo disponibilizar: dramaticidade, ilusão, aparência. Enfim, o mundo não é, ou nunca foi, a imagem que temos dele. Ora, o que somos então? Eu sou o não de mim mesmo; há um eu - fabricado - que busca a mim se incorporar, que insiste em me representar. Se aceito, torno-me farsa; se rebelo-me incorporo adjetivos, títulos do tipo sociopata.

E para fazer jus a imposta sociopatia, pretendo rejeitar tudo que me foi passado, tudo que foi vivido e vivenciado. Não, não quero um novo René Descartes, tampouco algo similar a outro Discurso do Método. Não sei se com pesar ou extrema alegria informo-vos: tornei-me um novo mundo, o meu mundo. Sou, então, um novo mundo! Eu escrevo a história, as notícias; sou a ciência, mesmo que em desalinho. Determino os princípios educacionais e amo a um Deus exclusivo; esse Deus que dá-me certeza e torna-me ousado para enfrentar quaisquer outros mundinhos inflados de farsa e arrogância.  

segunda-feira, 24 de novembro de 2025

Divagar

 

Pessoas há, que, por certo, recordarão dos versos: “Ando devagar porque já tive pressa...” Em face da proximidade semântica esclareço-vos que, pelo menos o meu divagar mostra-se devagar. Nada ao acaso; eu fora convidado exatamente a passear pelo mundo semântico. Os meus - quase nenhum - leitores perguntar-me-ão: o que significa mundo semântico? Poxa, falar em significar na semântica seria pleonasmo vicioso.

Todavia, a semântica, haja vista sua amplitude dimensional, abriga um sem número de “comunidades”, entendidas aqui apenas como agremiações. Dentre estas encontramos diversos tipos de oratória, que, a depender de orador e ouvinte, assimilarão as mais variegadas significações. Talvez, justamente por isso, seja melhor usar o substantivo retórica para delas tratarmos. Observemo-las, pois!

A persuasiva, utilizada por políticos para convencer possíveis eleitores, passa a meu lado com seu jeito pretensioso. A de impacto, não menos pretensiosa, bastante utilizada pela imprensa na tentativa de causar emoção, encarou-me de modo acintoso. A pedagógica, longe de manifestar sabedoria, e que a princípio deveria apenas levar conhecimentos, revela-se tendenciosa, até por exibir bandeiras e símbolos. A religiosa, por sua vez, ao invés de ater-se no disseminar da moral, exibe uma fabricada humildade.

Não obstante, dou continuidade ao meu vaguear pelo mundo semântico, onde, até então, nada me sugeria o insólito. Contudo, tem lugar o imprevisto: por mais que tentasse manter-se absconsa, a mais afamada das inquinadas aberrações mostra sua cara. Eis a narrativa, o recurso caviloso apoiado por políticos, imprensa, educadores e religiosos. Esbirros a seguiam e aclamavam; iconólatras a ovacionavam e aplaudiam sua mais recente criação acorrentada ao final do préstito: a trama golpista!

domingo, 23 de novembro de 2025

Encélado

 

Tratava-se apenas de um fim de semana no interior. O clima? Dias de Sol agradáveis com noites amenas. Ah, o silêncio! O maravilhoso do silêncio é que ele pode ser ouvido. Sim, eram manhãs orvalhadas, gorjeios, volatas. À noite, em meio ao ruidoso coaxar, um luar convidativo, nada científico, apenas romantizado. A enorme Lua cheia arrebatou-me a atenção. O entusiasmo tornou-me indiferente ao entorno. Eu só tinha olhos para aquele céu estrelado e maravilhoso.

De repente, inexplicado foco de luz pairou sobre mim; luz forte, brilhante, se bem que nada agressiva ou invasiva. Esse foco de luz fez-me levitar; pouco a pouco fui afastando-me do solo. O luzeiro conduzia-me. Não, eu não tinha vontade alguma de lutar, de evitar aquela condução. Na verdade, senti-me confortável ao ser transportado. Questionei-me: que era aquilo? De que se tratava? E veio o desmaio.  

Difícil mensurar o tempo, mas despertei em algo que me pareceu uma maca hospitalar; tinha o corpo envolvido numa roupagem, creio que metalizada, e a usar uma máscara de oxigênio. Alguém aproximou-se. Encaramo-nos demoradamente. Alto, corpo esguio e de pele alaranjada. Não tive mais dúvidas: fora abduzido! Sorriu-me; um sorriso simpático, empático. A pequena boca não se movia para falar, mas eu ouvia seus pensamentos, e através deles nos comunicávamos. Minha voz, então, fez-se nada enfática, sem relevo ou entonação. Agradeceu pela minha colaboração e avisou que eu dormira durante toda a “viagem”. Respondi que não houve colaboração e sim coação, pois sequer fora convidado. Também perguntei acerca da dita “viagem”.  Explicou-me ele que estávamos em Encélado, uma das luas de Júpiter.

Fiquei pasmo, uma das luas de Júpiter!? Nossos cientistas, principalmente da NASA, gastam tanto tempo e dinheiro para realizarem viagens em torno de nosso próprio planeta e eu a fazer “turismo” em Encélado. Outras circunstâncias, por certo, ter-me-iam feito sorrir. Perguntei o que queriam de mim. A resposta foi que, enquanto terráqueo, eu era objeto de pesquisa. Como assim? Pesquisavam eles outras formas de vida? Não, respondeu-me o estranho. Minha forçada colaboração foi no sentido de ter meu cérebro e corpo averiguados e examinados pelos extraterrestres. A roupa e a máscara de oxigênio estavam justificadas, afinal, gravidade e pressão atmosférica diferentes. Perguntei se o exame já terminara. O pensar do extraterrestre (nesse caso eu seria o alienígena) declarou que faltava apenas uma amostra do meu DNA.  

Ergui-me da maca irritado. Por que? Para que meu DNA? De modo silente pediu-me calma e explicou: estavam em processo de criar novos seres com as mesmas características humanas. Seriam, no entanto, seres bem mais evoluídos mental e moralmente. Meu DNA seria avaliado. Acalmei-me; senti-me até ditoso com a possibilidade de colaborar com uma descendência mais apurada. Indaguei pelo tempo que tais exames vinham se realizando. A resposta deixou-me boquiaberto. Os pensamentos do alienígena informaram-me que, quando da primeira visita, nós, seres humanos (ainda não homo sapiens) dormíamos em árvores; sequer empregávamos o bipedalismo. Tempos depois passamos a usar cavernas como esconderijos. Outras “visitas” foram feitas no sentido de depurar uma raça futuramente humana. Foi-nos apresentado um primeiro idioma e um esboço de ciência; para complementar a base educacional fomos introduzidos nas artes.

Mas nossos “propedeutas” haviam cometido grave erro: não estávamos preparados para o conhecimento e/ou autoconhecimento. A descoberta do ego foi desastrosa. E para completar experienciamos a liberdade. Podíamos fazer escolhas, e as escolhas, em geral, foram as piores. Desponta então a vaidade, a ganância, o egoísmo, a usura. Tiveram início as perseguições, a escravidão... o conhecimento passou a ser usado como arma. As guerras nos afastaram. O convívio e as relações mostraram-se insustentáveis. Tornamo-nos inimigos de nós mesmos; uma espécie que mata pelo prazer de matar. O caos estava próximo: luta armada, confronto nuclear. A iminente destruição do planeta colocará em risco todo o sistema solar...  

Bem, os ditos exames foram realizados e pude, enfim, retonar. Estive igualmente desacordado em toda a viagem de volta. Outro facho de luz devolveu-me ao local; poucos segundos teriam se passado durante minha anômala odisseia. Já não mais admirei o luar; dúvidas em mim se instalaram: Haveria como reverter tal quadro? Ou seja, haverá solução favorável ao desenvolvimento humano?

sábado, 22 de novembro de 2025

Autocondenação

 

O envelhecimento implica finitude e vem marcado de desafios. Muito embora a Filosofia entender a velhice como período de sabedoria, haja vista o acúmulo de experiências, percebe-se certa estigmatização, pois que convive face a face com uma juventude que se autovaloriza em demasia. Tradicionalmente, há culturas que celebram a vetustez, pois veem-na como sinônimo de respeito e sabedoria. Ainda a evocar a Filosofia, Aristóteles reputava a cultura como conforto à velhice.

Eis aqui o probleminha em particular: Que cultura? Redes sociais? Internet? Filmes e séries que esbanjam violência ou ideologias? Músicas distantes de melodia, harmonia e ritmo? Canções que violam a poesia basilar? Versos sem métrica ou rimas? A nostalgia como tendência? Ora, fazei-me o favor! E chamam-me tiozão, brega, careta. Chego a sentir saudades do antiquado, do obsoleto, do anacrônico, do bokomoko enfim.

Alguns há que exigem-me maior participação no cotidiano. Pergunto-vos então: Como? O que diriam meus filhos ao observarem meu corpo coberto de tatuagens? Que tal piercings, independente se no nariz ou em outros cantos? Que tal voltar-me à microestética, muito embora o uso de prótese? Quem sabe aderir ao estilo blokecore, exibindo sempre as camisetas do meu time de coração? Talvez uma academia de CrossFit, a empurrar pneus pela casa? Certamente deixaria alguém feliz ao assistir um show do Alok...

Definitivamente não! Não mais me identifico com o mundo. Inda que atônito, declaro que a cultura deixou de fazer parte da minha vida. A arte está em crise, em decadência, vandalizou-se. Desculpo-me não só com Aristóteles, mas também com toda a história da Filosofia, pois a cultura hodierna não mais proporciona conforto. Optei por isolar-me; nada mais de interações. Restringi-me às paredes que me cercam. Na verdade, cumpro sentença autoimputada. Nada de "saidinhas"! Visita íntima? (risos) Nem pensar! Todavia, quem sabe, em dia bem próximo, uma progressão de pena?  

sexta-feira, 21 de novembro de 2025

Vilania


Apercebo-me, e com certo incômodo, que a sordidez, a fraude, tem como parceiro a vilania. Já percebestes que a chancela para dissimular uma fraude sempre busca identificar vilões? Sim, nosso dia-a-dia fervilha de vilões, até porque as farsas evoluem em progressão geométrica. E quem estaria em evidência desta vez? Adivinhai! Dou-lhe uma, dou-lhe duas, dou-lhe três: o CO²! Nunca imaginei que depois de estudar botânica - a fotossíntese e a respiração das plantas - sairia em defesa do Dióxido de Carbono. Pera aí; muita calma nessa hora! O CO² de que estão a falar, o vilão, vem da respiração dos animais, ou seja, nós, os humanos.

Bem, a primeira parte está concluída, isto é, identificamos o vilão. Falemos agora da farsa. Vamos a ela! Alguém, (seria melhor alguéns) tendo algures (ou nenhures) como procedência, já bem antes da COP 30, responsabilizava os habitantes do planeta por colaborarem, e de modo amplo, com o aquecimento global. Somos em torno de 8,2 bilhões de pessoas no planeta a respirarem e expelir Dióxido de Carbono. Um mais exaltado, a lobrigar o caos, pensou em reduzir a população. Mas o que é isso? Onde ficariam os direitos humanos e seus blá, blá, blás acessórios?

Não, alguém mais “antenado” causou (ou expeliu): “Mudemos de alimentação, pois as vaquinhas, ao soltarem ‘puns’, ferem a camada de ozônio”. Poxa vida, nem a vaquinha escapou. O leite já está marginalizado, afinal somos mamíferos intolerantes à lactose (Risos). Não obstante, um desses intelectuais orgânicos almofadinha ambientalista (não necessariamente nessa ordem) veio com a “mirífica” ideia de que toda e qualquer viagem fosse proibida. Também não conseguiu adeptos, pois os ambientalistas são os que mais viajam; eles adoram um jatinho e/ou iates a consumir toneladas de óleo diesel.

Foi então que um mais ousado propôs a cobrança da Taxa de Carbono. Sim, isso, cobram pela nossa existência; transformaram o ciclo natural da vida em moeda. Eis a fraude! Afinal, ONGs precisam sobreviver. Logo, os discursos e falácias precisam ser mantidas, mesmo que expressiva quantidade de cientistas desmascarem as narrativas. A mídia torna-se fundamental para moldar opiniões. Não vos enganeis: a COP 30 fez-se mister para que empresas não percam seus verdes lucros e governo algum perca seu poder. Lamentavelmente, o Brasil, e não só a Amazônia, já foi fatiado e agora está sendo leiloado.            

quinta-feira, 20 de novembro de 2025

O inominado

 

O ser humano sempre quis conhecer a Deus. A pergunta é: Deus pode ser conhecido? Segundo Baruch Spinoza, o que temos de Deus é apenas a ideia e a extensão. Aos seres humanos, contudo, não basta a certeza da existência; ele quer ter um substantivo como referência, seria uma “exigência” comunicativa - culpa de Hermes. Mas o que se pode conhecer de Deus? Ora, os hebreus a Ele atribuíram um nome: YHWH. Algo a não ser pronunciado, isto porque divindades não se valem da comunicação verbal. O que significa YHWH? Eu sou o que sou! Yod = Eu; Heh = Sou; Wav = O que; Heh = Sou.

Bem, parece que as dúvidas persistem. Proponho-me então entender - perdoai-me a pretensão - o significado da palavra hebraica. E para tal lanço mão da Tetraktys de Pitágoras. Reclamo vosso atenção para o fato de eu tentar compreender o significado (o grifo é meu) de YHWH; não falo em conhecer a Deus (isso sim seria muita pretensão). Creio que desse modo, perceberíamos, pelo menos, o que Spínoza quis dizer com a ideia de Deus. E por que valer-me de Pitágoras? Simples: além de médico, matemático, músico e filósofo, era seguidor do orfismo, (século VI a.C.) religião que já pregava a unicidade de Deus.

Aqui dou início a análise da palavra, através da Tetraktys. Bem, Yod (Eu) vincula-se ao número 10, que representa o Todo, a completude, a plena realização. A unidade (1) representa o universo antes de sua manifestação; o não-algarismo zero (0), à direita da unidade, vem potencializar a própria unidade. A palavra Heh, número 5, fala de união, representaria o ser humano, ou seja, o meio entre dois extremos. A palavra Wav, ligada ao número 6, vem representar a geração do filho, casamento entre o macro e o micro, repouso e movimento, o intermédio entre espírito e matéria. Outra vez a palavra Heh, e o número 5 vem manifestar equilíbrio. Ao se somar os algarismos, teríamos como resultado o número 8, que estaria a representar harmonia, o infinito e perfeito.

Falemos agora acerca da extensão de Deus. Extensão? Sim, falo de um espaço contido, ocupado; falo em porção de espaço ou tempo. Simples, a lançar mão de uma metáfora posso vos afirmar que algo do autor sempre está presente em sua criação, indiferentemente se na música, na tela, no poema etc. Algo de Deus sempre está presente em nós, mesmo que não tenhamos consciência disso. Temos o DNA de Deus. Essa presença fica latente, até que ampliada pela fé. E a muita fé faz com que a presença de Deus nos arrebate; passe a conduzir-nos. A unicidade de Deus não pode ser entendida matematicamente, mas tão somente porque se revela a cada um de nós de modo único. A maneira de recepcionarmos a semente divina é única. Então, a experiência, o convívio, a relação com Deus é única; não pode ser transmitida. Por isso Deus é único!

Quanto a todos vós que clamais por adjetivos, inclusive no que se refere a Deus, eu acrescentaria o Inefável. Portanto, já que às voltas com o Inominado, com o Inefável, mais uma sugestão nada original: para nos comunicarmos com Deus, já que O temos tão presente em nós, além da prece muda, sentida, calada, estai atentos às atitudes, aos pensamentos, aos sentimentos, às palavras. E para louvá-lo, lacemo-nos às emissões; busquemos a musicalidade que envolve-nos, acalenta-nos, conforta-nos.

quarta-feira, 19 de novembro de 2025

Semelhanças

 

Conheci um ser humano que adorava cozinhar. Era de uma dedicação ímpar. Buscava sempre fazer o melhor; não visava lucros, reconhecimento ou notoriedade. Apenas cozinhava. Empenhava-se não só em proporcionar o melhor sabor, mas também com a questão nutricional, com o saudável dos alimentos. Chegou a instalar-se à beira de calçadas para fornecer suas iguarias, mesmo que gratuitamente ... Nada, as pessoas não mais gostam de tais alimentos; a população foi instada a fast foods, a alimentos industrializados, a rótulos.  E o mais intrigante, ninguém, absolutamente ninguém preocupou-se em alertá-los. Hoje observo um povo adoentado, desnutrido, esmorecido.

Conheci um ser humano que amava escrever. Eram romances, contos, crônicas, poemas. Tudo com o objetivo de aprimorar o conhecimento. Ele também buscava sempre o melhor, sem visar lucros, fama, glória, notoriedade. Apenas uma tentativa de informar os que com ele partilhavam o dia-a-dia. Não, não se tratava de um purista da língua, contudo diligenciava a linguagem escorreita. Sua dedicação fez com que ele publicasse e distribuísse gratuitamente seus escritos...

Mas, as pessoas não as liam, não as leem; as publicações são deixadas de lado. Infelizmente, gerações e gerações foram educadas de modo a desprezarem a literatura, as grandes obras literárias. Tudo que as pessoas “consomem” são breves textos repletos de erros crassos da gramática. Quando muito, comunicam-se por mensagens orais, imagens e/ou emojis. Curiosamente, ninguém, absolutamente ninguém buscou alertá-los. Hoje lamento as gerações insipientes, ociosas, indiferentes ao entorno e culturalmente desnutridas.

Soube que cozinheiro e escritor optaram pelo insulamento.

terça-feira, 18 de novembro de 2025

O vegano na pizzaria

 

O convite partira de um dos meus raríssimos amigos. Encontrar-nos-íamos em certa pizzaria. E lá estava eu, pontualmente. Não uma pontualidade britânica, mas algo um pouco mais aquém, tendo-se em conta não só a fome, mas as saudades do gorgonzola. O amigo não deu as caras, mesmo transcorrido um quarto de hora; eu a sonhar com o quatro-queijos ou com a marguerita. Pensei, inclusive, ter aspirado fragrância de manjericão advinda do pescoço da cliente que me ladeava.

Mesa próxima, dois metros talvez, um cliente a ser classificado como atípico. Ora a atipicidade vincula-se ao incaracterístico, não ao preconceito. Dizei-me: famosa pizzaria recebe “cliente” que se propõe ensinar ao pizzaiolo o preparo do repasto. Como dito anteriormente, nada de preconceito, apenas um atípico vegano. De início o chef mostrou-se paciente, porém a coisa foi tomando vulto. Eu, ainda apatetado com o ineditismo da cena, optei por pedir minha quatro-queijos.

Vozes a subir de tom (ou seria volume?). O italiano a gesticular; o vegano a querer demonstrar sabedoria e sociabilidade. As atenções voltadas àquela mesa. Sorrisos de mofa, improvisações sobre a temática, cabeças a balançar em desaprovação. Bem, em meio ao embate gastronômico, surge meu pedido. A bebericar os primeiros goles de vinho pus-me a pensar: Por definição, queijo é um laticínio; laticínio é produto comestível derivado do leite. A pizza, por sua vez, seria uma massa na qual se adiciona queijo, tomate e outros ingredientes, cozida no forno. Queijo vegano? Ora, o inexistente não pode ser nutritivo.

Muito embora estar ciente de que veganismo é uma ideologia, não uma filosofia, proponho-me, então, narrar certa historinha acerca de uma filosofia capenga: era uma vez um sujeito que adorava fumar. Mas cigarros industrializados são prejudiciais à saúde, haja vista a quantidade de substâncias cancerígenas. Então o carinha resolveu fazer cigarros de erva-mate. Cigarros veganos? E onde está a filosofia? Simples! Querer muito alguma coisa! Contudo tal coisa é declarada prejudicial. Então, investido de total impostura, ele cria objeto dessemelhante, mas com mesmo designativo, de modo a preencher lacunas, desejos, carências individuais.

E a discussão continuava cada vez mais acirrada entre cliente e pizzaiolo. Até que o italiano gesticulando (uma redundância), com o rosto avermelhado (não era molho de tomate) deu um murro na mesa e gritou: “Mangia che te fa bene!”   

segunda-feira, 17 de novembro de 2025

Lugar-comum

 

Elegi-me presidente. Uma grande nação? Não, algo bem próximo de uma republiqueta de bananas. Mas estava eleito, graças, creio eu, ao retorno do voto impresso. E a fugir um pouco de corriqueiras promessas, coisas do tipo saúde, educação, segurança, comprometi-me em transformar a Suprema Corte em Corte Constitucional, reduzir impostos e não mais taxar a indústria. Assim o faria quando empossado.

Mas justamente aí residia minha preocupação. Deixar-me-iam assumir? Afinal, eu me propusera em acabar com mordomias e excessos de um judiciário absconso, politiqueiro, tendencioso... Bem, na programação para a posse constava desfile em carro aberto. Poxa, eu sonhara em passear naquele clássico carro inglês que tinha minha idade! Alguns membros da segurança se mostraram receosos quanto a isso.

Nada obstante, lá estava eu, de pé no velho Rolls Royce, a trafegar vagaroso pelo Eixo Monumental. Aplausos? Nem tanto. Algumas vaias, naturalmente, eu não diria bem vindas. Ora, trata-se de uma democracia; pelo menos eu cria sê-la. De repente, algo chamou-me a atenção: homem de terno escuro, óculos, chapéu e a segurar um guarda-chuva aberto. Naquele sol? Eu já vira cena semelhante! Olhei em torno e busquei chamar a atenção dos seguranças. Nada! Sentei-me no banco ao lado da esposa. Recordei-me de outra esposa a tentar reconstruir a cabeça do marido...

Do lado oposto, alguém gritou pelo meu nome e disparou uma ofensa. Os seguranças encararam-no. Era isso: desviar a atenção. Todavia, eu não estava em Dallas, no Texas; estava na capital tupiniquim... Lembrei-me de que o tráfico agora usa até drone para atacar a força policial. Olhei para o alto: nada de drones! Pensei em Lee Harvey Oswald, mas a coisa aqui ficaria por conta do Oswaldo, talvez o Vadinho, quem o sabe?

Ao invés de corresponder às aclamações, eu me preocupava. Por certo, Oswaldo não agiria só. Ou seria Vadinho apenas um boi de piranha? Nada de PCC ou Comando Vermelho. Em se tratando de “Terra Brasilis”, temos um substituto à altura do FBI, isto é, a Polícia Federal, a nova versão da Gestapo, à serviço de alguns ministros do STF. Súbito, o homem de chapéu e guarda-chuva é imobilizado. Sim, mas foram alguns circunstantes, que mais tarde eu soube tratar-se de agricultores.

Fui empossado, é fato, porém fico pensando no possível atentado à minha vida e nos agricultores que tiveram suas plantações decoradas por agroglifos. Politicamente falando, não sei se me demoro no cargo, pois não tenho apoio da Câmara, do Senado, do Judiciário; até mesmo membros do executivo por mim nomeados buscam puxar-me o tapete. Só me resta, portanto, repetir à exaustão, frase atribuída ao maestro Tom Jobim: “O Brasil não é para amadores!”  

sábado, 15 de novembro de 2025

Verba

 

Questiono-me, com frequência, se palavras, de fato, influenciam emoções e/ou comportamentos. Por vezes sou levado a duvidar até mesmo de seus significados. E vós me perguntais por que? Ora, o substantivo próprio nomeia um ser específico. Pois bem, conheço uma moça por nome Linda, porém, adjetivamente falando, de linda ela nada tem. “Palavras são palavras, nada mais que palavras”. Na música - na arte como um todo - a ter como respaldo a licença poética, a coisa foge ainda mais ao controle, pois outra moça vem nos declarar que está grávida, grávida de um beija-flor, de um liquidificador; e vai parir uma bomba, uma locomotiva a vapor...

Não obstante a poesia, identifico algo como uma terminologia... digamos fugaz. Explico-me: muito embora ser considerado cidadão, a cidadania, por vezes, ignora-me. Sim, e o político a falar em ética? Creio, entretanto, que a fugacidade atém-se ao vício imoderado de a tudo rotular. Conheço alguém que deveria chamar-se Fracasso. E os títulos que permeiam currículos? Currículos não só ocultam valores, mas também dissimulam baixezas. E a polissemia nos auxilia na baita confusão, afinal conheci um mineirinho que considerava certo “trem muito bão”.

Ora, um linguajar hermético dificultaria a compreensão, se bem que o hermético mostra-se como empecilho ao herético. A linguagem vulgar, por sua vez, a ignorar regras gramaticais, facilitaria o chulo, o obsceno. Não falar é contraproducente. Voltemo-nos, então, à artificialidade linguística. O artifício envolve expediente habilidoso, foge à natureza, trata-se do postiço. E lá estamos nós, de novo, às voltas com o inescrupuloso, com a fugacidade, com o frenético rotular, com as titulações estapafúrdias, com a peculiar adjetivação, com o ser humano afinal.     

Perdoai-me a irrisão! Linguagens são características típica e exclusivamente humanas. Consigo entender porque Prometeu foi acorrentado à pedra e ter seu fígado devorado ad eternum por um abutre.  

sexta-feira, 14 de novembro de 2025

Invasores

 

A primeira muda de café foi trazida para o Brasil em 1727, por Francisco de Melo Palheta. As abelhas Apis mellifera chegaram ao Brasil em 1839, trazidas pelo padre Antônio Carneiro. Já as africanas foram introduzidas no Brasil em 1956, por Warwick Kerr; estas se misturaram com as europeias que por aqui habitavam. A cana de açúcar é originária da Nova Guiné e chegou ao Brasil no século XVI.

Curiosidade: Originário do Brasil só mesmo as seringueiras da Amazônia. Mas hoje em dia tudo é de plástico... E o pau-brasil, hein? Ameaçado de extinção, tem sua exploração proibida para fins comerciais. Será? Mesmo assim brindemos a COP 30! Aproveito o ensejo para deixar minha colaboração. Que fique aqui registrada minha sugestão ao governo federal: permitam que a JBS importe café, mel e açúcar. De onde? Ora, de qualquer lugar, principalmente se for governo de esquerda.

Todavia, uma coisa me preocupa: meu avô materno era português. Em pouco tempo, por certo, também serei considerado uma espécie invasora. Será que os irmãos Batista também importarão “outro tipo” de brasileiro? E à bordo do desconfortável avião da FAB, já que fui lançado ao ostracismo, tenho a meu lado um casal de tilápias.

“Governo do Brasil, do lado do povo brasileiro”.

quarta-feira, 12 de novembro de 2025

Terapia educacional


Ainda surpreso, descubro que alguns cargos públicos promovem um “certo grau” de conhecimento. Quereis um exemplo? A presidência da República! Não, eu não me referi à honestidade, nem tampouco à seriedade do pleito. Eu falo em uma obrigatória terapia educacional, que nada tem a ver com Paulo Freire. O presidente é chegado a discursos, inegavelmente, sejam narrativas ou não. Contudo, podeis observar que nestes mais de 20 anos seu palavreado melhorou, muito embora o tempo de cadeia; o conteúdo sim, continua carente de fundamento. Há quem diga (quanta maldade!) que ele usa ponto, ou que lê no teleprompter. Mas ele improvisa, e seus improvisos melhoraram muito em se tratando de prosódia.

Já os grandes discursos por ele proferidos certamente são lidos e relidos de modo antecipado, mesmo que ele desconheça grande parte da terminologia empregada, afinal ele representa a educação que tanto defende: o analfabetismo funcional. Já escrever... Por favor, que não ouseis ensiná-lo a classificar orações! Fico a imaginar Lula declarar certa oração como subordinada substantiva objetiva direta reduzida de infinitivo. Putz! Podeis não crer no que digo, mas ouvi Celso Amorim, já sem a paciência de diplomata, falar: “Presidente, antes de P ou B só se usa M”.

E como todo parvo consciente da própria deficiência cognitiva, apelou para a piada: “Se é para falar de MPB ou de música, eu vou chamar o Chico Buarque".


             

segunda-feira, 10 de novembro de 2025

Bom apetite

 

A esposa escolhera o restaurante; lugar um pouco mais sofisticado do que de costume. Afinal, a data exigia certo requinte. E lá estávamos nós: a linda noite a abrigar casais no ambiente ao ar livre. Ocupávamos o exterior do recinto e bem próximos do calçamento; poder-se-ia, se desejado fosse, interagir com os poucos transeuntes. Eu pedira um bom vinho; este permanecia mergulhado no imenso balde com gelo. A esposa, por sua vez, colocara seu aparelho celular um pouco distante de nós, oculto evidentemente, de modo que o equipamento pudesse gravar nosso élan.

Após alguns goles de vinho, certo automóvel, guiado por homem a usar balaclava, subiu a calçada e aproximou-se da mesa que ocupávamos. O motorista anunciou o assalto; de dentro do carro ele exibia uma arma. Aquela modalidade eu desconhecia: assalto tipo drive thru! A parceira do sujeito, também de balaclava, desceu para recolher nossos pertences. Uma senhora em outra mesa, ao perceber do que se tratava, pôs-se a gritar. A dupla de assaltantes apavorou-se. O homem ao volante vacilou. Então eu peguei do balde de gelo e atirei o conteúdo do mesmo, ou seja, pedras de gelo, no sujeito. Ele deixou cair a arma no piso do calçamento. O motor do carro deixou de funcionar. Alguns clientes e garçons imobilizaram a dupla, chamaram a força pública e os entregaram aos policiais.

O celular da esposa gravara a cena por inteiro. A polícia científica também se fizera presente. Os CSIs (risos) recolheram a arma caída na calçada, buscaram DNAs e colheram impressões digitais até nas pedras de gelo (mais risos). Depois de mostrarmos o vídeo aos investigadores, prestar esclarecimentos, depormos e fazer o boletim de ocorrência, voltamos para casa. A noite findara de modo abrupto e inesperado. A esposa, através das redes sociais, publicou a tentativa de assalto, já que gravado na memória de seu aparelho celular; ela recomendava cuidado aos amantes da boa culinária. Mas a coisa não terminaria por aí.

Dia seguinte e a afamada audiência de custódia. A dupla foi liberada e nós nos tornamos os vilões. Imaginai que fui indiciado por tentativa de homicídio por lançar as pedras de gelo no sujeito que nos ameaçava com uma arma. Faltou pouco para exigirem de mim licença (porte de arma) para atirar pedras de gelo. Não, por favor, dessa vez nada de risos; a coisa é séria. Mas as pedras eram de gelo e haviam derretido; não mais havia “arma do crime”. Todavia, as “autoridades” usaram o vídeo que revelava o delito do casal para acusar-me. Falavam em uso excessivo da força. Sim, já ia esquecendo: como bebi alguns goles do tal vinho, além da tentativa de homicídio, trabalhavam com a hipótese de dolo eventual. A esposa, por sua vez, por ter postado toda a cena nas redes sociais, foi acusada de incitação ao ódio.

O Brasil, enfim, mostrou sua verdadeira cara.      

quinta-feira, 6 de novembro de 2025

O lavador e a steward


Por mais incrível que pareça, depois de anos de estudo, pós-graduação, mestrado e atuar como docente, descobri-me um exímio lavador de louças. Sim, isso mesmo: lavar pratos, copos, panelas, talheres etc. realiza-me, pois sinto prazer em fazê-lo. Depois de a louça ensaboada e enxaguada deposito-as no escorredor. Curiosidades: enquanto exerço a prazerosa atividade permito-me recordar alguma canção, algum poema há muito esquecido (não necessariamente de minha autoria). Absurdo? Chego a sonhar com louças por lavar.  

Pois bem, certa feita sonhei que trabalhava como lavador de louças em um restaurante tradicional de Estocolmo, o Östermalms Saluhall mais exatamente. Isso foi logo após o fracasso da COP 30 (não me refiro a fracasso econômico), pois as tais metas - haja vista o protocolo de Kyoto de 1997 - nunca foram ou serão cumpridas, principalmente pelos países industrializados, os que mais se dizem preocupados com o meio ambiente. (Atualmente, o problema ambiental no Brasil tem a ver com traficantes vítimas de viciados).  Entretanto, expressiva quantidade de pesquisadores negam a tal crise climática. Segundo antiga reportagem da Folha de São Paulo com pesquisador da Universidade Federal de Alagoas, aquecimento global é balela; o ser humano não controla o clima e o mundo está esfriando.

Ora, nem tudo é prazer: preocupo-me deveras, pois muitos são os ativistas ambientais que perderam seus “empregos”. Nada obstante, entre uma lavagem e outra de louças, observo o salão: clientes em demasia. O gerente aproxima-se e fala de modo atencioso: “Daqui a pouco terás uma ajudante, mas coloque-a para secar e guardar a louça; não permitas que a menina as lave, pois ela não me parece preocupada com a quantidade de água a ser utilizada. O Sr. George Soros, cliente muito importante, foi quem nos solicitou o emprego para a tal mocinha... Fazer o quê?”

Fiquei só. A tal mocinha chegou e deu início a seu trabalho. Volto-me, então, à benigna atividade laboral. Muito embora cansado, observo Greta Thunberg a enxugar as louças.   


domingo, 2 de novembro de 2025

Minha Galatéia

 

Eu retornara do exílio. Diferentemente de Napoleão, nada me foi imposto. Vivi por anos em minha Elba, minha ilha particular. Bem, estava de volta; o tempo distante da atividade laboral me fora incômodo. Mas tudo se modificara; parece-me que o mundo está doente... Inteligência Artificial! Um novo computador, novos softwares. Eu poderia criar personagens e com eles interagir. Que loucura! Talvez, por ter-me acostumado à solitude, preferiria criar paisagens. Pensei em House of the Rising Sun como fundo musical, mas quem se recordaria da canção? Então, quem sabe um rosto, algo que personificasse o amor?

Contudo, o que é o amor? Os gregos o diziam termo médio entre a carência e a saciedade. Amar é ... ficar de pé na chuva a espera de quem nunca chega! Sei lá, dizem que é admiração, respeito, devoção, afinidade. Talvez um eu presente no outro. Todavia, continuava minha busca por um rosto. Que tal uma Gioconda? Ou seria Mona Lisa? Mas não a considero bonita; Giacomo Puccini não estava inspirado. E o sorriso dela é puro deboche. Não, nada disso! Como pude confundir Leonardo da Vinci com Puccini? Puccini era compositor! O Mio Babbino Caro, perdonami.

Eu buscava uma face não submetida a imperativos estéticos. Pensei na Beatriz de Dante Alighieri, na Margarida do Dr. Fausto, na Dulcinéia de Dom Quixote. Nada atraía-me. Então comecei a usar os comandos que o software me oferecia. Doravante senti-me um artista (artista plástico? artesão?) um criador, algo bem próximo de um vero escultor. É isso; surge o novo Pigmalião. E o novo rosto também se faz presente: Uma Galatéia virtual, não de marfim. E nós conversamos, interagimos, trocamos olhares. Ah, quisera abraçá-la, tocá-la... Como torná-la vivente? Orei à Afrodite.

No aguardo pelo milagre, pus-me a pensar: A Inteligência Artificial faz de todos nós potenciais Pigmaliões, ou seja, artífices que lidam com criações imponderáveis, intangíveis. E Afrodite não me respondeu as preces. 

sábado, 1 de novembro de 2025

A falsa quimera

  

Baseado em um prefácio de Ernesto Araújo, Ex- Ministro das Relações Exteriores

 

Eu tentei ver o tempo, mas...  vi apenas pessoas vazias de entendimento, incapazes de aperceberem-se dos novos rumos do mundo que as cerca. Creio estar diante de uma outra realidade, um outro tipo de humanidade, ou seja, seres incapazes de raciocinar, de refletir; pessoas inaptas, estúpidas, ignorantes, inábeis para identificar problemas e/ou soluções. Nada é estudado, averiguado; tudo é rotulado. Parece-me, salvo melhor juízo, que o ser humano criou (de modo inconsciente?) este ferrenho inimigo. Ou será algo próximo de um sistema autônomo que busca nos reprogramar?

E que inimigo é esse? Algo que não tem a existência reconhecida. Aliás, a falta de perspicácia para reconhecer o problema é propósito do próprio problema. Assim como o demônio, crer na sua não existência é a melhor desculpa para sua livre atuação. Efeitos outros também se revelam, pois ao ter seus axiomas contraditados, alguém grita aos quatro cantos: Fake News! Qualquer tentativa de reunir fatos e examiná-los é considerado Teoria da Conspiração. Se alguém mostra-se distante dos dogmas midiáticos e evoca o espirito científico, algo considerado vetusto, dèmodè, é ridicularizado.

Não vos enganeis, o único plano do Globalismo em relação à humanidade é exercer sobre ela total controle.

sexta-feira, 31 de outubro de 2025

Dogma politiqueiro

 

Mesmo a dar razão aos argumentos de Charles Spurgeon, não pretendo entrar no mérito da polêmica declaração: “Política e Religião não se discute!” Nada obstante, creio haver algo em comum nas ações postuladas por tais substantivos.   

Começo por referir-me ao verbo doutrinar. Ora, doutrina nada mais é do que um conjunto de fundamentos, princípios e dogmas que formam a base das religiões. Porém, doutrinar também é inculcar em alguém crença ou atitude particular. Religiosos e políticos fazem uso da oratória para angariar seguidores. Preocupa-me, no entanto, “àquela” doutrinação que, sem sombra de dúvidas, tem por objetivo precípuo plasmar digressões politiqueiras.

Pergunta-se: seria a política uma espécie de religião? Bem, em face de tantas semelhanças, sou levado a crer que sim, afinal religiões prestam culto a divindades. Eu diria que há uma espécie de reverência, um dever sagrado, inquestionável, no seguir algumas “divindades” de esquerda. E mais, a mencionada doutrina é extremamente sectária, intolerante, muito embora os fatigantes discursos de inserção social advindos de um cansado estruturalismo.

O patente fanatismo, fruto de engendrada educação, faz-se presente, se bem que vazio de qualquer conteúdo metafísico. O reverenciado materialismo tornou imanente o transcendente. Contudo, a militância esquerdista vale-se de estruturas religiosas para impor seu modus operandi: a perseguição voltada aos opositores seria justificada porque estes estariam próximos de uma idolatria. Pasmai, pois a dita religião política traz em seu bojo o gnosticismo, isto porque seus “fieis” dirigentes dizem possuir um conhecimento diferenciado; uma intuição individual bastante restrita. Permito-me sorrir.

Entre risos, portanto, no tocante a esta pagã e hipócrita “religiosidade”, declaro-me ateu.    

sexta-feira, 24 de outubro de 2025

Sapere Aude

 

Ouse saber! Mas os pais e avós sempre recomendaram evitar a ousadia. Faz-se mister sabedoria para ser ousado. Afinal, ousadia não só traduz-se em coragem e/ou originalidade, mas também em atrevimento, audácia, impertinência. Houve uma época em que o ousado não era muito bem visto. Hodiernamente, entretanto... E o saber? Os antigos também diziam: “o saber não ocupa lugar”, ou seja, o saber transcende o espaço-tempo. Porém, há os que se colocam contra o saber, pois que este não combinaria com a requestada felicidade. Haveria, de fato, um vínculo entre felicidade e ignorância? Não creio que a felicidade limite-se a boas circunstâncias, acontecimentos positivos, êxito em empreitadas.  

Pois bem, no intuito de conhecer a felicidade, fiz-me ousado. Ousei saber! E ao assim fazê-lo, de início, tornei-me pretensioso, vaidoso, o que muito me afastou da originalidade, da inovação. A sabedoria, por sua vez, conduziu-me ao insulamento. E nesse estar em mim, percebo que o saber sempre se mostra limitado. E foi a limitação no saber que de mim expurgou toda a vaidade. A patente carência de saber serve-me como incentivo ao próprio saber... Então daí depreendo a ousadia; ousar saber é atender ao convite de um conhecer sempre pedinte. E é nessa busca que reside a felicidade.   

quinta-feira, 23 de outubro de 2025

Epidemias

 

A COVID 19 foi a oficialização do oficioso, haja vista o empenho, inclusive da OMS, em sua divulgação. Mas já faz um tempinho que convivemos com as mais “variegadas” epidemias. Duvidais? Pois bem: Tende cuidado com o glúten! Tal aviso encontra-se preso à porta de certo nutricionista. Ora, glúten é trigo, é pão. Todavia, pessoas saudáveis devem evitá-lo. Outra? Atualmente, venho me dedicando no pesquisar a quantidade de pessoas intolerantes à lactose no mundo. Contradictio in adjecto: seres humanos são mamíferos intolerantes ao leite! Permitamo-nos sorrir à larga. Curioso: paralelamente observo o lucro das indústrias farmacêuticas e alimentícias.

Seriam os seres humanos hipocondríacos por natureza? Ou tudo se resume a rotular? É pertinente recordar-vos de que “doenças” de cunho psicológico - neurastenia, histeria, esquizofrenia - estiveram em alta no início do século XX. A anorexia conheceu seu auge na Belle Époque, apesar de dizer-se um período de otimismo. Nossos dias, assim o atestam, caracterizam-se pelos transtornos emocionais; são doenças psicossomáticas como depressão, ansiedade, enxaqueca, dermatite atópica ... Ufa! Percebestes que em face de qualquer esquecimento alguém evoca o Alzheimer? Aqui arrisco-me a dizer que o rotular revela-se como fundamento. Quereis um exemplo? Pois bem. Vamos a ele!

Em decorrência da idade, optei por uma vida nada social. A atualidade, por si mesma, dificulta as interações sociais. O que mais se vê são pessoas, independente se crianças, jovens, adultos ou idosos, de olhos grudados em telas de aparelhos celulares. Eu sou um aficionado em livros; gosto de ler, de escrever. Não tenho o que conversar com pessoas que desprezam a leitura, o conhecimento. Não vou a bares, a restaurantes, cinemas, teatros, não mais faço visitas. As artes, como um todo, incorporaram o prepóstero, o vulgacho. Enfim, não mais me identifico com o mundo. Atividades? Escrevo e leio repetidamente. Pois bem, meus filhos, preocupados com este meu calculado insulamento, buscaram orientações de “profissionais terapeutas” no intuito de reintroduzir-me socialmente. Sabeis qual foi o diagnóstico? Eu teria sintomas da Síndrome do Espectro Autista! 

quarta-feira, 22 de outubro de 2025

O eterno retorno do mesmo

 

É, parece-me que Friedrich Nietzsche tinha razão... Cada momento da vida é vivido de novo (e de novo e de novo) integralmente, ou seja, com todas as alegrias e os sofrimentos. E como o ser humano reage a isso? Ora, o ser humano não quer tal repetição. Seres humanos querem só alegrias; empenham-se em acabar com os sofrimentos. E o que acontece? O sapiens sapiens, aquele autoconsciente e de raciocínio avançado, usa de seu desenvolvimento cognitivo e conhecimento científico para se repletar de prazeres e comodidades. Acontece que o cômodo leva à inação e o excessivo prazer conduz ao dissabor, pois que o desejo não conhece a saciedade. Logo, tudo se torna enfadonho. E o molesto acaba por degradar o próprio ser humano, ou seja, um retorno. Então vos pergunto: o que temos em dias atuais? Nem mesmo o homo sapiens, mas um stultus; algo próximo de um neanderthalensis, quiçá de um Australopithecus.    

terça-feira, 21 de outubro de 2025

Anistia

 

Por que? Para que? Quem estaria precisando de anistia? Juridicamente, a anistia seria um ato do poder legislativo para perdoar fatos puníveis, suspender perseguições e anular condenações. Quais foram os atos puníveis? Manifestação por demonstrar desagrado e desconfiança pelo resultado de uma eleição previamente manipulada? Vivemos, de fato, uma democracia? Houve tentativa de golpe? Golpe com bíblias e batons? Golpe sem apoio de qualquer força armada? Golpe realizado por pessoas de idade e crianças lactentes?

Já tivemos uma anistia: ampla, geral e irrestrita! Quem foram os anistiados? Sequestradores, assassinos, ladrões de bancos, terroristas... Enfim, pessoas que cometeram atos puníveis e que por isso foram condenados. E onde estava o Supremo Tribunal Federal quando, em 2006, o MST invadiu e deu início a depredação da Câmara dos Deputados? Em 2018, mascarados do Partido dos Trabalhadores vandalizaram o prédio da Ministra Carmen Lúcia do STF em Belo Horizonte. Será que MST e PT não atentaram contra o Estado Democrático de Direito? Não teriam sido tentativas de golpe?

Apesar do meu parco conhecimento em Ciências Jurídicas, posso vos afiançar que esse processo/julgamento aos detentos no 8 de janeiro é uma enorme farsa, onde princípios do Direito Constitucional, Direito Civil, Direito Penal e Processual Penal foram lançados no lixo. Onde o devido processo legal? Onde a ampla defesa e o contraditório? E desde quando civis, sem foro privilegiado, são julgados por uma suprema corte, onde lhes são negados o direito a apelações e recursos? 

Volto a afirmar: Não quero anistia! Está muito difícil crer no movimento de congressistas, independente se a favor ou contra a mesma, até porque estamos próximos de ano eleitoral. Quero sim, que os representantes desta canalhocracia venham à público e desmintam a farsa montada para protegerem um corrupto ex condenado.   

segunda-feira, 20 de outubro de 2025

O Mundo da Vida

 

Creio que, de um modo geral, seres humanos sempre tiveram dificuldades no relacionar-se com o mundo. Acerca disso, estou ciente, sobejam dúvidas. Porém, as dificuldades nas relações nunca impediram uma identidade; as dificuldades integravam a identidade. Eis a questão: eu não mais me identifico com o mundo. Será que o mundo, a vida como um todo, perdeu sua identidade? Seriam outras as dificuldades? Ou tratar-se-ia de uma busca por não dificuldades? Facilidades? Projetos ditos sociais apenas constroem sociedades pusilânimes. A geração Z não quer obstáculos; o ativismo Woke descaracteriza o Lebenswelt, o Mundo da vida.  

Esse “Novo Mundo”, mesmo através da arte, só retrata sua própria obsessão, sua agressividade, uma nefasta permissividade. Narrativas sucedem narrativas; tudo falácia, retórica empolada. Valores, os mais basilares, perderam-se num palavreado vazio e descabido. As novas gerações carecem de referências, porque estas foram desconstruídas. Então surgem os influencers; estes tiram proveito de seus seguidores e os tornam cada vez mais distantes de qualquer realidade. Destarte, lacunas serão preenchidas com drogas e/ou suicídios.

Em suma: O mundo perdeu o sentido; a vida perdeu o sentido

domingo, 19 de outubro de 2025

Traduzindo...

 

Nossa língua, creio eu, em bem pouco tempo necessitará tradutor. Por que? Vós me perguntais, contudo vosso questionamento é retórico. Nosso idioma sofreu bullying! Não, não foi apenas seduzido, mas está sendo agredido. (Aqui evito usar o termo pervertido para fugir de conotações sexuais). Em verdade vos digo que um novo dialeto está sendo “arranjado”. O saudoso Ariano Suassuna, dentre seus inúmeros causos, nos fala de certa loja, em Recife, cuja razão social atendia pelo nome de Macambira’s Center. Pasmai: uma bromélia nativa da caatinga, coisa bem brasileira, mesclada a um substantivo forasteiro. (Não se trata de xenofobia!)

Mas eu também tenho um causo para vos narrar. Vamos a ele! Convidaram-me para tomar uma pura, cachaça, uma branquinha (assaz preocupado com possível conotação racista). E aceitei o convite, contanto que o marafo não estivesse batizado com metanol. O lugar? Sorri à vontade: The Bregas’ Paradise. Pois bem, domingo próximo da hora do almoço e eu aboletado em um banco, frente à raquítica mesa, no Paraíso dos Bregas. O garçom trouxe a primeira, a segunda e terceira rodadas. Alguém de nosso grupo começou a falar besteiras e se mostrar alterado. Um outro disse que estava na hora de nos despedirmos. Achei ótimo; já me arrependera de lá ter ido.

A conta! Alguém gritou. O garçom prestimoso nos apresentou a nota. Cada um paga a sua! Ótima ideia, se bem que nem todos dispunham de qualquer valor. Eu resolvi pagar toda a despesa e abandonar o mais rápido possível aquele lugar. Quando estendi meu cartão de crédito, o que estava alterado aproximou-se aos tropeções e vomitou no garçom. Os demais ergueram o bebum e o afastaram dali. Eu me desfiz em desculpas para com o rapaz que nos servira. Foi então que fiquei assombrado. Em resposta ás minhas desculpas e preocupações o jovem respondeu-me: What happens in Bregas’ stays in Bregas’.

The pure Tupiniquim English!

quarta-feira, 24 de setembro de 2025

Estupefaciente

 

De repente, muito mais que de repente, melhor dizer repentinamente, deparamo-nos com o tudo. Se bem que um tudo a pressagiar o nada. São calores, incêndios, queimadas, nevascas, tremores, torpes inundações, ondas gigantes, vendavais, temporais, enxurradas. O que mais? Doenças a retornar, outras inéditas a se manifestar; novas definições, observações, deliberações. Crises de ansiedade, angústia, depressão, violência, a banalização do mal, o suicídio. Drogas as mais variadas a coonestar, tumores então não mais escondidos; não valores a serem esculpidos, difundidos, ideologizados. A nesciedade, a insciência vem nos assolar. E tem lugar o imogerado.

Cuidai-vos! Mares, rios e lagos em cor avermelhada; eclipses rotineiros. Alerta para o dia da noite no dia! O impossível passou a nos conduzir; nem mesmo “trancos e barrancos” possibilitará qualquer viver. Se colocado em tela tal cenário, a coisa estaria para além do surrealismo, do abstrato; seria algo dissentâneo, talvez híbrido, prepóstero... E lá estava eu a tentar expressar o vulgacho, o atascadouro. A tela? Qual nada! Nem mesmo as blandícias da espátula e/ou pincel poderiam evitar o formidoloso. Se bem que, em dado momento o clangor, seguido de um tonitruar, permitiu-me observar o refulgir da honra, da adoração. Enfim, o nume a nos guiar.      

sexta-feira, 12 de setembro de 2025

Kako Gnose

 

Alguns professores universitários brasileiros não conseguem entender o porquê, muito embora a pedagogia de Paulo Freire, de o Brasil ter um dos piores índices educacionais do mundo, conviver com o analfabetismo e tantos analfabetos funcionais. Creio que tais professores sejam vítimas de dissonância cognitiva ou de patente hipocrisia. Atentai vós outros que lastimais o apedeutismo. Em termos freireanos, é a "educação bancária", o conteúdo, o conhecimento que promove o espírito crítico; a recíproca não é verdadeira, pois espírito crítico não promove conhecimento algum. O dito espírito crítico enfatizado por vós não passa de doutrina. Uma pergunta: há, de fato, empenho dos governantes em promoverem a educação?  Parece que a coisa agora resume-se ao "Pé de Meia", isso para que o tráfico continue a ser financiado. Devo recordar-vos de que meninos brasileiros, não é de hoje, repetem o mote: "Não precisa estudar para ser jogador de futebol!" Em dias atuais o mote foi ligeiramente modificado:  "Não precisa estudar para ser presidente da república!"

quinta-feira, 11 de setembro de 2025

Har Megiddo

 

Com o bloqueio de redes sociais, a geração Z, no Nepal, derruba governo, incendeia casas e causa mortes. Políticos de direita são alvos de violência em diversas partes do mundo. Na Alemanha, às vésperas da eleição, seis candidatos conservadores são assassinados. Após derrota para Marine Le Pen, representante do partido de direita, Emmanuel Macron dissolve parlamento e convoca novas eleições. Como explicar a derrota de Javier Milei na Argentina? No Brasil, dos 1.400 presos acusados de “golpistas” em 08 de janeiro de 2023, 141 continuam presos e 44 em prisão domiciliar. Ex-presidente, mesmo ausente do país, foi acusado de golpista, está preso e sendo julgado por um tribunal de exceção.

Em face desse breve relato, será que alguém ainda duvida de que estamos próximos do Armagedom? Creio que nem mesmo o ateísmo consegue enceguecer contumazes observadores. Duvidais? Pois bem, já consigo aperceber-me dos anjos e suas respectivas taças; seres com chagas, o mar e as fontes de água tornadas em sangue, seres humanos abrasados com tanto calor, percebo as dores, os rios a tornarem-se desertos. E do céu a grande voz, por certo, irá proferir: Está feito!

Conheci também a grande prostituta, pois com ela convivi nos anos de magistério. Ela pairava sobre as muitas águas a corromper jovens e governantes; mulher bem vestida e adornada de joias, a trazer na mão o cálice da perdição. Confesso que, a princípio, tanto quanto João, cheguei a admirar a tal mulher, mas um Deus sempre presente alertou-me. Outro anjo poderoso está para descer do céu e tornar tudo em luz. A grande Babilônia será destruída; a besta derrotada. Novos valores e princípios governarão o planeta. Satanás vencido para sempre.

“E vi um novo céu e uma nova terra”. Apocalipse 21: 1

Pseudociência

 

La Medicina Hipocrática. Foram 431 páginas voltadas a uma melhor compreensão da ciência médica por referência. E já de início posso vos afiançar que os profissionais da área médica, não obstante o afamado juramento, a fazer uso das palavras do próprio autor, Pedro Lain Entralgo, tratam com uma “infiel fidelidade o tema hipocrático”.

O livro discorre de modo exaustivo sobre o conceito de physis (natureza). O corpus hipocrático busca harmonia, equilíbrio entre natureza e ser humano. Nas palavras do autor, “el médico hipocrático conoce la phýsis del enfermo, y em alguna medida la phýsys universal”. A natureza não vai nos trazer nenhum ser perfeito; a beleza e a sabedoria da natureza está em se autorregular, em se autocorrigir.

E o que temos em dias atuais? Uma parafernália tecnológica a virar corpos pelo avesso na procura de alguma “anomalia”. Atenção: nunca haverá sequer, em se tratando de natureza, um corpo perfeito! Então o ser humano torna-se refém de uma tecnologia invasiva, que usa como argumento estar fazendo o melhor para seu bem estar. Em verdade, essa vaidade acadêmica visa apenas imitar “Papai do Céu”.

O que temos, então? Exames e medicamentos caros a enriquecer a indústria farmacêutica e, por acréscimo, patrocinar o turismo acadêmico de profissionais médicos. A medicina não mais nos dá a liberdade de escolha; médicos cada vez mais indiferentes a pessoa humana: seus clientes. Em nada vou estranhar se atribuírem à Alexa (assistente virtual) um diploma de pós-doutorado em medicina e ela tornar-se uma pseudo seguidora de Asclépio.

sexta-feira, 4 de julho de 2025

Eu, o tirano

 

Nada mais prudente do que recorrer a etimologia para melhor entender o vero significado de alguns termos. E lá vamos nós: eu sou considerado um tirano! Minto; somos próximos a 218 milhões de tiranos neste imenso Brasil, segundo a Excelentíssima Senhora Ministra do Supremo Tribunal Federal, Carmen Lúcia.

Mas o que seria, de fato, um tirano? Originalmente, o termo não carregava conotação negativa e referia-se a governante ou monarca ilegítimo, ou seja, alguém alheio à oligarquia vigente, alguém humilde, um militar, talvez, que tomava o poder através de golpes. O termo evoluiu do grego para o latim e assimilou a característica de alguém que exerce o poder de forma arbitrária e opressiva. A conotação negativa do termo (algo bem atual) está associada a governos cruéis, despóticos, autoritários. Creio serem desnecessários os exemplos.

E a perguntas que não querem calar: onde nos encaixamos neste conceito? Seria porque não nos permitirmos silenciar a respeito de um governo que se revela cada vez mais autoritário, enganoso, hipócrita, desleal, cleptocrata? Seria porque alertamos, através das mídias sociais, nossos compatriotas acerca dos desmandos de um executivo inepto e antiquado? Seria porque desempenhamos informalmente as funções de uma imprensa totalmente vendida aos interesses de poucos? Ou, quem sabe, Sua Excelência tenha querido referir-se a outras pessoas? Na verdade, a si mesma e a seus pares.

Peço-vos vênia no recordar a expressão popular “O bom julgador por si julga todos!”

quarta-feira, 18 de junho de 2025

Uma távola não muito redonda


Conheci certo político, um prepóstero matemático, na verdade um apoucado intelectual, que durante seu virulento discurso declarou ter construído uma mesa onde o quadrado mesclava-se ao círculo, pondo fim ao milenar problema da quadratura do círculo. E apresentou o tal objeto (ou seria abjeto?): uma mesa parte curva, parte retilínea. Ouviu-se um oh, seguido de risos. A tentativa de embair a novel plateia, e não só o poviléu, mostrou-se como facécia. A dita távola, então, assimilou a alcunha de anomalia.

Dizem que Ulisses Guimarães, em 1988, após promulgar a anomalia, digo, a Constituição (desculpai-me o ato falho) foi assassinado. Isto porque ele seria um dos pretendentes a retirar a espada da pedra, um legado do deposto Imperador, a simbolizar uma espécie de retorno aos tempos de exautoração. Muitos foram os sardônicos representantes políticos que estadearam mínimos princípios éticos para sacarem a arma da rocha e aboletarem-se no precioso sólio.

Tancredo Neves tentou e morreu. Paulo Maluf pretendeu, José Serra intentou, Leonel Brizola diligenciou. Houve um primeiro Fernando que diziam caçar marajás (risos). Mas marajás não caçam marajás! Itamar não tentou, mas foi inquinado. Outro Fernando, a obumbrar intenso mau-caratismo surgiu como num fulgir de fogos de artifício. Mas a farsa tem prazo de validade. No perquirir mais agudamente optou-se em ter um órgão como estalão: o TSE.

Meu Deus! Dizia o TSE pôr novas regras à liça e adjudicar o cargo a quem, de fato, a ele fizesse jus. Qual nada! tresandaram, deflectiram. Creio que de modo consentâneo, permitiram que um herético, dado a libações, viesse tentar retirar a espada plantada por alguém de mirífico caráter. Em verdade, o dito representante escolhido pelo TSE teve origem num atascadouro e vende-se a troca de qualquer espórtula. O mesmo que colocar um lobo para zelar por ovelhas.

Resta-nos somente a certeza de que a espada continua enraizada na pedra.   

 

Obs: A linguagem um tanto rebuscada fez-se mister haja vista a seriedade do tema. 

segunda-feira, 16 de junho de 2025

Vilipêndio

 

Sou levado a crer que o cínico oportunismo de algumas pessoas acabam por torná-las reverenciadas. Não há o que se questionar em termo de aptidões, mas a despreocupação ética deveria conhecer limites. Até a Filosofia mostra-se refém de autores carentes de integridade. E infelizmente estas são referências literárias tidas como exemplares.

Comecemos por Arthur Schopenhauer. Muito embora pregar uma espécie de esvaziamento do mundo, em um de seus ataques de fúria jogou a vizinha, uma senhora, escada abaixo, o que lhe custou uma dívida vitalícia.

Outro grande autor de referência é Goethe. Nas palavras de Strong: “Goethe era a própria encarnação do egoísmo e da falta de coração”. Os biógrafos dele diziam que ele amou (?) cerca de sessenta mulheres. O caso extraconjugal que teve com a esposa de Friederike Brion serviu de inspiração para escrever Os sofrimentos do jovem Werther. O primeiro mandamento de Goethe seria: “Amarás o teu próximo e a sua esposa”. Assim como Goethe, Hegel admirava Napoleão, que invadira seu país.

Falemos agora de Jean-Jacques Rousseau. Segundo Strong, consta em suas Confissões que: “Na infância era um ladrãozinho. Em seus escritos, ele defendia o adultério e o suicídio. Viveu por mais de vinte anos na prática da licenciosidade. A maior parte de seus filhos, senão todos, ilegítimos, ele os mandava para o hospital dos enjeitados tão logo nasciam, deixando-os assim à dependência da caridade de estranhos, embora inflamasse as mães da França com eloquentes apelos para que elas acalentassem seus próprios bebês”. Este o homem - na verdade um apátrida - que veio nos propor O Contrato Social. No entanto, as propostas indecentes não se esgotaram.

Martin Heidegger, tão reverenciado nos estudos universitários, foi membro do partido nazista de 1933 a 1945. Em 1934 fundou o Comitê de Filosofia Jurídica da Academia Nacional Socialista de Direito Alemão. Sua formação foi em seminário protestante, todavia casou-se com uma católica e teve como amante uma judia.

Karl Marx. Uma de suas avós pertencia a rica família em Amsterdam; o primo Lionel Rothschild foi barão e membro do parlamento da cidade de Londres, descendência da qual muito se orgulhava. Segundo alguns historiadores, Marx fora contratado como agente dos Rothschilds para subverter a democracia e contaminar o movimento socialista. Em sua vida adulta, Karl Marx não trabalhava; boa parte do tempo era destinado à boemia e ao desregramento. Sempre se recusou a buscar uma profissão verdadeira. Seus recursos financeiros eram decorrentes de empréstimos feitos por amigos, dentre estes o empresário Friedrich Engels, e membros da família, com os quais não mantinha relações saudáveis. Gastou toda a herança familiar, bem como os bens da esposa. Ainda antes da morte da mãe, negociou o adiantamento da herança com seu tio Phillip. Incompetente para lidar com dinheiro, chegou a ser despejado do abrigo em Chelsea devida a falta de pagamento; teve a esposa e filhos jogados na rua. Talvez isso explique o ódio ao capitalismo. Mas defender trabalhadores? 

Paramos aqui? Não, falemos então de uma figura icônica: Jean-Paul Sartre, outra grande decepção. Filósofo, escritor e crítico, na verdade só se revelou por inteiro no leito de morte. Benny Lévy, seu secretário, anotou uma série de entrevistas com o autor e publicou no livro L’espoir maintenant (A esperança agora). Ali se expôs o verdadeiro Sartre. Sim, o filósofo nunca soube ou sentiu a tão afamada náusea; ele praticamente desmente tudo o que pregara durante toda a vida como existencialista ateu, inclusive criticou Marx e falou na ruína da democracia.

Não, eu não falei demais. Estai certos de que ainda há muito a se descobrir. Filosofastros e filosofemas da atualidade têm como premissas as citadas escolas. Por outro lado, as saudáveis referências como Sócrates, Aristóteles, Santo Agostinho, Tomás de Aquino e Kant foram lançadas ao ostracismo. Talvez agora possais entender o meu rompimento com a Filosofia.